EUA: Sem piedade em Wounded Knee

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 8 de Abril de 2013, aworldtowinns.co.uk

Milhões de pessoas leram a história da violenta conquista das terras dos índios norte-americanos no livro clássico de 1971 da historiadora Dee Brown, Bury My Heart at Wounded Knee [Enterrar o Meu Coração em Wounded Knee]. Mas agora estão a pedir aos índios Sioux Oglala Lakota que comprem o que lhes foi roubado.

Actualmente, um terreno em Wounded Knee, na reserva índia de Pine Ridge, é propriedade de um não índio que vive longe e o quer vender. Essa parcela do histórico campo de batalha fica adjacente ao jazigo em massa mencionada no título do livro.

Wounded Knee [Joelho Ferido], é uma aldeia no estado norte-americano do Dacota do Sul, famosa por ser o local onde em 1876 os nativos americanos infligiram uma derrota esmagadora a um regimento do exército norte-americano e onde em 1890 esse mesmo 7º Regimento de Cavalaria ceifou a vida a cerca de 300 índios, homens, mulheres e crianças. Também é conhecida pela ocupação da aldeia em 1973, liderada por membros do Movimento Índio Americano [AIM], em busca de justiça.

É um lugar cujo valor histórico se deve a que ele incorpora a história nativa norte-americana. Se a tribo o quiser comprar, terá de pagar ao seu proprietário quase quatro milhões de dólares por 17 hectares. Caso contrário, diz o proprietário, ele irá leiloá-lo pela licitação mais elevada, na esperança de que haja um desenvolvimento comercial. Esta situação é grotesca e criminosa – mais parecida a um pedido de resgate em dinheiro pelos ossos ancestrais do que a uma banal transacção comercial – mas é uma consequência perfeitamente legal de século e meio de roubo legalizado, assassinato e punição dos sobreviventes.

O governo norte-americano prometeu aos Sioux, no Tratado de Forte Laramie de 1851, uma enorme extensão de terras no norte-centro dos EUA. O governo não cumpriu esse tratado e, em 1868, assinou um novo com uma muito menor quantidade de terras. Mas, três anos depois, aprovou a Lei da Apropriação Índia, a qual efectivamente transformou as reservas em campos de prisioneiros de guerra cujos habitantes não tinham nenhuns direitos e dos quais não podiam sair. Quando foi descoberto ouro e outros recursos valiosos nas Black Hills, o governo dividiu as terras entre os nativos norte-americanos, os quais odiavam o conceito de propriedade privada da terra, e os colonos brancos, para quem a propriedade privada era tudo. Os nativos norte-americanos acabaram por ficar com terras que ninguém queria – e depois foram sendo expulsos delas quando alguém as queria.

Em 1980, os Sioux receberam dinheiro do governo federal na sequência de uma decisão judicial que declarou que a terra deles lhes tinha sido tirada ilegalmente, em violação do segundo tratado de Forte Laramie. Mas aceitarem essa decisão significaria abandonarem a sua reivindicação às Black Hills, e eles rejeitaram-na. A tribo dos Sioux Oglala deveria receber cerca de 20 milhões de dólares em compensação pelo roubo governamental do dinheiro da venda das terras, mas como o governo tribal tem uma dívida de 60 milhões de dólares, isso não representará uma mudança para melhor.

Grande parte da Reserva de Pine Ridge está no Município de Shannon, o município mais pobre dos EUA. As terras adequadas à agricultura foram arrendadas a grandes produtores. O governo tribal é praticamente a única fonte de emprego. Cerca de metade das pessoas vive muito abaixo da linha oficial de pobreza. As condições meteorológicas são severas, as casas têm muito más condições, muitas vezes sem aquecimento, e 40 por cento delas não têm electricidade. As doenças são generalizadas. A esperança de vida média é de 47 anos para os homens e 52 para as mulheres, com as drogas, o álcool, os suicídios e outras formas de violência a cobrarem um elevado preço. As violações são comuns, muitas vezes praticadas com impunidade. Os governos tribais não têm nenhuma autoridade sobre os não índios que cometem crimes na reserva e estão mais interessados em impor o seu próprio domínio. Na realidade, são comparsas locais de um governo federal que é, no mínimo, indiferente à vida dos nativos norte-americanos.

Juntamente com o sequestro de africanos para a escravidão, a base da riqueza da classe que hoje domina os EUA começou com a confiscação das terras dos nativos norte-americanos e o extermínio dos seus habitantes originais. Dos oito milhões de nativos norte-americanos que, segundo algumas estimativas, antes viviam no que agora são os EUA, apenas restavam cerca de cem mil no início do século XX, e só restam cerca de meio milhão agora. Cerca de metade vive nas 300 reservas do país.

O sinal de um genocídio bem-sucedido é poder dizer-se que as próprias vítimas são responsáveis por se matarem a si mesmas e umas às outras nas reservas, muito depois da cavalaria aí as ter encarcerado. Pine Ridge é um gueto na pradaria, e quando os membros da tribo saem, é normalmente para os guetos urbanos, para o Exército – ou para a prisão.

Em 1890, os nativos norte-americanos das várias tribos que tinham sido mortas em Wounded Knee enfrentaram uma ordem governamental para venderem as suas terras. Um chefe chamado Sitting Bull e os seus seguidores recusaram-se a fazê-lo. Eles estavam envolvidos no movimento da Dança Fantasma, um revivalismo religioso que previa a vinda de um messias e o fim do domínio branco. O governo federal considerou isso como um sinal de rebelião e avançou para os eliminarem pela força. Sitting Bull foi preso e morto. O governo ordenou a prisão do líder Sioux Big Foot e a tribo foi considerada “hostil”, o que significava uma declaração de guerra.

A cavalaria que andava à procura do bando de Big Foot estava equipada com armas Hotchkiss, um novo tipo de arma de tiro rápido que disparava granadas explosivas. Era um canhão giratório, mais ligeiro que a artilharia padrão, concebido para ser puxado por cavalos em terrenos acidentados. Foi usado nesta última grande batalha entre o Exército dos EUA e os nativos norte-americanos e, pouco tempo depois, na conquista norte-americana de Cuba e das Filipinas.

As tropas aproximaram-se do grupo liderado por Big Foot e disseram-lhes que iam levar os 120 homens e 230 mulheres e crianças para um acampamento militar. A noite estava a cair e o oficial que chefiava o exército anunciou que os cativos iriam ser desarmados depois da alvorada. Foram montadas teepees [as tendas índias em forma de cone – NT]. De manhã, não satisfeitos com as armas que lhes tinham sido entregues, os soldados começaram a destruir as tendas e os bens pessoais. Houve um tiro disparado quando as tropas estavam a lutar com um guerreiro pela arma dele. Os soldados começaram a disparar indiscriminadamente.

“Nos primeiros segundos de violência, o disparo das carabinas foi ensurdecedor, enchendo o ar de fumo do pó. Entre os mortos que estavam estendidos no chão congelado estava Big Foot. Então, houve uma breve acalmia no barulho das armas, com pequenos grupos de índios e soldados a lutar corpo a corpo, usando facas, paus e pistolas. Como poucos dos índios tinham armas, eles tiveram de fugir pouco depois, e então os grandes Hotchkiss instalados na colina abriram fogo sobre eles, disparando quase uma granada por segundo, rasgando os teepees com os estilhaços esvoaçantes, matando homens, mulheres e crianças.”

“’Nós tentámos correr’, disse Louise Wise Bear, ‘mas eles disparavam sobre nós como se fossemos búfalos. Eu sei que há alguns brancos bons, mas os soldados devem ser maus para dispararem sobre crianças e mulheres. Os soldados índios não fariam isso às crianças brancas (...)’”

“Os soldados tiveram uma perda de 25 mortos e 39 feridos, a maioria deles atingidos pelas suas próprias balas ou estilhaços (...) Alguns soldados avançaram para o campo de batalha de Wounded Knee, reunindo os índios ainda vivos e enfiando-os em vagões. Quando, ao fim do dia, se tornou claro que se estava a aproximar um temporal, os índios mortos foram abandonados onde tinham caído” (Bury My Heart at Wounded Knee).

Vinte soldados receberam medalhas de honra, a mais alta distinção militar dos EUA, pelo seu trabalho nesse dia de 1890, o maior número de sempre atribuído por uma única batalha na história norte-americana, antes ou depois. Essas medalhas nunca foram anuladas, apesar dos pedidos. Em 1973, o governo mostrou a mesma atitude na sua perseguição impiedosa das pessoas que se revoltaram em Wounded Knee contra um governo tribal corrupto e fantoche.

Dessa vez foi o FBI, e não a cavalaria, que foi enviado e, no contexto desses dias – que incluiu um apoio à ocupação vindo de todos os EUA e de todo o mundo – eles não puderam usar as suas grandes armas. Mas após o fim dos 71 dias de confronto armado, eles iniciaram um reinado de terror na reserva. Foram presas cerca de 1200 pessoas. Foram mortos pelo menos dois membros do AIM e um outro activista desapareceu.

Leonard Peltier foi preso alegadamente por disparar sobre dois agentes do FBI durante esse período de quase guerra. Ele sempre o negou, e o informador cujo testemunho ajudou à condenação dele disse posteriormente que o FBI o tinha coagido a mentir. Uma outra prova também foi posta em causa por agentes legais. Ele tem tido muito apoio entre as pessoas comuns e de figuras públicas proeminentes. Apesar disso, Peltier tem estado na prisão durante os últimos 37 anos, brutalmente espancado em pelo menos uma ocasião recente, sem perspectivas de libertação. Isto tem claramente a ver com muito mais que ele; visa deixar uma mensagem.

A cavalaria passou depois à invasão de outros países, mas os campos prisionais que eles construíram para os nativos norte-americanos mantém-se, e sob guarda.