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| A camarada Azar Derakhshan
dirigindo-se à manifestação que marcou o 8 de Março de 2008 em Bruxelas |
Centenas de pessoas vindas de toda a Europa e de fora dela juntaram-se a 8 de Junho no cemitério Père Lachaise em Paris para participarem no funeral dela. O grupo diversificado incluía a família, amigos e muitas apoiantes da Organização 8 de Março, bem como activistas e outras pessoas de muitas nacionalidades. Caminharam até ao Muro dos Comunardos, o local onde foram executados os últimos combatentes da Comuna de Paris, para prestarem homenagem a esses homens e mulheres que resistiram até ao fim na primeira revolução proletária, e prosseguiram depois para o crematório.
À noite houve um programa cultural para celebrar a vida da camarada Azar, com canto, dança, poesia e um pequeno filme sobre esta conhecida camarada, o qual incluía entrevistas com ela e excertos de intervenções públicas dela. Vários grupos e pessoas individuais, incluindo alguns do Irão, enviaram declarações de condolências e solidariedade. Também foi lida em voz alta uma mensagem sobre a camarada Azar escrita por jovens mulheres estudantes do Irão.
Publicamos a seguir um comunicado do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista).
Partiu uma das estrelas dos movimentos comunista e de mulheres que deixou um doloroso vazio nos nossos corações. Perder aqueles que se mantém de pé perante a tempestade e que iluminam os céus é particularmente difícil e grave.
Do fundo dos nossos corações, queremos exprimir a nossa profunda apreciação e agradecer aos nossos queridos amigos e camaradas, aos partidos e organizações do movimento de esquerda do Irão e de outros países, aos nossos companheiros combatentes e camaradas de armas em todo o mundo que nos estenderam a sua solidariedade a nós e à família da camarada Azar.
Nenhuma palavra consegue descrever plenamente a beleza desta solidariedade. Ela é a expressão de seres humanos que sonham em construir uma sociedade onde as pessoas possam viver a sua existência social directamente e sem barreiras.
Todos nós partilhamos a dor de alguém que morre muito cedo, não só porque ela tinha apenas 53 anos, e não só porque muitos de vós, queridos amigos, tinham acabado de estabelecer laços de amizade com ela, mas fundamentalmente porque cada um de nós, à nossa própria maneira, sente que as capacidades intelectuais revolucionárias dela ainda se estavam a desenvolver, ainda estavam a florescer, ainda constantemente nasciam de novo.
Ao mesmo tempo, os nossos profundos sentimentos comuns de amor para com a camarada Azar são uma reacção à nossa experiência comum no caminho revolucionário para eliminar a sociedade de classes. Todos nós, que sonhamos em transformar radicalmente a nossa sociedade, temos enfrentado questões perturbadoras semelhantes e temos sido influenciados pelas nossas derrotas e avanços neste caminho. Nele, temos feito grandes sacrifícios, bem como cometido grandes erros.
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| A camarada Azar Derakhshan
intervindo numa sessão do Comité de Mulheres Contra a Lapidação a 8 de Março de 2009 em Paris |
A camarada Azar aderiu à União de Comunistas do Irão (UCI) pela primeira vez em 1979, numa altura em que as chamas da revolução se elevavam e a luta das massas se ampliava a cada dia que passava. Mas a camarada Azar que nós conhecemos e o partido de que ela era militante foram fundamentalmente produtos do período em que a UCI se ergueu das suas cinzas e progrediu ao longo de caminhos tortuosos. Como escreveu o poeta Ahmad Shamlou, só a tempestade pode dar à luz crianças inesperadas.
Ela deixou o Irão em meados dos anos 1980 com os seus dois filhos pequenos e juntou-se novamente à UCI. Foi um período em que os sobreviventes desta corrente política, que eram sobretudo pessoas nos seus 30 anos, haviam enterrado os seus camaradas desaparecidos e sarado as suas feridas, e estavam a batalhar com as ardentes questões colocadas pela derrota. Não só a derrota da revolução no Irão mas também os reveses históricos a nível mundial, a restauração do capitalismo nos países que tinham sido socialistas e o aparecimento de regimes opressores a partir do que tinham sido várias décadas de movimentos de libertação nacional em três continentes.
Sob o fardo da derrota da revolução no Irão e da destruição das organizações comunistas, muitas pessoas perderam o seu rumo, enquanto outras recuaram e mantiveram-se na via revolucionária. A camarada Azar foi uma das mais firmes entre as segundas.
Os que se mantiveram neste caminho difícil durante o período de crise ainda conseguiram ir buscar uma grande energia à insurreição de Sarbedaren em 1981, que tentou derrubar a República Islâmica do Irão. Mas sem fornecer respostas às questões colocadas pelas grandes derrotas, a perseverança neste caminho era impossível. Nós estávamos imbuídos do mesmo espírito que levou Eugene Pottier a escrever as palavras da Internacional após a derrota da Comuna de Paris, mas também precisávamos do que Marx fez com a sua análise dessa experiência histórica.
Reconhecer o que estava correcto e o que estava errado, defender o correcto e romper com o incorrecto, era uma tarefa muito difícil. A camarada Azar esteve entre os camaradas que tiveram a coragem de romper com velhas ideias, bem como defender os êxitos do passado.
O exílio forneceu uma excepcional oportunidade para o restabelecimento de laços com os revolucionários comunistas do resto do mundo. Redescobrimos o internacionalismo proletário ao mais alto nível e com um âmbito mais vasto. A camarada Azar bebeu constantemente da fonte deste internacionalismo e cresceu. Ela tinha um coração grande e horizontes largos. Ela via-se a si própria como pertencendo a todas as partes do mundo. O coração dela batia com todas as lutas contra a opressão e a injustiça em qualquer canto do mundo, da Palestina, Índia, Bangladesh e Nepal ao Peru, Colômbia e Estados Unidos. Ela seguia cuidadosamente os debates teóricos no movimento comunista internacional. Ela devorou avidamente os saltos teóricos no comunismo científico. Qualquer conhecimento que tivesse o poder de explicar os problemas trazia-lhe imensa alegria. Ela estava aberta a qualquer teoria que pudesse explicar os problemas de uma forma mais correcta.
Os laços inquebráveis dela com as massas oprimidas e exploradas tornaram-na ainda mais ávida no absorver desse conhecimento, porque sabia que as massas estão condenadas à escravidão eterna sem esta ciência da revolução. Há muitos anos, ela tinha feito a paginação para um livro intitulou A Ciência da Revolução. A frase no verso do livro era uma das que ela repetia sempre perante as rebeliões das massas: Irão eles romper as suas grilhetas ou apenas sacudi-las?
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| Manifestantes na Colômbia
prestam homenagem à camarada Azar |
Desde 1998 que as actividades partidárias da camarada Azar se centraram em forjar um pólo revolucionário dentro do movimento das mulheres do Irão. A perseverança dela no desenvolvimento da Organização de Mulheres 8 de Março e o papel global dela em ajudar a estabelecer um pólo revolucionário na luta contra o pólo reformista tornou-a muito conhecida. A camarada Azar tornou-se na distinta porta-voz deste pólo.
A República Islâmica, sabendo que as mulheres iranianas são um vulcão prestes a explodir, iniciou um esquema político que visou neutralizá-las e mobilizou os seus «soldados feministas islâmicos». A camarada Azar declarou que nunca deveremos permitir que as mulheres fiquem apanhadas nos projectos políticos de uma facção do regime. Ela lutou contra eles e apontou um outro caminho, chamando outros a tomarem-no e insistindo apaixonadamente num futuro diferente.
Ela criticou duramente os que persistem em alinhar com um ou outro dos lados em contenda na disputa entre o imperialismo e o fundamentalismo islâmico. Ela considerava que sistemas políticos como a República Islâmica, o baathismo iraquiano, a república turca e sistemas semelhantes, bem como as democracias ocidentais, estavam podres e obsoletos, baseados na exploração de seres humanos por outros seres humanos e na opressão de género. Ela compreendeu que todos esses sistemas políticos e os seus governantes têm de ser derrubados.
A camarada Azar era uma boa unificadora. Nos seus esforços para forjar uma grande unidade revolucionária dentro do movimento das mulheres, ela insistiu nos princípios, ao mesmo tempo que mostrava a flexibilidade necessária para com aqueles com quem ela se estava a tentar unir. Ela ligava-se facilmente a camaradas de outros partidos e tendências e estabelecia o diálogo intelectual com eles sem fazer compromissos ou tentar um denominador comum, mas através da argumentação. Ela era muito eficiente a ensinar, bem como a aprender. Recolhia alegremente todos os pingos de conhecimento e todas as centelhas de consciência e transmitia-as cuidadosamente aos seus camaradas.
Ela tinha um profundo respeito pela arte e pelos artistas progressistas. Ela compreendeu o importante papel da arte e da literatura na história, tanto na reprodução de sistemas de opressão e exploração como na luta contra eles. Ela tinha um conhecimento muito desenvolvido dessa esfera, o qual a ajudou a aguçar os seus pensamentos, tornou a sua linguagem mais bonita e fê-la voar mais alto nos seus esforços para mudar o mundo.
Ela sempre disse às camaradas mulheres que desenvolvessem as suas capacidades estudando a teoria, pensando e escrevendo e desenvolvendo as ideias. Ela dizia que essas capacidades não podem ser desenvolvidas simplesmente por se ter sofrido a opressão. Dizia-lhes que sem estudarmos e sem compreendermos as teorias comunistas, estaremos impossibilitados de distinguir entre os caminhos correctos e os falsos, e impossibilitados de persistir na luta pela libertação da mulher como objectivo final.
Ela estudou e propagou novos pontos de vista comunistas durante o último período da vida dela. Ela costumava dizer que tinha tentado diferentes formas de atrair as pessoas para estas teorias, sobretudo em relação à libertação da mulher. Dizia que sem estas teorias o nosso movimento morrerá. Dizia que os outros podem pensar que estas teorias são nossas, mas elas pertencem a toda a gente. Quando alguma coisa é verdadeira não pode permanecer apenas nas mãos de um partido ou um grupo. Estas verdades servem para preservar e fortalecer um movimento sem o qual não pode haver nenhuma emancipação da opressão e da exploração.
A mente activa e o espírito militante dela também vieram em ajuda dela na sua luta contra o cancro. Ela sabia que estava envolvida numa batalha em que o fim era claro. E mesmo nessa batalha, ela inspirou toda a gente.
Qual destas qualidades mais define a camarada Azar? A rebeldia, a
consciência e o conhecimento, a inflexível oposição às velhas ideias e
tradições, a imensa energia, a perseverança, o trabalho árduo para
fazer o impossível acontecer.
A camarada Azar era uma comunista. Foi uma comunista num período em que por inúmeras vezes foi declarada a morte do comunismo. Ela considerava-se uma activista a tempo inteiro neste caminho. Ela lutou com todo o seu ser para criar uma nova geração de comunistas revolucionários. A mensagem dela à nova geração foi esta: Absorvam a experiência das gerações anteriores, mantenham-se de pé para verem os horizontes longínquos, vejam de uma forma muito melhor o que nós fizemos e conquistem novas alturas. Quando via os jovens que absorviam a sua mensagem, os olhos dela reluziam.
Quando os povos oprimidos produzem alguém como a camarada Azar, começam a acreditar realmente na sua própria capacidade de mudar o mundo. A camarada Azar tornou-se num papel modelo para a luta. Tornou-se numa poderosa proclamação contra os sistemas sociais reaccionários dominantes no mundo. Uma nova sensação de confiança brota dos corações deles, a de que podemos e temos de derrubar o sistema de opressão e exploração e criar um mundo novo.
A camarada Azar não sobreviveu para caminhar no meio de uma verdadeira tempestade revolucionária que irá enterrar a odiada República Islâmica do Irão.
Ela não sobreviveu para ver a ascensão de uma nova vaga da revolução proletária e o estabelecimento de uma nova sociedade socialista, do tipo de socialismo que deve ser mil vezes melhor que antes. Mas ela sonhou com as suas formas e nos sonhos dela erguia-se um andaime.
Quando as novas vagas revolucionárias surgirem no Irão e em todo o mundo, o rosto da camarada Azar e de muitos como ela brilharão como uma estrela vermelha no topo dessas vagas.
Querida camarada Azar, escrevamos uma vez mais a música da libertação e da revolução. Mas quão doloroso é estarmos a fazê-lo sem ti. Prometemos que iremos perseverar até ao fim para concretizarmos os nossos sonhos e objectivos comuns e para transformarmos a nossa dor em persistência na luta pelo derrube da República Islâmica e do sistema capitalista e chegarmos a um mundo comunista. Neste grandioso caminho, a tua memória estará sempre viva e alimentará a nossa luta. Adeus, camarada inesquecível.
A camarada
Azar Derakhshan num programa televisivo
Imagens do funeral da camarada
Azar Derakhshan
| Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese |