Haiti: “Irmão, estou a morrer”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 25 de Janeiro de 2010, aworldtowinns.co.uk

Joseph, pai de Maxo Danticat, teve um tipo de morte que ninguém merece ter, no centro governamental norte-americano Krome de detenção de refugiados na Florida.

O pastor protestante de 81 anos, portador de um visto norte-americano válido, tinha entrado legalmente nos EUA e pedido asilo político. Se fosse cubano, ter-lhe-ia sido atribuído automaticamente porque essa política serve os interesses geopolíticos dos EUA. Os haitianos são considerados de uma forma diferente. Em primeiro lugar, como os EUA têm dominado directa ou indirectamente o Haiti desde há quase um século, conceder-lhes asilo significaria uma admissão de culpa. Em segundo lugar, os haitianos são quase todos negros.

Joseph Danticat precisava de asilo devido ao que aconteceu após o golpe de estado patrocinado pelos EUA. Depois de os soldados norte-americanos terem sequestrado o Presidente eleito do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, e de o terem despejado em África, as tropas da ONU e a polícia haitiana entraram no bairro de Bel Aire em Port-au-Prince e atacaram os bandos que apoiavam o presidente. Os soldados invadiram a igreja de Joseph. Instalaram no telhado um posto para os atiradores furtivos que atingiram 15 habitantes do bairro. Joseph sabia que os membros dos bandos o culpavam pelas mortes e queriam vingar-se. Também sabia com que tipo de pessoas iria lidar se se pusesse à mercê das autoridades norte-americanas. Quando ainda era uma criança numa zona rural, tinha visto os soldados norte-americanos a arrebatar camponeses para os trabalhos forçados de construção de pontes e estradas. Um dia, viu-os a pontapearem o que a princípio pensou ser uma bola de futebol. Acabou por perceber que era uma cabeça humana.

Ele não tinha nenhuma alternativa aceitável. Mas tinha família nos Estados Unidos.

O pedido de asilo de Joseph foi imediatamente recusado. Em vez disso, enviaram-no para o infame campo-prisão de Krome, para deportação. Retiraram-lhe os medicamentos. Alguns dias depois, quando estava a ser entrevistado para um procedimento de recurso, teve o que aparentou ser uma convulsão. Vómitos começaram a escorrer-lhe da boca, do nariz e de um buraco de traqueotomia no seu pescoço. Os seus carcereiros acusaram-no de estar a fingir. A sua caixa torácica, repleta do vomitado, já não funcionava, pelo que ele não conseguia falar. Os seus carcereiros disseram ao seu advogado que ele estava a ser pouco cooperante. Quando o advogado reclamou com vigor, Joseph foi levado para uma ala do hospital da prisão. A sua sobrinha, Edwidge Danticat, uma conhecida escritora que ele tinha criado, não foi autorizada a contactar o preso. Cinco dias depois de lhe terem retirado os medicamentos, ele morreu, algemado à cama. A família enterrou-o em Nova Iorque, embora ele nunca tenha querido sair do Haiti. “Ele não devia estar aqui”, disse o irmão dele, pai de Edwidge, sobre a localização da campa de Joseph. “Se o nosso país alguma vez tivesse tido a oportunidade de ser um país como qualquer outro, nenhum de nós precisaria de viver ou morrer aqui”.

O advogado norte-americano que tentou salvar a vida de Joseph comentou nessa altura à imprensa: “Isto poderia ter sido evitado. Eles podiam ter tido mais compaixão.”

Maxo veio para os EUA com o pai e pediram asilo ao mesmo tempo. Eles estavam juntos em Krome até as autoridades norte-americanas os terem separado e mandado Joseph para uma morte em solidão. Isso aconteceu em Outubro de 2004. Depois da morte do pai, Maxo foi libertado. Com o asilo negado, acabou por regressar ao Haiti. Morreu quando a igreja do pai se desmoronou sobre ele durante o terramoto de 12 de Janeiro de 2010. “Ele não conseguiu cá ficar”, disse sobre ele a sua prima Edwidge, falando a partir de Nova Iorque, uma cidade que é, em população, a segunda ou terceira maior cidade haitiana do mundo, “e não conseguiu manter-se vivo lá”.

Compaixão é exactamente o que os EUA nunca exerceram no Haiti, tal como noutros países cuja riqueza pilhada tanto fez para enriquecer o império norte-americano. A actuação do governo dos EUA durante a terrível emergência humanitária actual é guiada pelos mesmos interesses e ideias que esmagaram o Haiti muito antes do terramoto e pelo mesmo tipo de políticas desumanas que mataram Joseph Danticat e, indirectamente, Maxo Danticat.

Quando Maxo morreu, ele estava a tentar recolher dinheiro para construir uma pequena escola na cidade de montanha de Leogane, de onde era originária a família Danticat. O terramoto matou muitos estudantes, apesar de ter ocorrido às 4h53 da tarde. Uma razão para isso é que os haitianos dão um elevado valor à educação e há poucas instituições de ensino, pelo que muitas escolas têm três turnos por dia, do amanhecer ao anoitecer.

Leogane situa-se perto do epicentro do terramoto. A cidade mais atingida no Haiti ficou isolada do mundo. Muita gente passou os dias seguintes a tentar retirar com martelos os corpos dos seus entes queridos de baixo do betão, tal como a família de Maxo em Port-au-Prince se auto-organizou para procurar os sobreviventes – a sua mulher e todos menos um dos seus cinco filhos – bem como o corpo de Maxo. Mesmo os mortos devem ser tratados com dignidade, se os vivos também a quiserem ter, um facto ignorado pelos EUA e pelas autoridades locais que interromperam as buscas nos escombros e despejaram camiões de corpos em valas comuns sem sequer registarem os seus nomes.

Um helicóptero enviado por uma organização religiosa norte-americana aterrou por breves instantes num campo perto de Leogane, cerca de dez dias após o sismo. Os jornalistas já tinham visitado a cidade, mas nenhum trabalhador humanitário o tinha feito. A aeronave foi-se embora de novo quase imediatamente. Elevou-se, circulou por cima das cabeças dos habitantes agrupados em baixo e despejou pão embalado sobre eles, como bombas. Enfurecidas, as pessoas levantaram as cabeças para o céu e gritaram: “Nós não somos cães! Somos seres humanos!” Se isto lhe parece familiar, é porque as mesmas cenas já tinham sido relatadas antes em Port-au-Prince.

Para os EUA, a ajuda ao Haiti continua a ser a base para outras considerações políticas e militares. Embora a chegada de aeronaves ao único grande aeroporto do país, controlado pelos EUA, tenha sido adaptada para permitir a chegada de mais comida, água e material médico, a chegada de soldados e equipamento militar dos EUA continua a empurrar a ajuda para o lado.

Os Médicos sem Fronteiras relataram que só foram autorizados a deixar aterrar cinco das treze remessas de carga, apesar de os materiais médicos estarem a faltar tão desesperadamente que os médicos voluntários têm feito amputações com uma serra comprada no mercado e não haja nenhum medicamento para aliviar a dor dos seus pacientes quando eles acordam após a operação. A liderança local da organização classificou essa situação como “chocante” e “uma loucura”. “A intenção é ajudar o Haiti e não ocupar o Haiti”, disse o ministro francês Alain Joyandet. Quando ele foi à torre de controlo do aeroporto, administrada pelos EUA, para os tentar convencer a deixarem passar os voos humanitários, o comandante norte-americano mandou soldados armados para o bloquearem. O chefe do serviço de protecção civil de Itália disse que os esforços dos EUA eram “uma demonstração de força verdadeiramente poderosa, mas completamente fora da realidade”.

Mesmo agora, com os fornecimentos a empilharem-se em paletes no aeroporto, a maioria deles não está a chegar às pessoas. Os soldados, marinheiros e fuzileiros norte-americanos estão a chegar aos milhares, mas poucos estão a fazer algo para ajudar as pessoas. Doze dias após o desastre, só 20 mil tendas de sobrevivência – um artigo que os exércitos e as organizações humanitárias têm disponível em enormes quantidades, pronto para utilização – chegaram às centenas de milhares de pessoas que dormem ao sol, à chuva e ao frio. O exército norte-americano diz que a sua preocupação é a segurança. Esta exagerada criação de medo também está a levar algumas grandes organizações humanitárias a manterem os seus trabalhadores longe de qualquer contacto directo com os haitianos. Eles andam pelo território em grandes veículos com as janelas fechadas e não param se houver pessoas por perto. Por vezes, atiram para o chão enormes sacos de arroz, à entrada de campos improvisados, à noite.

A maioria dos haitianos está a fazer terríveis sacrifícios para ajudar os outros. De facto, sem o envolvimento activo e consciente das massas populares haitianas, não haveria nenhuma maneira de a ajuda estrangeira poder ser usada efectivamente e para o bem das pessoas. Se os trabalhadores médicos e outros voluntários dos EUA, entre os quais estão muitos haitiano-americanos, conseguiram ir para o Haiti pelos seus próprios meios e representarem um papel vital na instalação de clínicas e hospitais de emergência, porque é que o governo dos EUA e algumas outras grandes organizações não podem fazem o mesmo? A “insegurança” mostrada na televisão tem sido a pilhagem de algumas lojas por pessoas que não têm nada e, ocasionalmente, multidões sedentas que não se alinham adequadamente quando a ajuda é distribuída gota a gota. A polícia disparou sobre crianças em defesa do princípio da propriedade privada. Os soldados brasileiros sob o comando da ONU dispararam balas reais sobre uma multidão em Port-au-Prince, quando as pessoas correram para uma coluna humanitária.

O campo de Krome em Miami, onde Joseph Danticat morreu, está de novo em funcionamento. Os actuais presos foram transferidos para outras instalações para dar espaço a uma esperada nova vaga de haitianos candidatos a refugiados. As autoridades norte-americanas anunciaram que eles serão barrados no mar ou detidos à chegada.

As alegadas preocupações de segurança que sabotam os esforços de ajuda no Haiti têm tanto fundamento como a ameaça à segurança dos EUA que supostamente representam os novos refugiados haitianos nos EUA. É intolerável que quem supostamente é responsável pela ajuda humanitária não tenha a mais ligeira compaixão.

Fontes

O livro de não-ficção da novelista haitiano-americana Edwidge Danticat, Brother, I'm Dying [Irmão, Estou a Morrer], sobre a infância dela no Haiti, a vida dos pais dela em Nova Iorque, onde trabalharam para apoiar a família que tiveram que deixar para trás, e o tio dela Joseph, o primo Maxo e o resto da família fornece uma rica e comovente imagem do Haiti e dos haitianos de hoje. (Alfred A. Knopf, Nova Iorque, 2007). Ela escreveu sobre a morte de Maxo na edição de 1 de Fevereiro da revista The New Yorker. A excelente cobertura vídeo na internet da jornalista norte-americana Amy Goodman e da sua equipa de reportagem mostra o incidente de Leogane (democracynow.org). Para um relato noticioso da morte de Joseph Danticat, ver a Black Issues Book Review, de Março-Abril de 2005. Ver também: BBC (21, 22 e 25 de Janeiro), Washington Post (20 e 25 de Janeiro), The New York Times (19 e 23 de Janeiro) e Le Monde (24 de Janeiro).