Reunião de Londres contra a Operação Caçada Verde na Índia
4 de Julho de 2011. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Vista geral da reunião de Londres de 12 de Junho de 2011.
(Foto: Martin Travers)

A 12 de Junho decorreu em Londres um importante evento político que ajudou a fortalecer os laços locais de solidariedade internacional e apoiar uma importante luta revolucionária que está ter lugar na Índia. A reunião que teve lugar na Friends House, no centro da cidade, era contra a brutal guerra de contra-insurreição que está a ser levada a cabo pelo governo indiano, a Operação Caçada Verde, que já implicou o envolvimento de um grande número de forças paramilitares e militares. Muita da luta está concentrada em zonas rurais remotas habitadas por milhões de membros dos desesperadamente pobres povos tribais da Índia, chamados adivasis, cujas terras estão a ser vendidas pelo governo indiano a grandes empresas mineiras. O governo indiano tem declarado que a guerra visa a insurreição revolucionária liderada pelo Partido Comunista da Índia (Maoista), com o primeiro-ministro a afirmar que os maoistas representam a «ameaça número um à segurança nacional» do país.

A Operação Caçada Verde tem sido acompanhada de um ataque aos direitos democráticos que tem tido como alvo em todo o país os activistas das liberdades civis, os revolucionários e a comunicação social oposicionista, incluindo uma série de leis repressivas cujos nomes são muito reveladores: a Lei de Prevenção de Actividades Ilícitas (UAPA), A Lei de Poderes Especiais para as Forças Armadas (AFSPA) e a Lei das Zonas Perturbadas. Não é de surpreender que o número de presos políticos na «maior democracia do mundo» tenha aumentado abruptamente.

Os principais oradores na reunião: Jan Myrdal, Kolash (Fórum de Solidariedade Nepal na Europa) e a escritora e activista Arundhati Roy.
(Foto: Martin Travers)

A reunião de Londres foi por isso uma importante forma de juntar pessoas na Grã-Bretanha para tomarem uma posição contra tudo isto, e para divulgar a realidade de acontecimentos que têm sido largamente escondidos pela maior parte da comunicação social de todo o mundo. A sala estava quase cheia – os principais organizadores, o Comité Internacional de Oposição à Guerra Contra o Povo da Índia (ICAWPI), relataram terem estado presentes 500 pessoas. Apareceu um grande número de pessoas da comunidade sul-asiática de Londres. A reunião também atraiu activistas de todo o norte da Europa.

A sessão começou com um pequeno vídeo que tinha sido montado por realizadores e músicos indianos e que mostrava a realidade da batalha que está a ter lugar nos campos da Índia. A seguir, um representante do ICAWPI enquadrou a situação e apresentou os oradores. Jan Myrdal, que falou em primeiro lugar, produziu recentemente um trabalho sobre a luta na Índia intitulado Estrela Vermelha Sobre a Índia, um título que evoca o famoso relato da revolução chinesa liderada por Mao Tsétung, Estrela Vermelha Sobre a China, que atraiu a atenção do mundo para essa revolução.

Myrdal defendeu que a luta nos campos da Índia é a mais ampla insurreição de povos nativos desde os tempos de Cristóvão Colombo, e que a importância dela não deve ser menosprezada pelos revolucionários e progressistas. Deu detalhes de recentes viagens às zonas da guerrilha, e falou sobre a forma como as forças insurgentes estão a tentar construir o que ele chamou de «infra-estruturas verdes», como parte dos seus esforços para mudarem o mundo, em clara oposição à dinâmica criada pelas relações neocoloniais que predominam no Terceiro Mundo, e em particular na Índia onde as empresas mineiras pilham o povo e os recursos naturais. Ele também salientou os embriões de solidariedade internacionalista com a luta nos campos da Índia que estão a crescer em todo o mundo.

A audiência. (Foto: Martin Travers)

Estava previsto que falasse Basanta, um dirigente do Partido Comunista Unificado do Nepal (Maoista), mas ele não conseguiu viajar e enviou uma curta mensagem em que salientou a necessidade do reconhecimento de que a terra e os recursos são legalmente propriedade das massas populares desses países e que isso faz com que seja necessário dar à campanha de solidariedade internacional um carácter anti-imperialista, de forma a unir as pessoas contra o seu inimigo comum.

O orador seguinte, o camarada Kolash do Fórum de Solidariedade Nepal na Europa, falou dos laços que unem as massas populares da Índia e do Nepal, e de como elas enfrentam um inimigo comum, o expansionismo indiano. Descreveu alguma da história do domínio do Nepal pela Índia, e em particular a série de tratados desiguais que permitiram à Índia ficar com a parte de leão da mais importante fonte de energia do país, a energia hidroeléctrica gerada pelo escoamento das montanhas dos Himalaias. Salientou como, apesar do derrube da monarquia no Nepal e do estabelecimento de uma democracia parlamentar, a Índia tem insistido em continuar a impor esses tratados desiguais, e também tem intervindo repetidamente para objectar a um desenlace revolucionário para o processo político que há muitos anos está a ser liderado pelos maoistas.

Arundhati Roy dirige-se à audiência. Em finais de 2009, Roy passou 3 semanas com as guerrilhas maoistas indianas nas suas zonas libertadas no estado indiano de Chhattisgarh. Essa experiência proporcionou-lhe «alguns dos momentos mais incríveis da minha vida». (Foto: Martin Travers)

Entre cada intervenção foram lidas mensagens de solidariedade de várias organizações, entre as quais da Turquia, Canadá e Itália.

A última oradora tinha sido ansiosamente aguardada e recebeu uma entusiástica saudação: Arundhati Roy, a conhecida autora e activista indiana que lançou recentemente um novo livro Broken Republic [República Despedaçada] que inclui o seu recente relato intitulado «Caminhando com os Camaradas», sobre as três semanas que ela recentemente passou nas florestas da Índia com os guerrilheiros maoistas.

Roy expôs vivamente o que a democracia na Índia significa para os mais oprimidos, entre os quais os mais de 400 milhões de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. Descreveu como a democracia indiana é uma reserva exclusiva das castas mais altas, dos ricos e poderosos, e que não se estendia às vastas massas de dalits («intocáveis») e adivasis pobres, nem aos mais firmes opositores à actual situação. Esclareceu o seu estatuto de celebridade, comentando ironicamente quantas vezes tinha ouvido a expressão «autora galardoada com o Prémio Booker pelo [livro] O Deus das Pequenas Coisas».

Um membro da audiência desafiou-a, alegando que em muitos lugares as pessoas não podiam andar a criticar o seu país como ela fazia em relação à Índia. Roy respondeu que é verdade que há países onde não a deixariam escrever o seu mais recente trabalho, mas também é verdade que se ela não fosse Arundhati Roy, a autora de um romance galardoado com o Prémio Booker, já estaria na prisão – que muitos outros que não estavam a fazer nada a não ser dizer o mesmo que ela, já lá estavam. Isso dá-lhe uma importante oportunidade e responsabilidade. E ela própria já tem estado sob ataque: a casa dela foi bombardeada com pedras por manifestantes reaccionários furiosos com a declaração dela de que Caxemira, uma província disputada entre o Paquistão e a Índia, tinha direito à autodeterminação, e o governo indiano estava actualmente a ponderar se a iria acusar de sedição pelas declarações dela.

No que diz respeito aos esforços do governo indiano para atacar os maoistas como «agitadores externos», ela disse: «É impossível distinguir os maoistas dos adivasis: 90 por cento dos guerrilheiros maoistas são adivasi, a resistência deles é mais velha que o movimento maoista, mas não seria o que é hoje sem a acção dos maoistas. Por sua vez, os maoistas não são iguais aos de há 40 anos; eles e a luta deles não seriam o que são hoje sem os adivasis». Descreveu os sentimentos que despertaram nela quando dormiu nos acampamentos da guerrilha, a céu aberto, no que ela descreveu como um «hotel de mil estrelas».

Um importante ponto de controvérsia que surgiu muitas vezes durante a viagem dela a Londres foi o uso de violência pelas forças revolucionárias. «Eu já não condeno isso», disse ela ao jornal Guardian, numa entrevista antes da reunião. «Se você fosse um adivasi que vivesse numa aldeia da floresta e aparecessem 800 CRP [Polícia Central de Reserva] e cercassem a sua aldeia e começassem a queimá-la, o que é que você devia fazer? Devia entrar em greve de fome? Será que um faminto pode entrar em greve de fome? A não-violência é uma peça de teatro. Precisa de uma audiência. O que é que se pode fazer quando não se tem nenhuma audiência? As pessoas têm direito a resistir à aniquilação.»

Roy destacou a importância das mulheres na luta revolucionária. Salientou que muitas organizações feministas nas cidades indianas trabalham com as ONGs na oposição à opressão das mulheres, mas ignoram o que está a acontecer nos campos. Em particular, ela apelou a que elas denunciassem as violações e o terror que estão a ser usados contra as mulheres rurais como parte da guerra de contra-insurreição do exército.

Houve um espírito de debate apaixonado sobre estes e outros temas cruciais que a luta revolucionária na Índia enfrenta, incluindo por parte de muita gente que na Grã-Bretanha se opõe ao apoio que o governo britânico está a dar ao estado indiano. Foram levantadas muitas questões no decurso do período de perguntas e respostas que requeriam uma maior análise, incluindo em particular o papel dos comunistas e da democracia. No penúltimo livro dela, Listening to the Grasshoppers [Ouvindo os Gafanhotos] Roy acusou Mao de genocídio e um jovem na audiência perguntou-lhe como podia ela apoiar os maoistas ao mesmo tempo que defendia que Mao cometera genocídio. Quando o jovem foi recebido por um coro de gritos e assobios, Roy interveio e defendeu que essa era uma questão importante que devia ser debatida – e realmente é, e não menos com a própria Roy, porque por trás da pergunta desse jovem estão questões fundamentais sobre se é necessário derrubar o capitalismo e se todo um mundo novo, livre da exploração e da opressão, poderá alguma vez ser alcançado. Ignorar estas questões, num mundo onde o comunismo tem sido há décadas alvo de uma intensa propaganda, não é uma opção para ninguém que de facto queira eliminar a raiz da opressão. Mas, de uma forma global, a reunião terminou com um espírito de solidariedade internacionalista, e uma fome de se ir mais fundo em questões vitais como as que foram levantadas.

A reunião terminou com o representante do ICAWPI a apelar às pessoas que se envolvam numa série de esforços, entre os quais uma campanha recentemente lançada em defesa dos membros do Comité Central do Partido Comunista da Índia (Maoista) que foram encarcerados, bem como de outros presos políticos, e uma conferência internacional que terá lugar em breve.

Arundathi Roy e o Professor Amit Bhaduri foram oradores numa reunião com a presenla de mais de 600 pessoas de oposição à Operação Caçada Verde que teve lugar a 5 de Março na Universidade Jawaharlal Nehru em Delhi. Para um relato dessa participação, ver a publicação People's March, Abril-Maio-Junho de 2011, disponível em BannedThought.net.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese