Exército indiano instala na Índia central um campo de treino para a guerra anti-guerrilha

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 13 de Junho de 2011, aworldtowinns.co.uk

Durante a primeira semana de Junho, o exército indiano começou a chegar à região de Bastar, na zona sul do Estado do Chhattisgarh, na Índia central, para montar o que responsáveis descrevem como uma instalação de treino de soldados em guerra na selva. Essa zona é um dos centros do movimento revolucionário dos povos adivasis (tribais) liderados pelo Partido Comunista da Índia (Maoista), e adjacente à vasta região da Índia oriental e central que os “naxalitas”, como são conhecidos os maoistas indianos, fizeram sua praça-forte.

A comunicação social indiana tem noticiado que várias colunas, num total de 500 “jawans” (soldados) e oficiais, tinham chegado a Abujhmad, no Distrito de Narayanpur, onde 750 quilómetros quadrados de terreno foram reservados ao acampamento. Um comunicado do PCI(M) refere-se a mil tropas do governo central. O comunicado de 4 de Junho diz que, embora os detalhes continuem secretos, se tem falado que as autoridades centrais planeiam montar nessa zona mais duas escolas de guerra na selva. Avisa que, à medida que essas tropas forem sendo treinadas, serão provavelmente enviadas para outros locais do Chhattisgarh e também para o Maharashtra, Bihar, Jharkhand, Madhya Pradesh, Ghats Ocidental, Bengala Ocidental, Odisha e Andhra Pradesh, tudo regiões onde os maoistas têm liderado as lutas dos adivasis e outros povos rurais. Trata-se de uma escalada da “Operação Caçada Verde”, uma campanha militar contra os povos das zonas adivasis liderados pelos maoistas. (Para ler os documentos do PCI(M), ver www.bannedthought.net.)

O texto que se segue é outro comunicado à imprensa divulgado a 3 de Junho pelo Comité da Zona Especial de Dandakaranya do PCI(M), explicando e opondo-se a esta expansão do exército. As vastas florestas de Dandakaranya estendem-se pelos estados indianos do Chhattisgarh, Andhra Pradesh, Maharastra e Orissa.

Com a chegada da primeira coluna do Exército indiano a Kanker, começou o processo formal de instalação do Exército em Bastar. Mas, ao esconder este facto dos olhos do povo, os governantes estão a propagar a falsidade de que o Exército está a instalar-se aqui apenas para treinar e não para combater os maoistas. Diz-se que, em nome da “autodefesa”, os Ministérios da Defesa e da Justiça tinham emitido “princípios orientadores” para o Exército, mas ninguém está disposto a revelar detalhes. É notável que já tenha sido atribuído à força aérea o direito a atacar em “autodefesa”.

Os governos central e estadual têm escondido o facto de que se trata de uma óbvia expansão e têm estado a dizer ao mundo que estão apenas a vir para aqui para treinarem, como parte do seu plano para enganar as pessoas e pacificar as forças democráticas que se têm oposto vigorosamente à expansão do Exército. O facto esclarecedor é o Exército estar agora a expandir-se na actual guerra contra o povo do nosso país. Depois da Caxemira e das regiões do nordeste, o Exército indiano mobiliza-se agora para uma brutal guerra contra os mais oprimidos dos habitantes da Índia. Parecem ser agora claras as apreensões de a draconiana lei AFSPA (Lei de Poderes Especiais das Forças Armadas), também vir a ser proclamada em Bastar.

De facto, o governo deu mão livre ao Exército e à Força Aérea para atacarem o povo em nome da “autodefesa”, dado que não há aí nenhuma medida definida para uma clara demarcação entre um combatente maoista e um cidadão comum. Desde 2005, primeiro com a Salwa Judum [as milícias contra-revolucionárias lideradas pelas autoridades locais e pela polícia no Chhattisgarh] e agora com a Operação Caçada Verde, as forças armadas do estado já incendiaram mais de 700 aldeias; assassinaram mais de 1500 pessoas; violaram centenas de mulheres adivasis; queimaram colheitas; pilharam aldeias; e forçaram dezenas de milhares de pessoas a fugir dos seus locais de origem. A recente carnificina em Chintalnar foi apenas um exemplo do actual terror do estado em Dandakaranya.

E agora, com o Exército a participar nesta investida e com todos os poderes que lhe foram concedidos em nome da autodefesa, os massacres de adivasis e as brutalidades irão aumentar multiplamente. Isto coloca um grande ponto de interrogação sobre a própria existência das comunidades adivasis. Em particular, os Jal-Jungle-Zameen e a antiga herança cultural das tribos Mariya, os residentes indígenas de Maad, poderão desaparecer.

Está actualmente a decorrer em todo o país uma acesa discussão sobre a questão da tomada de terras. Em particular, no contexto dos incidentes no Uttar Pradesh [onde os camponeses têm protestado contra a confiscação governamental das terras deles], todos os partidos políticos das classes dominantes, incluindo o Congresso [actualmente no governo] e o BJP [o partido chauvinista hindu actualmente na oposição], têm-se apresentado como “campeões dos camponeses” e falado vagamente contra as aquisições forçadas de terras, como parte da promoção dos seus interesses políticos intrínsecos. Mas todos esses “campeões” têm-se mantido calados em relação a esta enorme tomada de terras que está a ocorrer numa das zonas adivasis mais atrasadas do país, em nome do treino do Exército.

O governo [do estado do Chhattisgarh] do BJP de Raman Singh decidiu desastrosamente ceder quase 750 quilómetros quadrados de terras na zona de Maad, no distrito de Narayanpur, para a instalação de uma das três escolas de treino previstas. Raman Singh, o homem que tem bradado a sua táctica barata de vender um quilo de chana a cada família adivasi da região de Bastar por 5 rupias por mês, ficou agora completamente desmascarado. Não houve nenhum debate nem nenhuma discussão sobre a decisão de dar uma tão grande parcela de preciosas terras e floresta. As leis como a PESA (Extensão da Panchayat às Zonas Demarcadas) e a 5ª Agenda [as duas leis que supostamente visam eliminar a discriminação contra os povos tribais e outros] tornaram-se aqui numa piada.

O povo local Mariya, da região de Maad, desconhece completamente que as terras em que vive há milhares de anos e a floresta com cujo apoio eles puderam sobreviver até hoje, já não lhe pertencem. Um quinto do total de 4000 quilómetros quadrados de terras da região de Maad será agora cedido ao exército. E será ainda mais ampliado, segundo as notícias que têm surgido na comunicação social. À medida que os veículos do Exército começavam a dirigir-se para Bastar, a Autoridade do Aço da Índia, Lda (SAIL) declarou que o projecto mineiro Raoghat iria ser privatizado e que seria emitido um aviso de licitação global. Isto torna agora o quadro muito claro. De um lado, haverá uma vasta base do Exército e, do outro lado da região de Maad, as multinacionais irão fazer fila para uma corrida pelo saque do precioso minério de ferro das colinas de Raoghat. A máfia mineira irá ficar activa com os seus projectos mineiros pendentes e as terras dos povos tribais serão adquiridas à força. Não é nada difícil perceber agora quem aí vem e com que intenções, e qual a inter-relação entre eles!

Politicamente, hoje em dia o movimento maoista constitui um sério desafio às políticas neoliberais pró-imperialistas que estão a ser implementadas pelos servis governantes do nosso país. As lutas dos adivasis e dos maoistas que os lideram tornaram-se na mais séria ameaça às classes dominantes da Índia e aos seus amos imperialistas que estão decididos a pilhar os enormes depósitos de minerais preciosos, em particular das regiões adivasis. No Chhattisgarh, Jharkhand, Odisha, Andhra Pradesh, Bihar, Bengala Ocidental e noutros estados, centenas de MoUs [acordos multinacionais-governos] que foram assinados entre os governos dos estados e grandes multinacionais não estão a ser implementados devido à oposição feita pelo povo. Particularmente no Dandakaranya, vários projectos de grandes multinacionais, tais como minas, grandes represas e indústrias pesadas, foram parados devido aos protestos organizados e às lutas de resistência do povo. Em suma, no Dandakaranya, a força demolidora do “desenvolvimento” dos exploradores não tem conseguido avançar. É por isso que eles têm feito esta brutal guerra contra o povo em que o Exército agora foi envolvido.

Os adivasis Bastariya nunca se vergaram à exploração, à injustiça, à repressão e ao domínio estrangeiro. Eles têm uma gloriosa história de várias rebeliões contra os colonialistas britânicos. Em 1910, quando ocorreu a Mahan Bhumkaal, uma grande insurreição tribal, os governantes britânicos mobilizaram o exército contra o povo de Bastar. Agora, cem anos depois, os governantes enviaram novamente o Exército para que as suas justas lutas possam ser cruelmente esmagadas. Apelamos ao povo do Dandakaranya que enfrente corajosamente este desafio. O povo é o criador da história! Por isso, a vitória final só pode ser dele!!

O nosso Comité da Zona Especial apela a todos os democratas, às organizações de direitos humanos, aos movimentos anti-deslocação, às organizações de adivasis e a aos que desejam o bem dos adivasis, aos intelectuais, escritores, artistas e às pessoas da comunicação social para que ergam a sua voz contra a instalação das escolas de treino do Exército em Bastar e contra a enorme tomada de terras planeada que visa atingir esse objectivo. Avancem na construção de um movimento de agitação com o slogan: “Exército Indiano Fora de Bastar”. Oponham-se ao envolvimento do Exército na actual guerra contra o povo em nome das escolas de treino. Exijam a anulação de todos os MoUs assinados pelo governo do Chhattisgarh com grandes multinacionais e de todos os projectos de tomada de terras à força.