EUA: “Somos todos Trayvon Martin!”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 15 de Julho de 2013, aworldtowinns.co.uk

A absolvição de George Zimmerman, o vigilante de bairro portador de uma arma que assassinou o adolescente negro Trayvon Martin, gerou ondas de raiva que reverberaram por todos os Estados Unidos.

Durante as horas em que os jurados estiveram a deliberar sobre o caso, houve vigílias e concentrações em muitas cidades norte-americanas à espera do veredicto. Os jurados aceitaram o argumento de Zimmerman de que disparou sobre Martin em autodefesa. Assim que o juiz disse a Zimmerman que ele poderia ir buscar a arma dele e sair para fora da sala do tribunal como homem livre na noite de 13 de Julho, irromperam marchas, manifestações e outras formas de protesto, incluindo em Sanford, na Flórida, a pequena cidade do sul do país onde ocorreu o assassinato.

Nessa noite houve grandes protestos em São Francisco, Oakland e Los Angeles, na Califórnia; em Chicago, Illinois; em Atlanta, Geórgia; em Washington; no Harlem, Nova Iorque; e em muitos outros lugares. No dia seguinte, cerca de 5 mil pessoas manifestaram-se percorrendo várias partes de Manhattan, recolhendo apoio à medida que prosseguiam.

Tal como descreveu o Revolution/Revolución, jornal do Partido Comunista Revolucionário, EUA: “Por vezes a marcha avançava contra o tráfego, com as pessoas a caminhar entre os carros enquanto os condutores buzinavam a apoiar. As pessoas gritavam: ‘Somos todos Trayvon Martin’ e ‘Sem Justiça, Não Há Paz’. Lançado por revolucionários, centenas de pessoas assumiram como seu o grito ‘Todo o sistema é culpado’. Quando a marcha entrou nas ruas abarrotadas de Manhattan em Times Square, muitos dos transeuntes aplaudiram mostrando concordância.”

“Os manifestantes eram um conjunto inacreditavelmente diverso de pessoas – jovens e mais velhos, dos bairros, incluindo jovens muito decididos, juntamente com pessoas de todas as nacionalidades. Para muita gente, esta foi a sua primeira acção política. Parecia haver uma surpresa agradável entre muitos afro-americanos por muitos brancos terem saído à rua para se manifestarem.”

“Os manifestantes encheram as ruas de Times Square com milhares de turistas a tirar fotografias e a registar a marcha em vídeo. Houve uma concentração no meio de Times Square, com pessoas com buzinas a escalar caixotes do lixo de metro e meio. Por duas vezes, os revolucionários dirigiram-se à multidão e apelaram às pessoas a resistirem a esta abertura da caça aos jovens negros e latino-americanos (...) apontando à realidade de que para impedir afrontas como o assassinato de Trayvon Martin, o lento genocídio dos negros e os crimes de todo o sistema de uma vez por todas é necessária uma revolução, e nada menos que isso (...) e apelando às pessoas a conhecerem Bob Avakian. A certa altura, várias centenas de pessoas continuaram a marcha, rumo ao Harlem.”

O texto que se segue são excertos de um artigo publicado nas vésperas do julgamento, antes do veredicto. “Mentiras, Calúnias... e o Linchamento a Sangue Frio de Trayvon Martin”, que apareceu na edição do Revolution/Revolución datada de 14 de Julho (www.revcom.us).

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Trayvon Martin é um adolescente negro que foi abatido a tiro por um vigilante assassino pouco depois das 19h da noite de 26 de Fevereiro de 2012. Ele estava a caminhar para casa do pai com uma lata de ice tea e um pacote de guloseimas.

George Zimmerman não sabia nada sobre Trayvon Martin, nunca sequer tinha ouvido falar nele. Mas pensou que o conhecia. Tudo o que Zimmerman viu foi um jovem negro com um hoodie [roupa com capuz] a caminho de casa com uma refeição ligeira, e “soube” que Trayvon Martin era um “suspeito”. Ele “soube” que Trayvon Martin era um “fucking punk”. Ele “soube” que Trayvon era um “fucking asshole” que “consegue sempre escapar”.

E, com base nisso, Zimmerman saiu do seu carro, perseguiu Trayvon Martin, disparou uma pistola de 9 mm sobre Trayvon Martin, directamente ao coração dele. Disparou uma bala de ponta oca sobre o coração de Trayvon e matou-o quase de imediato.

Zimmerman nunca mostrou qualquer remorso por ter matado Trayvon Martin. Não quando apertou o gatilho. Não quando disse inúmeras vezes à polícia – sem qualquer base – que Trayvon era “o suspeito”. Não quando lhe foi perguntado directamente se alteraria alguma coisa se pudesse, numa entrevista televisiva que foi reproduzida no tribunal. Nessa entrevista televisiva, Zimmerman alegou – obscenamente – que era “vontade de deus” que ele matasse Trayvon Martin.

E durante tudo isto, Zimmerman agiu como se tivesse todo um sistema por trás dele. Por boas razões. Os Trayvon Martins deste país (e deste mundo) têm sido marcados com ferro como suspeitos por um sistema que não tem nenhum futuro para lhes dar. Desde as infinitas descrições deles na televisão e nos filmes como assassinos à criminalização institucionalizada deles através do sistema de “parar-e-revistar”, à canalização da escola-para-a-prisão rumo ao encarceramento, eles são uma geração para quem este sistema não tem nenhum futuro.

Mas Trayvon Martin era um ser humano! Ele tinha direito a viver, a ter um futuro, tal como milhões de pessoas como ele. E por isso as consequências deste julgamento são verdadeiramente decisivas para o tipo de mundo em que as pessoas irão viver.

A auto-revelação de Zimmerman

À medida que os procuradores apresentavam o seu caso neste julgamento, ia-se revelando repetidamente a forma como Zimmerman assassinou friamente Trayvon. Surgiram provas de que Zimmerman saiu do seu carro, seguiu Trayvon quando o operador do serviço de não-emergência lhe disse para não o fazer, mentiu ao operador para encobrir os seus actos enquanto perseguia Trayvon e disparou contra Trayvon Martin à queima-roupa, directamente ao coração.

O estado mental de Zimmerman era o seguinte: Ele viu um jovem negro que ele “sabia” que não estava a fazer nada de bom. Zimmerman perseguiu Trayvon com más intenções e disparou directamente para o coração sabendo que isto o mataria e depois fez uma descrição como se fosse um orgulhoso aspirante a polícia a matar um “perp” [gíria policial para criminoso]. No depoimento dele à polícia, ele referiu-se repetidamente a Trayvon como “o suspeito”, quando na realidade era Zimmerman que estava a ser levado sob custódia por ter matado Trayvon! E os polícias que “entrevistaram” Zimmerman partilhavam essa mentalidade, não levantando objecções a ela.

Parte da verdade emerge no tribunal

Os procuradores terminaram a intervenção deles na sexta-feira, 5 de Julho. Houve depoimentos sobre as declarações que Zimmerman fez à polícia e o depoimento de um amigo próximo de Zimmerman que escreveu um livro a justificar o assassinato de Trayvon Martin. Através destes materiais, bem como de outras declarações que ele fez e que foram divulgadas pela imprensa, ficou claro que as versões de Zimmerman sobre o que aconteceu nessa noite se contradiziam umas às outras, e estavam cheias de mentiras.

Os procuradores também chamaram várias testemunhas, nomeadamente Rachel Jeantel que esteve ao telefone com Trayvon Martin durante grande parte do tempo em que ele esteve a ser seguido e perseguido por Zimmerman. Ela testemunhou o medo de Trayvon quanto ao seu perseguidor e os esforços dele para se afastar dele.

Rachel Jeantel testemunhou no tribunal que durante essa chamada Trayvon lhe disse que estava a ser seguido por um homem estranho – um “creepy-ass cracker” [racista branco], como ela disse que Trayvon lhe chamou. Ela narrou ao tribunal que Trayvon lhe disse que ia para casa e que nunca disse que ia confrontar o homem que o seguia.

Zimmerman saiu do seu carro para perseguir Trayvon, apesar das instruções do operador de não-emergência. Estava armado com uma arma de 9-mm, carregada.

Durante esse tempo, Rachel Jeantel testemunhou que aconselhou Trayvon a correr. Ele respondeu que estava a andar rapidamente. Rachel disse que a última coisa que ouviu Trayvon dizer foi “Vai-te embora, vai-te embora”. Depois a chamada caiu. Rachel Jeantel, tal como ela disse ao tribunal, foi a última pessoa a falar com Trayvon Martin.

Quando a polícia chegou ao local, Trayvon Martin estava deitado no chão de cara para baixo, a sangrar até à morte devido ao disparo que lhe tinha rasgado o coração. Os polícias fizerem testes de drogas ao cadáver de Trayvon Martin; a Zimmerman nunca o fizeram. Zimmerman foi levado sob custódia policial. Cinco horas depois de ter disparado e assassinado Trayvon Martin, George Zimmerman foi libertado pela polícia de Sanford sem ter sido acusado. Na manhã seguinte, Tracy Martin, pai de Trayvon, foi notificado de que o seu filho tinha sido morto na noite anterior.

Estes são factos estabelecidos pelo registo público, documentados por registos e gravações telefónicas, confirmados pelos depoimentos de testemunhas chave, em particular o de Rachel Jeantel. George Zimmerman viu Trayvon Martin, pegou na sua arma, saiu do seu carro em busca do “fucking punk” que ele não reconheceu. Depois encontrou Trayvon e matou-o.

Mentiras, confusão e distorção em relação à defesa

Todas as testemunhas que de alguma forma significativa estivessem no caminho ou contrariassem a fábula de que Trayvon era um assassino que atacou Zimmerman e de que Zimmerman era o vigilante que protegia o bairro, foram sujeitas a uma barragem de odiosa raiva e ridicularizadas na sala do tribunal, e sujeitas a ataques ao nível do esgoto na comunicação social.

Isto foi muito verdade em relação a Rachel Jeantel, a amiga de Trayvon desde a escola secundaria que estava a falar ao telefone com ele quando Zimmerman começou a perseguir Trayvon. O depoimento de Rachel Jeantel é um dos mais substanciais neste caso, e ela é uma das testemunhas mais credíveis. A hora e a duração dos telefonemas dela com Trayvon enquanto ele caminhava para casa do pai dele estão bem documentados e corroboram de perto todas as provas disponíveis. E estes são justamente os factos que ficaram “perdidos” ou “esquecidos” em muitos dos comentários nas redes sociais sobre Rachel Jeantel, os quais se centraram em vez disso na aparência dela, na conduta dela e na atitude dela.

Rachel Jeantel suportou horas de assedio, arengas e insultos, e depois de ataques perpetrados nas redes sociais.

Que tipo de sistema legal – que tipo de sistema social – acumula tanto abuso a uma jovem que vem testemunhar a verdade sobre o que ela sabe do assassinato do amigo dela? Tal como escreveu a semana passada o jornal Revolution/Revolución, intimidadores que agem assim na sala do tribunal ou na sociedade são geralmente “treinados pelo sistema para agirem e reagirem, para vomitarem o seu veneno ignorante cheios da confiança de alguém que sente ter o poder do seu lado”.

A vilificação de Trayvon começou nos meios de comunicação de massas e nas redes sociais logo após o seu assassinato. Nessa altura, Sybrina Fulton, a mãe de Trayvon, disse: “Mesmo na morte, e Trayvon partiu e não vai voltar para nós, eles continuam a desrespeitar o meu filho, e isso é uma vergonha. O único comentário que eu tenho neste momento é que eles mataram o meu filho, e agora eles estão a tentar matar a reputação dele”. A atmosfera odiosa e racista intensificou-se e expandiu-se durante o julgamento.

Eis dois factos básicos sobre a vida nos EUA, em 2013 – jovens como Trayvon Martin são assassinados pela polícia, e mesmo por assassinos vigilantes racistas como George Zimmerman; e dezenas de milhares de jovens como Trayvon Martin são postos na prisão ano após ano por este sistema que não tem nenhum futuro para eles.

O que tornou o assassinato de Trayvon Martin diferente dos assassinatos de outros jovens negros e latino-americanos foi que apesar do tratamento pela polícia do assassinato de Trayvon como legítima autodefesa de George Zimmerman, apesar do facto de não ter sido feita de imediato nenhuma acusação contra Zimmerman, apesar do tratamento deste caso na comunicação social da Flórida como “apenas mais outra morte de um jovem negro que estava nalgum lugar em que não deveria estar”, a história de uma criança de 17 anos que usava um capuz e que foi abatido quando estava a caminhar para casa do pai dele com um refrigerante e um saco de guloseimas tornou-se notícia nacional – e um foco de indignação e protesto nacional.

Em 1955, Emmett Till, um jovem negro de 14 anos de Chicago foi linchado por homens brancos quando estava de visita a familiares no Mississípi. O corpo dele foi horrivelmente mutilado, esmagado com um ventilador de 35 quilos e despejado no Rio Tallahatchie. Os assassinos nunca foram acusados.

A mãe de Emmett, Mamie Till, insistiu corajosamente num caixão aberto no enterro do seu filho, para que as pessoas pudessem ver o que lhe tinha acontecido. A indignação e a fúria generalizadas que se espalharam a todo o país devido à cruel morte de Emmett Till tornaram-se numa faísca que catalisou milhares de pessoas numa crescente luta pelo fim das injustiças perpetradas contra os negros.

O assassinato a sangue frio – um linchamento moderno – de Trayvon Martin também desencadeou uma profunda e generalizada indignação em toda a sociedade norte-americana. E agora estamos num ponto crucial da luta pela Justiça para Trayvon.

Tal como dizia um editorial recente do Revolution/Revolución: “[neste momento], a situação no mundo, e neste país, é muito intensa. Há o potencial de erupções ‘na rotina’, de uma forma ou de outra”. O encarceramento em massa de negros e latino-americanos, sobretudo de jovens; os persistentes ataques às mulheres e em particular ao direito ao aborto; a continuação das guerras e da ocupação; e as novas revelações de uma massiva espionagem governamental; tudo isto e muito mais fazem parte de um “caldeirão de contradições” que os governantes deste sistema capitalista-imperialista enfrentam.

A batalha pela justiça para Trayvon Martin está enquadrada por este quadro mais vasto – e tem o potencial para alterar esse quadro – se as pessoas AGIREM. Ela pode vira marcar um grande passo para o dia em que as pessoas como Trayvon Martin e a amiga dele Rachel Jeantel já não sejam tratadas como parte de uma “geração de suspeitos” – os jovens negros que as pessoas nesta sociedade são condicionadas e treinadas a olhar como “fucking punks”. Pessoas que podem ser perseguidas e abatidas, e que a polícia varre para o lado como se fosse simplesmente mais um dia de trabalho.

Tal como escreveu recentemente o Revolution/Revolución, a sociedade está a polarizar-se em torno do assassinato de Trayvon Martin e do julgamento de George Zimmerman, e “esta crescente luta deve ser repolarizada com uma energia, clareza e direcção mais vastas pela Justiça para Trayvon Martin (...) e pela revolução e emancipação em geral”. A necessidade de agir com base nesta compreensão é mais urgente que nunca.