PCI(MLM): Sobre a execução de imigrantes afegãos pelo regime iraniano
14 de Junho de 2010. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Publicamos de seguida excertos de um artigo intitulado «Condenemos as políticas fascistas e chauvinistas do Regime Islâmico do Irão em relação aos imigrantes afegãos no Irão!» recentemente colocado no sítio internet do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista), sarbedaran.org.

Durante os últimos meses têm surgido relatos de que a reaccionária República Islâmica do Irão executou imigrantes do Afeganistão. Esses relatos têm enfurecido as pessoas, particularmente os trabalhadores do Afeganistão que têm protestado de várias formas contra essas execuções e têm condenado os criminosos dirigentes do regime iraniano.

Aparentemente, a execução de dezenas de milhares de curdos, árabes, bloch, azeris, turcomanos, persas e outras pessoas desde a chegada ao poder do regime islâmico em 1979 ainda não satisfez a sanguinária República Islâmica do Irão, que agora se está a apressar a assassinar imigrantes do Afeganistão.

A República Islâmica do Irão tem-se recusado a fornecer uma descrição precisa do número de imigrantes do Afeganistão até agora encarcerados ou condenados à morte no Irão. Nas ocasiões em que os responsáveis mencionaram números de presos, eles eram contraditórios. Isto indica que essas estatísticas não são reais e que o regime quer esconder os números reais. As agências noticiosas têm noticiado que até agora foram executados no Irão mais de 40 cidadãos do Afeganistão. Algumas pessoas crêem que o número real possa ser maior. O regime iraniano apenas confirmou a execução de três cidadãos do Afeganistão embora, segundo alguns relatos, os corpos de seis pessoas executadas tenham sido entregues às respectivas famílias a troco de grandes somas de dinheiro.

Tem havido várias manifestações no Afeganistão em protesto contra essas execuções, entre as quais duas frente ao consulado iraniano em Cabul, uma em Jalalabad (na província oriental de Nangarhar) e outra na província ocidental de Herat. As pessoas gritaram palavras de ordem contra os dirigentes do regime islâmico iraniano. Muitos dos que participaram nesses protestos tinham um ou mais familiares seus a trabalhar no Irão ou lá na prisão. Uma manifestante disse a um jornalista da BBC: «Isto quer dizer que nós estamos a ser reprimidos no Paquistão, estamos a ser reprimidos no Afeganistão e também estamos a ser reprimidos no Irão».

Mas a República Islâmica do Irão, que defende o direito a cometer qualquer crime, tem-se sentido ofendida com esses protestos e fez com que o regime fantoche afegão os impedisse. O regime do Afeganistão, ele próprio um inimigo do povo, tem cooperado com a República Islâmica do Irão. Não há dúvida nenhuma que os dois regimes têm um interesse comum na repressão das massas iranianas e afegãs. Por exemplo, quando no Irão um grande número de pessoas saiu à rua contra o golpe de estado do bando de Khamenei/Ahmadinejad, a seguir às últimas eleições presidenciais, Karzai foi o primeiro chefe de estado estrangeiro a felicitar Ahmadinejad. Em troca, apesar das suas superficiais palavras de ordem contra a ocupação norte-americana do Afeganistão, a República Islâmica do Irão apoiou a invasão e a continuação da ocupação sob diferentes formas. À procura de uma forte posição no país para a sua própria influência, tem apoiado sempre o regime corrupto de Karzai.

O regime iraniano alega que os executados foram presos com base em acusações relacionadas com a droga. Muita gente não acredita nisso. Mas mesmo que assumamos que isso é verdade, as pessoas fazem perguntas que requerem uma resposta.

Em primeiro lugar, será que a execução de milhares de viciados em droga e pequenos traficantes desde a fundação da República Islâmica conseguiu eliminar ou reduzir o consumo de drogas no Irão, o objectivo declarado dessas execuções? As estatísticas falam por si. O consumo de droga ultrapassou as 1000 toneladas por ano. O número de viciados em droga é chocante. Segundo as autoridades, há mais de 1,2 milhões de viciados e mais de dois milhões de consumidores, no total – porém, estes números são provavelmente uma grosseira subestimação.

Não é verdade que, após 31 anos de domínio da República Islâmica, com prisões e execuções, o número de viciados em droga se multiplicou várias vezes e o consumo de heroína e ópio atingiu um nível inacreditável? Não há quase nenhuma família entre os pobres que não tenha um ou dois jovens vítimas da droga. Então, mesmo que o regime esteja a dizer a verdade ao alegar que os executados foram presos com acusações ligadas à droga, as pessoas e o regime estão bem conscientes de que estas execuções não irão reduzir o número de drogados nem sequer inverter a expansão dessa praga.

O Irão é o principal corredor através do qual milhares de toneladas de drogas se movem do Afeganistão para os mercados da Europa e do Médio Oriente. É difícil acreditar que a quantidade de drogas que atravessam ou são consumidas no Irão possa ser escondida nos grupos de imigrantes que atravessam a fronteira vindos do Afeganistão. Pelo contrário, grandes quantidades são transportadas em camiões ou aviões e provavelmente escoltadas ao longo de certas rotas. Além disso, será possível imaginar que tais quantidades pudessem atravessar o Irão sem o conhecimento dos bandos mafiosos ligados à República Islâmica e aos pasdaran [Guardas Revolucionários], ou que esses criminosos ficassem de fora desse negócio altamente lucrativo que encontrou caminho em todos os cantos do país, incluindo as prisões, escolas e outros lugares sob supervisão do governo? De facto, o uso de droga começou inicialmente a explodir durante a guerra Irão-Iraque, quando a República Islâmica o autorizou entre os soldados da linha da frente. Será possível imaginar que os pasdaran não tenham conhecimento da existência e das rotas do tráfico de droga e não tentem pelo menos extorquir («taxar») essas caravanas? Pelo menos não é nisso que as pessoas comuns do Irão e do Afeganistão acreditam.

Uma outra questão é a seguinte: ao mesmo tempo que o regime iraniano reprime os imigrantes do Afeganistão, quem são os seus amigos do outro lado da fronteira? Não é verdade que eles têm laços íntimos com o sector da classe dominante do Afeganistão que retém firmemente nas suas mãos o monopólio das drogas? A produção e o tráfico de drogas desempenham um papel vital na economia do Afeganistão. É agora do conhecimento comum que Ahmad Vali Karzai, irmão de Hamid Karzai, gere um império de cultivo e produção de ópio no sul do Afeganistão, e em particular em Kandahar, e que está a tentar alargá-lo a todo o país. Toda a gente também sabe do envolvimento de outros senhores da guerra como Ghasim Fahim, vice-presidente de Karzai, e de muitos outros altos responsáveis, comandantes e governadores.

E por fim há a seguinte questão: Num grau significativo, será que a amizade entre os líderes da República Islâmica do Irão e o regime de Karzai instalado pelos ocupantes não é um reflexo da sua mutuamente benéfica cooperação no tráfico de droga? As pessoas dos dois países estão a levantar estas questões e a maioria pensa saber as respostas. Pouca gente acredita seriamente na «determinação no combate ao tráfico de droga» do falso regime islâmico do Irão.

Apesar de todos estes pontos de interrogação pendurados sobre as cabeças do regime iraniano, eles e a sua comunicação social continuam com o mesmo nível de chauvinismo e loucura a retratar as pessoas do Afeganistão como a causa do uso de drogas, do crime, dos problemas económicos, da escassez de divisas, do desemprego, dos «abusos dos serviços sociais», e por aí adiante. Para cada problema atiram as culpas a essas pessoas para justificarem a sua brutal exploração e abuso.

Por exemplo, Taghi Ghaemi, responsável pelos «cidadãos estrangeiros e imigração» no Ministério do Interior, disse em Fevereiro que os cidadãos do Afeganistão enviam ou retiram do país uma quantidade de divisas igual a todo o orçamento nacional desse país. Ele fez esse cálculo com base na suposição de que cada um dos cerca de 1 milhão de cidadãos do Afeganistão que vive «ilegalmente» no Irão tem poupanças de 250 mil tuman (cerca de 200€). O que ele não disse foi que esses trabalhadores geram lucros muitas vezes maiores que o que enviam para o estrangeiro, a maioria dos quais vai para bandos ligados ao regime e aos pasdaran. Não mencionou que muitos patrões retêm os salários desses imigrantes durante várias semanas e que por vezes eles são despedidos antes de serem pagos. Esqueceu-se deliberadamente de dizer que aqueles que após tantas dificuldades conseguem poupar algum dinheiro acabam por o ver todo extorquido ou roubado pelos pasdaran, pela polícia de fronteira ou por outras forças de patrulha. Pior, alguns responsáveis da República Islâmica como Ghaemi encorajam deliberadamente esse tipo de crimes.

A República Islâmica do Irão faz permanentemente rusgas aos imigrantes do Afeganistão e expulsa-os à força. Segundo responsáveis afegãos encarregues dos «cidadãos que regressam do estrangeiro», em apenas dois meses (de meados de Março a meados de Maio), o Irão expulsou mais de 80 mil afegãos, quase sempre da forma mais brutal e frequentemente sem sequer informar os seus familiares.

(Para uma pequena amostra do que acontece aos que são apanhados nas rusgas e expulsos, ver o vídeo colocado em: youtube.com/watch?v=d8f4qDLPYo8 e youtube.com/watch?v=_DBVrYJka7Q&feature=related.)

No início da revolução islâmica, o regime iraniano tentou usar os imigrantes do Afeganistão para espalhar propaganda anticomunista. Depois tentou usá-los para ganhar influência no Afeganistão e no Paquistão. Agora, a República Islâmica está a lutar pela sua vida desavergonhada e a recorrer desvairadamente à execução, assassinato, tortura, violação e encarceramento. Os imigrantes do Afeganistão, que estão entre as massas mais oprimidas do Irão, não estão imunes a essas brutalidades, mas, para o regime, eles constituem um elo fraco em todo o país, e estão particularmente ansiosos em os aterrorizar.

Não há dúvida nenhuma que as políticas chauvinistas e opressoras da República Islâmica podem ter efeitos muito negativos na relação entre as massas dos dois países. É por isso que os esforços conscientes das pessoas e das forças revolucionárias destes dois países para os neutralizarem são de importância vital. As massas do Afeganistão que protestaram contra o regime iraniano agiram nesse sentido. Por exemplo, as pessoas em Jalalabad levavam fotos de Farzad Kamangar, Neda Agha-Soltan, Shirin Alam Houly e outras pessoas executadas ou assassinadas pelo regime iraniano durante o último ano. Uma dessas pessoas, uma mulher, falou ao jornalista da BBC da recente execução de cinco presos políticos no Irão: «Eles estavam a lutar pela libertação do país deles e de todo o mundo. Não eram espiões nem gângsteres. É por isso que sentimos empatia com o povo do Irão.» Também é importante mencionar que durante a recente insurreição do povo iraniano, os imigrantes afegãos no Irão participaram corajosamente nos protestos contra o regime islâmico. Dez deles foram presos e não há notícias do seu destino nas prisões do regime. É muito provável que estejam entre os executados ou os que estão à espera de execução por «acusações relacionadas com a droga».

Com base no interesse comum das massas oprimidas e na solidariedade internacional, as pessoas e as forças revolucionárias dos dois países devem erguer-se conjuntamente contra os seus inimigos comuns, o regime reaccionário da República Islâmica do Irão, o regime imposto pelos ocupantes no Afeganistão e os imperialistas que estão a tentar dominar a região. Devem unir as suas fileiras e condenar fortemente e opor-se aos crimes do regime islâmico contra os imigrantes do Afeganistão.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese