França: Por que a vitória de Macron sobre Le Pen não merece nenhum aplauso

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 15 de maio de 2017, aworldtowinns.co.uk

Emmanuel Macron, que venceu a fascista Marine Le Pen na segunda volta das eleições francesas, era o candidato de consenso em torno do qual se uniu a maioria da classe dominante capitalista francesa e dos seus representantes políticos. Mas isto não altera o facto de que o homem que ganhou por uma margem de dois para um representa um programa profundamente impopular que tem a oposição mesmo da maioria daqueles que votaram nele porque ele era o candidato “menos mau”. Além disso, não altera a realidade do colapso do sistema político que tem governado o país desde o fim da última guerra mundial, e da erosão do contexto social e da ideologia subjacente que uniam o país. Não trará estabilidade política e social. E em vez de fazerem recuar o perigo do fascismo em França, estas eleições demonstraram e fortaleceram a legitimação do partido de Le Pen e sobretudo da política declaradamente fascista dela.

Candidato da continuidade e do consenso capitalista

Uma ironia destas eleições é que embora nenhum dos dois partidos que têm alternado na governação de França, os socialistas e o partido agora chamasse Les Républicains, tenha chegado à segunda volta das eleições, o programa de Macron representa a continuação e a intensificação de medidas do agrado de ambos. A diferença é que até agora o processo para tornar o capital francês mais competitivo tem avançado em grande medida de uma forma disfarçada. Por exemplo, apesar da semana oficial das 35 horas de trabalho, muitos trabalhadores dos serviços e dos transportes sentem a vida a escoar-se-lhes devido ao trabalho por turnos. Os trabalhadores dos escritórios passam os “tempos livres” frente a um ecrã de computador em casa. Os estágios prolongados não pagos ou mal pagos são vistos como trabalho escravo pelos jovens, e o uso extensivo de empregos com contratos de trabalho de curto prazo renováveis significa que muitas pessoas nunca obtêm segurança no trabalho. Os trabalhadores mais velhos enfrentam uma hostilização – por vezes até ao ponto do suicídio – que visa forçá-los a sair apesar da suposta proteção dos empregos pela lei.

Agora Macron propõe “desbloquear” o mercado de trabalho com novas leis. Uma delas fará com que os salários e as condições de trabalho sejam negociados empresa a empresa, eliminando todo o conceito de que a sociedade tem direito a alguma proteção geral, o que seguramente conduzirá a uma espiral descendente. Ele também dará muito mais poder aos empregadores para despedirem à vontade, forçará os desempregados a aceitar quase todas as propostas de trabalho após as duas primeiras propostas e, de outras formas, abolirá os direitos adquiridos que tornavam a vida mais tolerável para muitos trabalhadores. Ele tem falado em cortes drásticos nos serviços sociais de maneira a obter financiamento governamental para áreas chave que tornem as indústrias francesas mais fortes e para reduzir a dívida pública.

Este é o caminho já muito gasto na Grã-Bretanha e na Alemanha. Quando o Presidente socialista François Hollande, que está de saída, escolheu Macron como seu protegido e ministro das finanças, como parte de uma jogada mais vasta para implementar este tipo de medidas, a convulsão social daí resultante ajudou a matar a carreira de Hollande e levou Macron a demitir-se do governo e do partido. Contudo, Macron agora está de regresso, com um novo partido e o mesmo programa reforçado com esteroides. Sob a coberta da sua derrota de Le Pen e de todo o espetáculo centrado na idade dele (aos 39 anos, é o mais jovem chefe de estado francês dos tempos modernos) e da propensão dele para roupa pronta-a-vestir em vez de roupa à medida, Macron promete “renovar” e “moralizar” a política francesa através da substituição de alguns dos velhos políticos do país por mulheres e homens jovens. Não é difícil prever que à atual intoxicação fomentada pela comunicação social se seguirá uma terrível ressaca. Também não é difícil prever que isto irá trabalhar a favor de Le Pen.

De maneira semelhante à de outros países imperialistas desde o fim da última guerra mundial, os capitalistas monopolistas franceses têm governado através de um modelo político em que o governo tem alternado entre forças políticas do centro-esquerda e do centro-direita que representam variantes reais, ainda que longe de fundamentais, de um modelo social subjacente em que a satisfação de algumas necessidades humanas básicas tem sido mais ou menos garantida a uma vasta secção da população, incluindo grande parte da classe operária, em troca de uma paz social garantida pela posição do país entre os principais predadores do sistema imperialista global. Em particular, o Partido Socialista, que se afundou para o nível de um partido de franja quase da noite para o dia, já não é capaz de fornecer uma verdadeira alternativa ao partido tradicional da direita abertamente capitalista, ao mesmo tempo que uma parte significativa da sociedade, incluindo estratos antes considerados a base da esquerda parlamentar, caiu presa das promessas de Le Pen de melhorar a atual situação. É uma polarização nova e perigosa.

A paradoxal derrota de Le Pen

O ataque a Le Pen por parte dos rivais dela, da comunicação social e de outras figuras bem colocadas ocorreu principalmente em condições que lhe são favoráveis, pelo que mesmo na derrota ela está mais forte que nunca. Ela alega, não sem razão, que outros membros do sistema político lhe estão a copiar as propostas, diferindo sobretudo no grau e na determinação. Por exemplo, Macron, em vez de denunciar o horrendo apelo dela a mais repressão, diz que a “segurança” é a preocupação prioritária dele e planeia instituir penas de prisão sistematizadas para crimes menores e abrir espaço para um aumento da população prisional em 20 por cento, num país que já tem uma das mais elevadas taxas de encarceramento na Europa. Também irá contratar muito mais polícias e guardas fronteiriços, instituir a prisão domiciliária para os requerentes de asilo e acelerar o processamento e a expulsão deles. Estes passos têm pouco a ver com proteger as pessoas contra o crime violento, o qual está em queda, apesar da perceção popular alimentada pelos políticos. Nem, e os peritos reacionários estão de acordo aqui, nada disto teria impedido os recentes ataques terroristas islamitas. Estas medidas estão alinhadas, em grande medida, com o argumento de Le Pen de que aquilo de que a França mais precisa é de um clima ainda mais punitivo, sobretudo tendo como alvo os muçulmanos e as pessoas mantidas no fundo da sociedade de uma maneira mais geral, juntamente com o fortalecimento das forças repressivas do estado. Tudo isto demonstra que em vez de ser um fenómeno isolado, Le Pen é parte essencial de uma deslocação global para a direita na política francesa.

Mas, paradoxalmente, onde Le Pen é qualitativamente diferente dos rivais dela é que ela desfrutou de total impunidade na campanha eleitoral. Pode parecer óbvio que o rótulo de fascista descreva objetivamente o partido dela, o qual tem raízes no regime fascista de Vichy que governou a França em colaboração com os ocupantes nazis durante a II Guerra Mundial. O pai dela e fundador do partido, Jean-Marie Le Pen, é conhecido por chamar ao Holocausto um mero “detalhe” da II Guerra Mundial. Uma amnistia de criminosos de guerra franceses protegeu-o de um processo judicial acusado de ter cometido tortura quando era oficial do exército francês durante a fracassada guerra de França para impedir a independência da Argélia.

Marine Le Pen é mais que uma participante chave na deslocação para a direita em França e na Europa de uma maneira mais geral. Ela também representa um esforço para criar todo um novo quadro legal e ideológico, um quadro que explicitamente demoniza e despoja direitos a milhões de pessoas que ela considera “insuficientemente” francesas, mesmo se nascidas em França, com mais que uma sugestão de ameaça de limpeza étnica – o fascismo, em suma. Embora dezenas de milhares de pessoas corajosas se tenham manifestado contra a candidatura dela, não foi nada parecido com os corajosos milhões que se manifestaram contra o pai dela quando ele fez um progresso significativo e chegou à segunda volta das eleições presidenciais em 2002 – e está longe do que é necessário acontecer desta vez. Isto é parcialmente explicado pelo facto de a maioria dos políticos e da comunicação social da classe dominante se terem abstido de erguer uma cerca política à volta dela. Ela foi tratada como candidata legítima nos debates televisivos, sobretudo por Macron, que condescendentemente se focou no desajeitamento intelectual dela em vez de a chamar inimiga da forma democrática burguesa de governo e do slogan “Liberté, égalité, fraternité”. Este slogan resume um ideal, o de que todas as pessoas são iguais, que nunca poderia descrever a realidade de uma sociedade dividida em classes antagónicas, já para não falar de um mundo dividido em nações opressoras e nações oprimidas. Mas que tem estado no centro da cola ideológica que une a sociedade francesa.

Em suma, Le Pede obteve um salvo-conduto no que diz respeito ao que ela realmente representa. O facto de ela ter conquistado um terço dos votos é visto como suficiente para a tornar uma figura legítima, apesar do programa dela, ainda que provavelmente pudesse não ter acontecido se ela não sido tratada desde o início como uma possibilidade legítima. Parte do que mudou foi que uma pequena mas muito significativa secção da direita tradicional se juntou a ela, pela primeira vez na história do partido dela. Ela espera, pelo menos, vir a colocar-se como a principal alternativa a Macron e ao que ela denuncia como o sistema político que ele representa. No mínimo, pode dizer-se que a classe dominante francesa em geral tem favorecido objetivamente a presença dela na paisagem eleitoral, se não mesmo a vitória dela – nas atuais circunstâncias.

Como o candidato da “extrema-esquerda” fez a parte dele pelo sistema

O outro principal participante na produção de ilusões eleitorais – a ilusão de que as eleições não são mais que uma forma de regime sob a qual os capitalistas monopolistas exercem uma ditadura disfarçada – foi Jean-Luc Mélenchon e o partido dele, La France Insoumise (A França Insubmissa). O apelo dele a “todos os filhos da República” não foi assim tão diferente de Macron no encobrimento da opressão estrutural sistemática e horrenda daqueles que em França têm origens nas ex-colónias francesas e na escravidão. Enquanto o nacionalismo de Le Pen cheira mal para muitas pessoas, Mélenchon fez muito para dar ao nacionalismo e ao patriotismo franceses uma cobertura de esquerda e para os tornar respeitáveis. Este foi o aspecto mais importante do programa dele, e não a lista de desejos dele de novos benefícios do tipo daqueles que os sindicatos tentaram obter com êxito nas décadas já desaparecidas em que o imperialismo francês e o sistema imperialista mundial estavam em melhores condições. (Ele também se distinguiu pelos generosos elogios dele à polícia e aos CRS, a força paramilitar amplamente odiada por atacar grevistas e manifestantes e cuja única missão é impor a ordem social.)

A solução proposta por Mélenchon para a incapacidade do Partido Socialista francês de manter as suas promessas é fortalecer a posição do imperialismo francês no mundo. Isto não contradiz nem o distingue do que une Le Pen e Macron: tomar os interesses imperialistas franceses como o bem supremo. A hostilidade de Mélenchon à União Europeia pode muito bem ser uma importante razão para a “classe política” francesa o estar a excluir de uma maneira em que Le Pen já não é inteiramente excluída, sobretudo agora que ela parece estar a recuar na anterior oposição dela. Mas ele salienta permanentemente o necessário lugar da França na “Europa”, um termo que se refere a algo mais que um continente apenas quando a sua identidade é a de herdeira coletiva (juntamente com os EUA e a Grã-Bretanha) das riquezas produzidas pela escravatura e pelo colonialismo e cujos níveis de vida só são possíveis devido à exploração e à pilhagem globais em constante expansão dos povos oprimido de todo o mundo. Pelo contrário, o queixume de Mélenchon é de que a França não está a sair-se suficientemente bem na crescente rivalidade no interior desta irmandade de ladrões.

Assim que foi eleito, Macron, tal como os predecessores dele, programou para abrir a presidência dele uma visita ao Mali, um dos muitos lugares onde as tropas francesas estão estacionadas no estrangeiro. Estas tropas têm a missão de defender a dominação francesa contra os islamitas e os imperialistas rivais – para defenderem, contra os interesses da humanidade, a noção ilegítima de “Françáfrica”, de que a França tem um direito inerente a dominar grande parte de África em conluio e em rivalidade com os outros imperialistas. Iria – poderia – Mélenchon agir de uma maneira muito diferente?

Além disso, é impressionante que embora Mélenchon tenha chamado fascista a Le Pen numa campanha anterior – e tenha ganho quando ela o processou por calúnia – desta vez ele não tenha repetido essa acusação. Isto é consistente com as tentativas dele de roubar apoiantes à base social dela, tal como ela fez à dele. Ele apelou aos seus seguidores para não votarem nela na segunda volta, e parece que muito mais apoiantes do Les Républicains acabaram por votar em Le Pen do que os de Mélenchon. Ainda assim, há uma semelhança no apelo deles ao sentimento de que as “elites”, vagamente identificadas, optaram por uma globalização que destruiu os valores tradicionais e roubou aos “franceses” o lugar legítimo deles no mundo. Esta nostalgia reacionária tem um eco particular entre os membros da classe operária que detêm os trabalhos negados aos imigrantes ou aos que sob outras formas desfrutam de pequenos privilégios, em comparação com os muitos milhões de pessoas que foram levadas para França para trabalharem nas tarefas mais árduas. Além disso, como parte do esforço dele para atrair a base social de Le Pen, Mélenchon não a tentou combater no campo dos valores, campo em que Le Pen reafirmou vigorosamente o sistema patriarcal e outros valores católicos tradicionais que têm estado cada vez mais sob tensão devido a fatores económicos e sociais objetivos, entre os quais grandes mudanças na própria sociedade francesa. (Significativamente, a hierarquia católica francesa, ao contrário das suas congéneres de outras religiões, não apelou à derrota de Le Pen.)

Apesar da aparente oposição entre a defesa da “Liberté, égalité, fraternité” por parte de Mélenchon – e de Macron – e o fascismo de Le Pen (“os franceses primeiro”), estas posições escondem ambas o facto de que a França, tal como todos os outros países, é uma sociedade constituída por classes sociais, muito basicamente exploradores e explorados, cujos interesses estão em oposição antagónica entre si.

Uma saída para as inaceitáveis escolhas de hoje

Há uma necessidade e uma base para um tipo de sociedade completamente diferente que trabalhe para a eliminação das distinções de classe em todo o mundo, baseando-se em e libertando a energia criativa e o vasto potencial dos seres humanos. Isto só pode querer dizer uma genuína revolução proletária tal como foi reconcebida por Bob Avakian, quando aqueles que estão no fundo da sociedade e os aliados deles em toda a sociedade tomarem o poder político levados não por um apelo a um percebido interesse próprio e estreito, mas como parte de um processo global de conscientemente se transformarem a eles próprios e ao mundo.

Nenhuma força política na sociedade francesa se opôs vigorosamente a Le Pen com uma visão e um plano para um tipo de sociedade e de mundo completamente diferente, que não seja nem uma continuação do atual statu quo capitalista que tantas pessoas em França hoje acham inaceitável, nem uma resolução dos seus valores hipócritas através de um apelo ainda mais reacionário ao egoísmo descarado e à opressão impostos pelo terror. No entanto, as circunstâncias gritam exatamente por isso – pelo desenvolvimento de um genuíno movimento comunista revolucionário.