Grécia: Qual é o problema e qual é a solução do Syriza?

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 6 de Julho de 2015, aworldtowinns.co.uk

Enquanto esperamos por um desfecho ainda impossível de prever para a crise financeira grega que venha a lançar luz sobre o futuro, republicamos uma versão reduzida de um anterior artigo (SNUMAG de 26 de Janeiro de 2015), concebida para ser distribuída em manifestações e protestos, focada nas causas deste colapso e na possibilidade de uma saída revolucionária.

O Syriza reivindica representar uma solução para o sofrimento que os gregos e muitos outros europeus têm suportado desde a crise financeira mundial de 2008. Partidos de “extrema-esquerda” e de ultra-direita em Espanha e França têm visto a vitória do Syriza como anunciando a sua própria futura vitória eleitoral. Mas nós temos de definir correctamente o problema para podermos julgar a solução proposta pelo Syriza.

Em grande parte devido ao desenvolvimento tardio, fraco e dominado pelo estrangeiro do capitalismo na Grécia, o país está há muito tempo económica e politicamente subordinado às grandes potências capitalistas. Muita da sua classe dominante, concentrada sobretudo no transporte marítimo e nos bancos, tem-se vindo a entrelaçar especialmente com o capital das grandes potências, sobretudo a Grã-Bretanha e a Alemanha, em vários momentos e em várias combinações, e os EUA.

A integração da Grécia no mercado europeu e internacional, e sobretudo no mercado internacional de capitais, acelerada após a entrada da Grécia na eurozona em 2001, trouxe crescimento económico. Contudo, este processo e as suas formas específicas na Grécia criaram a base para a gravidade particularmente grega da crise mais recente. As despesas governamentais foram em grande parte sustentadas por empréstimos. A prosperidade da economia grega na realidade debilitou-a estruturalmente. As importações excederam as exportações. Também o défice das grandes trocas comerciais implicou empréstimos para compensar a diferença. Os bancos alemães e franceses emprestaram ao governo grego o dinheiro usado para importar bens da Alemanha e para comprar aviões de guerra e outro armamento à França e aos EUA (estas últimas compras corresponderam a 40 por cento das importações gregas na última década).

Basicamente, a Grécia andou a subsidiar a rentabilidade de empresas alemãs, francesas e norte-americanas. Além disso, claro, esses empréstimos foram uma forma de investimento que em si mesmo renderam lucros ao capital baseado noutros países. O governo alemão, que representa o capital financeiro alemão e a sua classe dominante capitalista, acusa hipocritamente a Grécia de se ter tornado viciada no crédito estrangeiro. E não admite que o capital financeiro estrangeiro se tornou viciado em emprestar dinheiro à Grécia.

A Grécia já tinha um elevado nível de dívida quando se juntou à zona euro, mas os seus registos foram “cozinhados” para esconder a situação, não devido a “corrupção” mas sim a um consenso entre todas as grandes potências – as suas classes dominantes capitalistas monopolistas e os seus governos – para não renunciarem aos lucros que poderiam ser ganhos com uma ainda maior expansão dos empréstimos à Grécia. Nem foi apenas uma questão de ganância. Nenhuma dessas potências podia deixar de se envolver quando as suas rivais estavam a arrecadar lucros para injectarem nas suas próprias economias. Este esquema em pirâmide – dívida paga através de empréstimos e da expansão da dívida – foi um grande bónus tanto para o capital financeiro estrangeiro como para o grego. Riscos elevados significavam “spreads” mais elevados – ou seja, potenciais lucros mais elevados para os que se envolviam nisso.

Em 2008, quando um colapso financeiro varreu a economia globalizada, a Grécia enfrentou “bailouts” predatórios para que o seu governo pudesse continuar a fazer o pagamento das suas dívidas aos bancos estrangeiros e nacionais e a outros credores. A Grécia era como uma família pobre face aos tubarões dos empréstimos que nos emprestam dinheiro para que nós os possamos reembolsar. Acabamos a dever-lhes ainda mais dinheiro – e eles ameaçam partir-nos as pernas.

Em troca destes empréstimos, a “tróica” de gângsteres criada em 2010 pela Comissão Europeia, pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Central Europeu impôs restrições às despesas do governo grego que fizeram a economia grega entrar numa espiral descontrolada. A sua economia encolheu em cerca de um quarto. Os salários e as pensões foram cortados ou simplesmente não pagos. Milhões de empregos desapareceram. Hospitais e outras infra-estruturas públicas vitais foram encerrados. Muitos gregos deixaram de sequer poder pagar a electricidade. Tremem de frio no inverno e sobrevivem com comida de instituições de caridade ou graças ao seu engenho. Chamar a isto “austeridade” não chega sequer para começar a descrever o sofrimento causado.

Ao mesmo tempo, as empresas financeiras estrangeiras engordaram e as empresas gregas de transporte marítimo e as grandes propriedades rurais da Igreja Ortodoxa grega continuaram a desfrutar de isenções fiscais.

Se a situação for compreendida a esta luz, então, mesmo sem tentarmos prever como é que os acontecimentos se irão desenvolver, é claro que as propostas de Tsipras (negociar uma redução da dívida e tornar possível fazer mais despesas governamentais) não podem redundar numa resolução fundamental da situação. Independentemente de a Grécia sair ou não da zona euro – que Tsipras diz não querer – a Grécia é estruturalmente dependente das suas relações com o capital baseado nas maiores potências mundiais e com a economia imperialista mundial no seu todo.

Além disso, a continuação das ligações à UE e à NATO, proposta por Tsipras, visa manter firmemente a Grécia do lado dominado do Mediterrâneo. Isto é uma posição nacionalista reaccionária, política e moralmente inaceitável. A Grécia tem sido um importante canal para a dominação financeira imperialista do Médio Oriente e agora especialmente dos Balcãs. Estes pretensos “revolucionários” estão assim a dizer: a Grécia deve lutar por um lugar melhor à mesa onde os imperialistas estão a devorar os povos do mundo.

Este nacionalismo reaccionário explica porque o Syriza formou uma coligação governamental com o partido ortodoxo grego, chauvinista grego e anti-imigrantes ANEL (Partido dos Gregos Independentes) e lhe atribuiu o ministério chave da defesa. Este nacionalismo também explica o facto aparentemente paradoxal de o Syriza estar a ser enaltecido tanto por partidos de direita como de “esquerda” nos países imperialistas França e Espanha, partidos esses cujo programa não é derrubar as classes dominantes capitalistas monopolistas nesses países mas sim fazer regressar o sistema de protecção social e os níveis de vida dos dias em que o imperialismo parecia estar a prosperar na Europa, mesmo quando ao mesmo tempo esmagava muito do resto do mundo.

A situação na Grécia é um concentrado da contradição global entre os graves desequilíbrios construídos entre o sistema financeiro – e as suas expectativas de lucros futuros – e a acumulação de capital, ou seja, as estruturas e a real produção de lucro com base na exploração do trabalho assalariado. Como pode o capitalismo na Grécia libertar-se do sistema global de lucro movido pela competição – o que de qualquer forma também não é a intenção do Syriza? Como é que pode ocorrer uma mudança radical na Grécia – ou, de resto, em qualquer outro lugar – a não ser como parte de uma revolução país a país e finalmente em todo o mundo, cujo objectivo final seja a abolição de toda a exploração e de todas as relações de opressão da sociedade de classes?

Isto requereria um novo tipo de estado, nascido de um movimento revolucionário com o poder material para destruir o aparelho de estado da classe dominante capitalista e depois reorganizar completamente a economia passo a passo, criando um sistema económico, social e político onde as pessoas possam de facto e cada vez mais ter algo a dizer sobre as suas vidas, o que não é de forma nenhuma o caso da Grécia, com ou sem Syriza. As classes dominantes da Europa ficaram assustadas com o tumulto das massas e com a rejeição das medidas impostas aos gregos. Um movimento revolucionário na Grécia, e sobretudo uma revolução, poderia ajudar a transformar a situação política regional e mesmo mundial, o que por sua vez tornaria mais possível de conseguir e sustentar um passo em frente na Grécia. Uma verdadeira mudança radical na Grécia requer estar ao lado dos povos do mundo contra o sistema imperialista mundial.

Quando um brutal empobrecimento em massa primeiro atingiu a Grécia, alguns comentadores previram que iria significar o fim da “democracia” aí. Eles temiam que um sistema político baseado em eleições (e em todo o aparelho de estado tradicional que isso implica) não conseguisse sobreviver se milhões de pessoas deixassem de acreditar nele. O triunfo eleitoral do Syriza representa um renascimento da falsa esperança no sistema político e económico que trouxe a Grécia para onde está hoje. Os reformistas noutros países europeus e no resto do mundo estão a colocar as suas próprias esperanças de partilha do poder, ou pelo menos do governo, no reforço da ilusão de que os problemas radicais podem ser resolvidos por meios reformistas. Ao apelar a um ajuste do sistema e não a uma ruptura revolucionária, o Syriza está a servir de canal principal da ira das pessoas na Grécia neste momento.

A experiência do governo eleito, autoproclamado socialista, de Salvador Allende no Chile, derrubado em 1973 por um golpe militar organizado pelos EUA, mostrou como criar esperanças que um governo não está em condições de satisfazer, e a pressão económica imperialista à qual um governo populista não tem nenhum plano para resistir, e as divisões daí resultantes entre as pessoas que se tinham unido à sua volta ou que o aceitaram, pode abrir caminho ao tipo de fascismo que a Grécia já antes conheceu. Contudo, o fracasso da velha ordem na Grécia, o descrédito das suas instituições e o colapso da rotina diária que limita os horizontes das pessoas, poderia criar condições para um rápido avanço revolucionário – se esta situação realmente for usada para isso.

Alimentar a esperança na possibilidade de reformar e remendar o actual sistema é parte do problema, não a solução. Dentro do caldeirão político que é o Syriza e entre os seus apoiantes a nível internacional há muitas pessoas de esquerda e pessoas que se consideram opositoras do capitalismo que estão uma vez mais a suspender a sua antes real ou professada descrença na via parlamentar e eleitoral. Em vez de ajudarem os gregos a encontrar uma solução, estão elas próprias a criar mais obstáculos e a deixar as pessoas impotentes face ao que é provável daqui resultar: um maior aperto pelo sistema capitalista imperialista e rápidas e perigosas rotações políticas.