Uma situação em evolução: Os protestos do Dia Nacional do Estudante no Irão
14 de Dezembro de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Os protestos do 7 de Dezembro, Dia Nacional do Estudante, revelaram uma situação em evolução na insurreição do Irão. Entre esses protestos estiveram algumas das acções de rua tacticamente mais combativas desde o início do actual movimento após as eleições presidenciais de Junho passado, envolvendo escolas e universidades de todo o país, incluindo no Curdistão iraniano. Além disso, mostraram uma menor, embora ainda poderosa, influência do «movimento verde» liderado pelos candidatos presidenciais Mir-Hossein Mousavi e Mehdi Karoubi, os quais se consideram uma leal oposição islâmica ao Presidente Mahmoud Ahmadinejad, bem como uma reforçada determinação de muitas pessoas para derrubarem a República Islâmica na sua totalidade.

Um vídeo colocado no YouTube mostra estudantes na Universidade Sharif a gritarem «Morte ao opressor, seja o xá ou o líder supremo!». Trata-se de uma referência a Ali Khamenei, cuja posição enquanto autoridade política e religiosa final é considerada a essência do carácter islâmico do regime, e ao regime do Xá apoiado pelos EUA, que a República Islâmica substituiu.

Os manifestantes em Teerão central queimaram retratos de Khamenei e levavam bandeiras iranianas com a palavra «Alá» removida.

Nalgumas escolas, predominaram as bandeiras e braçadeiras verdes e os cânticos de «Deus é grande!». Noutras, eram mais proeminentes as faixas e as palavras de ordem contra o regime islâmico, e mesmo algumas bandeiras vermelhas. Esta situação variava enormemente de escola para escola.

Houve protestos em quase todas as universidades do país e em muitas escolas secundárias, incluindo em escolas femininas. Algumas páginas na internet relataram concentrações dentro e próximo de universidades em Teerão, Kerman, Mashad, Isfahan, Kamedan e Sanandaj, uma cidade curda onde a repressão do regime é particularmente severa.

As forças de segurança selaram a entrada principal da Universidade de Teerão. Em ruas e praças por toda a cidade desencadearam-se enormes e duras batalhas entre jovens que atiravam pedras e membros da polícia e da milícia Basij à paisana que esgrimiam bastões. Podia ouvir-se fogo de artilharia, embora não tenha sido noticiada nenhuma morte a tiro. Os combates continuaram até ao dia seguinte.

Em particular, dizia-se que Mousavi estava irritado com a atitude de confronto dos jovens. As forças iranianas pró-ocidentais e ligadas ao imperialismo que querem levar o movimento popular na direcção dos imperialistas norte-americanos não estavam contentes.

Muitos jovens exprimiram abertamente os seus sentimentos radicais à frente das suas escolas e mesmo dentro das instalações escolares, à frente de funcionários e informadores, sem medo de serem reconhecidos e punidos. Era comum ouvir-se rapazes e raparigas do ensino secundário a proclamar desafiadoramente que já não os conseguiam intimidar porque eles já não estavam preocupados com o que lhes pudesse acontecer. Nem todo o tipo de ameaças de vários responsáveis e de comandantes Pasdaran (Guardas Revolucionários) nem as rusgas contra os estudantes nos dias que precederam o 7 de Dezembro conseguiram impedir essas acções, as primeiras em mais de um mês, embora não tivessem sido tão grandes como algumas das anteriores e menos perigosas manifestações de massas, que envolveram um milhão ou mais de pessoas na capital.

O Dia Nacional do Estudante tem uma história de 56 anos. Em 1953, apenas três meses após o golpe de estado apoiado pelos EUA que derrubou o governo do Primeiro-Ministro nacionalista Dr. Mohammad Mossadeq e levou o Xá de volta ao poder, Richard Nixon, então vice-presidente dos EUA, tinha planeado visitar o Irão. Os estudantes iranianos estavam decididos a protestar contra essa visita e contra os imperialistas que estiveram por trás do golpe de estado. Porém, a 7 de Dezembro, o exército do Xá abriu fogo sobre uma manifestação de estudantes. Centenas de pessoas ficaram feridas e foram assassinados três estudantes. Desde então, a luta estudantil tem sido um importante pilar do movimento popular iraniano. O movimento estudantil iraniano, tanto no país como no estrangeiro, já antes representou um importante papel, durante e depois da revolução de 1979 que derrubou o Xá.

O Dia do Estudante deste ano teve uma ressonância particular. Muita gente acha que Ahmadinejad, em conjunto com Khamenei e os Pasdaran, impuseram um outro golpe de estado ao país. Uma vez mais, este ano o Dia do Estudante não se deixou confinar atrás dos muros dos campi universitários vizinhos mas expandiu-se para as ruas e a ele juntaram-se amplamente muitas pessoas de todas as idades.

Os textos que se seguem são excertos de três relatos recebidos pelo jornal estudantil iraniano Bazr uma semana antes, dois dias antes e no próprio 7 de Dezembro.


Uma semana antes do 7 de Dezembro (16 Azar)

O governo decidiu fechar as universidades antes do Dia do Estudante. Toda a gente diz que o fizeram por medo. Mandaram regressar os estudantes que não eram de Teerão para poderem controlar esse dia. Ouvimos dizer que os dormitórios foram evacuados, à força, claro. Os que tinham que ficar ou que queriam ficar foram forçados a partir. Os estudantes da faculdade de engenharia que tinham que fazer os seus projectos foram mandados para Asalouye (um local de construção no sul do Irão) para os fazerem sair de Teerão.

Entrei no autocarro. Estava muito abarrotado – toda a gente empurrava toda a gente. Estava realmente calor dentro do autocarro. Por fim, uma mulher disse: «Quanto mais tempo vamos tolerar sermos assim menosprezadas, (...) forçadas a usar tantas roupas e lenços nas nossas cabeças? Quando é que seremos livres?» Uma jovem respondeu imediatamente: «Vamos dar-lhes uma lição a 16 Azar (7 de Dezembro)». Uma outra pessoa disse: «Eles anunciaram que esses dias são feriados, para que toda gente saia da cidade». Uma outra jovem disse: «As pessoas que querem protestar não vão sair para lado nenhum (...)»

Dois dias antes do 16 Azar

Hoje está tudo meio fechado. O governo anunciou que hoje era feriado. Vou para a cidade mas ela está muito abarrotada. Ninguém saiu da cidade. Não é igual a nenhum outro feriado. Talvez as pessoas estejam à espera do 16 Azar.

E agora o 16 Azar

As forças de segurança estão por todo o lado e em todos os cantos, a começar pela Rua Azadi. As pessoas estão a observar ansiosamente e a sussurrar umas às outras. As pessoas sabem que na multidão há polícias à paisana e informadores, pelo que têm isso em conta quando falam.

Uma mulher de meia-idade que falava com uma jovem pergunta-lhe: «Porque é que achas que quando Mousavi chegar ao poder todos os nossos problemas se vão resolver? Agora que as pessoas estão nas ruas e querem mudar as coisas, devem questionar tudo. Mousavi é um deles (do regime) e é como eles. Não fará diferença. (...) Eu era jovem quando ele foi primeiro-ministro. Ele fundou as patrulhas do Saroallah que espancavam as mulheres e as arrastavam para a prisão.» (O Saroallah é um grupo infame cuja missão era arranjar problemas às pessoas e em particular às mulheres, onde quer que pudessem estar. Paravam as pessoas que conduziam ou andavam a pé, ou iam mesmo às suas casas, e perguntavam-lhes qual a sua relação com um qualquer homem nas proximidades e avisavam-nos ou espancavam-nos ou levavam as mulheres que não estivessem «correctamente» cobertas segundo as regras, ou se estivessem a tocar música ou a fazer uma festa, etc.)

Chegámos à Praça Enghelab. Há uma enorme força de segurança que controla tudo em todo o lado. Todas as lojas estão fechadas. Mas uma enorme multidão caminha pelos passeios e ruas. O passeio que vai para a Universidade de Teerão está fechado entre a Rua 16 Azar e a Rua Quds, onde termina a universidade. Há barreiras temporárias adicionais ao longo de toda a universidade, muito mais altas que as barreiras universitárias normais, para que as pessoas não possam ver o que está a acontecer no campus. A zona à frente das barreiras temporárias está cheia de forças de segurança. Um homem à paisana de cara coberta está em cima de uma cabine telefónica a filmar a multidão. A polícia com bastões ameaça constantemente as pessoas e ordena-lhes que continuem a andar.

Dirijo-me à Rua Vesal. Toda a rua está ocupada pelas forças de segurança. A cidade está tensa e estranha. Há uma lei marcial total. (...) As pessoas têm que passar por um processo de controlo muito rígido antes de poderem entrar na universidade. São 11:30 da manhã. De repente, ouvimos os estudantes começarem a gritar as palavras de ordem «Morte ao ditador!». Conseguimos ver do exterior que há uma enorme multidão de estudantes.

Somos obrigados a ir para as ruas laterais. Eu ia com algumas raparigas. Uma delas tinha votado em Mousavi. Disse: «Estou arrependida de ter votado nele. Estou contente por ele não ser presidente. Mousavi revelou a sua verdadeira face após os protestos. Ele continua a dizer: ‘A República Islâmica, nem uma palavra a menos, nem uma palavra a mais’. As pessoas estão a dizer que se deve separar a religião da política. Mas ele continua a dizer que a nossa religião é boa, que é diferente da religião dos que governam. Continua a dizer ‘Eu sigo Khomeini’, mas quem era Khomeini? Não foi ele que ordenou a execução dos presos políticos em 1988? Não foi ele que fechou as universidades durante três anos? Estou realmente contente por ouvir as pessoas dizerem estas coisas. Elas tornaram-se tão conscientes!» Depois, diz: «Muita gente com quem falo já não pensa mais em Mousavi. Desde dois ou três meses após as eleições, as reivindicações das pessoas mudaram.» Ela tem razão, mas eu desejava que eles mostrassem mais isso nos seus actos, nas suas palavras de ordem e nos seus símbolos. Porém, se houver uma forte alternativa à sua frente, isso pode acontecer. É por isso que nós devíamos estar a pensar nas formas de apresentar alternativas correctas e de mostrá-las às pessoas...

Saio do autocarro em Vali-e Asr e dirijo-me à praça. A entrada para a Universidade Politécnica está abarrotada. Os estudantes estão a tentar sair das instalações universitárias, mas as forças de segurança à frente do campus não os deixam. Alguém diz que não vão deixar sair nenhum estudante antes das 16h, pelo que toda a gente está à espera das 16h.

Veio-se a verificar que as pessoas não conseguiram juntar-se para uma reunião de massas. Em vez disso, houve acções dispersas por toda a cidade. Mas foi realmente um 16 Azar do Povo.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese