Haiti: Um surto de cólera e revolta

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 22 de Novembro de 2010, aworldtowinns.co.uk

À medida que aumentam as mortes por cólera, os haitianos estão a ficar mais furiosos que nunca. E têm boas razões para isso.

Os protestos têm visado o governo e sobretudo o principal pilar da ordem pública, as tropas da ONU que ocupam o país desde 1993.

Uma série de protestos violentos começou a 15 de Novembro na segunda maior cidade do país, Cap-Haïtien, no norte do país, onde a doença atacou matando centenas de pessoas durante a noite e muito rapidamente. Segundo a Agence Haïtienne de Presse, milhares de residentes saíram às ruas. Os manifestantes bloquearam as estradas com caixões, bem como pneus em chamas, grandes pedregulhos e entulho. Quando atacaram duas bases das tropas da ONU com pedras e garrafas, foram recebidos com tiros de armas automáticas que mataram pelo menos dois manifestantes.

As tropas da ONU e a polícia haitiana dispararam salvas de gás lacrimogéneo numa universidade e algumas das latas chegaram aos campos de barracas vizinhos. O sítio internet de jornalismo independente do Haiti, Mediahacker.org, relatou que as tropas ignoraram os pedidos das famílias para que parassem de disparar. Como resposta às alegações das autoridades e da comunicação social estrangeira de que os manifestantes eram membros de quadrilhas de jovens, noticiava que “estão a participar elementos de toda a sociedade”.

As manifestações que se seguiram foram não violentas e não houve nenhum relato de ataques a trabalhadores de saúde das ONGs que operam a partir de um único campo num estádio desportivo no centro da cidade. Mas esses trabalhadores receberam ordens para se manterem nos seus locais de habitação. Todos os trabalhos e abastecimentos de emergência cessaram durante quase uma semana.

Durante os dias seguintes também houve batalhas em Grande Rivière du Nord, Limbe e sobretudo na cidade de Hinche, na região do planalto central, onde os manifestantes incendiaram totalmente duas esquadras da polícia e as tropas da ONU feriram 15 pessoas. Por todo o lado, surgiram apelos à retirada da MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti).

As manifestações de 18 de Novembro convocadas para a capital no aniversário da batalha decisiva da revolução dos escravos haitianos contra o exército colonial francês também se transformaram num confronto com a polícia e os soldados da ONU. Durante os protestos do dia seguinte, as pessoas gritaram “A MINUSTAH e a cólera são gémeas” e tinham cartazes que diziam “MINUSTAH = Cólera”.

Quer as tropas da ONU sejam ou não a fonte da epidemia, a forma como esses agentes e outras autoridades têm lidado com a situação tem mostrado que eles são uma praga para as pessoas.

Embora haja uma epidemia de cólera que se tem propagado por todo o mundo durante as últimas décadas, há muito tempo que não havia um único caso no Haiti, se alguma vez houve. Isto quer dizer que, ao contrário do Sul da Ásia, ninguém no Haiti adquiriu uma imunidade natural à doença. Antes de ter começado em Outubro, os responsáveis da ONU recusaram-se a dar atenção às queixas das pessoas que vivem ao longo do Rio Artibonite de que os esgotos de um campo da ONU estavam a poluir a sua água potável (Jonathan Katz, Associated Press, 19 de Novembro de 2010). Quando a cólera chegou, pouco depois de ter chegado um contingente de tropas do Nepal, os responsáveis recusaram-se a verificar as suspeitas das gentes locais de que a infecção vinha das latrinas da ONU. Foi ao longo das margens desse rio que a tempestade de cólera começou e acumulou muita da sua mortal força inicial.

Desde o início da epidemia, todos os comunicados da Missão da ONU têm acabado por se revelar serem mentira ou enganadores. O sistema de esgotos do campo que eles alegaram estar seguramente isolado e ter sido recentemente vistoriado segundo os padrões de saúde pública norte-americanos e internacionais da ONU revelou ser uma fossa fedorenta. Transbordava para um ribeiro vizinho, enchendo-o com o que um jornalista da Associated Press disse parecerem ser e cheirar a excrementos. Foi só quando ele chegou ao local, cinco semanas após o início da crise sanitária, que foi feito alguma coisa para a resolver.

A alegação de que os soldados não podiam ter sido os portadores da doença porque nenhum deles estava doente foi exposta como disparate científico – os peritos dizem que em três quartos das pessoas contagiadas os sintomas nunca se manifestam. Os alegados testes ambientais de cólera no campo foram de fraca qualidade. Durante um mês alegou-se que os testes da doença aos soldados tinham sido negativos e depois soube-se que eles ainda não tinham feito testes. Parece que a MINUSTAH considera a sua missão de manter a estabilidade política mais importante que a sobrevivência dos haitianos comuns.

O mesmo padrão repetiu-se com as mortes de três manifestantes durante a terceira semana de Novembro. Os responsáveis da missão da ONU começaram por dizer que eles tinham sido mortos por pedras atiradas por outros manifestantes e depois que a polícia haitiana tinha disparado sobre eles, antes de acabar por conceder que tinham sido atingidos por armas automáticas da ONU (Haïti Liberté).

Para muitos haitianos, o sofrimento levado pela ONU são notícias antigas. Há relatos constantes de as tropas da ONU matarem manifestantes e sobretudo de actuarem com uma brutalidade assassina contra os jovens dos bairros pobres de Port-au-Prince. Há três anos, todo um contingente de 114 “Capacetes Azuis” foi mandado embora por terem abusado sexualmente de mulheres e jovens.

Mesmo ainda antes disso, uma investigação publicada na internacionalmente reputada revista médica The Lancet (2 de Setembro de 2006) acusava essa “polícia, paramilitares [bandos armados ligados ao já dissolvido exército] e soldados estrangeiros de estarem implicados” na vaga de violações e assassinatos que têm martirizado as pessoas depois do golpe de estado patrocinado pelos EUA que derrubou o Presidente eleito Jean-Bertrand Aristide. Dos 8000 assassinatos que ocorreram na capital nesse período de 22 meses, “quase metade dos criminosos identificados eram forças governamentais ou intervenientes políticos externos”. Numa sondagem a habitantes de Port-au-Prince, “14 por cento dos inquiridos acusaram os soldados estrangeiros, incluindo os que usam uniforme da ONU, de os ameaçarem com violência sexual ou física, incluindo a morte”.

Isto não é algo específico de nenhum contingente de soldados da ONU de nenhum país em particular. Brutalizar as pessoas é inerente à sua missão. Os EUA têm enviado repetidamente dezenas de milhares de tropas para o Haiti desde há quase um século, incluindo quando Aristide foi derrubado e mais recentemente após o sismo de Janeiro passado, e estão prontos para intervir de novo quando for preciso. Mas desta vez Washington trouxe a ONU como principal força armada para policiar o povo haitiano. Não é de admirar que, para países como o Nepal, fornecer tropas para missões da ONU seja uma forma de treinarem em contra-insurgência.

Que evidência alguma vez houve de que as tropas da ONU terem vindo como parte de um esforço internacional para ajudar o povo? Do valor total prometido em ajuda para a reconstrução após o terramoto, apenas cerca de um terço se concretizou de facto. Até agora, os EUA não entregaram um único cêntimo dos fundos prometidos para a reconstrução (bem a meio da actual crise, e depois de este facto se ter tornado um escândalo, prometeram disponibilizar em breve um décimo do dinheiro). Itália, Alemanha, Holanda, Suíça, Finlândia e o Banco Caribenho de Desenvolvimento também se revelaram mentirosos (Associated Press, 11 de Novembro de 2010). Mas, tal como salientam os haitianos, não têm nenhuma hesitação em gastar 51 milhões de dólares por mês para pagar aos 12 mil soldados e polícias da ONU.

Os apelos à ajuda de emergência passaram totalmente despercebidos quando a doença se espalhou da bacia do Rio Artibonite a todas as regiões do país e as mortes e necessidades de tratamento, bens e instalações iam aumentando rapidamente. Os países que enviam tropas só se incomodaram a enviar 5 ou 6 milhões dos 210 milhões de dólares que o pessoal médico da ONU diz serem necessários de imediato. A verdade é que o pior ainda está para vir. Um comunicado à imprensa dos Médicos Sem Fronteiras a 21 de Novembro salientava a clara contradição entre a “enorme presença de grupos internacionais” e a “inadequada resposta” à emergência: “Temos estado a tentar combater um incêndio com um copo de água”.

O que está a ser literalmente fornecido é água a copo, quando o que é preciso é uma mangueira de incêndio. Se se fornecer rapidamente às pessoas suficiente água potável limpa e com sais e açúcar, muito poucas pessoas irão morrer, se mesmo alguma. Os haitianos já viram a cólera levar-lhes quase 1500 dos seus entes queridos sem nenhuma razão que alguma vez possa ser justificada.

O director da Organização Pan-Americana de Saúde salientou que talvez nunca se possa determinar a fonte da infecção e que, de qualquer forma, isso é uma questão secundária. “Há casos de cólera que aparecem em países em todo o mundo todos os anos, incluindo aqui nos Estados Unidos. Alguns são inerentes, outros são importados. O que é importante é que a doença não se propague, desde que haja condições de saúde pública adequadas.”

A simples falta de desinfectantes e canalizações para transportar a água limpa e os esgotos é suficiente para explicar a epidemia de cólera. Entre as pessoas que sofrem a trabalhar e a salvar vidas e a instalação dessas tubagens e outras infra-estruturas está um sistema de lucro capitalista e uma ordem mundial imperialista em que um punhado de países engorda cada vez mais à custa do resto do mundo.

Os EUA têm dominado e sangrado o país desde há um século. Agora controlam-no ainda mais abertamente que nunca, embora por vezes a sua mão surja da manga de um uniforme da ONU. Em nenhuma outra coisa isto é mais evidente que na sua resposta à emergência sanitária haitiana, onde a sua principal preocupação parece ser que a agitação possa perturbar as eleições presidenciais e parlamentares agendadas para 28 de Novembro. O embaixador norte-americano disse que os EUA podem “trabalhar com” qualquer um dos 19 candidatos presidenciais. Impedido de participar nas eleições está o partido de alguém que os EUA decidiram não poderem “trabalhar com”, o ex-Presidente Aristide que os EUA derrubaram, sequestraram e mandaram para África. Os haitianos estão à espera que as forças da ONU que estão a organizar e supervisionar estas eleições actuem segundo os mesmos padrões que têm mantido até agora. Nas duas últimas eleições, só cerca de dez por cento dos potenciais eleitores viram qualquer utilidade em votar.

Uma das primeiras prioridades da “comunidade internacional” após o terramoto foi reconstruir a principal prisão da capital, a qual aloja agora 2000 presos (poucos alguma vez viram um juiz). Até agora, já morreram de cólera cerca de 13 presos e todos os outros podem estar em risco. A situação tornou-se ainda mais horrenda na prisão da região de Artibonite onde a epidemia irrompeu pela primeira vez. Isto é um símbolo do país todo, com as tropas da ONU como guardas que tentam manter a ordem e o povo desesperado por se libertar dessa mesma ordem mundial.