Grã-Bretanha: Relatório Chilcot – um encobrimento de como a invasão do Iraque desencadeou os horrores de hoje

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 8 de agosto de 2016, aworldtowinns.co.uk

O relatório Chilcot sobre o papel da Grã-Bretanha na invasão do Iraque em 2003, resultado de um inquérito iniciado em 2009 sob a presidência do alto-funcionário público aposentado John Chilcot, foi finalmente publicado em julho deste ano. Dada a extensão da oposição à guerra do Iraque entre a classe dominante e o povo, e também dado o desastre que se seguiu a essa invasão, muitas pessoas estavam interessadas em ver o que o inquérito tinha a dizer.

Em 2003, os imperialistas norte-americanos sob a administração George W. Bush, com a total cooperação dos imperialistas britânicos sob o governo do primeiro-ministro trabalhista Tony Blair, atacaram, invadiram e ocuparam o Iraque. Esta guerra injusta foi desencadeada sob a falsa acusação – a mentira – de que o regime iraquiano possuía “armas de destruição em massa” e que colocava uma ameaça à vida e à segurança dos países ocidentais.

Os agressores conseguiram derrubar Saddam Hussein numa questão de um mês. Eles ocuparam todo o país usando as suas próprias armas de destruição em massa: colocaram os muçulmanos xiitas contra os sunitas, pelo que a resistência contra a ocupação foi largamente transformada numa guerra civil. O resultado da guerra foi catastrófico – foi a semente da qual brotou o Daesh (Estado Islâmico). A morte de um número estimado em meio milhão de iraquianos durante a ocupação, o deslocamento de mais cinco milhões de pessoas, a infame política dos invasores de que todas as casas, todas as famílias e todos os iraquianos eram alvos legítimos para os seus soldados e o seu poder aéreo, as suas detenções indiscriminadas para encher campos caracterizados por condições bárbaras e pela tortura sistemática, como o infame centro de tortura de Abu Ghraib (o núcleo inicial do Daesh agregou-se nessas prisões) – e a instauração por eles de um governo sectário xiita que levou a cabo uma limpeza étnica violenta e sistemática – tudo isto deu o tom e desencadeou a violenta espiral que se lhe seguiu.

Embora a ascensão do fundamentalismo islâmico seja um fenómeno complexo que não começou com esta guerra, a extensão e a intensidade dos horrores sentidos pelos povos do Médio Oriente é um resultado direto dessa invasão, na medida em que rompeu as estruturas sociais, políticas e morais existentes e transformou o que era, nalguns casos, uma coexistência religiosa e, noutros casos, tensões sectárias, numa guerra genocida. Poucos atos humanos tiveram um impacto tão desastroso como a decisão tomada por Bush e Blair, com a cumplicidade de muitos políticos importantes (incluindo a candidata presidencial norte-americana Hillary Clinton) e de outras autoridades e fazedores de opinião de ambos os países. A guerra desencadeou um inferno no Iraque na esperança de reafirmar a dominação da região pelos EUA e pelos seus parceiros britânicos, que por sua vez são um elemento chave no seu lugar de cão de topo no sistema imperialista mundial.

Este ato de agressão indignou as pessoas em todo o mundo e em particular os povos da região, e os seus resultados ainda os indignaram mais. O inquérito Chi;cot foi levado a cabo com a missão explícita de “sarar as feridas” – não as feridas reais e o enorme sofrimento de milhões de iraquianos, mas a fratura na confiança do povo britânico no seu estado e nos seus representantes, sobretudo porque a própria classe dominante britânica estava profundamente dividida sobre se e como se juntar aos imperialistas norte-americanos numa guerra contra o Iraque.

O conteúdo do relatório nem sequer chega perto da realidade sobre a guerra, o verdadeiro objetivo dela e os crimes cometidos pelo governo e pelas tropas britânicas. Dá umas bofetadas nalgumas das figuras mais odiadas da classe dominante britânica, como o então primeiro-ministro Blair. Algumas pessoas estavam à espera disso e ficaram satisfeitas com isso. Duas investigações parlamentares anteriores tinham justificado tudo e todos em relação à guerra, pelo que elas não podiam deixar de unir a classe dominante e ganhar de volta alguma da confiança que ela tinha perdido entre as pessoas.

O que ficou dito no relatório?

O relatório tem 2,6 milhões de palavras, num total de 12 volumes. A esmagadora maioria consiste em milhares de documentos de apoio e referências, mas também inclui um resumo de 145 páginas que contém os elementos chave gerais e as conclusões do relatório.

O inquérito conclui que a Grã-Bretanha se juntou à invasão antes de terem sido esgotadas as “opções pacíficas” para forçar Saddam a um acordo com as potências ocidentais. A opção militar não era na altura o último recurso. Continua dizendo: “Não havia nenhuma ameaça iminente de Saddam Hussein e ele deveria ter sido restringido” durante algum tempo. Porém, não põe de lado uma ação militar nesse momento e na realidade sugere que um ataque ao Iraque poderia ter sido necessário e que deveria ter sido melhor fundamentado legalmente num momento posterior, possivelmente depois de terem obtido o consentimento do Conselho de Segurança da ONU. De facto, o inquérito conclui que foi errado ir para a guerra nas circunstâncias particulares dessa altura, mas que isso poderia ter sido adequado se os EUA e a Grã-Bretanha tivessem esperado um pouco mais.

O inquérito também desmente a alegação de Blair de que o regime iraquiano representava um perigo iminente a nível internacional. Acusa Blair de ter “deliberadamente exagerado a ameaça colocada por Saddam Hussein”. O que é mais revelador sobre Blair no relatório Chilcot é a nota que ele enviou a Bush em setembro de 2002, seis meses antes da invasão do Iraque, na qual ele prometia ao presidente dos EUA: “Eu estarei consigo, não importa o quê”. Isto pode parecer confirmar a visão popular de que Blair era o caniche de Bush. Porém, de uma forma mais essencial, a nota serviu não apenas de cheque em branco à administração Bush mas também revelou que Blair e os principais líderes políticos do imperialismo britânico já tinham decidido ir para a guerra, independentemente de qualquer resolução do Conselho de Segurança ou de qualquer recolha de informações ou de outras provas sobre as armas iraquianas, incluindo o esperado relatório do inspetor principal da ONU. Esta revelação é uma bofetada na face de Blair, dos parceiros dele e daqueles que estavam determinados a iniciar uma guerra.

O relatório também dá umas bofetadas nos chefes das agências secretas britânicas, em especial em John Scarlett, presidente do Comité Conjunto do MI5 (os serviços secretos internos britânicos) e do MI6 (informações estrangeiras), e no chefe do MI6, Richard Dearlove. Culpa-os por produzirem e defenderem “informações incorretas” sobre as armas de Saddam. O relatório afirma que a posse pelo Iraque do que foram chamadas “armas de destruição em massa” (um termo deliberadamente ambíguo) foi apresentada com uma “certeza que não estava justificada” e que os serviços secretos “não tinham estabelecido sem qualquer dúvida” que Hussein tinha continuado a produzir armas químicas e biológicas. O relatório conclui que a invasão do Iraque foi feita “com base em informações incorretas” que não foram postas em causa e que o “deveriam ter sido”.

Dado que a invasão teve a oposição não só de muitos países membros da ONU mas também da França, da Rússia e da China, todos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU com direito a vetar qualquer resolução que pudesse fornecer uma base legal para a guerra, os EUA e a Grã-Bretanha precisavam de encontrar alguma outra justificação legal para a sua invasão não provocada. Bush e Blair tiveram de preparar uma base legal baseada na opinião de responsáveis designados por eles próprios. Mesmo assim, diz o relatório, o procurador-geral britânico da altura pensou que essa guerra não tinha nenhuma base legal até sete dias antes da invasão, quando o enviaram para os EUA para ser convencido por conselheiros legais norte-americanos. O relatório conclui que embora o governo Blair alegasse estar a agir em nome da “comunidade internacional”, as ações da Grã-Bretanha “minaram a autoridade do Conselho de Segurança das Nações Unidas”.

Analisando o resultado do ataque ao Iraque, o relatório diz que as forças armadas britânicas estavam mal-equipadas para a tarefa e que Blair ignorou os avisos explícitos de vários peritos sobre o que aconteceria no Iraque após uma invasão. Entre esses avisos, estava o da chefe do MI5 na altura, Eliza Manningham-Buller. O relatório também se refere às vítimas e aos deslocamentos em massa produzidos pela invasão como indicação de que o governo não atingiu os objetivos declarados.

Uma das razões que Blair e outros deram para a participação da Grã-Bretanha na invasão de Iraque era a “relação especial” entre os EUA e a Grã-Bretanha, e a necessidade de manter boas relações com os EUA. O relatório Chilcot afirma: “A relação Grã-Bretanha-EUA não teria sido danificada se a Grã-Bretanha tivesse ficado fora da guerra” e “a relação da Grã-Bretanha com os EUA não requer um apoio incondicional”. Isto é uma objeção à posição de Blair enquanto foi primeiro-ministro e especialmente durante a guerra do Iraque. Havia claramente discordâncias acentuadas entre a classe dominante britânica sobre como dirigir as relações dela com as outras potências imperialistas, incluindo os EUA, como ainda parece ser o caso com o Brexit, mas o relatório Chilcot lança pouca luz sobre as questões reais que estavam envolvidas nem sobre a profundidade das divisões.

Mesmo em relação à própria guerra do Iraque, há muitos factos importantes que o relatório evita com muito cuidado.

O que não ficou dito no relatório

O relatório não diz que Blair era um mentiroso, apenas que ele exagerou a ameaça de Saddam. Isto equivale a apaparicar o homem a quem muitas pessoas chamaram “B-liar” [B-mentiroso]. O relatório refere “informações incorretas”, o que é uma expressão deliberadamente enganadora para as alegações fabricadas para justificar a ida para a guerra. O relatório também iliba Blair de mentir ao parlamento. Estas formulações são extremamente importantes. O relatório foi cuidadosamente elaborado para dizer que Blair não cometeu nenhum crime sob o direito britânico ou internacional. Dado que toda a gente sabe hoje que Blair mentiu, a verdadeira questão política é saber se ele pode ser levado à justiça. Muitas pessoas, entre as quais familiares de soldados britânicos mortos no Iraque, têm exigido que ele seja levado a um tribunal internacional para ser julgado por crimes de guerra. Sarah O'Conner, irmã de um desses soldados, disse em resposta ao relatório Chilcot: “Há um terrorista neste mundo a que o mundo precisa de estar atento, e o nome dele é Tony Blair, o pior terrorista do mundo”, ao mesmo tempo que outros familiares aplaudiam.

Este relatório confirma que, embora os opositores a Blair entre os governantes e políticos do país o queiram desacreditar de uma vez por todas, a justiça é a última coisa que está nas mentes deles. Quanto aos tribunais internacionais, eles não têm por objetivo julgar governantes imperialistas ocidentais e os seus representantes, mas sim punir aqueles que se recusam a obedecer-lhes ou que lhes colocam problemas.

Os que queriam uma guerra no Iraque não estão limitados a Blair e a alguns indivíduos nos serviços secretos que o apoiaram na fabricação de provas para fornecer uma cobertura política à invasão. A maioria do gabinete governamental trabalhista da altura, incluindo membros seniores como Jack Straw (o ministro dos negócios estrangeiros), o chanceler Gordon Brown e muitos outros, alinhou com a guerra. Apenas um membro sénior do governo trabalhista, Robin Cook, e alguns outros ministros resignados protestaram. A maioria dos membros do Parlamento votou a favor da guerra. De uma forma esmagadora, o partido conservador também apoiou entusiasticamente a guerra. Isto inclui o último primeiro-ministro, David Cameron, a nova primeira-ministra Theresa May, Duncan Smith, William Hague e outras luminárias conservadores.

As forcas armadas no seu conjunto não só não objetaram à guerra como avançaram e invadiram o Iraque, assassinaram um enorme número de pessoas e destruíram as infraestruturas do país. A chefe do MI5 avisou Blair que a guerra iria fazer aumentar significativamente as fileiras dos grupos jihadistas islamitas na Grã-Bretanha, nos EUA e no Médio Oriente, mas não fez nada para se opor à guerra. Blair é certamente uma das figuras imperialistas mais odiadas na Grã-Bretanha e no mundo, mas ele não estava sozinho. Foi apoiado pela maioria do sistema político imperialista britânico porque eles pensaram que as ações dele serviam os interesses da Grã-Bretanha – que, ao invadir o Iraque ao lado dos EUA, a Grã-Bretanha poderia melhorar a sua posição entre os bandos imperialistas conluiados e frequentemente em contenda que dominam economicamente o mundo e cujas políticas e forcas militares estão ao serviço dessa dominação.

Ao contrário de Blair e dos chefes dos serviços secretos nomeados no relatório, algumas pessoas que tentaram parar a guerra iminente sofreram consequências. O Dr. David Kelly, perito em armas no Ministério da Defesa, foi encontrado morto dois dias depois de ter testemunhado no Comité Seleto de Negócios Estrangeiros e de ter exprimido as dúvidas dele sobre a existência de armas iraquianas de destruição em massa.

Há um outro ponto importante em que o relatório tem muito cuidado em não entrar: nem os EUA nem a Grã-Bretanha nem nenhuma outra potência imperialista têm direito a invadir e ocupar outro país. Anteriormente, quando as potências ocidentais pensavam que o regime de Saddam servia os seus interesses geopolíticos regionais, armaram o regime dele – incluindo com as armas químicas que Saddam usou contra os curdos e contra o Irão. Este facto só por si deveria deitar alguma luz sobre os interesses inteiramente imperialistas e reacionários por trás da invasão norte-americano-britânica. O relatório não menciona isso. Também não menciona que a intervenção imperialista ocidental e outros crimes e a dominação de outras nações estavam a alimentar o crescimento do fundamentalismo islâmico, mesmo antes desta guerra.

Pelo contrário, o relatório justifica a própria guerra, se não o momento da sua realização. Aquilo a que o relatório mais objeta é que o governo de Blair foi para a guerra quando as forças armadas britânicas estavam “mal-equipadas para a tarefa”. Na realidade, se estivessem melhor equipadas e tivessem mais helicópteros e mais armas sofisticadas, teriam podido matar mais pessoas. O relatório Chilcot não levanta nenhuma objeção legal ou moral a estes assassinatos. Se Bush e Blair tivessem esperado até ao esgotamento das “opções pacíficas” (o que teria significado uma maior austeridade mortal no Iraque onde possivelmente meio milhão de crianças já tinha morrido em resultado das sanções económicas), então, segundo dá a entender o relatório, a guerra teria sido justificada. O relatório Chilcot tem muito cuidado em não dizer nem explícita nem implicitamente que a guerra contra o Iraque foi uma guerra de agressão, um crime que não deveria ter sido permitido de forma nenhuma.

Por que os imperialistas britânicos consideraram necessário fazer este inquérito

Embora a classe dominante britânica no seu conjunto tenha tornado possível que fosse levada a cabo esta guerra de agressão, isso não significa que a classe dominante estivesse unida em torno dela. De facto, o assunto dividiu gravemente a classe dominante britânica e os partidos que a representam. É verdade que o Partido Conservador era esmagadoramente a favor da guerra, mas houve alguns membros proeminentes do partido, como o ex-Secretário do Interior Ken Clark, que votaram contra ela. Os democratas liberais, o terceiro maior partido da Grã-Bretanha, votaram por unanimidade contra a guerra. O Partido Trabalhista no governo de então estava tão profundamente dividido que ainda não conseguiu superar isso desde então. Os danos políticos destas divisões, que levaram milhões de pessoas às ruas contra a guerra e que causaram danos na legitimidade de todo o sistema político britânico, continuam a assombrar a classe dominante britânica 13 anos depois. Isto acontece especialmente porque a guerra não correu bem para os interesses deles e as consequências têm sido um pesadelo para os imperialistas, embora não se aproxime do pesadelo que tem sido para as pessoas da região e do mundo.

Apesar de agora encapotarem as objeções deles à guerra em questões legais e, ainda pior, desaprovarem o momento da guerra em vez de a própria guerra, um setor importante da classe dominante britânica esteve contra a guerra porque tinha antecipado parcialmente o resultado e não via que isso servia os seus interesses. Assim, o relatório visou em parte ajudar a resolver a questão entre os governantes da Grã-Bretanha, bem como enganar as pessoas.

A divisão e o debate entre a classe dominante ajudou a atrair milhões de pessoas para a vida política e a oposição. Entre um e dois milhões de pessoas de todos os tipos participaram em protestos antes da invasão, fazendo parar o centro de Londres. Houve protestos semelhantes noutras cidades grandes e médias de Inglaterra e da Escócia. Mas eles não conseguiram impedir a guerra, não só porque Blair tinha prometido a Bush que “Eu estarei consigo, não importa o quê”, mas mais fundamentalmente porque a maioria dos representantes políticos da classe dominante capitalista britânica estava decidida a prosseguir independentemente do que as pessoas pensassem, e mesmo aqueles que pensavam que a guerra era uma má ideia para os interesses imperialistas britânicos temeram uma maior mobilização das pessoas como sendo ainda mais perigosa para esses interesses, e uniram-se atrás da guerra assim que ela foi desencadeada.

O objetivo do relatório não foi impedir a continuação desses crimes de guerra, mas retirar lições políticas sobre como melhor lidar com o tipo de situação complicada e difícil com que Blair e outros líderes britânicos com responsabilidades lidaram tão mal: como mobilizar a força militar necessária para assegurar a posição da Grã-Bretanha no mundo com menos custos políticos.

A guerra no Iraque foi apenas uma numa cadeia permanente de ações militares e guerras ao serviço dos interesses imperialistas britânicos e outros. Embora possam procurar ajustar as suas táticas, eles simplesmente não podem deixar de fazer estas guerras porque a guerra é uma das formas mais importantes de imporem os interesses deles à escala global. As atuais guerras na Líbia e na Síria são exemplos adicionais de que independentemente de quantos relatórios Chilcot sejam produzidos e independentemente de quantos políticos como Blair possam ser amaldiçoados ou mesmo processados judicialmente, essas guerras irão continuar até o sistema imperialista cujos interesses elas servem ser derrubado e desmantelado.