França: Piadas horrendas e um sistema ainda mais horrendo

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 21 de Janeiro de 2014, aworldtowinns.co.uk

De um leitor em França

A situação que rodeia a recente proibição em França de um espectáculo do comediante Dieudonné M'Bala M'Bala é complexa e horrenda em todos os sentidos.

A pior coisa sobre ela é que tantas pessoas que têm sofrido opressão estão a ser atraídas por um extremista violentamente antijudaico, anti-homossexual e antimulher. Embora os apoiantes de Dieudonné tenham uma base de fãs e não sejam um movimento político, o conteúdo do pretenso humor dele, a compreensão dele em  relação ao “sistema” e àquilo a que ele se opõe no sistema coincide com os pontos centrais das revigoradas correntes fascistas de França e das organizações para quem os imigrantes e os homossexuais são um alvo.

O ponto principal da actuação de Dieudonné é expor os duplos padrões legais e morais que prevalecem em França. Muitas pessoas vos dirão que é um humor baseado no desconforto da verdade e no prazer de romper tabus, dizendo-os. Ele alega: Porque é que é um escândalo troçar da “sua avó que morreu em Auschwitz” – e ele faz isso e pior, excepto enaltecer abertamente o genocídio dos judeus europeus – enquanto, quando se chega a “a minha avó que morreu sob as botas dos colonialistas franceses nos Camaroes”, “vocês” não vêem isto à mesma luz? Porque é que é ilegal defender ou brincar com os “crimes contra a humanidade” que ocorreram entre 1942 e 1944 (o genocídio dos judeus europeus), mas essa etiqueta não é aplicada ao genocídio dos nativos americanos e à escravidão? E poderíamos acrescentar o que ele não faz: Porque é que é ilegal em França chamar “controversas” às câmaras de gás, porque é que isso equivale a uma negação implícita de que elas realmente existiram, mas quando um ministro do governo fala sobre “os benefícios do colonialismo”, isso é considerado um tema legítimo de debate?

O estabelecimento político – quase todo o espectro do que os franceses chamam “a classe política” de ministros e altos responsáveis do passado, presente e possíveis futuros – despejou desprezo sobre a cabeça de Dieudonné até que um tribunal decidiu que o espectáculo anti-semita dele era uma “ameaça à ordem pública” e a polícia de choque foi enviada para trancar as portas do teatro dele. (Desde então, ele tem sido autorizado a representar um espectáculo reescrito e menos provocador.) Para os velhos e novos fãs de Dieudonné, esta decisão legal invulgar e talvez sem precedentes só confirmou o que ele andava a dizer: “ordem pública” significa silenciar a ira contra a opressão deles em nome do respeito pela opressão dos judeus.

A primeira coisa que tem de se dizer é que o estado francês não tem nenhum direito moral a criticar Dieudonné em nada, nem mesmo no anti-semitismo. As leis contra a incitação ao ódio religioso e étnico e à negação do Holocausto (a ideia de que o genocídio dos judeus é um falso mito inventado pelos próprios judeus) representam a hipocrisia ao serviço da opressão e do domínio da classe capitalista francesa. Os governantes de hoje obscurecem o grau de continuidade entre o estado francês da altura do genocídio judeu e de agora.

Depois de a Alemanha ter derrotado a França em 1940, o parlamento francês convidou o antigo chefe do exército Philippe Pétain a se tornar primeiro-ministro. Mais tarde, ele tornou-se chefe do estado francês, sediado na cidade de Vichy, que exerceu o poder político na parte meridional de França não ocupada nem administrada pela Alemanha. A ideologia de Pétain ligava a honra à pátria francesa com a família tradicional e a Igreja. O regime dele perseguiu com entusiasmo, e por sua própria iniciativa, dezenas de milhares de judeus na França desocupada, entregando as listas de judeus do censo nacional aos alemão e ajudando zelosamente a procurar judeus em Paris e noutras zonas ocupadas. Um total de cerca de 75 mil judeus foram deportados de França para os campos da morte nazis, juntamente com homossexuais e Ciganos.

O fim da guerra viu a queda do regime de Vichy, mas alguns dos seus responsáveis mantiveram-se ao serviço do governo. O novo regime precisava deles para perpetrar os seus próprios crimes contra a humanidade. O governo francês levou a cabo uma guerra contra o movimento pela independência da Argélia ainda mais brutal do que a que a Alemanha tinha levado a cabo contra a França. A restabelecida República Francesa enviou Maurice Papon, um notório carniceiro de Vichy, para ajudar a administrar a sua colónia argelina, e mais tarde colocou-o a liderar um pogrom policial tipo nazi contra os argelinos em Paris.

Quanto ao anti-semitismo, não foram os imigrantes muçulmanos, como é tão frequentemente insinuado, que o introduziram e alimentaram em França, mas sim a Igreja Católica. A Igreja apelou às cruzadas e ao genocídio contra os muçulmanos, os judeus e outros “infiéis” muito antes de a França ter um “problema de imigração”. A influência do anti-semitismo é tão persistente nalguns círculos católicos franceses que até 1989 alguns importantes membros do clero abrigaram um notório funcionário de Vichy responsável por genocídio.

Além disso, quanto à questão do direito moral da classe dominante francesa a criticar Dieudonné, mesmo sem irmos ao detalhe das vidas dos árabes e africanos hoje em França, poderíamos citar o próprio Dieudonné. Num sketch sobre Dominique Strauss-Khan [DSK], o dirigente do FMI e importante candidato presidencial francês que foi acusado de violação de uma empregada africana no quarto do hotel dele em Manhattan, ele cita o dirigente do Partido Socialista de Strauss-Khan, que se queixou das condições indignas da prisão de DSK (algemas, desfilar perante a imprensa), dizendo que DSK teve “direito à presunção da inocência”.

Dieudonné simplesmente reproduz repetidamente essas palavras enquanto estabelece contacto visual com os elementos da audiência até toda a gente quebrar. A maioria é jovem. Muitos têm pais que sofreram os “benefícios do colonialismo” e que mais tarde foram trazidos para partirem as costas nas minas, nas fábricas e na construção civil francesa. Hoje, eles e outros jovens estão confinados a habitações sociais à espera de um futuro. (De facto, ir a um espectáculo de Dieudonné no centro de Paris é um grande acontecimento, um acto de desafio para os jovens da banlieue, os subúrbios degradados e distantes.) O que ele insinua é ainda mais poderoso porque não tem de ser dito. Durante toda a vida deles, esses jovens foram ensinados pela polícia e pelo sistema que são presumidos como culpados.

O problema é que, depois desses momentos, este cómico inicia imediatamente uma tirada sobre a forma como os judeus gerem a França, insinuando que Strauss-Khan foi salvo da ignomínia de ser acusado de violação, abuso de crianças e fraude financeira por uma conspiração internacional de judeus proeminentes (Dieudonné dispara meia dúzia de nomes) que supostamente se protegem uns aos outros. Ele fala sobre porque é que nos círculos políticos e mediáticos é considerado respeitável defender que Strauss-Khan foi vítima de uma trama anti-socialista, enquanto não é mostrada nenhuma clemência às pessoas que defendem que o 11 de Setembro foi uma conspiração judaica. Este é o procedimento padrão de Dieudonné. Em vez de alegar que “os judeus” estiveram por trás do ataque ao World Trade Centre em Nova Iorque, ele simplesmente diz que essas teorias deveriam ser consideradas legítimas – e que se essa alegação não pode ser provada, é porque os judeus não o permitem. Desta forma, ele consegue proclamar que os judeus gerem a França e o mundo sem ter de apresentar qualquer evidência – porque não há nenhuma.

A importância de Israel na ascensão de Dieudonné não pode ser sobrestimada. Os políticos franceses, sobretudo os socialistas, procuram o apoio dos eleitores judeus, mas isso é um factor muito secundário. Se muitos jovens franceses em geral não conseguem distinguir entre o Sionismo e os judeus, isso é sobretudo porque sempre foram ensinados pela escola, pela comunicação social e pela classe política que o respeito a Israel significa o respeito aos judeus. Além disso, os responsáveis israelitas e as organizações sionistas em França atacam constantemente mesmo as mais leves críticas a Israel como sendo anti-semitismo. Embora os círculos oficiais franceses nem sempre gostem disso (os governos franceses e outros governos europeus por vezes são o alvo das calúnias sionistas), tudo isto é considerado parte do discurso social legítimo.

Quando as crianças árabes e outras em França vêem televisão e vêem soldados israelitas a disparar granadas de aturdimento contra manifestantes palestinianos e mesmo a espancar crianças, eles são ensinados que isso pode ser controverso mas que no fim de contas Israel tem de continuar a ser um estado judaico, e as conclusões que eles retiram não são surpreendentes. Sem Israel, o anti-semitismo teria provavelmente continuado a ser sobretudo um problema entre os brancos de ascendência francesa. Dieudonné escolheu cuidadosamente os seus inimigos com a sua alegação de que o que está errado com a França não é o seu sistema económico e social capitalista, mas que o seu governo é uma frente do domínio judaico.

Nunca ele é mais anti-semita que quando pretende alegar o contrário: “Eu não sou anti-semita – ainda não”, referindo-se ao que ele diz serem as tentativas dos judeus para o esmagarem. Ou, defendendo-se da acusação de apoiar o genocídio judeu, diz: “Em relação ao conflito entre as SS e os judeus, eu sou neutro. Não sei quem provocou quem”. É revelador que, quando fala sobre os homossexuais, ele abandone mesmo a pretensão de “neutralidade” e declare abertamente que quer fazer a audiência dele “sair e ir comer queers”. Esta referência adicional, supostamente “gira”, às calúnias antinegros (de que os africanos são canibais) é usada para justificar uma intolerância tão abertamente violenta que apenas chamar-lhe homofóbica não é suficiente.

De facto, ele retrata quase sempre os judeus como afeminados, com pequenas vozes elevadas e num constante estado do tipo de histeria que os sketches dele atribuem às mulheres. O gesto “quenelle” que é marca registada dele, uma saudação nazi invertida, liga todo o pacote, usando um gesto neonazi “brincalhão” (ou seja, plausivelmente negável) que liga os judeus, os homossexuais e as mulheres como seres inferiores que merecem ser penetrados e portanto dominados por homens de verdade.

Dieudonné pode ter muitos seguidores nos bairros sociais, mas ele promove e retira lições de alguns dos principais ideólogos dos movimentos “catho-fascho” [católicos fascistas] de França, das zonas ocidentais mais abastadas de Paris. Essas pessoas anseiam pelo que eles imaginam ter sido a França “tradicional” e odeiam a ideia de uma sociedade multiétnica. Dieudonné partilha com eles a reverência a Pétain. Quando lhe perguntaram qual o seu presidente francês favorito, Dieudonné, no seu habitual estilo sarcástico, deliberadamente ambíguo mas não verdadeiramente ambíguo, disse: “Pétain, porque ele tinha um bigode simpático”. E acrescentou que Pétain teria sabido o que fazer em relação aos problemas que a França hoje enfrenta.

Qualquer pessoa que olhe para Dieudonné e só veja a classe e a cor das pessoas que riem com as piadas dele, ou que ele supostamente ataca os ricos, deveria considerar que também Pétain teve uma dimensão populista. A questão dos objectivos e da ideologia é importante. O regime de Pétain recrutou jovens franceses comuns – filhos de lojistas, operários fabris e desempregados – para uma “milícia revolucionária” cujos membros eram autorizados a atormentar judeus abastados e outras pessoas que antes podiam ter olhado de cima para eles.

Qual é a posição do Dieudonné “anti-sistema” em relação à etnia de longe mais oprimida em França, os excluídos e bodes expiatórios oficiais do país, os Roma (como os ciganos da Europa de Leste preferem ser chamados)? O silêncio dele em relação a isto é impressionante porque Manuel Valls, o Ministro do Interior que liderou o ataque a Dieudonné, também é o principal atormentador anti-Roma em França.

No ano passado, Valls pronunciou um discurso sobre os Roma salientando que eles não podem estar à espera de serem tratados como os outros imigrantes porque é “impossível” eles serem integrados na sociedade francesa. (A verdade é que mesmo os ciganos cujas famílias vivem em França há centenas de anos enfrentam uma discriminação legal concebida para os excluir.) De facto, o discurso de Valls foi tão rancoroso e racista que se a palavra Roma fosse substituída pela palavra judeu, o principal polícia de França teria sido legalmente obrigado a prendê-lo. Mas Dieudonné deu ao seu crítico mais poderoso uma abertura neste exemplo especifico de duplo padrão.

Quem são os verdadeiros rebeldes contra o sistema no que diz respeito aos Roma? Quem está a desafiar o consenso oficial de que a existência de algumas pessoas é uma “ameaça à segurança pública”? O governo socialista de François Hollande vangloria-se de ter deportado o dobro do seu antecessor de direita. A estratégia é mandar repetidamente a polícia armada de choque e escavadoras para destruírem os campos ocupados por eles até que as vítimas concordem com a “deportação voluntária”. No verão passado, a polícia mandou parar um autocarro escolar que transportava uma menina de 15 anos chamada Leonarda Dibrani, cuja família se tinha registado perante as autoridades e pedido asilo político com base nas atrocidades infligidas aos Roma na Albânia. Ela foi retirada dali à frente dos colegas dela e foi imediatamente levada para fora do país para que não pudesse ser iniciada nenhuma acção legal para a salvar.

Durante vários dias, dezenas de milhares de adolescentes saíram das escolas secundárias e manifestaram-se nas ruas em defesa de Leonarda. Indignados e lutando furiosamente, filhos e netos de árabes e africanos, bem como de pais franceses, eles eram muito possivelmente as irmãs e irmãos mais novos de pessoas que agora fazem fila para ver Dieudonné. Da mesma forma, alguns dos que agora fazem fila estiveram provavelmente a lutar nas ruas durante a revolta dos banlieue e nos grandes protestos dos estudantes das escolas secundárias de meados dos anos 2000.

Aqui chegamos ao cerne do problema. É verdadeiramente terrível e trágico que alguém como Dieudonné se tenha tornado numa saída para as iras deles – qualquer delas. Esta situação não era inevitável e deve ser alterada. Aquilo contra que a “actuação” dele está a trabalhar, e que a torna benéfica para o sistema, é uma compreensão de quem são os amigos e os inimigos dos oprimidos.

Por razões contraditórias, uma grande parte dos franceses tem vindo a desprezar os partidos de esquerda e de direita que têm alternado no governo com programas políticos, sociais e económicos cada vez mais convergentes. O que resta da “esquerda” – cuja estratégia, se não mesmo no interior do Partido Socialista, tem sido empurrar os socialistas para a “esquerda” – está auto-desacreditada, normalmente desencorajada e em crescente desordem. A direita principal reclama que os socialistas lhes roubaram o programa deles, enquanto a extrema-direita proclama que representa uma mudança radical. A “esquerda”, e mesmo a chamada extrema-esquerda, não pode fazer nada mais a não ser defender o estado actual, que milhões de pessoas acham inaceitável. Dieudonné pode ter meio milhão de seguidores multinacionais no YouTube, mas os grupos e movimentos que mais militantemente se opõem ao consenso da classe dominante são desconcertantemente de extrema-direita – e militantemente brancos.

Dieudonné representa uma complexa simbiose entre diferentes tipos e faixas de reacção. Um homem que compreende o seu tempo, as “piadas” cínicas dele têm uma poderosa ressonância entre muitos dos que não suportam a hipocrisia e a incoerência moral da actual ordem social. Mas em vez de defender a emancipação global em relação aos “crimes contra a humanidade” e ao opressor sistema capitalista, ele quer libertar-se das pessoas que considera estarem no caminho dele. Como é que isto pode libertar a sua base de fãs ou mesmo salvá-lo de uma desastrosa manipulação não é uma questão a que ele ache que um comediante tenha de responder.