Falluja: Os EUA continuam a matar mesmo após a retirada das suas tropas

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 10 de Janeiro de 2011, aworldtowinns.co.uk

Dois recentes estudos médicos compararam os efeitos de longo prazo dos ataques liderados pelos EUA a Falluja em 2004 com os que os EUA infligiram ao Vietname – e a Hiroxima e Nagasáqui.

Os invasores liderados pelos EUA entraram em Abril de 2003 nessa cidade de cerca de cem mil pessoas na vizinhança noroeste de Bagdad e ocuparam uma escola secundária local para a usarem como sua sede. Na noite de 28 Abril, várias centenas de habitantes da cidade desafiaram o recolher obrigatório militar e realizaram uma concentração para exigir a reabertura da escola. Atiraram pedras. Os soldados norte-americanos colocados no telhado abriram fogo sobre a multidão e continuaram a disparar durante um longo período, matando 17 pessoas e ferindo mais de 70. As tropas dos EUA também dispararam sobre uma manifestação realizada dois dias depois para protestar contra essas mortes. A cidade tornou-se num ponto focal da resistência inicial à ocupação norte-americana.

Nos dois ataques a Falluja em 2004, os actos militares dos EUA tornaram claro que os invasores estavam tão ansiosos por punir a cidade e os seus habitantes como por retomar o controlo e expulsar os combatentes insurrectos. O simbolismo político da cidade ficou cristalizado em Março de 2004 quando uma coluna militar que levava mercenários da infame empresa Blackwater foi emboscada e quatro deles foram mortos, sendo os seus cadáveres carbonizados deixados em desafiadora exibição.

Os EUA desencadearam o seu primeiro ataque total a Falluja pouco depois. Bombardearam casas, lojas e outros edifícios até os deixarem em ruínas, mas os invasores não conseguiram tomar a cidade. O exército norte-americano classificou-o como um dos mais duros combates urbanos em que as suas forças se tinham envolvido desde a batalha de Hue em 1968, durante a guerra do Vietname. Por altura do segundo ataque em Novembro, muitos dos combatentes já tinham saído de Falluja.

O desejo de vingança dos EUA contra toda uma população ficou demonstrado pelas armas que usaram. Bombas termobáricas (uma mistura altamente explosiva de combustível e ar que tem efeitos explosivos semelhantes aos das armas nucleares tácticas) e outras munições foram usadas para demolir sistematicamente as casas e matar toda a gente dentro delas ou na sua vizinhança. Também foi usada uma versão moderna do napalm. Mais famosa foi a extensiva e indiscriminada utilização pelos EUA de cápsulas de artilharia recheadas de fósforo branco, um pó incendiário que deita fogo a tudo o que toca – fogos esses que não podem ser apagados com água. Também deixa atrás de si um resíduo tóxico.

Os invasores não distinguiram combatentes e população civil. De facto, as tropas norte-americanas impediram muitos civis de sair da cidade sitiada. As suas tácticas de combate visavam, tal como no Vietname, matar tudo, queimar tudo.

Estes factos foram revelados nessa altura por poucos jornalistas no Iraque e no estrangeiro. Mas recentemente têm surgido novas provas de que os danos causados aos iraquianos foram piores e de efeito mais duradouro do que mesmo a maioria dos opositores à ocupação poderia imaginar em 2004.

Têm surgido notícias recorrentes sobre defeitos de nascença nas crianças nascidas em Falluja. Em Janeiro e Fevereiro de 2010, três cientistas da Grã-Bretanha organizaram um estudo para apurar os factos. Uma equipa de investigação treinada e acompanhada por pessoas de confiança local conseguiu visitar 711 casas em Falluja e trabalhou com vários milhares de pessoas no preenchimento de um questionário médico. Os investigadores acreditam que as respostas às perguntas foram verdadeiras porque, embora confidenciais, podiam ser cruzadas com registos médicos.

A investigação revelou que desde Janeiro de 2005 que a população que ficou na cidade tinha sofrido um enorme aumento da mortalidade infantil (80 crianças em cada mil morreram no seu primeiro ano, provavelmente devido a defeitos congénitos de nascença). Este número é cerca de quatro vezes mais elevado que no Egipto e oito vezes mais elevado que no Kuwait. O estudo também encontrou taxas “alarmantes” de cancros como a leucemia, o cancro cerebral e o cancro de mama, sobretudo entre as pessoas com menos de 34 anos. Uma proporção invulgarmente reduzida de crianças com menos de quatro anos são rapazes (140 em 1000), sugerindo que inesperados danos genéticos mataram muitos rapazes antes do nascimento, dado que o equilíbrio rapazes-raparigas em crianças com mais de cinco anos é normal. O coeficiente de natalidade das mulheres de Falluja era cerca de 30 por cento menor em 2004-2008 que em períodos comparáveis anteriores. Isto, concluiu o estudo, pode ter sido o resultado de uma mais baixa fertilidade e de defeitos de nascença, fornecendo ainda mais indícios de possíveis danos genéticos.

Como o próprio estudo se auto-confinou a evidências directas, os autores do artigo “Cancro, Mortalidade Infantil e Proporção Nascimentos-Sexo em Falluja, Iraque, 2005-2009” (International Journal of Environmental Research and Public Health, 2010–7), publicado com arbitragem científica, escreveram que as suas descobertas não podem mostrar conclusivamente a causa ou causas desta situação extremamente invulgar e de origem repentina. Porém, eles salientam dois factos. O primeiro é a probabilidade, com base em evidência médica, de os danos tóxicos causados aos genes serem a origem comum dos defeitos de nascença, da mortalidade infantil e dos cancros. O segundo é que essa evidência de uma provável “tensão genética” surgiu um ano após os ataques a Falluja. A súbita alteração da proporção entre rapazes e raparigas em nados vivos coloca com quase certeza o despoletar dos acontecimentos em 2004.

O relatório discute manifestações estatísticas semelhantes entre pessoas expostas a radiações atómicas após a explosão na central nuclear de Chernobyl, entre as tropas da ONU expostas a bombas de urânio empobrecido na Bósnia e entre os sobreviventes do bombardeamento atómico norte-americano a Hiroxima e Nagasáqui.

Os EUA admitem ter usado espingardas e munições de urânio empobrecido durante os dois ataques a Falluja em 2004. Dispararam milhares de toneladas desse material no Iraque, só durante algumas semanas de 2003.

Um novo estudo que cobre 2010 é ainda mais horripilante e convincente. Realizado por quatro médicos e investigadores (dois a trabalhar em Falluja e dois no estrangeiro), esse estudo sobre quatro famílias alargadas levado a cabo no Hospital Geral de Falluja conclui que a percentagem de bebés nascidos com malformações nessa cidade desde 2003 atinge os 15 por cento, cerca de 11 vezes a taxa normal. Pior que isso, em vez de estar a diminuir, a percentagem disparou na primeira metade de 2010.

As deformidades mais comuns são defeitos congénitos no coração, seguidos de defeitos nos canais neurais (o cordão cerebral e espinal) e no esqueleto. Isto não pode ser uma questão de azar. A probabilidade estatística de uma concentração tão elevada é próxima de zero. Além disso, afirmam os autores, é mais frequente que tais casos não se devam à hereditariedade – o problema não vem normalmente dos genes dos pais, mas de danos causados aos genes das crianças antes do nascimento devido a factores ambientais e à situação das mães grávidas. O artigo diz que a natureza dessas mortes e a sua conhecida correlação com eventos de guerra levanta fortemente a questão dos “contaminantes de guerra”, sobretudo o envenenamento do meio ambiente por metais, citando o urânio como exemplo.

Nenhum dos pais nas famílias estudadas foi ferido ou ficou preso em escombros, nem há “uma relação óbvia entre bombardeamentos/incêndios adjacentes às suas casas ou actividades de limpeza/recuperação de pessoas feridas ou mortas ou sintomas pessoais agudos com o facto de terem crianças com defeitos de nascença nos anos seguintes”, salienta o artigo.

“Isto sugere que os defeitos de nascença nestas famílias podem não ser directamente devidos a uma exposição aguda [a contaminantes], mas estarem associados a uma sua exposição prolongada e a uma acumulação no corpo de tóxicos que persistem no meio ambiente”. (“Four Polygamous Families with Congenital Birth Defects from Fallujah, Iraq”, International Journal of Environmental Research and Public Health, 2011-8)

Por outras palavras, é provável que o problema fique pior.

Neste sentido, o prosseguimento do processo de concentração de contaminantes no meio ambiente e a sua acumulação em corpos humanos pode, como sugere o relatório, ser semelhante ao que aconteceu com o Agente Laranja no Vietname. Os EUA bombardearam grande parte do Vietname do Sul com desfolhantes e herbicidas contendo dioxinas químicas tóxicas. Isso visava eliminar a vegetação que proporcionava aos revolucionários vietnamitas uma protecção contra os ataques norte-americanos e matar as colheitas dos camponeses, forçando-os a irem para as cidades. Segundo as actuais autoridades vietnamitas, cerca de 4,8 milhões de vietnamitas foram expostos ao Agente Laranja e disso resultaram 400 mil pessoas mortas ou mutiladas e meio milhão de crianças que nasceram com defeitos de nascença. (Globe and Mail, 12 de Julho de 2008. Ver também a Wikipedia, “Agent Orange”.)

Ainda hoje, três décadas e meia após o fim da guerra, o Agente Laranja norte-americano continua a matar vietnamitas. Não só as pessoas que então foram expostas sofrem hoje de horríveis cancros, e não só os seus descendentes sofrem de defeitos de nascença, incluindo excruciantes deformidades, como há um aumento das concentrações de toxinas entre os peixes, os animais e as pessoas. Apesar do fim da guerra, as últimas quatro décadas foram não só um inferno para muitos vietnamitas, como os cientistas esperam ver nos próximos 40 anos uma enorme quantidade de novos sofrimentos.

Ao discutir o urânio empobrecido, o mais recente relatório científico diz: “É pouco claro se os mais relevantes são os seus efeitos mutantes derivados da radiação ou os seus efeitos químicos tóxicos”. Ambos originam defeitos de nascença devidos à exposição dos pais antes de a criança ter sido concebida e à exposição da mãe antes do nascimento. Os efeitos químicos tóxicos são pelo menos tão nocivos quanto os da radiação. E ambos permanecerão durante um muito longo período de tempo.

De certa forma, o urânio empobrecido é o actual equivalente moral ao Agente Laranja – uma solução hi-tech para o problema de combaterem guerras injustas a um custo mínimo para os opressores, usando a superioridade produtiva e tecnológica das potências imperialistas.

Esse subproduto da produção de urânio enriquecido é agora cobiçado para o revestimento de munições porque as torna mais capazes de penetrarem substâncias muito duras como os metais e o betão. Essas munições incendeiam-se após penetrarem e geralmente são mais mortais. É conhecido que o pó que libertam no impacto é quimicamente tóxico (venenoso) e radioactivo (embora muito menos que o urânio natural, e não comparável aos metais das bombas). Mas os EUA e os seus aliados europeus não autorizarão sequer qualquer discussão na ONU, na Organização Mundial de Saúde ou noutros fóruns sobre porque é que não deve ser usado.

Foram precisos muitos anos antes de terem sido aceites as provas científicas de que o Agente Laranja causa defeitos de nascença e ainda há resistência a essa ideia, não porque os factos sejam pouco claros mas porque tanta coisa está politicamente em jogo. Embora esses relatórios sobre Falluja sejam cientificamente irrepreensíveis, escrevê-los e publicá-los requer coragem porque também eles se arriscam num território que foi declarado politicamente proibido.

Para ajudar as pessoas de Falluja, o novo artigo apela a mais estudos sobre a forma como actuam os contaminantes ambientais e à identificação das famílias em risco. Isto tornaria possível ajudar as pessoas afectadas e aconselhar essas famílias já identificáveis como enfrentando a probabilidade de virem a ter crianças mortas e as vidas arruinadas. Isso, claro, não é provável ocorrer no Iraque que a invasão e ocupação norte-americana criou. As autoridades iraquianas apoiadas pelos EUA e a sua comunicação social tentaram impedir o estudo médico inicial etiquetando-o de “terroristas” e ameaçando prender as pessoas que cooperassem com ele.

Esta tragédia médica pode ser encarada como representando o que os EUA (e a Grã-Bretanha e outros aliados) fizeram ao Iraque. Embora, a partir da comunicação social se pudesse pensar que a guerra terminou, ainda aí há 50 mil tropas dos EUA e não é certo o que é que os EUA aí poderão fazer ou serem forçados a fazer no contexto mais vasto dos seus nunca abandonados objectivos de domínio do Médio Oriente e do seu confronto com o Irão. Mas os efeitos tóxicos da ocupação continuam a acumular-se no Iraque e na região.