Grã-Bretanha: O horrendo abuso em massa de meninas adolescentes que o sistema produz e encobre

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 16 de Março de 2015, aworldtowinns.co.uk

A Grã-Bretanha tem estado submersa numa série de escândalos de abuso sexual de adolescentes, e em particular de meninas adolescentes, que têm vindo a decorrer há várias décadas.

A 16 de Março, a Comissão Independente de Queixas Policiais (IPCC) anunciou estar a investigar a Scotland Yard devido a 14 queixas feitas contra ela desde os anos 1970 até 2005, por abuso sexual de crianças. A polícia metropolitana de Londres é acusada de ter encoberto sistematicamente os relatos devido ao envolvimento de Membros do Parlamento [MPs] e da própria policia nessas violações e, num dos casos, na suspeita de assassinato de um menino de que os MPs tinham abusado num complexo habitacional público (de habitação social) perto do Parlamento (The Independent, 16 de Março de 2015). Isto é extremamente significativo porque a Scotland Yard tem sido responsável pela supervisão de inúmeros casos de abusos sexuais de alto perfil, recentes e passados.

Imediatamente antes disto, fora revelado que a polícia de South Yorkshire tinha encoberto centenas de casos de abuso sexual de meninas adolescentes em Sheffield. A 12 de Março, foram indicadas à força policial mais de 200 crianças como sendo potenciais vítimas de exploração sexual em Sheffield, sobretudo entre 2007 e 2013.

Porém, o caso mais arrepiante que veio à luz do dia até agora, em termos de escala e intensidade, é o abuso organizado por longos períodos de meninas em Rotherham, uma cidade no South Yorkshire, no norte de Inglaterra.

Segundo um relatório independente elaborado pela Professora Alexandra Jay e publicado em Agosto passado, pelo menos 1400 meninas adolescentes foram sujeitas a uma brutal exploração sexual em Rotherham entre 1997 e 2013. Crianças tão jovens quanto 11 anos foram abusadas por múltiplos violadores, sequestradas, traficadas para outras cidades, espancadas e intimidadas.

Emma foi preparada (aliciada e enganada para a preparar psicologicamente para os abusos) aos 12 anos e violada aos 13. Ela contou a história dela ao programa Panorama da BBC a 31 de Agosto de 2014.

“Até esse momento eles nunca me tinham tentado tocar, nunca me tinham feito sentir desconfortável ou alguma vez sentir insegura ou que me pudessem fazer mal. [...] Eu confiei neles, eles eram meus amigos tal como eu os via, até que uma noite o meu principal violador me abusou, também de uma forma muito brutal, à frente de várias pessoas. [...] Daí em diante eu fui violada uma vez por semana, todas as semanas.”

Ela disse que uma vez foi levada para um quarto de um apartamento e foi repetidamente violada por diferentes homens. “Eu tinha apenas de me sentar e esperar até eles mandarem homem atrás de homem e, tudo o que eles quisessem, eu tinha de lhes dar”. Emma continuou, dizendo como os abusadores estacionavam os seus carros à frente da casa dela e ameaçavam fazer mal à família e violar a mãe dela se ela se recusasse a ir vê-los.

Todos os aspectos deste relatório são chocantes

Não é exagerado assumir que pode haver muitos mais casos não contabilizados, ou porque não foram relatados ou porque foram escondidos pelas vítimas ou pelas suas famílias, por medo, por razões culturais ou outras razões.

A reacção da polícia e do conselho (as autoridades locais) – ou antes a sua inacção – face a estes abusos óbvios chocaram muitas pessoas que acreditavam que o objectivo da força policial era proteger as pessoas e especialmente as crianças. Há inúmeras provas de que a polícia, incluindo aos mais altos níveis, sabia dos abusos permanentes, mas nada fez para os impedir. Há mesmo provas que sugerem que a própria polícia de Rotherham, a algum nível, pode ter estado envolvida, tal como em Londres.

O chefe da polícia de Rotherham, a câmara municipal, membros locais do Parlamento e os serviços sociais, aqueles que alegam estar ao serviço das pessoas, têm contactos próximos com os bairros e mantêm cada polegada de terreno sob vigilância (com omnipresentes câmaras CCTV, patrulhas, etc.). Todos negam que soubessem alguma coisa sobre a escala destes horrendos abusos. Porém, abundantes provas sugerem o contrário. O relatório da Professora Jay revela que três relatórios anteriores elaborados em 2002, 2003 e 2006, todos eles forneceram à polícia e ao conselho “provas completas” que “não podiam ser mais claras”. Mas esses relatórios foram suprimidos ou ignorados pela polícia e pelo conselho. “Um membro da comissão de inquérito disse que eles tinham ouvido provas de que a investigadora tinha sido contactada por dois agentes que a ameaçaram de passar o nome dela aos preparadores de Rotherham e que ela tinha ficado com medo pela sua própria vida”, escreveu um jornalista no jornal The Guardian (9 de Setembro de 2014). O conselho também ignorou avisos de trabalhadores sociais no terreno que tinham ecoado as suas preocupações.

A extensão e dimensão dos abusos sugerem, mesmo antes das mais recentes acusações da IPCC sobre Londres, que não era algo específico de Rotherham, mas bastante endémico em grande parte da Grã-Bretanha. Segundo o jornal Telegraph (3 de Março de 2015), calcula-se que “pelo menos 370 meninas teriam provavelmente sido visadas para exploração sexual de crianças em Oxford, só durante os últimos 16 anos”. Tal como em Rotherham e Londres, funcionários dos serviços sociais e a polícia ignoraram as evidências e fecharam os olhos – na melhor das hipóteses.

Uma imagem da extensão de tudo isto começou a emergir após uma série de casos de alto perfil: a detenção de nove homens sul-asiáticos por abuso sexual em Rochdale (Grande Manchester) em Maio de 2012; revelação após revelação sobre toda uma vida de abuso sexual de crianças do muito conhecido artista da BBC Jimmy Savile; e a descoberta de que a primeira-ministra Margaret Thatcher teria encoberto um relatório de abusos cometidos por membros do Governo durante os anos 1980. As autoridades alegam agora que o relatório desapareceu.

Os jornalistas têm especulado sobre a existência e há indicações de uma ou mais redes poderosas de pedofilia envolvendo celebridades e altos funcionários.

Do que podemos ter a certeza é que as autoridades não se preocuparam. Emma disse que reportou a sua exploração sexual à polícia. Ela guardou as roupas dela como provas, mas a polícia disse que elas se tinham perdido. Disseram-lhe que era “apenas a palavra dela contra a dele” e que não resultaria numa condenação ou que nem sequer chegaria a tribunal, pelo que ela não deveria insistir. Uma outra vítima, Sarah, tinha 11 anos e vivia num abrigo para crianças quando foi inicialmente preparada. Ela disse que o abuso dela durou cinco ou seis anos e envolveu 40 a 50 homens. Uma vez, disse ela, um agente da polícia a tinha encontrado nua numa cama e se tinha ido embora sem fazer nada.

“Eu e a outra menina fomos empurradas para o lado da cama, nuas, sem nenhuma roupa, e um agente da polícia veio a esse lado da cama. Eu recordo-me de ter fechado os olhos perante aquele polícia e ele disse: ‘não há aqui ninguém’ e foi-se embora. Fomos novamente entregues ao refúgio de crianças no dia seguinte.” (BBC, 5 de Fevereiro de 2015)

Quando ela falou do seu abuso, a polícia acusou-a de estar a mentir e de ser uma desordeira. Eles disseram-lhe que, dado que andava a sair com esses homens, ela deveria ter esperado vir a ser violada.

Jessica disse que tinha sido preparada aos 14 anos em 1999 e que tinha sofrido anos de abusos violentos. Ela disse que os agentes da polícia lhe tinham chamado “rameira”, “cadela” e “meretriz”. E, tal como disse o apresentador, “Jessica sente-se traída pela polícia, pelas autoridades locais, pelo sistema”.

O pai de Jessica, Paul, também disse que tinha ido quatro vezes à polícia devido ao que estava a acontecer. “Eu não consegui provar que ela andava a dormir com eles”, disse ele. A atitude deles foi: “Se ela anda com eles, então eles devem ser pequenos brincalhões, deixe-os continuar. O que quer que nós façamos?”

“No final, um dos tipos na esquadra da polícia de Rotherham disse-me que se eu não me fosse embora seria preso. Eu não estava a conseguir chegar a nada com eles.”

Uma outra vítima disse à BBC que tinha sofrido dezenas de ataques às mãos de um bando ao longo de mais de cinco anos, depois de ter sido preparada aos 11 anos. “A polícia disse-me que eu estava a pedi-las. [...] Eu estava a ser cruelmente preparada e presa em casas estranhas com homens sórdidos e imundos. Eu não tinha voz para falar. Ninguém me escutava.”

O que a polícia fez em Rotherham foi prática comum dos agentes e oficiais da polícia durante décadas. Isto torna difícil às vítimas saberem se a polícia está ou não a cooperar com os abusadores sexuais. Não só a polícia não vê esses abusos como crimes, eles vêem as vítimas como abusadores ou criminosos.

O escândalo de Rotherham fez com que muitas vítimas de outros lugares e de anos anteriores avançassem e contassem as suas histórias sobre a forma como a polícia as ignorou. Uma mulher contou como a polícia a pôs a ela em julgamento, e não ao violador. “O que usavas naquela noite?”, perguntou um dos agentes. “E então o pano caiu”, relembrou ela. “Quando eu indiquei um ponto a meio da minha coxa e engoli as lágrimas, pensei que eu devia ter feito algo de errado quando eu – com 11 anos, não esqueçamos – fui sexualmente atacada por aquele homem de 32 anos, tinha feito algo de errado ao usar um vestido de noite curto. As perguntas continuaram. Eu tinha-lhe tocado? Onde é que eu o toquei? Como é que eu lhe toquei? Durante os anos seguintes, essas perguntas ecoaram na minha cabeça, seguidas de uma voz persistente, dentro de mim própria, que dizia: ‘Tu deves ser uma pequena rameira nojenta’.” (Observer, 31 de Agosto de 2014)

Mesmo as mulheres que tinham sido vítimas de abusos sexuais na sua própria casa nos anos 1960 e 1970 estão a chegar-se à frente e a dizer que quando informaram a polícia ou os professores, tinham sido tratadas como desordeiras, e não como vítimas. Fizeram-lhes sentir que o problema era elas não serem “normais”. Esta tem sido a “prática normal” da polícia e de outras autoridades e instituições há pelo menos várias décadas.

A questão é a supremacia masculina, não a etnia

O relatório também revela que os violadores de Rotherham eram sobretudo bandos de homens cujas famílias tinham vindo do Paquistão e de Caxemira. Isto tem sido seleccionado pela comunicação social e por figuras políticas para descreverem os abusadores como “asianos” (um eufemismo inglês), enquanto as vítimas são jovens meninas brancas, e para caracterizar o abuso como sendo motivado pelo ódio dos “asianos” aos “brancos”.

O debate em torno desta “questão étnica” tem ajudado a desviar a atenção da degradação das mulheres que é o resultado de estar a funcionar um sistema patriarcal. Dá à classe dominante a oportunidade de escapar à denúncia dos horrores profundamente embutidos nalgumas das suas mais importantes instituições e de, em vez disso, contra-atacar em torno de um dos seus assuntos favoritos, a instigação do ódio aos estrangeiros.

Não se pode permitir que o poder dê uma reviravolta à situação desta forma. A questão não é a cor das vítimas mas sim a natureza dos abusos. Todas as vítimas conhecidas em Rotherham eram mulheres. Noutros casos noutros lugares, houve meninos, bem como meninas, que também foram violados. Eram principalmente de famílias pobres e da classe operária. South Yorkshire é uma das zonas mais pobres da Grã-Bretanha, e uma das zonas mais devastadas pelas políticas sociais e económicas do “mercado livre” de Thatcher durante os anos 1980, sobretudo o encerramento das minas e indústrias que tinham moldado a economia local. É uma das zonas mais pobres da Grã-Bretanha e de toda a Europa Ocidental.

Os abusadores não são abusadores devido à sua ascendência mas sim porque são homens e desfrutam dos privilégios que um sistema patriarcal lhes forneceu, tirando total vantagem disso. O abuso sexual não é específico dos homens sul-asiáticos. Houve inúmeros casos de abusos por parte de bandos de homens brancos. Jimmy Savile e muitos dos MPs e membros proeminentes do governo envolvidos em anteriores escândalos de abuso sexual de adolescentes eram considerados a nata da sociedade inglesa.

Além disso, as meninas brancas não foram as únicas vítimas nestes casos. De facto, o relatório de Jay também se refere à sub-contabilização da exploração e abuso de comunidades étnicas minoritárias. A professora declarou: “Um desses mitos era que só as meninas brancas eram vítimas da exploração sexual por parte de homens asiáticos ou muçulmanos, como se estes homens só abusassem fora da sua própria comunidade, motivados por ódio e desprezo pelas mulheres brancas. Esta crença contraria as provas que mostram que aqueles que violam crianças têm mais probabilidade de visar aquelas que lhes estão mais próximas e mais facilmente acessíveis.”

A verdade é que abusadores, polícia e autoridades municipais de todas as etnias estavam directa ou indirectamente ligados e apoiavam-se uns aos outros para que esses abusos pudessem continuar sem parar. A voz das vítimas foi ignorada porque eram mulheres e muitas vezes moravam em bairros municipais “problemáticos” (casas sociais) e portanto eram “desprezíveis”. Foi por isso que elas foram condenadas a ter as suas vidas arruinadas. O quadro mais vasto é a “normalização” do abuso sexual e das violações, sobretudo contra os mais desprotegidos – em que os homens podem escapar. Isto é o centro do problema.

O sistema é culpado

Passaram seis meses e pouco tem sido feito. A fonte da inacção deliberada ou da possível cumplicidade da força policial ou dos municípios não foram verdadeiramente investigados. O que foi feito foi a instauração de um inquérito pelo selecto comité de Assuntos Internos do Parlamento, e algumas pessoas têm sido pressionadas a renunciar aos seus cargos, entre as quais o comissário da polícia e do crime de South Yorkshire e o chefe executivo do município de Rotherham. O chefe do município demitiu-se, mas o comissário da polícia recusou-se a fazê-lo.

Isto é a mesma velha história: alguns agentes de baixa patente podem – apenas podem – vir a ser considerados culpados, o chefe pode vir a demitir-se ou não, mas a estrutura continua a ser a mesma. A questão mais importante para as autoridades a todos os níveis é regressar ao habitual até que o próximo escândalo venha à luz do dia. Elas estão a tentar arduamente impedir a desacreditação de um sistema que tem arruinado de diferentes formas a vida de milhões de pessoas.

Isso não irá reparar as vidas arruinadas ou impedir que isto volte a acontecer. Isso não é uma solução mas sim uma tentativa de enganar as vítimas e as pessoas.

O sistémico abuso sexual de crianças não é nada de novo. Quer os abusadores sejam bandos asiáticos ou bandos brancos, padres católicos ou mulás, artistas da BBC ou outras celebridades poderosas, Membros do Parlamento ou do governo, os inquéritos têm chegado sempre ao mesmo ponto: com demissão ou sem demissão, e então tudo volta ao “normal”. Mas não para os milhares de pessoas que foram abusadas ou que perderam as suas vidas ou que virão a enfrentar esses horrores no futuro devido ao sistema de que esses abusos e abusadores são um produto.

A brutalidade dos abusos e a inacção dos responsáveis e o desespero e impotência das meninas adolescentes e das suas famílias não são o resultado de má sorte ou dos erros de alguns. Se estes actos criminosos a uma tal escala horrenda são considerados “normais” por aqueles que supostamente os devem impedir, isto revela algo sobre a natureza do “funcionamento normal” do sistema económico, social e político e dos seus valores e éticas.

É o sistema capitalista patriarcal, baseado na exploração e opressão a uma escala mundial, que treina e produz os agentes policiais, responsáveis municipais, trabalhadores sociais e abusadores que concordam todos que estas mulheres não têm importância, que são só “mentirosas” que “estão a pedi-lo” e que basicamente estão a fazer “perder tempo” e portanto merecem ser castigadas com insultos e violações. Este sistema não pode nem irá acabar com a opressão das mulheres. De facto, a degradação das mulheres ou pior é uma importante parte do seu funcionamento e continuará sob várias formas sob um tal sistema.

Não há dúvida nenhuma que a miséria destas vítimas não acabou e que aquelas de entre elas que não vêem conscientemente o verdadeiro problema descobrirão ser difícil saírem disto. Muitas enfrentarão a depressão, o alcoolismo, as drogas, doenças mentais graves, relações abusivas, a perturbação dos seus estudos e do seu emprego e outras formas de sofrimento com que o sistema não se preocupa. A mais efectiva luta contra estes abusos e abusadores e aqueles que os permitem aos mais altos níveis políticos é lutar contra o sistema e por um mundo onde não haja exploração nem opressão, pelo fim do capitalismo, da patriarquia e da dominação masculina.