Um médico de Teerão: «As autoridades estão a encobrir o número de mortos»
13 de Julho de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.


Um manifestante é espancado por agentes das forças de segurança, enquanto outros manifestantes vêm em seu socorro em Teerão, a 14 de Junho de 2009
(Foto: AP)

Publicamos de seguida excertos do relato de um médico de Teerão que surgiu no jornal britânico The Guardian de 9 de Julho. O seu nome e outros detalhes não foram revelados.

Tenho estado a trabalhar num hospital público de Teerão durante as últimas semanas. As autoridades estão a encobrir o número de manifestantes mortos e as causas da sua morte. As estatísticas oficiais são de 20 mortos – isto é falso. Só no nosso hospital e na primeira semana houve 38 mortes devido à revolta. A maioria deles morreu com ferimentos de bala.

Um colega disse-me que no hospital dele havia mais cerca de 36 vítimas de tiros e 10 mortes. Quatro hospitais públicos estiveram a admitir manifestantes feridos durante as revoltas, mas é difícil saber o número total de mortos. Outros hospitais foram impedidos de prestar auxílio. Os milicianos basiji atacaram os porteiros de um hospital por terem deixado entrar manifestantes feridos. Nos hospitais que foram autorizados a trabalhar, os basiji substituíram o pessoal das admissões ao hospital e ficaram com a identificação dos pacientes feridos.

O pessoal médico está sob uma enorme pressão para encobrir as lesões que trata; conheço um médico que se suicidou.

Se os pacientes morriam devido aos ferimentos de bala, os basiji confiscavam os seus corpos e diziam às suas famílias que eles tinham sido «transferidos» para a doação de órgãos. Retiravam as balas e devolviam os corpos com um relatório postmortem alterado. Na segunda semana, os basiji estavam melhor organizados e retiravam os corpos directamente das ruas. Houve muitos mortos que os hospitais nunca viram.

Manifestantes espancados pelas forças de segurança em Teerão, a 14 de Junho de 2009
(Foto: AP)

Em relação aos ferimentos, eles falam por si. Havia pontos múltiplos de impactos de bala – provando que as autoridades estavam a disparar indiscriminadamente. As suas vítimas eram indistintas.

Duas mulheres grávidas foram atingidas – uma delas através do baço, ela sobreviveu e a outra morreu. Quanto à segunda, as autoridades dizem que a fotografia dela que circula na internet foi tirada noutro país, mas isso não é verdade. Ela foi ferida, tratada e morta em Teerão. Eles atingiram-na três vezes. Uma das balas penetrou a espinha dorsal do feto.

Como pode um médico mentir nos seus registos médicos depois de ter operado um caso como este?

Muitos dos meus amigos e o meu primo direito (que foi ferido) viram atiradores em cima dos telhados durante os protestos. Eles disseram que esses atiradores visavam as pessoas através das lentes das suas espingardas. Os danos que observámos num hospital são prova disso. Um paciente de 32 anos recebeu um impacto de bala que lhe entrou pela região sub-umbilical fazendo à saída uma ferida na coxa, o que prova que a bala veio de cima.

Do que vi e ouvi, este encobrimento médico tem ocorrido em todo o país. Mas, oficiosamente, o pessoal médico relata mortos em Isfahan, em Shiraz e em muitos outros lugares. Tal como aqui, as autoridades estão a assegurar-se de que os hospitais não revelam os números...

Um polícia dispara gás lacrimogéneo contra um manifestante que responde atacando-o com um bastão da polícia em Teerão, a 13 de Junho de 2009
(Foto: Olivier Laban-Mattei/AFP/Getty Images)

A prisão é uma questão de sorte. Se alguém for preso pelos basiji e levado para um centro basiji – isso é o pior. Os basiji não deveriam ter os seus próprios centros, que são utilizados para fazer a distribuição pelas prisões, mas eles têm as suas próprias salas – e esse é o lugar mais perigoso para se estar.

Depois, há a prisão de Evin. Tenho um primo que foi para aí levado durante a última insurreição estudantil. Há uma enorme sala vazia onde pedem aos manifestantes que se identifiquem. Se eles sentem que alguém tem medo, forçam-no a confessar qualquer coisa e a identificar qualquer pessoa. Não é tanto o que se diz, mas o facto de se humilhar.

A maioria dos manifestantes é mudada de prisão em prisão, para não deixarem rasto. Sabendo do encobrimento nos hospitais, estou preocupado com que muitos manifestantes possam ficar «sem deixar rasto» para sempre.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese