«Marcha em defesa das mulheres combatentes nas ruas de Teerão»
22 de Fevereiro de 2010. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

A seguinte convocatória é da Organização de Mulheres 8 de Março (Irão-Afeganistão) www.8mars.com.

Celebremos o Dia Internacional da Mulher (DIM) de 2010 em solidariedade com as mulheres iranianas que nos últimos oito meses têm participado em desafiadoras batalhas de rua com as forças policiais e os arruaceiros das milícias da República Islâmica do Irão (RII) – um dos regimes mais brutais e odiadores de mulheres do planeta Terra. Muitas foram presas, feridas e mesmo mortas nessas batalhas de rua e outras foram procuradas pelas forças de segurança nos seus locais de trabalho, salas de aulas e residências universitárias. Essas mulheres que desafiam a morte precisam de não menos que o derrube integral da RII – e este é um sentimento cada vez forte. E, ao fazê-lo, elas precisam do apoio internacionalista e do afecto das suas irmãs – e dos seus irmãos – de todo o mundo. Se elas o conseguirem, será um novo dia para as mulheres do Médio Oriente e uma vitória para o movimento de libertação da mulher e para o fim de toda a opressão no mundo.

O regime da República Islâmica nasceu há 31 anos como resultado da derrota da revolução do povo iraniano contra a monarquia. A revolução foi abortada quando os fundamentalistas islâmicos reaccionários encabeçados pelo Aiatola Khomeini tomaram a liderança das massas e usaram a sua energia e sacrifício para estabelecerem um estado teocrático reaccionário. Os EUA e outras potências ocidentais abriram o caminho à tomada do poder pelos fundamentalistas islâmicos. Menos de um mês depois de tomar o poder, o Aiatola Khomeini emitiu um decreto que declarava o hijab (véu) obrigatório para as mulheres. Dezenas de milhares de mulheres saíram às ruas de Teerão na que ficou conhecida como a insurreição dos cinco dias. Elas lutaram e gritaram: «Não fizemos a revolução para andarmos para trás!». Essa insurreição foi um apelo a todos os outros estratos do povo para que despertassem. Mas a maioria do povo não viu a verdade de que a opressão das mulheres é uma característica decisiva de todos os estados e sistemas sociais reaccionários e que a libertação da mulher é uma característica determinante de qualquer verdadeira revolução. A nossa sociedade pagou caro essa ignorância.

Agora, as mulheres do Irão regressaram à ofensiva. A sua luta destemida nas ruas de Teerão tem encorajado e inspirado muita gente em todo o mundo. Mas o caminho à nossa frente está cheio de perigos e armadilhas. O perigo político é que as mulheres estejam a lutar heroicamente contra os guardiães dessa lei e ordem reaccionária mas que a maioria delas não esteja armada com uma compreensão do que é necessário para que sejam libertadas. Mesmo as suas reivindicações mais fundamentais têm ficado perdidas no meio de um movimento geral que sofre do mesmo mal.

Um dos grandes obstáculos no caminho do movimento de libertação da mulher é a liderança verde reaccionária encabeçada por Mousavi. Essa liderança está a trabalhar para limitar as aspirações e o movimento do povo a uma «reforma» da RII. Prega ao povo que a era das mudanças radicais (revoluções) já terminou e que estamos agora numa era de mudanças extremamente graduais – i.e., o povo deve sacrificar primeiro as suas vidas para pôr essa gente no governo e confiar em que eles venham a melhorar gradualmente o sistema. Esses líderes pregam que o povo deve tratar os basiji (milícias) e os pasdaran (Guardas Revolucionários) com carinho e compaixão quando atacado por eles – o que para as mulheres significa tratarem os seus violadores com carinho e compaixão, mesmo quando estão a ser violadas. Eles pregam ao povo que não se organize e que, em vez disso, vá aos protestos de rua quando a direcção verde o chama e que vá enquanto indivíduos – tal como o ir às urnas eleitorais do «um homem, um voto»! Eles fazem avisos contra as pessoas que debatem programas e vias diferentes para a sociedade futura e prometem que o mar de diferença que existe entre o seu programa e a vontade do povo será mais tarde resolvido, através de «um processo eleitoral verdadeiramente livre». O facto de a liderança verde ter escondido e eliminado qualquer reivindicação ou palavras de ordem em defesa da abolição do hijab obrigatório e da constituição e códigos penais contra as mulheres inspirados na Xariá (lei islâmica) é um forte sinal da sua natureza e programa reaccionários. O próprio Mousavi foi primeiro-ministro durante a primeira década da RII e trabalhou afincadamente para impor o estatuto de inferioridade da mulher na RII. O programa e o lema de Mousavi, tal como ele os tem repetidamente anunciado, é «República Islâmica – nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos». Mas a República Islâmica que ele tão afectuosamente abraça é um sistema reaccionário baseado na subordinação da mulher ao homem, em que cobrir as mulheres da cabeça aos pés é o ponto central dos seus inquilinos morais e em que apedrejar as mulheres que cortejem os homens «errados» é um garante da sua «coerência social». Quem não quiser apoiar esse sistema social reaccionário têm que se afastar também da liderança verde. Não esqueçamos que a «Campanha de Um Milhão de Assinaturas» e as suas afiliadas estão a actuar como braço da liderança verde dentro do movimento da mulher.

Diferentes tipos de forças reaccionárias estão decididas a esmagar e a extinguir uma vez mais a luta das mulheres iranianas pela liberdade e a igualdade. Não podemos deixar que isso aconteça. Um caminho diferente, uma via revolucionária, devem ser abertos. Mulheres revolucionárias, pensem bem nestas coisas e apelem às mulheres e a outros estratos do povo para que adoptem uma clara e inequívoca perspectiva revolucionária e avisem-nos que sem isso o nosso sacrifício se tornará numa vantagem para que um outro grupo de reaccionários restabeleça este sistema ou um ainda pior.

Não são apenas as forças políticas reaccionárias nacionais que estão a cavalgar para usarem a ira e a resistência do povo para a sua própria agenda. As grandes potências mundiais estão a fazer o seu melhor para impedirem que esta insurreição os atinja a eles e aos seus interesses. As facções dominantes dos EUA estão a debater activamente as formas de usarem a actual insurreição no Irão para promoverem os seus interesses imperialistas no Irão e no Médio Oriente.

A República Islâmica do Irão é o estado opressor mais reaccionário que as mulheres do Irão conheceram. Mas as classes dominantes imperialistas dos EUA, que têm saqueado os povos do Médio Oriente com cruéis guerras sangrentas de conquista e pilhagem, não são melhores e as suas tentativas de justificarem os seus crimes no Médio Oriente com palavras hipócritas sobre a libertação da mulher são repugnantes. Também elas beneficiam da opressão da mulher, tanto nos EUA como no resto do mundo. De facto, essa opressão está embutida no seu sistema capitalista mundial. O imperialismo norte-americano invadiu o Afeganistão e o Iraque em nome da «guerra contra o terrorismo» e da «libertação da mulher». Acabou a despejar terror sobre os povos do Afeganistão e do Iraque e a reforçar todas as autoridades patriarcais, tribais e religiosas. Na maioria dos estados do Golfo e do Médio Oriente dominados pelo imperialismo norte-americano (e pelos seus xeques islâmicos), as mulheres são impedidas até de conduzir. O que os anúncios da CNN sobre as ilhas de fantasia do Dubai não nos dizem é que uma parte desse grande mercado imobiliário mundial de casino envolve o tráfico de meninas do Irão, Iraque, Filipinas, Afeganistão, etc. como prostitutas. A invasão e ocupação do Iraque têm alimentado esse comércio de escravos no Médio Oriente.

Nos nossos países do Irão e do Afeganistão, e no Médio Oriente em geral, as forças fundamentalistas islâmicas alegam ser uma alternativa ao sistema imperialista capitalista mundial. Mas os fundamentalistas islâmicos do Médio Oriente partilham os princípios basilares do sistema capitalista imperialista, entre os quais as leis da sacrossanta propriedade privada e a opressão da mulher, além de usarem a ignorância organizada.

A opressão da mulher tem tudo a ver com os opressivos e obsoletos sistemas políticos, económicos, sociais e de crenças que dominam os nossos países e o mundo. A condição global da mulher nas sociedades de todo o mundo só pode ser definida como escravidão dos dias modernos. Isto não acontece apesar da forma como a sociedade humana global está organizada hoje em dia em todo o mundo, mas antes devido a ela. A opressão da mulher está inscrita em todas as células dos nossos sistemas sociais actuais – quer nas sociedades governadas pelas forças fundamentalistas islâmicas quer pelos imperialistas. Misoginia e escravidão das mulheres, pobreza, homofobia, apartheid racial e de género, trabalho infantil, mentalidade de escravidão religiosa, guerras, holocaustos e genocídios, tudo isto é continuamente produzido por este sistema.

Este sistema destrói-nos numa grande variedade de formas. E de cada vez que nos revoltamos, os seus carrascos reprimem-nos e depois mostram-nos a urna eleitoral mágica que supostamente detém a chave da nossa emancipação. Eles dizem-nos que devemos entregar as nossas esperanças à democracia deles e que devemos ajudar a dinamizar os mercados capitalistas deles porque eles são supostamente o ápice da experiência humana. Mas o capitalismo atingiu o ápice da sua putrefacta existência. Não fornece absolutamente nenhuma forma de reformar ou moderar o seu terrível modo de vida. Este sistema não desaparecerá por sua própria vontade. Deve ser eliminado da existência por pessoas conscientes. Nós declaramos que, se este sistema sobreviver muito mais tempo, apertará a sua corda à volta dos nossos pescoços e as vidas da maioria das pessoas do mundo tornar-se-ão ainda mais horrendas e, entre elas, como sempre, as mulheres receberão a maior parte do fardo.

Nós andamos há décadas a lutar contra a nossa inferioridade imposta e contra a nossa posição de subordinação. Através dos altos e baixos desta batalha, nós compreendemos melhor a natureza dos sistemas de classe que perpetuam a nossa opressão. Aprendemos que temos que lutar de uma forma organizada. Aprendemos melhor que termos uma perspectiva cristalina e inflexível para a nossa batalha é vital, porque, caso contrário, a nossa energia lutadora será desviada para falsas direcções, como por exemplo para uma simples reestruturação da opressão da mulher, mantendo o sistema intacto. Não nos podemos deixar enganar a nós próprias por falsas promessas e por falsos caminhos. A revolução é a nossa única solução. As mulheres são as que mais têm a ganhar com a revolução.

A opressão comum torna as mulheres do mundo num vasto e poderoso exército dos miseráveis da terra que não têm nada a perder e que têm todo um mundo a ganhar. A opressão da mulher é internacional e a luta para a extirpar pode e tem que ter um carácter internacionalista.

Aproximamo-nos do 8 de Março, que é um dia de luta contra a opressão da mulher e uma recordação para toda a gente de que o nosso movimento pela eliminação da opressão da mulher tem algo a dizer sobre todos os tipos de opressão que o sistema impõe a diferentes partes de humanidade.

Celebremos o DIM 2010 nos EUA e em todo o mundo com esta convicção e ajudemos as mulheres combatentes do Irão a vencerem a sua batalha nesta fase, que é a de derrubarem a RII e obterem a sua liberdade e igualdade com a sua própria luta em unidade com todas as outras pessoas oprimidas do Irão.

Unamo-nos e decidamos ser um toque de chamada para a revolução nesta era de surpreendente opulência e descontrolada crueldade, discriminação, injustiça e destruição. Ousemos quebrar as nossas grilhetas e ousemos ser emancipadoras da humanidade.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese