François Hollande: Capitão “socialista” de um navio imperialista instável

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 7 de Maio de 2012, aworldtowinns.co.uk

François Hollande, do Partido Socialista, um dos dois principais partidos burgueses de França, foi eleito presidente, derrotando por uma margem relativamente estreita na segunda volta das eleições o presidente em exercício Nicolas Sarkozy. O elemento mais surpreendente das eleições, porém, não foi a vitória da “esquerda” contra um presidente amplamente detestado – foi o resultado muito elevado de Marine Le Pen, a candidata da Frente Nacional (FN) de extrema-direita, que na primeira volta ficou em terceiro lugar com 18 por cento dos votos.

A FN foi criada em 1972 como partido marginal do espectro político francês, reunindo diferentes tipos de grupos fascistas e de extrema-direita como os que apoiam abertamente o regime de Vichy colaboracionista com a ocupação alemã durante a II Guerra Mundial e os representantes dos que odeiam Charles De Gaulle, o presidente francês de direita durante grande parte do período do pós-guerra, como “traidor” por ter aceitado dar a independência à Argélia depois de reconhecer que a sangrenta guerra colonial pela preservação do império francês no norte de África não podia ser ganha. De facto, houve opositores a De Gaulle que chegaram mesmo a ser processados e executados devido a uma campanha de terror que incluiu uma tentativa de o assassinar. Quando a FN foi formada, era uma miscelânea de negacionistas do Holocausto, racistas, arruaceiros reaccionários e nostálgicos do desmembrado império francês.

Desde os anos 80 que a FN, sob a liderança de Jean-Marie Le Pen, pai de Marine Le Pen, se tornou cada vez mais uma presença no cenário político francês. Isto aconteceu porque a xenofobia da extrema-direita se tornou cada vez mais uma arma útil da classe dominante no seu todo. Embora o tradicional anti-semitismo da extrema-direita francesa nunca tenha estado muito abaixo da superfície (o próprio Jean-Marie Le Pen havia chamado ao extermínio de judeus na II Guerra Mundial “um detalhe” da história), ao longo dos anos o alvo principal da FN evoluiu para passar a ser os milhões de imigrantes e os seus descendentes, sobretudo os das ex-colónias francesas no norte de África (Argélia, Marrocos e Tunísia) e dos países da África Ocidental como o Mali e o Senegal, tudo países que são maioritariamente islâmicos.

As pessoas deslocadas devido às mudanças nesses países e que enfrentavam condições de pobreza foram activamente recrutadas para trabalharem nas minas e fábricas de França nos anos 60. Foram amontoadas nos banlieues (subúrbios operários) que rodeiam Paris e outras grandes cidades francesas. Quando nos anos 70 chegou ao fim o período de crescimento rápido, o desemprego aumentou e os filhos e netos desses imigrantes foram vítimas de discriminação, de um enorme desemprego e de hostilidade às mãos da polícia. Tem sido um papel particular da FN o de incitar ao ódio contra esse sector do povo e o balbuciar delirante sobre as “tradições cristãs e europeias [i.e. brancas] em perigo” em França. Mas embora a FN possa ser a ponta de lança desse ataque chauvinista, a necessidade de “controlo da imigração”, “defesa dos valores”, “combate ao crime” (uma expressão codificada que visa os jovens não brancos que lutam) tornou-se cada vez mais o discurso geral dos principais partidos políticos e da classe capitalista no seu todo.

Em 2007, Nicolas Sarkozy, que ficara conhecido como o ministro governamental responsável pela força policial que dirigiu o esmagamento das revoltas nos banlieues em 2005, foi eleito, em grande parte atraindo a base eleitoral da FN (nessas eleições, a FN teve “apenas” 10 por cento dos votos). Mas, desde então, a FN tem gritado que Sarkozy, apesar da sua série de medidas reaccionárias enquanto presidente, não cumpriu adequadamente a promessa dele de “limpar a escumalha com uma Karcher” (as mangueiras de água de alta pressão usadas na limpeza dos excremento caninos das ruas) e a FN exigiu ataques mais fortes contra os chamados “imigrantes” (a maioria dos quais nasceu em França).

A FN, tal como tradicionalmente os partidos fascistas, tentou mostrar-se como partido do “homem comum”, oposto aos grandes capitalistas, bem como à massa dos pobres. Na realidade, esses partidos são os arqui-defensores da ordem capitalista e, tal como os nazis de Hitler, podem crescer à medida que as contradições sociais se intensificam e também serem empolados e incitados pela burguesia, ou sectores dela, quando isso for considerado necessário. Tanto Le Pen pai como a filha têm denunciado a tradicional divisão política “direita/esquerda” e ameaçado com um abanão radical e dramático das actuais estruturas políticas.

A grande mudança nas eleições francesas de 2012 foi que este sector fascista que antes era marginal assumiu todo um novo nível de “respeitabilidade”. Nicolas Sarkozy foi particularmente descarado na sua adulação à FN, adoptando os seus slogans, defendendo o seu “patriotismo” e prometendo cuidar dos interesses daqueles que ela alega representar. O seu Ministro da Defesa, Gerard Longuet, ele próprio membro de grupos fascistas na sua juventude, deu uma entrevista a um diário marginal de extrema-direita chamando parceira legítima a Marine Le Pen.

François Hollande, por seu lado, teve muito cuidado em não fazer nada que incomodasse o eleitorado da FN. Várias figuras chave do Partido Socialista, entre as quais Segolene Royal, ex-companheira de Hollande e ela própria candidata presidencial do Partido Socialista contra Sarkozy em 2007, e que durante a campanha dela defendeu campos de detenção militar para os jovens condenadas por delitos menores ou que desrespeitem os professores, fizeram declarações públicas de “compreensão pelas frustrações” do eleitorado da FN.

O momento mais importante da campanha final entre Sarkozy e Hollande surgiu no único debate televisivo dias antes da votação final. Hollande, desejoso de afastar a sua imagem pública de “mole”, combateu arduamente Sarkozy sobretudo sobre como interpretar algumas estatísticas do desemprego e da dívida pública. Mas quando Sarkozy fez o seu apelo descarado aos eleitores da FN, Hollande manteve-se calado. De facto, o único comentário saliente de Hollande sobre esse tema foi quando ele gritou que se fosse eleito nunca autorizaria carne halal [com cuidados islâmicos] nos refeitórios escolares!

Apesar de ter sido aberta ou encobertamente cortejada por todos os lados, Marine Le Pen recusou-se a fazer um endosso na corrida presidencial entre Sarkozy e Hollande e apelou aos eleitores a votarem em branco. Um número record de seis por cento dos eleitores fê-lo. Le Pen está a contar com que após a derrota de Sarkozy possa ocorrer um abanão no cenário político francês que acabe por provocar uma aliança aberta entre a direita francesa tradicional e a Frente Nacional fascista (como as alianças similares que tem havido nos últimos anos nas coligações governamentais na Áustria e Holanda).

O outro desenvolvimento significativo nas eleições de 2012 foi o surgimento de um forte resultado (11 por cento) do candidato da Frente de Esquerda Jean-Luc Melenchon. A principal força organizada na Frente de Esquerda é o Partido Comunista Francês (PCF), o partido revisionista tradicional de França que há muito tempo fez a sua paz com o sistema capitalista, ao mesmo tempo que alega representar os “operários”. Nas eleições mais recentes, o PCF tem tido resultados cada vez piores (2 por cento nas eleições de 2007). Melenchon não só agrupou as sobras dos apoiantes do PCF no movimento laboral francês como também recolheu bastante entusiasmo entre muitos jovens e profissionais da classe média baixa que antes apoiavam vários partidos políticos de “extrema-esquerda” e “alternativos”. Embora Melenchon, tal como o PCF, se tenha embrulhado nas cores e tradições do estado francês (cantando o hino nacional, a Marselhesa, nos comícios dele e referindo-se repetidamente à revolução burguesa francesa de 1789), também apelava directamente a sentimentos mais radicais. Um dos principais slogans da campanha dele foi “Tomai o poder” (Prenez le pouvoir). Também foi o único candidato a enfrentar directamente a Frente Nacional. Melenchon atraiu multidões entusiásticas de dezenas de milhares de pessoas, frequentemente mais que Hollande ou Sarkozy. Na realidade, a campanha de Melenchon fez exactamente o que era suposto fazer: atrair os sectores progressistas da população, e os jovens em particular, para o beco sem saída da arena eleitoral burguesa.

Parte da imagem pública cuidadosamente cultivada de François Hollande é que ele não era e nunca foi um “revolucionário”. Ele irá ser um “presidente normal” que presidirá prudentemente ao sistema capitalista, gerindo cuidadosamente os interesses imperialistas de França, e não abanando o barco do sistema financeiro mundial. O primeiro discurso de vitória dele foi na sua cidade base em França, onde a praça estava cheia de pessoas comuns “reais” (ou seja, brancos e não-imigrantes) e música tradicional francesa de acordeão.

Embora muita gente se tenha entusiasmado por se livrar do odiado Sarkozy, poucas pessoas têm expectativas elevadas em relação a uma presidência de Hollande. Daí a importância de Melenchon a tamborilar entusiasmo a uma “esquerda” cansada e esgotada. Na noite da primeira volta das eleições, Melenchon apelou aos seus apoiantes a votarem em massa em Hollande na segunda volta, o que eles fizeram esmagadoramente.

Para a classe dominante francesa, estas eleições têm corrido bem até agora. Apesar das previsões em contrário, a participação foi elevada, mais de 80 por cento. Servidores testados e fidedignos do sistema capitalista ficarão com a responsabilidade e não foram obrigados a fazer muitas promessas demagógicas ao povo. O programa geral de cortes orçamentais e austeridade que está a ser implementado em toda a Europa irá continuar em vigor, mesmo que tenha de ser ajustado com uns salpicos de medidas de “estímulo”. Ainda que possam discutir sobre detalhes como a retirada das tropas francesas do Afeganistão no final do ano, a França vai permanecer um parceiro vigoroso da investida e da guerra liderada pelos EUA, tal como foi recentemente o caso da Líbia.

Dois dias depois das eleições, Sarkozy e Hollande estiveram de mãos dadas no aniversário do fim da II Guerra Mundial num tributo na “campa do soldado desconhecido” que foi cuidadosamente coreografado para ser um exemplo de unidade nacional e patriotismo bipartidário, um tributo às “virtudes democráticas” da França imperialista.

Ao mesmo tempo, todo o espectro político move-se para a direita. Marine Le Pen, ruborizada com a sua recém-obtida respeitabilidade, está a calcular como será possível criar um tipo diferente de sistema político.

Há muitos factores no mundo, na Europa e em França que poderão levar a divisões mais agudas na classe dominante de França e/ou a novas vagas de luta entre as massas populares desse país. Quão bem irá Hollande conseguir “gerir” esta situação volátil ainda está para ser visto. É provável que surjam possibilidades para o avanço de um programa revolucionário, mas concretizar esse potencial depende do desenvolvimento de um programa e forças genuinamente comunistas revolucionárias.