Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de Dezembro de 2003, aworldtowinns.co.uk

Fórum Social Europeu reúne-se em Paris:
“Sabemos que outro mundo é possível, apenas não temos a certeza qual...”

Recebemos este relato de um activista do MRPM que assistiu ao Fórum Social Europeu:

50 mil delegados de toda a Europa e de outros países confluíram para Paris para o Fórum Social Europeu, quatro dias de conferências e debates, actividades culturais e algumas acções de desobediência civil, entre 12 e 16 de Novembro. Vieram de todas as partes da Europa, incluído do Leste, bem como um pequeno mas significativo número de pessoas da América Latina e da Ásia. O FSE culminou numa grande manifestação pelas ruas de Paris no sábado, 15 de Novembro, que atraiu mais de 80 mil pessoas de muitas nacionalidades que representavam uma miríade de temas sociais: exigir a saída das tropas dos EUA-GB do Iraque e mobilizar contra a visita de Bush a Londres na semana seguinte; apoiar os palestinianos contra o terror israelita; e opor-se ao repúdio dos EUA do tratado de Quioto e aos organismos geneticamente modificados, ao encarceramento de 700 presos políticos bascos e à pena de morte que pende sobre o jornalista afro-americano Mumia Abu-Jamal, aos muitos cortes nos serviços sociais franceses e à política de deportação de imigrantes do direitista ministro do interior francês e as tentativas de restringir os direitos civis em França. Manifestantes segurando segmentos do muro tipo “apartheid” construído pelos israelitas para reconfigurar os territórios ocupados, flanqueavam uma secção da marcha. Grupos mexicanos, brasileiros e de rock tocavam enquanto enormes efígies de símbolos do capitalismo flutuavam por cima de vários contingentes. Activistas do Movimento de Resistência Popular Mundial distribuíram 30 mil folhetos em inglês e em francês e levaram faixas apelando as pessoas a resistir à ocupação do Iraque levada a cabo pelos EUA e exigindo que seja libertado da prisão na Índia o Camarada Gaurav, o líder revolucionário que enfrenta uma extradição para as mãos dos que pretendem ser os seus torturadores e executores no Nepal.

Com o seu tom geral contra o neoliberalismo, o FSE organizou durante três dias mais de 300 painéis de discussão de dimensões diversas em locais distribuídos à volta de Paris, com temas que variavam entre o imperialismo e a guerra, a reformulação do papel da Europa na actual globalização, os efeitos sociais nos desempregados e noutros grupos marginalizados pelo sistema, a viabilidade de um grupo de vigilância de cidadãos para monitorar o Banco Central Europeu, a ocupação da Palestina e o Iraque, o desenvolvimento de políticas alternativas para melhorar a competição agrícola Norte-Sul e o acesso à água no terceiro mundo, bem como a abertura das fronteiras aos imigrantes e a restrição das práticas discriminatórias e racistas por parte dos governos europeus contra as minorias nacionais, a redução da desigualdade das mulheres... para dar apenas alguns exemplos.

Um grande número de jovens e de activistas veteranos vieram para opor-se e para minorar os efeitos negativos do capitalismo e do imperialismo e das suas inúmeras injustiças e constituíram uma poderosa corrente de vozes questionando e procurando maneiras de o conseguir enquanto concordavam antecipadamente que não haveria uma declaração final comum. Quase todas as correntes políticas do planeta estavam presentes (apesar de uma proibição oficial da participação de partidos políticos para assegurar a “independência” e evitar um “aproveitamento político”), representadas pelas suas publicações e por associações ou organizações de massas e não perderam uma oportunidade de tentar influenciar este crescente movimento outro-mundista – ou “altermundialista” (como alguns agora se lhe referem em França e na Europa, vendo isso como menos confrontacional que a expressão antiglobalização). Vários ministérios enviaram representantes (foi dito que o evento foi financiado a 80% por diferentes níveis do governo francês) e muitos grupos religiosos também participaram. Quanto ao Partido Socialista Francês, cuja posição de ex-partido governamental da “esquerda oficial” em França, decaiu nos últimos anos, os delegados anarquistas consideraram a sua participação imprópria, escarneceram-nos em cantigas durante o Fórum e tentaram afastá-los fisicamente para fora da manifestação de sábado. Um largo espectro de bancas que ofereciam literatura política e materiais activistas atraíram um grande número de visitantes.

A variedade de temas era extremamente grande e forneceu ricas oportunidades para explorar importantes questões sociais e quão reais são as soluções sob o actual sistema. Ao mesmo tempo, as forças políticas mais conservadoras dentro deste movimento crítico do neoliberalismo, juntamente com intelectuais que partilham as mesmas ideias – como a liderança da ATTAC (a organização reformista que pede um imposto sobre as transacções financeiras para contrariar os excessos e os males sociais do capitalismo), grupos e publicações social-democratas de esquerda, bem como o revisionista Partido Comunista Francês (PCF), que tem vindo a perder expressão eleitoral nos últimos anos, embora ainda mantenha a liderança local em alguns subúrbios operários de Paris – representaram um importante papel na definição da organização do Fórum e de muitos dos painéis plenários. Além disso, uma corrente dentro do FSE vê como seu objectivo não ser um “contrapeso” às estruturas de poder existentes mas sim um fórum para diálogo com os representantes eleitos. Estes factores combinados tiveram frequentemente o efeito intencional de limitar o debate dentro dos parâmetros de uma crítica a algumas das características malignas do capitalismo ao invés de uma mobilização da tremenda energia dos participantes e do potenciar do despertar político dos participantes mais novos a realmente desafiarem o sistema como um todo. Milhares de jovens, activistas veteranos e outros vieram debater se e como pode o capitalismo ser mudado, reformado, as suas políticas modificadas para tornarem a vida menos miserável e sem sentido para as massas populares, e muitos deles estavam à procura de uma alternativa e de uma direcção clara para uma oposição activa comum. Muitos sentiam que embora aprendessem algo e que os oradores estavam informados e eram “inteligentes”, não era dada muita voz aos seus objectivos ao virem juntar-se a outras forças anticapitalistas. Embora alguns participantes tivessem ficado contentes com o nível de trocas de pontos de vista no Fórum, outros queriam muito mais. Segundo o jornal Le Monde, os apoiantes do activista rural francês, José Bové, louvaram a consciência colectiva dos assuntos sociais que estavam a ter lugar, mas sentiam que havia muita conversa sobre premissas sem decisões sobre modos de acção. Um participante da Bélgica contou ao jornal diário Libération, “é globalmente muito suave... como uma grande festa. Só que é que estamos a celebrar? O Iraque? A crise económica?” “Sabemos que outro mundo é possível, mas não temos ainda a certeza de qual”, assim resumiu os eventos um activista do Chile.

O Fórum Social Mundial cresceu a partir do movimento antiglobalização como uma espécie de contra-cimeira popular às dos líderes dos países ricos industrializados que dominam a ordem imperialista. As três primeiras assembleias aconteceram em Porto Alegre (Brasil) em 2001, 2002 e 2003 e atraíram muitos milhares de pessoas de todo o mundo. O Fórum Social Europeu de Paris segue-se a uma primeira reunião em Dezembro de 2002 em Florença (Itália) contra a qual o primeiro-ministro Berlusconi conduziu uma intensa campanha política. Foram anunciados futuros dias europeus de acção contra o neoliberalismo e a guerra para 20 de Março – aniversário da invasão do Iraque pelos EUA e seus aliados –, e para 9 de Junho – para protestar contra uma rescrita da Constituição Europeia que “endeusa o liberalismo”. O próximo Fórum Social Mundial terá lugar em Bombaim, na Índia, de 16 a 21 de Janeiro de 2004, com o objectivo de “internacionalizar” o movimento e de integrar mais completamente a Ásia. Numa iniciativa separada, vários grupos políticos, incluindo o Fórum de Resistência Popular de Toda a Índia, o Movimento de Resistência Popular Mundial (Ásia do Sul), o Bayan, a Liga Internacional de Luta Popular, o Campo Anti-Imperialista e outros estão a patrocinar um evento paralelo chamado “Bombaim Resistência 2004”, de 17 a 20 de Janeiro. Não está em oposição ao FSM, mas pretende basear-se nas batalhas militantes iniciadas em Seattle e depois, para desenvolver “um sólido movimento anti-imperialista para além do pensamento e debate reflectivo, rumo a uma resistência organizada contra a globalização e a guerra imperialista”.