Grécia: Qual é o problema que o Syriza deve resolver?

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 26 de Janeiro de 2015, aworldtowinns.co.uk

A vitória eleitoral do partido Syriza e a formação de um governo com o seu líder Alexis Tsipras como primeiro-ministro é um acontecimento importante, não só para a Grécia mas também para a Europa. Isto não só devido às potenciais consequências económicas para a União Europeia, mas também porque o Syriza e Tsipras reivindicam representar uma solução para o sofrimento que os gregos e muitos outros europeus têm suportado desde a crise financeira mundial de 2008. Partidos de “extrema-esquerda” e de ultra-direita em Espanha e França têm visto a vitória do Syriza como anunciando a sua própria futura vitória eleitoral.

Por razões históricas que têm a ver com o desenvolvimento tardio, fraco e dominado pelo estrangeiro do capitalismo na Grécia, o país está há muito tempo económica e politicamente subordinado às grandes potências capitalistas. Muita da sua classe dominante, concentrada sobretudo no transporte marítimo e nos bancos (com grandes investimentos no Médio Oriente e posteriormente nos Balcãs), tem-se entrelaçado particularmente com o capital das grandes potências, sobretudo a Grã-Bretanha e a Alemanha, em vários momentos e em várias combinações, e os EUA.

Esse domínio tem sido violentamente imposto. A Alemanha ocupou a Grécia na II Guerra Mundial. A Grã-Bretanha enviou Winston Churchill e tropas no fim da guerra para apoiar os fascistas gregos que enfrentavam uma rebelião liderada pelos comunistas. Quando a guerra civil começou, os EUA enviaram conselheiros da CIA para orientarem a estratégia anti-guerrilha mais tarde aplicada no Vietname: derrotar as guerrilhas através do esvaziamento de grande parte das zonas rurais. O rei passou de intermediário britânico a norte-americano.

A Grécia não seguiu a trajectória das maiores e mais desenvolvidas potências europeias, para quem as três décadas do pós-guerra foram um período de vigoroso crescimento económico e de um bastante vasto aumento dos níveis de vida. Uma enorme emigração e exílio desempenharam um grande papel na transformação da Grécia de país rural em país urbano moderno. Grande parte da burguesia capitalista dominante no país esteve e está concentrada no transporte marítimo e nos bancos (com grandes investimentos no Médio Oriente e posteriormente nos Balcãs), com uma base política entre os muitos proprietários de empresas familiares de mentalidade tradicional e os profissionais independentes. Não foi senão nos anos 1980 que o estado conseguiu criar uma maior estabilidade política através de investimento e emprego estatal e do tipo de medidas de estado social implementadas noutros países da Europa.

A integração da Grécia no mercado europeu e internacional, e sobretudo no mercado internacional de capitais, acelerada após a entrada da Grécia na eurozona em 2001, criou um maior crescimento económico. Contudo, este processo e a sua forma específica na Grécia criaram a base para a gravidade particularmente grega da crise mais recente. Os gastos governamentais foram em grande parte sustentados por empréstimos. A prosperidade da economia grega na realidade debilitou-a estruturalmente. As importações excederam as exportações. Também o défice do grande comércio implicou empréstimos para compensar a diferença. O próprio crescimento foi alimentado por investimento estrangeiro, incluindo sob a forma de empréstimos de bancos privados.

Os bancos alemães e franceses emprestaram dinheiro ao governo grego, usado para importar bens da Alemanha e comprar aviões de guerra e outro armamento à França e aos EUA (num total de 40 por cento das importações gregas da última década). De facto, a Grécia andou a subsidiar a rentabilidade das empresas alemãs, francesas e norte-americanas. Além disso, claro, esses empréstimos foram uma forma de investimento que em si mesmo renderam lucros ao capital baseado noutros países.

Tem-se acusado a Grécia de se ter tornado viciada no crédito estrangeiro. Mas, ao mesmo tempo, o capital financeiro estrangeiro tornou-se viciado em emprestar dinheiro à Grécia. O governo grego já tinha um elevado nível de dívida quando a Grécia se juntou à zona euro, mas os seus registos foram “cozinhados” pela empresa financeira norte-americana Goldman Sachs, para esconder a situação. Isto não aconteceu devido a “corrupção” mas por consenso entre todas as grandes potências – as classes dominantes capitalistas monopolistas e os seus governos – para não renunciarem aos lucros que poderiam ser ganhos expandindo ainda mais os empréstimos à Grécia. Nem foi apenas uma questão de ganância. Nenhuma delas podia deixar de aproveitar quando os seus rivais estavam a arrecadar lucros para injectarem nas suas próprias economias. Alguns grandes bancos franceses investiram 40 por cento do seu capital na Grécia. Este esquema de pirâmide – dívida paga através da obtenção de empréstimos e da expansão da dívida – foi um grande bónus tanto para o capital financeiro estrangeiro como para o grego. Riscos elevados significavam “spreads” mais elevados – potenciais lucros mais elevados para aqueles que se envolviam nisso.

O banco norte-americano Lehman Brothers conseguiu que o governo grego concordasse num esquema de derivados, uma reestruturação de parte da dívida do governo grego, que ficou ainda mais atraente para a especulação financeira com as infra-estruturas do país (aeroportos, portos marítimos, etc.) como contrapartida colateral. Concordar com esses instrumentos de dívida foi uma solução de curto prazo para o governo grego e os seus emprestadores, mas garantiu que a longo prazo a dívida nunca poderia ser paga em nenhuma circunstância imaginável. Não se pode esperar que um sistema de lucros motivado pela competição que destrói o planeta em que vivemos tenha em conta outras consequências de longo prazo.

Em 2008, quando um colapso financeiro varreu a economia globalizada, iniciou-se um processo em que foi emprestado cada vez mais dinheiro à Grécia nos chamados “bailouts” para que o seu governo pudesse continuar a fazer o pagamento das suas dívidas a bancos estrangeiros e nacionais e a outros credores. Em troca, a “troika” criada em 2010 pela Comissão Europeia, pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Central Europeu (agora encabeçado por Mario Draghi, outrora da Goldman Sachs) impôs restrições draconianas à despesa do governo grego. Estes cortes fizeram a economia grega entrar numa espiral descontrolada e a sua economia encolheu em cerca de um quarto. Mesmo quando alguma da sua dívida foi paga, os seus pagamentos regulares dispararam em relação à sua capacidade para os pagar com as receitas governamentais.

Os salários e as pensões foram cortados ou simplesmente não pagos. Milhões de empregos desapareceram. Hospitais e outras infra-estruturas públicas vitais foram encerrados. Muitos gregos deixaram de sequer poder pagar a electricidade. Tremem de frio no inverno e sobrevivem com comida de instituições de caridade ou através do seu engenho, enquanto as empresas financeiras estrangeiras engordam e as empresas gregas de transporte marítimo e as grandes propriedades da Igreja Ortodoxa grega continuam a desfrutar de isenções fiscais.

Chamar a isto “austeridade” não chega sequer para começar a descrever o sofrimento imposto aos gregos. Tem sido o pior colapso dos níveis de vida que a Europa moderna alguma vez viu em tempos de paz. Os principais partidos tradicionais da classe dominante, um historicamente enraizado na monarquia e no fascismo, o outro social-democrata, viram a sua atractividade e credibilidade feita em farrapos. Os governos eleitos tiveram dificuldade em reivindicar representar a vontade das pessoas quando as decisões fundamentais estavam claramente fora das mãos deles. Em 2011, quando o primeiro-ministro grego George Papandreou anunciou que iria convocar um referendo sobre a dívida do país, foi publicamente humilhado pela Chanceler alemã Angela Merkel e pelo Presidente francês Nicolas Sarkozy que lhe disseram para não o fazer. Ao governo social-democrata dele seguiu-se um governo de direita liderado por um antigo vice-presidente do Banco Central Europeu. É este o pano de fundo da ascensão do Syriza.

Se a situação for compreendida a esta luz, então, mesmo sem tentarmos prever como é que os acontecimentos se irão desenvolver, é claro que as propostas de Tsipras (principalmente negociar uma redução da dívida e possibilitar mais despesas governamentais) não podem possivelmente resultar numa resolução fundamental da situação. Independentemente de a Grécia sair ou não da zona euro – que Tsipras diz não querer – a Grécia é estruturalmente dependente das suas relações com o capital baseado nas maiores potências mundiais e com a economia imperialista mundial no seu todo. Além disso, a continuação da ligação à UE e à NATO proposta por Tsipras significa a manutenção firme da Grécia do lado dominado do Mediterrâneo.

Este nacionalismo reaccionário explica porque é que o partido dele formou uma coligação governamental com um partido ortodoxo grego, chauvinista grego e anti-imigrantes, o ANEL (o partido Gregos Independentes), a que foi atribuído o ministério chave da defesa. Esse nacionalismo também explica o facto aparentemente paradoxal de o Syriza estar a ser enaltecido por partidos de direita e de “esquerda” nas imperialistas França e Espanha, partidos cujo programa não é derrubar as classes dominantes capitalistas monopolistas nesses países mas sim fazer regressar o sistema de protecção social e os níveis de vida dos dias em que o imperialismo parecia estar a prosperar na Europa, mesmo quando ao mesmo tempo esmagava muito do resto do mundo.

A situação na Grécia é de muitas formas um concentrado da contradição global entre os “graves desequilíbrios construídos entre o sistema financeiro – e as suas expectativas de lucros futuros – e a acumulação de capital, ou seja, as estruturas e a real produção de lucro com base na exploração do trabalho assalariado”, para citar Raymond Lotta (“O colapso financeiro e a loucura do imperialismo”, Revolution/Revolución, 20 de Abril de 2008), revcom.us). Como pode o capitalismo na Grécia afastar-se do sistema global de lucro movido pela competição – o que de qualquer forma não é a intenção do Syriza? Como é que pode ocorrer uma mudança radical na Grécia – ou em qualquer outro lugar, já agora – a não ser através de uma revolução país a país, e em todo o mundo, cujo objectivo final seja a abolição de toda a exploração e de todas as relações de opressão da sociedade de classes?

Libertar a Grécia deste sistema requer um novo tipo de estado, nascido de um movimento revolucionário com o poder material de destruir o aparelho de estado da classe dominante capitalista e depois reorganizar completamente a economia passo a passo e criar um sistema económico, social e político onde as pessoas poderão de facto e cada vez mais ter algo a dizer sobre as suas vidas, o que não é de forma nenhuma o caso da Grécia, com ou sem Syriza. As classes dominantes da Europa ficaram assustadas com o tumulto em massa e a rejeição das medidas impostas aos gregos. Um movimento revolucionário na Grécia e sobretudo uma revolução poderiam ajudar a transformar a situação política regional e mesmo mundial, o que por sua vez tornaria mais possível conseguir e sustentar um avanço na Grécia.

Quando a “austeridade” – um nome agradável para um brutal empobrecimento em massa – primeiro atingiu a Grécia, alguns comentadores previram que iria significar o fim da “democracia” aí. O pensamento era que um sistema político baseado em eleições (e todo o aparelho de estado tradicional que ele implica) não consegue sobreviver se milhões de pessoas deixarem de acreditar nele. Entre outras coisas, o triunfo eleitoral do Syriza representa um renascimento da falsa esperança no sistema político e económico que trouxe a Grécia para onde está hoje. Os reformistas noutros países europeus e noutros lugares estão a colocar as suas próprias esperanças de partilha de poder, ou pelo menos de governo, no reforço da ilusão de que os problemas radicais podem ser resolvidos através de meios reformistas. A experiência do governo eleito, autoproclamado socialista, de Salvador Allende no Chile, derrubado em 1973 por um golpe militar organizado pelos EUA, mostrou como criar esperanças que um governo não está em condições de satisfazer, a pressão económica imperialista à qual um governo populista não tem nenhum plano para resistir, e as divisões resultantes entre as pessoas que se uniram à sua volta ou o aceitaram, pode abrir caminho à mais feroz das repressões.

O palpável fracasso da velha ordem, o descrédito das suas instituições e o colapso da rotina diária que limita os horizontes das pessoas que a Grécia está a viver hoje fornecem condições para um rápido avanço revolucionário – se esta situação realmente for usada para isso. O Syriza, que está a pedir um ajuste e não uma ruptura revolucionária, está a servir de canal principal da ira das pessoas na Grécia neste momento.

A nossa questão aqui não é que o Syriza pode vir a trazer estabilidade ao capitalismo grego, embora alguns representantes do capital estrangeiro possam pensar que algum tipo de acordo com o Syriza serve os seus melhores interesses neste momento. A estabilidade política e social é o menos provável de todos os possíveis resultados, não só na Grécia mas também a nível mundial. Mas independentemente do que aconteça, alimentar a esperança na possibilidade de reformar e remendar o actual sistema é parte do problema, não é a solução.

Dentro do caldeirão político que é o Syriza e entre os seus apoiantes a nível internacional estão muitas pessoas de esquerda e pessoas que se consideram opositoras do capitalismo, uma vez mais suspendendo a sua antes real ou professada descrença na via parlamentar e eleitoral. Em vez de ajudar os gregos a encontrar uma solução, estão eles próprios a criar mais obstáculos e a deixar as pessoas impotentes face ao que é provável daqui resultar: um maior aperto pelo sistema capitalista imperialista e rápidas e perigosas rotações políticas.

(Entre outras fontes, este artigo usa o trabalho de Stathis Kouvelakis, professor de filosofia política no King’s College de Londres e membro do comité central do Syriza, para informação e discernimento e para algum do pensamento que aqui criticamos. (ver newleftreview.org/11/72 e jacobinmag.com/2015/01/syriza-greece-victory-kouvelakis-left/.)