Teerão, 9 de Julho: «Não fui sequer um décimo tão corajoso quanto as jovens de hoje»
13 de Julho de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Apesar da proibição, centenas de milhares de pessoas manifestaram-se em Teerão a 15 de Junho de 2009
(Foto: Behrouz Mehri/AFP/Getty Images)

Publicamos de seguida excertos de dois relatos recebidos de Teerão pela newsletter estudantil Bazr.

Que grande enormidade está associada ao 18 Tir (9 de Julho). Toda a gente saiu à rua, jovens, velhos e gente de meia-idade. Desta vez, as pessoas aprenderam a não se concentrarem numa só rua. Há protestos em massa em sete ou oito locais do centro de Teerão. Não há sinais de silêncio. Toda a gente está a gritar palavras de ordem. Alguns estão a gritar «Alá-u Akbar», mas essas palavras foram imediatamente substituídas por «Morte ao ditador» e «Governo do golpe de estado – demitam-se, demitam-se». O centro dos confrontos é a intersecção das ruas Vali Asr e Enghelab, no Parque Daneshjoo (dos Estudantes). A multidão concentra-se e adensa-se e as forças antimotim dos Guardas Revolucionários atacam com gás lacrimogéneo e bastões. Os rostos estão ensanguentados. A multidão entra e sai continuamente dos passeios para a rua e depois regressa. Os carros, tal como há duas semanas atrás, continuam a tocar as suas buzinas (em sinal de apoio). Há um contínuo buzinão. Uma vez mais, os punhos estão no ar, juntamente com o sinal V de vitória e solidariedade. Uma vaga de pessoas desloca-se para a Praça Enghelab e a Universidade de Teerão, vinda de todas as principais ruas. Desta vez, ouvimos as pessoas cantar uma canção que costumavam cantar durante a revolução de 1978-79, mas com a palavra «Xá» substituído por «Mahmoud» (Ahmadinejad): «Mahmoud, o traidor, espero que te tornes um vagabundo / destruíste o nosso país / mataste os jovens do meu país (...) morre, morre!».

Chovia gás lacrimogéneo sobre a multidão mas, o que é incrível, parece que toda a gente se habituou a isso. Ninguém parece ficar doente. Eles apenas acendem fogos. Algumas pessoas sopram fumo de cigarro para os olhos dos seus vizinhos (para contrariar os efeitos do gás). Estamos agora na esquina entre a Avenida Keshavarz e a Rua Kargar. Os Guardas Especiais vêm para nos atacar. Gritando palavras de ordem, corremos na direcção oposta. Uma densa multidão que vem da Rua Fatemi junta se a nós e gritamos novamente: «Não tenham medo, não tenham medo, estamos todos juntos, não tenham medo!» Até agora, não ouvimos dizer nada sobre as pessoas que foram atingidas. Também não ouvimos falar em nada disso noutros lugares.

Imagem de um vídeo que mostra Neda Agha-Soltan, momentos antes de morrer abatida a tiro pela polícia islâmica a 20 de Junho de 2009. O vídeo foi colocado no YouTube por um utilizador que usou o nome "IranianRevoltion".

Muitas mulheres, muitas mães na fila da frente! Furiosas, frescas e inspiradoras! Somos atacados de novo. Desta vez, as forças de «segurança» à paisana estão com eles... Algumas centenas de pessoas entram numa passagem do mercado próximo do Parque Laleh, mas não há aí nenhuma saída, pelo que estão encurraladas. Juntamente com outras pessoas, salto as cercas e o arame farpado e entro no parque. Dirigimo-nos a Amirabad (...) Amirabad está extremamente abarrotada. Na esquina onde Neda foi martirizada (Neda Agha-Soltan, uma jovem assassinada pela Basij quando estava sentada numa berma durante uma manifestação), a multidão grita: «Morte ao ditador». Um idoso – diz que tem 80 anos – proclama feliz: «Já ninguém tem medo. Toda a gente saiu à rua. É altura de eles (ele quer dizer o regime) se irem. Vejam, tanta gente – mas, ao contrário de 1978, não há nenhum mulá entre nós! Vingaremos o sangue de Neda!» Ele tem razão. As pessoas compreenderam bem a situação. Apanharam as fraquezas e as vulnerabilidades do regime. Ninguém teme nada. Toda a gente, jovens e velhos, grita essas palavras de ordem, mais firme e mais forte que há três semanas atrás. Uma família num carro que se move lentamente para norte na Amirabad buzina continuamente. Um jovem põe a cabeça de fora do carro e diz às pessoas: «Ainda querem continuar a lutar pacificamente! Não vêem que eles têm armas?» A irmã dele está a gritar: «Morte ao ditador!». Limito-me a repetir as palavras de ordem com eles e ergo o meu punho...

Regresso para escrever este relato. Hoje ficará calor nos telhados, quando as pessoas gritarem palavras de ordem. O número de feridos e de presos não será pequeno. Ainda não está escuro, mas as patrulhas, bem como os basiji em uniforme, estão a espalhar-se por todos os cantos. Eles querem dizer às pessoas que se trata de um «estado de emergência»! Que absurdo! Milhares e milhares de pessoas hoje com a sua poderosa presença tentaram fazer o regime perceber que a situação é pura e simplesmente inaceitável para elas! Ainda não tenho nenhuma notícia sobre as outras cidades. Mas os acontecimentos de 9 de Julho influenciarão fortemente os futuros desenvolvimentos. Não tenho dúvida nenhuma sobre isso.

Excerto de um outro relato

(...) Nas ruas laterais da Avenida Keshavarz, as chamas estavam a subir mais alto e ecoavam as palavras de ordem «Morte ao ditador». A meio da subida estavam as várias forças repressivas (policias à paisana, basiji, Guardas Especiais, forças vestidas de negro cujos rostos estão cobertas pelos seus longos chapéu – as pessoas chamam-lhes rãs). Atacaram a multidão de várias direcções com gás lacrimogéneo, canhões de água e bastões (...) Algumas pessoas enfrentaram-nos, outras retiraram-se para as ruas laterais, gritando palavras de ordem. Para onde quer que quiséssemos ir, eles tinham bloqueado o caminho. Queríamos ir para a Rua Kargar, mas eles bloquearam-nos. Queríamos ir para a Rua Enghelab; não nos deixaram. Fizeram tudo para dispersar a multidão, mas a multidão reagrupava-se de novo noutro lugar. Cada local tinha-se transformado numa emboscada para as forças inimigas. Podia-se ver o estado de confusão e desordem entre as forças repressivas. Parecia que não conseguiam acreditar nos seus próprios olhos.

Polícia espanca um manifestante com um bastão próximo da Universidade de Teerão a 14 de Junho
(Foto: STR/AFP/Getty Images)

Havia muitas discussões entre as pessoas. Um homem de meia-idade estava a falar sobre a revolução de 1979. Disse: «Fui um dos homens destemidos durante a revolução. Mas posso dizer que não fui sequer um décimo tão corajoso quanto as jovens são hoje». Os jovens repetiriam as notícias das lutas dos últimos dias, sobre os presos e os protestos frente à Prisão de Evin e aos tribunais.

Uma das principais discussões era sobre se as tácticas de luta de hoje (9 de Julho), ou seja, concentrações em vários locais, eram correctas ou não. Algumas pessoas diziam que não eram correctas porque as nossas forças estavam dispersas. «As nossas forças poderiam ser pelo menos dez vezes maiores». Se pudéssemos termo-nos concentrado num único lugar, poderíamos ter lutado muito melhor e ter-lhes dado uma lição melhor. Outras pessoas defendiam que, apesar do aumento do número das nossas forças, ainda estávamos a lutar sem nada nas mãos, ainda estávamos desarmados e imóveis numa situação desfavorável. Por isso, a táctica correcta é dispersar as forças inimigas e combatê-las em pequenos grupos em muitos locais diferentes.

Uma outra discussão importante era sobre como punir os opressores. Algumas pessoas diziam que se estivéssemos armados e as nossas forças estivessem à altura das deles, não os deveríamos matar mas, em vez disso, levá-los a julgamento. Outras diziam que estamos em guerra e que devíamos matar os que estão no campo de batalha e levar outros a julgamento.

Durante horas, fomos e viemos entre a Avenida Keshavarz e a Rua Enghelab e entrámos em confronto com as forças repressivas. O ânimo das pessoas era elevado e elas estavam optimistas. As pessoas estavam confiantes em que haveria mais notícias dos diferentes bairros e locais da cidade (...)

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese