Sábado, Rua Azadi, Teerão
22 de Junho de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Manifestantes espancados pelas forças de segurança em Teerão, a 14 de Junho de 2009
(Foto: AP)

Falando durante as orações nocturnas de sexta-feira, 19 de Junho, o «Líder Supremo» do Irão, Aiatola Ali Khamenei, avisou que não seriam toleradas mais manifestações. Os milhares de pessoas que saíram às ruas de Teerão no dia seguinte sabiam o que estavam a enfrentar. Esse foi o dia mais violento – para os dois lados – desde que começou a insurreição.

Teerão, 16h-18h: ruas e vielas à volta da estação de metro de Azadi

Som de helicópteros. Tiros. Cheiro a pólvora. Gás lacrimogéneo. Constantes sirenes de ambulâncias.
O rugido de pessoas. Já ninguém está gritar «Devolvam-me o meu voto». As pessoas já quase não se lembram que foi uma fraude eleitoral que despoletou tudo.
Gritos de «Morte aos ditadores!» são constantemente ouvidos.
As pedras da calcada são retiradas. Todos ficam com alguns pedaços.
À carga! Atacamos e falamos.
O sangue gera sangue. Eles têm que pagar pelos últimos 30 anos. Têm que responder pelos que executaram. Eles estão acabados.
Não tenham medo. Cuidado com os telhados. Os basiji estão a disparar de lá de cima. Ouçam, não estamos sós. De Tupkhoone a todo o Teerão, as pessoas estão na rua. Toda a gente está na luta. Nas ruas, nas ruas secundarias e nas vielas.

Um manifestante é espancado por agentes das forças de segurança, enquanto outros manifestantes vêm em seu socorro em Teerão, a 14 de Junho de 2009
(Foto: AP)

As coisas estão a ficar piores: não, isto é fantástico.
Estejam calmos. Eles matarão toda a gente? Não, não o podem fazer. Eles estão a mostrar os seus dentes. Mas estão assustados. São eles que estão em crise, não nós. Era o Líder que estava a chorar e a suplicar [durante o seu discurso da noite anterior], não nós.
[O candidato da oposição Mir Hossein] Mousavi está na rua Jeyhoon. Diz-se que ele lavou o seu corpo [simbolizando os preparativos para a morte – Mousavi tinha dito que estava pronto para o martírio]. Odeio toda essa conversa sobre o martírio; estamos fartos disso.
Eh, pessoal, tragam alguns panos. Acendam uma fogueira. É gás lacrimogéneo. Não molhem a cara. Façam algum fumo.
Eh, Majid, não desperdices pedras. Atiraste uma pedra à cabeça dele. Não vês que ele tem um capacete? Faz melhor pontaria, homem.
Esquadras da polícia, sedes da Basij, deveríamos tomá-las e arranjar algumas armas. Diz-se que ao fundo da rua algumas pessoas atacaram um posto da Basij.
Eles parecem os soldados israelitas que vemos na televisão.
As palavras de ordem ecoam por todo o lado: «Pessoal, de que estão à espera? O Irão tornou-se na Palestina!»
Alguém diz: Mas mesmo a Palestina tem estado a lutar há 60 anos e ainda não venceu. Uma outra pessoa diz: Porque têm líderes conciliadores. Uma terceira pessoa diz: Porque não se pode responder às balas com pedras.
Eles têm razão e procuram um caminho para a vitória no meio do campo de batalha.
Pessoal, voltem, eles estão a chegar! Eh pessoal, deixem todas as portas abertas.
Dirijamo-nos para Shadmehr.

Rua Shadmehr, 18h-19h

Manifestantes perseguidos por milicianos com bastões, frente à Universidade de Teerão, a 14 de Junho
(Foto: AP)

«Morte aos ditadores!», «Morte a Khamenei!», «Morte aos ditadores, seja o Líder ou o doutorado!» [Ahmadinejad tem um doutoramento.]
A rua está cheia de fumo. Acendem-se fogueiras por todo o lado para neutralizar o efeito do gás lacrimogéneo. Quem está no meio da rua, rapazes e raparigas, armou-se com alguma coisa. Alguns têm bastões arrancados às forças de repressão durante as batalhas.
Ei, senhor, recue! Não estacione o seu carro no fim da rua! Estas ruas são a única via de escape das pessoas!
«Abaixo o governo golpista!», «Ditador, tem vergonha, deixa a presidência!»
Pessoal, ergamos barricadas.
Recolhemos pedras e madeira. Um velho diz: É isso, meus filhos – vocês querem um refrigerante?
Alguém diz: Isto é a revolução. Uma outra pessoa diz: Isto é o início da revolução. Uma terceira pessoa diz: É como durante o tempo do Xá. E uma quarta pessoa diz: Sim, começou em 1965, da primeira vez que Khomeini se revoltou contra o Xá e depois continuou em 1979. Diz uma outra: Não, isso não é verdade, é apenas a propaganda deles. A revolução de 1979 foi do povo, o povo fez a revolução, eles apenas se aproveitaram dela, roubaram-na e disseram que era a continuação de 1965. Uma outra pessoa diz: Os últimos dias concentraram meses. Uma outra pergunta: O que é vai acontecer agora? E responde-se a si mesma: tudo depende de nós.
Oh oh, pessoal, eles estão a chegar. Entrem nas casas. (As pessoas deixam as portas abertas para que os manifestantes se possam refugiar nelas.)
Alguém diz: Eh, porque é que vocês fugiram? Ele responde: Isto não é fugir, chama-se retirada e é uma lei da guerra. De repente, eh eh, o que é que aconteceu? O que é que se passa?

Brigadas de milicianos da Basij em motorizadas e armados de paus e bastões percorrem as ruas de Teerão à procura de manifestantes no centro de Teerão, a 14 de Junho de 2009
(Foto: REUTERS/Stringer)

Eles estão a espancá-los! Espancaram três deles! Quem são ‘eles’? Eles estão a espancar as pessoas? Não, nós estamos a espancá-los! As pessoas apanharam três motociclistas [atacantes da Basij] e deram-lhes uma boa sova.
A excitação chega ao céu.
Eles merecem isso. É o que se deve fazer.
As palavras de ordem «Morte a Khamenei» fazem estremecer a rua. Alguém diz: é o fim. Estas palavras querem dizer o fim disto.

Ponte Sattar Khan, por volta das 20h
As pessoas e as forças de segurança estão a lutar de muito perto.
Pessoal, enfrentemos os que escreveram nos seus escudos: «Protectores da segurança do povo. Ajudantes do Líder.»
Alguém diz: «Eles são apenas pobres coitados. Eles são como nós.» Uma outra pessoa diz: «Eles vieram para nos matar!» Uma rapariga fica seriamente ferida. As pessoas levam-na para longe das escaramuças e escondem-na numa casa. Alguém vai chamar um médico. Chegam notícias de que a carrinha que aí vem traz dois dos nossos feridos. Abram caminho para que os possamos levar para algum lugar seguro antes que sejam presos! Toda a gente se afasta.

Aria Shahr (Praça Sadeghiye), por volta das 21h
Uma torrente enfurecida de pessoas flui através da praça e das ruas. Há fogueiras em todo o lado. Gritos de «Morte aos ditadores!» fazem estremecer a praça. As forças de repressão estão impotentes. Continuam a lançar gás lacrimogéneo. As pessoas ajudam-se umas às outras. Ensinam umas às outras como contrariar os efeitos do gás lacrimogéneo. Abraçam-se umas às outras. Beijam-se umas às outras. Apertam as mãos. Um sentimento de calor toma toda a gente. Um sentimento de satisfação. De resistência e luta. O orgulho de não se renderem.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese