EUA: Mais pesadelos vindos do topo
22 de Novembro de 2004. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O Presidente George W. Bush nomeou Alberto Gonzales como Procurador-Geral dos EUA [o equivalente a Ministro da Justiça]. Isto é muito assustador para o povo norte-americano e para os povos do mundo e deve ser um aviso sobre o caminho que o governo Bush está a tomar.

Como conselheiro legal de Bush, Gonzales foi autor do memorando de Janeiro de 2002 que redefiniu a política legal/judicial militar dos EUA quanto ao tratamento de prisioneiros na guerra dos EUA contra o terrorismo. Num almoço com Cheney, Bush assinou o memorando de Gonzales, tornando-o lei. O memorando dizia que os EUA deveriam ignorar as Convenções de Genebra que protegem os direitos dos detidos e dos prisioneiros de guerra. “Obsoletas” e “estranhas” foram as palavras que usou. Desenvolveu uma teoria legal para justificar uma nova política dos EUA de violação das leis históricas da guerra. A partir desse momento, os prisioneiros de guerra seriam considerados “combatentes inimigos” que poderiam ser detidos indefinidamente sem serem acusados de qualquer crime, sem aconselhamento legal e sujeitos a “técnicas intensificadas de interrogatório” – ou seja, a tortura.

As fotografias de Abu Ghraib que chocaram o mundo revelaram o verdadeiro conteúdo dessa política. Os soldados norte-americanos que guardavam os detidos pareciam não sentir nenhuma necessidade de esconder o tratamento reflectido nessas fotografias. Tiravam-nas para marcar esses acontecimentos, para as mostrar aos seus amigos e mesmo para screensavers dos seus computadores.

O Homem Encapuzado – um indivíduo com um capuz negro, de braços estendidos e com fios ligados às pontas dos seus dedos das mãos e dos pés e aos órgãos genitais e cambaleando sobre uma caixa, temendo que uma queda implicasse a sua electrocussão; a Pirâmide Humana – os homens nus empilhados camada a camada; o Homem com Trela – levado como um cão... Estas são apenas algumas; mas há muitas mais e igualmente horrendas. Algumas mostram cadáveres. O Secretário da Defesa Donald Rumsfeld disse que havia fotografias muito piores mas que não seriam mostradas ao público. O que pode ser pior que cadáveres? Cerca de 1800 diapositivos e vários vídeos documentam torturas, incluindo violações e espancamentos cruéis.

A 22 de Outubro, o sargento Ivan Frederick foi condenado a oito anos de prisão pela sua participação nos abusos na prisão de Abu Ghraib. Até agora, ele é o militar dos EUA de mais alta patente a ser encarcerado devido ao escândalo e o único a ser condenado a um tempo de prisão relevante. Um dos seus muitos actos brutais foi espancar um detido no tórax tão violentamente que ele quase ficou em paragem cardíaca. Sete outros polícias militares serão julgados em breve nos EUA. Mas continua o encobrimento dos que são os verdadeiros responsáveis por essas atrocidades.

Bush insistiu que se tratava apenas de “algumas maçãs podres” e a negar qualquer conhecimento ou responsabilidade pelo que acontece nas prisões militares norte-americanas. Alegou que esses abusos eram um “comportamento que não representa a América” e que “desonram o nosso país”, uma aberração da parte de um punhado de maus soldados.

Os factos indicam o contrário. Desde os relatos da jornalista Seymour Hersh, à Cruz Vermelha, à Amnistia Internacional e aos relatórios ditos independentes de James R Schlesinger (o ex-Secretário da Defesa) e do Major General Taguba, aos memorandos secretos divulgados pela revista Newsweek em Maio de 2004, os factos indicam que o tratamento de “combatente inimigo” dos prisioneiros no Afeganistão e em Guantânamo e o tratamento de tortura que eles receberam foram trazidos para o Iraque pelo Major General Geoffrey Miller, o comandante responsável por Guantânamo. Miller usou uma “matriz em 72 pontos para a pressão e a compulsão” que definia formas aprovadas de coerção e tortura. O Secretário da Defesa Rumsfeld distribuiu e defendeu essa lista, que incluía o uso de calor e frios extremos, deixar esfomeados os prisioneiros, mantê-los encapuzados e nus durante longos períodos de tempo e ameaçá-los com cães enraivecidos e prisioneiros forçados a posições dolorosas durante longos períodos de tempo.

Rumsfeld enviou Miller a Abu Ghraib para fazer uma “visita de avaliação” em Agosto de 2003. As suas recomendações foram implementadas imediatamente. As fotografias de Abu Ghraib foram tiradas alguns meses depois. Miller é o actual responsável por Abu Ghraib.

Taguba já estava a investigar a situação em Abu Ghraib, tentando evitar qualquer outra denúncia, quando as fotografias foram tornadas públicas. Embora o seu relatório pretendesse sobretudo proteger o topo das chefias militares do Pentágono de qualquer responsabilidade formal, concluiu que inúmeras circunstâncias de “abusos criminosos, sádicos, brutais e descarados” foram perpetradas pela polícia militar e pelos agentes de informações. Nas suas conclusões, pedia a remoção de vários oficiais de nível intermédio, incluindo o Tenente Coronel Steven Jordan, chefe do Centro Comum de Informações e Interrogatório de Abu Ghraib. Jordan disse a Taguba em Dezembro de 2003: “Disseram-me várias vezes... que alguns dos relatórios eram lidos por Rumsfeld, por gente de Langley (sede da CIA), e mesmo por algum pessoal de alta patente.” Por outras palavras, a defesa de Jordan foi a de que era suposto ele fazer o que estava a fazer.

A Brigadeiro General Janis Karpinski estava encarregada globalmente das prisões militares do Iraque nessa altura. Falando sobre os detidos de Abu Ghraib, numa entrevista em Dezembro de 2003, ao Times de S. Petersburg, vangloriou-se de que “as condições de vida na prisão são agora melhores que em casa. De certa maneira estamos preocupados que não queiram partir.” Um mês depois, após a investigação de Taguba, Karpinski recebeu uma palmada na mão por não manter a liderança da prisão e foi afastada. Ela disse que era o bode expiatório de gente acima dela, que documentos do Pentágono ainda por divulgar mostrariam que Rumsfeld aprovou pessoalmente o uso das severas condições de detenção no Iraque. Também disse que os seus repetidos esforços para libertar quase 60% dos detidos da prisão (muitos deles mulheres, crianças e outras pessoas apanhadas em rusgas fortuitas) foram constantemente negados pelos seus superiores, que o tratamento dos detidos iraquianos foi retirado das suas mãos por altos funcionários que agiam às ordens de Washington e que os serviços de informações do exército eram a força dominante dentro de Abu Ghraib.

Na realidade, as pistas vão até ao topo, ao Pentágono e ao Secretário da Defesa Donald Rumsfeld. Indicam que a tortura em Abu Ghraib era a política oficial que saia do memorando de Gonzales e que os oficiais responsáveis lhe davam uma atenção minuciosa e constante.

Durante os últimos anos, os Estados Unidos construíram uma cadeia de prisões secretas e semi-secretas em Bagram e Kandahar (no Afeganistão), Guantânamo (em Cuba); Qatar (no Golfo Pérsico) e Diego Garcia (no Oceano Índico), bem como Abu Ghraib e Camp Cropper (no Iraque). Aí são mantidos prisioneiros fantasma. Não há nenhum registo da sua existência. Podem ser torturados até à morte e os seus corpos feitos desaparecer sem deixar rastro. A tortura estava tão estabelecida em 2004 que o governo dos EUA tinha uma “linha aérea secreta” para mudar os prisioneiros de umas instalações secretas para outras.

De acordo com um relatório oficial, cinco detidos morreram em resultado de “abusos” por parte dos funcionários dos EUA durante os interrogatórios. Ainda há 23 a 37 casos de mortes de detidos sob investigação governamental. Em Abu Ghraib, o General Sanchez negou à Cruz Vermelha acesso a mais que um dos seus detidos. Definindo-os como “combatentes ilegais”, Sanchez aplicou a política dos EUA definida por Alberto Gonzales.

Cerca de 2000 pessoas estão agora em Abu Ghraib, embora as autoridades norte-americanas admitam que elas têm pouco “valor para recolha de informações”. Presos há quase três anos sem qualquer acusação, há 560 a 590 prisioneiros em Guantânamo. Também aqui, até as próprias autoridades dos EUA admitem que não há muita informação a extrair-lhes depois de tanto tempo na prisão. Se estes encarceramentos indefinidos, ilegais e cruéis não têm por objectivo “proteger” os EUA – e claramente não têm – então por que é que os EUA estão a fazê-lo, se não para quebrar esses homens e criar um exército de potenciais informadores, aterrorizar futuros potenciais oponentes, experimentar e desenvolver procedimentos de tortura e manter esses acampamentos para uso contínuo numa série de guerras sem fim?

Bush diz que não sabia do tratamento aplicado nas prisões militares, e contudo, depois de os factos terem sido revelados, nomeou Alberto Gonzales, o autor dessa política de tortura, para Procurador-Geral. Como principal funcionário judicial do país, ele ficará encarregado do FBI, das acusações federais e das prisões federais, bem como da protecção dos direitos civis e humanos. A promoção de Gonzales torna mais fácil interligar os pontos entre os crimes que os EUA estão a cometer à escala mundial e os esforços dos governantes do país para reformar a sociedade norte-americana de modo a servir de pátria criminosa de ainda maiores agressões.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese