Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 15 de Junho de 2003, aworldtowinns.co.uk

“Isto é um movimento estudantil, não um movimento americano”
– Relato em primeira mão desde Teerão

Teerão, 15 de Junho de 2003. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar Este é o terceiro dia de protestos estudantis. Começaram no Koyeh Daneshgah, as residências estudantis, 20 dormitórios onde vivem 10 a 15 mil estudantes. Infelizmente muitos deles voltaram para casa agora durante o verão, mas voltarão em breve.

As batalhas e os protestos nocturnos são intensos. Há muitos ataques do Hezbollah (a milícia religiosa governamental) e da polícia secreta. Os estudantes cavaram trincheiras e obrigaram-nos a retirar-se. Há muitas escaramuças. Isto é exactamente o contrário da insurreição estudantil de 1999, que foi essencialmente pacífica. Nessa altura, os estudantes eram maioritariamente a favor de lutas pacíficas. Mas as autoridades deram rédea solta ao Hezbollah e atacaram-nos selvaticamente, na mesma. Desta vez os estudantes recorreram à “linguagem da violência”. Quase todos estão a aprender essa linguagem. Este é um aspecto positivo dos desenvolvimentos. Já não têm ilusões sobre “reformas”. Querem resistir e empenhar-se directamente.

As palavras de ordem “Abaixo a República Islâmica do Irão” são agora muito dominantes. Mas as palavras de ordem “Abaixo o imperialismo norte-americano” ainda precisam de ser estabelecidas para que este movimento estudantil verdadeiramente trace linhas de demarcação claras com vários dos inimigos do povo.

Praticamente desde o início, há três noites atrás, que houve confrontos com as forças armadas. As palavras de ordem eram muito fortes: “Morte a Khamenei” (o “líder espiritual” e chefe da República Islâmica), “Morte a Khatami” (o Presidente reformista), “Morte a Rafsanjani” (o chamado “verdadeiro poder atrás do palco”, que promoveu conversações oficiais com os EUA) e a outros arqui-inimigos. Até agora, a polícia ainda não ousou disparar. São atiradas pedras de um lado e do outro. Os estudantes fazem cocktails Molotov a toda a hora, e lançam-nos dos telhados dos dormitórios aos polícias em uniforme ou à paisana.

Ontem à noite, a polícia usou gás lacrimogéneo. Fecharam todas as ruas à volta das residências estudantis dentro de um raio de três quilómetros e têm tentado impedir as pessoas de se juntarem aos estudantes. As pessoas abastadas dos subúrbios obtêm as notícias nas suas parabólicas de satélite (que recebem emissões de estações dominadas pelos monárquicos iranianos nos EUA, as forças favorecidas por Bush e pela classe dominante dos EUA). Essas estações emitem as notícias ao vivo e estão a pedir aos habitantes de Teerão que vão ajudar os estudantes. Algumas dessas pessoas chegam e sentam-se nos seus carros e assistem a tudo de longe. Mas os habitantes de outros bairros e de outros dormitórios estudantis forçam a passagem tanto quanto possam ou empenham as forças policiais em batalhas noutros quarteirões. Por exemplo, tem havido combates entre os dois lados no bairro de Guisha. Hoje, são as orações de sexta-feira no campus da Universidade de Teerão. A segurança é pesada. Mas quando a noite cair, regressarão as batalhas.

Os estudantes prenderam três polícias à paisana. Descobriu-se que traziam rádios e cartões de identificação que mostravam serem membros do Hezbollah e da polícia de segurança. Os polícias insultaram os estudantes e acusaram-nos de ter sido pagos em dólares para levar a cabo esses actos, mas os estudantes responderam que o Hezbollah tinha sido pago em dólares pelo seu Líder Supremo para reprimir os estudantes. A polícia gritou aos estudantes: “Eh vocês, seus aldeões, vocês vieram da aldeia para a cidade e isso transformou-vos em pessoas rudes, voltem para as vossas aldeias.” (Muitos dos estudantes, especialmente nos dormitórios, são de pequenas cidades do Irão). Os estudantes responderam “Morte a Khamenei” e insultaram a polícia.

As Associações Estudantis Islâmicas agora não são nada. Não têm qualquer influência ou qualquer palavra a dizer nestes acontecimentos. Uma luta está a ser travada nas suas próprias fileiras, porque nem todos eles concordam em se opor à luta estudantil.

Khamenei disse que reprimirá os estudantes sem piedade. Um polícia no local dizia que tinham ordens para atirar, mas isso ainda não aconteceu. Na zona da Universidade, as forças policiais estão em vantagem numérica em relação aos estudantes.

Muitos estudantes foram presos ou ficaram feridos. O regime mente quando diz que libertou quem fora preso. À noite, ouvem-se constantemente as sirenes das ambulâncias. Mas os estudantes continuam a lutar e a lançar cocktails Molotov, e levam a cabo acções de toca-e-foge. Uma das tácticas da polícia secreta e do Hezbollah é circular com potentes motorizadas, armado de facas e de correntes. Mas algumas dessas motorizadas já foram incendiadas.

Última hora: são agora 2:30 da manhã. As ruas estão cheias. As pessoas vão a pé ou de carro em direcção aos bairros estudantis. A cidade inteira está cheia de forças paramilitares. Estão armados e trazem bastões e facas. Mandam parar e revistam os carros. Mas as pessoas ainda estão nas ruas. Sorriem uns para os outros e fazem o sinal de “V” de vitória. O ambiente está cheio de solidariedade e de unidade. Quando os paramilitares, chamados basiji, prendem alguém, as pessoas protestam e buzinam. A polícia anota os números das suas matrículas, mas não se atrevem a atacar a multidão. Uma mulher agita o seu lenço no ar e as pessoas batem palmas de felicidade e dizem: o regime está acabado. As forças policiais empurram as massas populares. Um deles grita através de um microfone: “É do vosso interesse dispersar e ir para casa!”. E as pessoas respondem: “Nós sabemos os nossos interesses; não estamos aqui pelos vossos interesses”.

A conversa entre as massas é muito militante. Uma pessoa que veio de Mashhad diz que recebera uma chamada de lá dizendo que as pessoas tinham atacado e ocupado violentamente as estações de rádio e de televisão. E que os Guardas Islâmicos tinham esvaziado de armas todos os postos dos basiji, para que, caso as pessoas os atacassem de uma forma violenta, nenhuma arma fosse de lá levada. Outra pessoa respondeu: “Mas nós temos armas enterradas e vamos desenterrá-las”. Os jovens que não tinham assistido à revolução de 1979 estão muito entusiasmados. Dizem repetidamente: “O regime está acabado; é história”.

Últimas notícias: ontem à noite (14 de Junho), um estudante foi morto pelos basiji na Universidade de Shiraz. Ontem à noite, o ataque aos alojamentos estudantis foi pesado. Após o Departamento de Estado dos EUA ter emitido uma declaração de pretenso apoio aos estudantes, estes começaram agora uma nova canção, que se ouve a todo a hora: “Isto é um movimento estudantil, não é um movimento americano”.

Algumas pessoas também estão atentas a um cenário tipo “Tiananmen”, um massacre, mas tal crime incenderia todo o Irão.

É muito importante fazer a ligação entre o movimento estudantil no Irão e o movimento global contra a guerra, especialmente as pessoas que nos EUA se opuseram ao seu próprio governo. Isso ajudará a polarizar o movimento estudantil no Irão em muitos e boas maneiras.

(Para mais notícias, consultar: www.sarbedaran.org ou www.aworldtowin.org)