Índia: Médicos Sem Fronteiras proibidos em aldeias do Chhattisgarh
8 de Setembro de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

No que foi concebido como uma acção de contra-insurreição, o governo do estado indiano do Chhattisgarh, na Índia central, onde os maoistas estão a liderar os camponeses tribais numa rebelião armada, disse aos Médicos Sem Fronteiras (Médecins sans frontières – MSF) que deixassem de fornecer ajuda médica e humanitária às aldeias tribais, segundo relatava a 8 de Agosto o jornal Asia Tribune, a partir de notícias veiculadas pelo jornal Daily Chhattisgarh. Em vez disso, as autoridades querem que a organização forneça ajuda somente aos campos controlados pela Salwa Judum, um movimento paramilitar patrocinado pelo estado.

O Partido Comunista da Índia (Maoista) tem estado activo na cintura tribal (adivasi) e noutros locais da Índia desde o início dos anos 70. A crescente força do movimento camponês armado das zonas florestais remotas tem enfrentado um sério desafio desde 2005, altura em que surgiu a Salwa Judum. Desde então, dezenas de milhares de indígenas têm sido forçados a abandonar as suas aldeias e florestas para viverem em esquálidos campos tipo prisão perto das estradas sob o olhar atento das autoridades. Este sistema inspira-se nas “aldeias estratégicas” com que os EUA tentaram “secar o oceano” de camponeses onde os revolucionários vietnamitas “nadavam como peixes” e onde iam buscar muito do seu apoio.

A organização de ajuda médica e humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras fornece ajuda médica urgente a qualquer pessoa que dela necessite em aldeias remotas onde nem o próprio governo está presente, nem fornece serviços médicos ou outros. É esse, aparentemente, o seu crime.

Dizia o Asia Tribune: “O Cobrador do Distrito de Dantewada, K. R. Pisda, falando à comunicação social, explicou que o governo pediu aos MSF que restringissem as suas actividades aos campos de ajuda controlados pela Salwa Judum. As acusações contra os MSF baseiam-se na alegação de que a organização dá cuidados médicos a feridos naxalitas [os revolucionários liderados pelos maoistas] nas zonas remotas do Dantewada. Além disso, um dos seus voluntários, Kamlesh Paikara, foi acusado de ajudar jornalistas a obterem contactos e entrevistas com rebeldes maoistas feridos. Kamlesh Paikara nega essas acusações... Os MSF deixaram de estar autorizados a fornecer ajuda médica às aldeias afectadas pelo movimento naxalita.”

Respondendo às acusações do estado, uma porta-voz dos MSF replicou: “Nós mantemos a neutralidade fornecendo tratamento médico nos campos para pessoas deslocadas no distrito de Dantewada, situado no sul do Chhattisgarh. As equipas médicas também fornecem serviços móveis de saúde e apoio nutricional aos que deles necessitam nas zonas rurais remotas.” Ela negou explicitamente que os MSF, agraciados em 1999 com o Prémio Nobel da Paz, apoiem a revolta camponesa ou que tomem partido de alguma forma. “Surpreendentemente, a situação no Chhattisgarh é apenas um dos vários conflitos armados que há vários anos ocorrem em toda a Índia, com civis apanhados entre os vários lados em conflito. Como consequência, muitas pessoas continuam a viver numa atmosfera de medo e violência com pouco ou nenhum acesso a cuidados de saúde. Os MSF têm fornecido serviços médicos gratuitos aos povos indígenas atingidos pelo conflito nos campos e aldeias desde 2006.”

O artigo do Asia Tribune explica: “Os peritos dizem que este acto mais recente do governo do Chhattisgarh é apenas mais um passo numa estratégia mais vasta que visa forçar os adivasis que ficaram nas aldeias remotas a juntarem-se à Salwa Judum e aos seus campos. Durante os 60 anos que passaram desde a independência, as quase 1400 aldeias das zonas mais remotas do Dantewada nunca foram beneficiadas pelos serviços governamentais de saúde. O objectivo é trazer esses camponeses para os campos de ajuda, negando-lhes acesso aos serviços de saúde, água e alimentação nutritiva. Fontes locais confirmaram que nunca houve quaisquer instalações governamentais de cuidados de saúde em muitas aldeias distantes. Os camponeses acusam o governo de estar a empurrá-los para fora das suas florestas e para esses campos, ao impedirem deliberadamente a actividade dos MSF... O Sr. K. R. Pisda confirmou que os MSF foram proibidos... Foi pedido aos MSF que trabalhassem apenas nos 25 campos de ajuda.”

O jornal cita Nandini Sundar, um investigador que disse que esta proibição de cuidados médicos numa zona de guerra é uma violação da Convenção de Genebra, de que a Índia é um estado signatário.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese