NOTÍCIAS DOS MAOISTAS INDIANOS

Reproduzimos aqui a tradução de vários artigos do Serviço Noticioso da revista "Um Mundo A Ganhar", sobre duas organizações maoistas indianas.

Uma Visão da Imprensa Indiana Sobre Um Grupo Maoista
7 de Julho de 2003. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Os seguintes artigos sobre o Centro Comunista Maoista (Índia) são reproduzidos na sua totalidade do Times of India (30 e 31 de Maio de 2003), o diário de maior circulação do país, com explicações nossas entre parênteses. O Centro Comunista Maoista (Índia) é um dos dois partidos indianos participantes no Movimento Revolucionário Internacionalista (MRI). O outro é o Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista) Naxalbari. O CCMI e o Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista) (Guerra Popular) têm zonas libertadas revolucionárias com milhões de pessoas em vastas áreas rurais da Índia. [Ver artigo anexo sobre o PCI(ML)(GP).] Por causa da insurreição armada camponesa que começou na aldeia de Naxalbari e se espalhou por toda a Índia nos anos 60, dando origem ao movimento maoista na Índia, os meios de comunicação social indianos chamam frequentemente todos os revolucionários maoistas de naxalitas. Os títulos são do Times of India.

Polícia Procede a Demolição de Projectos Naxalitas

Giridih: Caso 1: a Polícia apareceu em Chowk (Palamu), numa manhã do passado mês de Junho. O seu objectivo: demolir uma represa construída pelo Centro Comunista Maoista. Foram presos mais de 200 aldeões, por participarem num "projecto extremista". Um mês mais tarde, a polícia levou a cabo duas operações semelhantes, em Tukti (Chatra), e depois em Jeridiha (Giridih). Também aqui foram presos aldeões por participarem nos projectos.

Caso 2: Em Maio de 2001, a polícia destruiu uma escola primária em Mania (Palamu) e outra em Giridih. Eram do CCM. "As escolas foram reconstruídas e nós ainda estamos as dirigimos. Mas reparem que o governo até [ataca] escolas. Nós não ensinamos aos alunos a arte de fazer bombas!", afirmou Amaresh, dirigente do Comité Krantikari Kishan (CKK), liderado pelo CCM. Com efeito, escolas como estas - bem como represas, lagoas e pontes construídas pelo CCM - foram transformadas em alvos pela administração, de modo a restringir a crescente influência dos naxalitas em Jharkhand. Mesmo centros de educação para adultos, dirigidos pelo CCM, foram assinalados como alvos.

"Nas escolas governamentais, nós asseguramos que os professores tenham formação regularmente. Onde as escolas foram instaladas por nós, pagamos 200 rupias por mês como salários dos professores, além de lhes fornecermos arroz e legumes. Onde for necessário, o partido também fornece livros para os estudantes", disse Amaresh. Mas não há nenhum plano imediato para redefinir o programa. "Isso será feito assim que construirmos ‘bases de apoio' [áreas revolucionárias onde o povo tem poder político]."

De onde vem o dinheiro? Marandi, um membro do comité especial da zona de Bihar-Jharkhand-Bengal do CCM, diz que um "imposto" recolhido aos empresários é a principal fonte. Em áreas onde o CCM confiscou terra aos zamindars [proprietários feudais de terras e tiranos] e a distribuiu entre os aldeões, um terço do produto da terra, pomares e lagoas vão para o CKK, como imposto.

Os empresários envolvidos na construção de estradas e pontes têm de pagar 20 por cento do custo dos projectos ao CKK. No caso de represas, o imposto é 10 por cento. Os comerciantes de folhas de Kendu têm de pagar 60 rupias por cada 1000 embalagens de folhas. O CCM proíbe o abate de árvores nas florestas. Os empresários só podem cortar árvores velhas para não destruírem a floresta. São colectados impostos sempre que se derrubem árvores permitidas. Também foram criados impostos para as companhias de transporte que operam nas zonas controladas CCM. Mesmo a venda de carvão local é taxada, diz.

Para que precisa o CCM de tanto dinheiro, para além das actividades de desenvolvimento? "O grosso dos gastos é com a compra de munições. Espingardas e LMGs [armas automáticas] são confiscadas à polícia. Mas a maioria das munições e dos explosivos tem de ser comprada, disse "Marandi".

Extremistas ou Vanguarda da Justiça Rural?

Giridih: A enorme mansão branca, verde e vermelha ainda pode ser transformada num museu. Mas o edifício está em condições miseráveis. As paredes de dois lados já caíram. O pátio de mármore desfez-se em pedaços.

A mansão pertencera a Janardan Singh, o rajá [governante feudal] de Vishalgarh em Hazaribagh. Há quatro anos, um grupo de cerca de 100 naxalitas, todos pertencentes ao Centro Comunista Maoista (CCM) invadiu a casa e fê-la explodir com dinamite. Singh e os seus familiares tinham-se apercebido da situação e fugido antes da sua chegada. Todas as suas terras foram então distribuídas entre os aldeões. A cerca de 30 quilómetros de distância, em Uttargopali (Giridih), houve outrora uma mansão semelhante, que pertencia a Baijnath Barnwal, o zamindar local. Aqui a dinamite do CCM e a fúria popular contra o zamindar foram ainda mais fortes. Agora, nada resta da casa e os seus 600 acres de terra também foram distribuídos entre os aldeões.

"As raparigas que casassem com algum rapaz desta aldeia tinham de passar as suas primeiras noites com o zamindar. Essa era a regra. Os rapazes que fugiam para outros lugares após o casamento, eram quase sempre localizados, trazidos de volta à aldeia e espancados sem piedade", relembra Shiv Mahato (nome alterado) de 70 anos de idade, da aldeia de Marmu, em Vishalgarh.

"Trabalhei nas suas terras como trabalhador sem-terra durante muitos anos. Mas aquele pedaço de terra fora originalmente do meu avô. Foi-lhe roubado pelo pai de Janardan", disse Dukhan Mahato (nome alterado).

Dukhan é agora um membro activo do Comité Krantikari Kishan (CKK), dirigido pelo CCM. O CKK distribuiu toda a terra de Janardan entre os sem-terra. Como membro do CKK, o trabalho de Dukhan é assegurar que todas as escolas locais sejam correctamente mantidas e que os médicos vão regularmente aos centros de saúde. "Ainda seguimos o programa que havia anteriormente nas escolas. Mas estamos a planear abandonar o programa burguês e rescrevê-lo", disse Jitu Bhuyan (nome alterado), secretário do CKK local.

Um tal governo paralelo dirigido pelo CCM está continuamente a criar raízes em grandes partes de Jharkhand. Com as escolas, os hospitais e virtualmente todos os trabalhos de desenvolvimento controlados e supervisionados pelo CKK, o governo de Arjun Munda parece impotente.

(Para mais informações, veja o SNUMAG de 17 de Fevereiro de 2003, "Organizações Maoistas Unem-se na Índia", e vários artigos da revista "Um Mundo A Ganhar", em www.aworldtowin.org).

Um Partido Maoista Indiano aos Olhos da BBC
7 de Julho de 2003. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Recentemente, a BBC divulgou uma importante peça sobre o Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista) (Guerra Popular). Seguem-se alguns excertos.

"Os Estados Unidos são os terroristas número um e o Banco Mundial é inimigo dos pobres." Esta foi a declaração de abertura de um dirigente sénior da organização rebelde maoista, o Grupo Guerra Popular (PWG).

Malkapuram Bhaskar, cujo pseudónimo é Chandranna, continuou: "O governo direitista do BJP na Índia está a dançar segundo a melodia dessas forças e está a tentar esmagar os todos movimentos populares no país - mas não terão êxito."

O PWG foi por duas vezes proibido pelo governo federal e é considerado uma das mais poderosas e temidas organizações rebeldes maoistas do mundo.

Chandranna estava com Sheshu - cujo pseudónimo é Jagan - o comandante-chefe da ala militar do PWG, o Exército de Guerrilha Popular.

"No passado, tentaram por duas vezes esmagar a nossa organização, mas falharam e agora um terceiro ataque está em curso, mas nós vamos ultrapassá-lo e derrotá-los", disse Chandranna.

Referia-se a uma série de operações do governo do Andhra Pradesh, nas quais foram mortos vários dirigentes de topo do grupo maoista que existe há 23 anos.

Chandranna e Jagan disseram que não estavam preocupados com o aumento da actividade policial.

"A morte de alguns dirigentes não significa que toda a organização tenha sido destruída", disse Chandranna.

Quando me decidi a uma longa e entediante jornada a pé pela selva, para conhecer os dois homens, eu pensava nos relatos sobre vínculos entre o PWG e os maoistas do Nepal.

"Sim, estabelecemos vínculos com o Partido Maoista do Nepal. Em conjunto, nós e dez outros partidos maoistas de países da Ásia meridional criámos o Comité de Coordenação de Partidos Maoistas da Ásia do Sul (CCOMPOSA)", disse Chandranna.

Além da Índia e do Nepal, os maoistas do Bangladesh e do Sri Lanka fazem também parte do CCOMPOSA.

O PWG nasceu no distrito de Karimnagar, no estado indiano do Andhra Pradesh, em 1980.

"Hoje em dia, a nossa organização já não se restringe ao Andhra Pradesh", disse Chandranna, que desmente as declarações governamentais de que o grupo está a enfraquecer. "Actualmente, nós estamos activos em 14 estados do país."

Disse que tinham milhares de membros e relações muito chegadas com o Centro Comunista Maoista (CCM) do Bihar.

Mas Chandranna refutou veementemente alegações de que o PWG está ligado à agência paquistanesa Inter-Serviços de Inteligência.

"Isso é propaganda sem qualquer fundamento. Nós, comunistas, temos uma ideologia diferente e não temos relações com governos ou com agências de espionagem", disse.

"Esta não é uma verdadeira democracia. É uma falsa democracia, na qual o poder do dinheiro tudo decide." A atmosfera no esconderijo da floresta sugere que o PWG não está debilitado.

"Não há nenhuma escassez de armas. Algumas delas foram confiscadas por nós nas esquadras da polícia e algumas foram fabricados por nós", disse Jagan.

Apenas alguns dias antes, os homens do PWG tinham levado a cabo um ataque a uma esquadra da polícia e capturado 24 armas e 2000 cartuchos de munição. Os ataques têm continuado desde então. (Fim do relato da BBC).

O PCI (ML)(GP) tem dirigido uma luta armada de resistência contra o sistema semifeudal e semicolonial da Índia, há quase 25 anos. No decurso dessa luta, milhares de líderes revolucionários, quadros e populares sacrificaram as suas vidas pela Revolução. O partido organizou as massas mais oprimidas e marginalizadas, os adivasis (povos indígenas), especialmente os camponeses pobres e sem-terra, no estado indiano do Andhra Pradesh e lutou contra o poder estatal indiano. No decurso dessa luta contra o estado, o partido estabeleceu zonas revolucionárias em Telangana e Dandakaranya. Estas zonas situam-se na Índia central. O partido tem uma presença e reputação revolucionárias em quase todo o país. Quanto mais o GP tem organizado o povo e as forças revolucionárias, mais o governo indiano tem agido de um modo fascista, que incluiu o assassinato de dirigentes capturados, a proibição do partido e a utilização da "detenção preventiva". Tirando partido das contradições entre o GP e o Centro Comunista Maoista da Índia (CCMI), o estado tem tentado sistematicamente difamar os revolucionários entre as massas indianas. Mas agora que ambos os partidos criaram um entendimento mútuo de unidade revolucionária e corrigiram os conflitos do passado, o estado indiano está desanimado.

O PCI (ML)(GP) tem retirado terra aos proprietários e tem-na distribuído entre os camponeses sem-terra. Estabeleceram tribunais populares e as disputas entre o povo são resolvidas dentro das aldeias de um modo democrático e popular.

O governo indiano colecta impostos nessas áreas, incluindo sobre os produtos florestais que as pessoas vendem nos mercados para seu sustento. Mas por causa dos interesses da classe burocrata capitalista dominante, o governo indiano tem gasto quase todo o orçamento nacional nas áreas urbanas, e a população rural é completamente privada e deixada de fora do desenvolvimento. O PCI (ML)(GP) organizou o povo para levar a cabo actividades socialmente construtivas, como construir lagos de reserva de água e canais para irrigação, estradas e serviços de saúde pública. Do mesmo modo, também foram abertos centros de educação. São tomadas medidas para lutar contra a ameaça da fome. Estes passos ilustram a relação de "peixe na água" entre os revolucionários e o povo e flui da compreensão que o partido tem dos assuntos políticos centrais (os objectivos e a via da revolução na Índia) e da aplicação da ideologia maoista.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese