Julgamento no Peru: Camarada Gonzalo humilha o governo
8 de Novembro de 2004. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O dia da abertura do julgamento do Camarada Gonzalo (Abimael Guzmán) terminou em humilhação para o governo peruano. A próxima audiência do líder do Partido Comunista do Peru (PCP) e de 17 outras pessoas foi marcada para segunda-feira, 15 de Novembro.

O Camarada Gonzalo e os outros arguidos são acusados de usar uma escola para financiar actividades ligadas à Guerra Popular - a guerra civil revolucionária iniciada em 1980. O líder do PCP foi capturado em 1992. Desde então, tem sido mantido numa prisão subterrânea numa base naval perto de Lima, isolado do resto do mundo.

Mais de 250 jornalistas peruanos e internacionais aglomeraram-se na zona destinada à imprensa e ao público, por trás de uma divisória de vidro ao fundo da sala do tribunal. Também esteve presente a mãe de Elena Iparraguirre (Camarada Miriam), uma dirigente do PCP presa com o Camarada Gonzalo e mantida numa cela próxima da sua em El Callao, bem como os familiares de outros acusados. Às nove da manhã, entraram os acusados vindos de outras prisões. Entre eles estavam Margie Clavo (Camarada Nancy), Martha Huatay, Angelica Salas e Victor Zavala que se sentaram juntos. Ao prestarem declarações perante o juiz, a maioria disse querer ser representada por Manuel Fajardo, o advogado do Camarada Gonzalo.

Cerca de uma hora depois, o Camarada Gonzalo, Oscar Ramirez (Camarada Feliciano, líder do partido após a captura do Camarada Gonzalo e também detido em El Callao) e a Camarada Miriam entraram na sala do tribunal. Os acusados que já estavam na sala levantaram-se para os saudar e o Camarada Gonzalo abraçou-os calorosamente. A sessão continuou durante alguns minutos com os prisioneiros a falar entre si.

Nessa altura, o Camarada Gonzalo levantou-se, virou-se para a imprensa e levantou o seu punho. O juiz fez um esforço para restabelecer o seu controlo perante uma crescente agitação dos acusados e da imprensa e ordenou repetidamente à imprensa para sair. Foi ignorado. Finalmente, o Camarada Gonzalo e a maioria dos outros acusados levantaram-se, viraram as suas costas para o juiz, levantaram os seus punhos e gritaram: “Viva o Partido Comunista do Peru! Glória ao Marxismo-Leninismo-Maoismo! Glória ao povo peruano! Vivam os heróis do povo na Guerra Popular!” A princípio, a polícia, severamente criticada pelo juiz por os prisioneiros de El Callao terem chegado tarde, não respondeu às suas ordens para evacuar a sala. O próprio juiz presidente foi abafado pelos cânticos. O painel de três magistrados deixou a sala com as suas cabeças cabisbaixas, enquanto os acusados saíam a sorrir, com as suas cabeças levantadas. Tudo isso foi transmitido pelas televisões do Peru e de todo o mundo.

O juiz suspendeu o julgamento durante uma semana. Disse que o tribunal reuniria três dias por semana, esperando-se que durante cerca de um mês. Só seriam autorizados a assistir jornalistas da imprensa escrita e nenhum da comunicação social radiodifundida. Porém, houve pedidos para a mudança do juiz presidente e de outros funcionários, o que poderia implicar um atraso adicional. O presidente peruano, Alejandro Toledo, atacou o juiz numa comunicação nacional na noite seguinte. Toledo ameaçou com “julgamentos sumários”, fazendo reaparecer o espectro de algum tipo de repetição dos julgamentos secretos por oficiais militares encapuzados que condenaram o Camarada Gonzalo à prisão perpétua em 1992. É difícil exagerar a vileza com que vários governantes e figuras políticas estão a atacar-se uns aos outros sobre quem foi responsável ter ido tão longe aquilo que eles consideram ser um resultado desastroso.

Este é o primeiro do que se supõe venha a ser uma série de julgamentos do Camarada Gonzalo. As prisões de Peru ainda encarceram 1831 pessoas condenadas por “terrorismo”. Elas estão à espera de novos julgamentos porque as leis de acordo com as quais foram condenadas foram entretanto declaradas nulas por decisão do Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos. As autoridades estão preocupadas que também este julgamento não consiga resistir a nenhum escrutínio internacional.

Um ano após o Camarada Gonzalo ter sido preso, o governo divulgou um vídeo alegando tratar-se dele e da Camarada Miriam a assinar uma carta em que pediam acordos de paz. Uma linha oportunista de direita surgiu dentro do partido que defendia que, devido à captura do Camarada Gonzalo, os revolucionários deveriam abandonar a Guerra Popular, dissolver o seu Exército Popular de Libertação e os Comités Populares com que os camponeses exerciam o poder político em muitas zonas rurais e, em vez disso, tornar-se num partido político legal. A maioria dos acusados envolvidos neste julgamento foi publicamente associada a essa linha. Isso não impediu o estado peruano de tentar enterrar vivas todas as figuras e símbolos associados à Guerra Popular, independentemente das suas actuais posições políticas.

Houve apelos para castigar o Camarada Gonzalo pela sua rebeldia na sala do tribunal, tal como o próprio julgamento é uma tentativa para castigar a sua liderança da rebelião armada que obteve o apoio de milhões de pessoas. O Ministério da Justiça declarou que voltaria a impor regras rígidas em El Callao. Segundo uma entrevista ao advogado Fajardo na imprensa de Lima, essas restrições proíbem o contacto directo nas visitas. Isso significaria que o advogado só poderia falar ao seu cliente através de uma divisória de vidro e um telefone. Também ameaçaram fazer transferências punitivas da Camarada Miriam e de outros prisioneiros.

Dado que o Camarada Gonzalo esteve isolado do mundo durante tanto tempo, muita gente espera que este julgamento forneça uma oportunidade para ele expor os seus pontos de vista mais detalhadamente. Se o Estado peruano o irá permitir ou não, dependerá da luta em torno do julgamento.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese