EUA – os maiores responsáveis pela guerra civil sectária no Iraque e na Síria

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 24 de Junho de 2014, aworldtowinns.co.uk

Os habitantes do Iraque, Síria e outros países, já num inferno, enfrentam algo ainda pior dado que os EUA tentam desesperadamente perceber como retirar alguma vantagem da confusão que criaram na região, ou pelo menos como preservar os seus interesses centrais. Os EUA, que não são os únicos a alimentar a guerra civil sectária na região, mas que têm mais responsabilidade que qualquer outro país, estão agora a justificar uma maior interferência e talvez mesmo mais violência, em nome de acabar com ela.

Na Síria, ajudaram a transformar um conflito político numa guerra religiosa ao usarem os fundamentalistas sunitas contra o regime de Bashar al-Assad. No Iraque, aliaram-se a um sector da elite xiita para acabarem com a resistência de base sunita à ocupação norte-americana. Em ambos os casos, usaram o sectarismo religioso para conseguirem o controlo político. Ironicamente, o governo de Assad mantém-se de pé, enquanto o governo de Maliki instalado pelos EUA cambaleia. Tudo o que os EUA fizeram teve um “ricochete”, mas eles não podem limitar-se a aceitar estes reveses se quiserem manter a sua posição na região e no mundo.

Os imperialistas não criaram a divisão entre sunitas e xiitas, mas muitas vezes actuaram deliberadamente para aumentar o antagonismo e emaranhar ainda mais as diferenças religiosas com diferentes interesses políticos e económicos. Na região, bem como em muito do mundo colonial, procuraram construir uma base social para o seu domínio, apoiando-se num grupo religioso ou étnico contra os outros, quer fossem os cristãos do Líbano, os alawitas e outras minorias religiosas da Síria, ou sunitas do Iraque, já para não falar no estado judaico de Israel em terras palestinianas roubadas.

Além disso, a região seria muito diferente se em 1980 os EUA e os seus aliados não tivessem encorajado o regime de base sunita de Saddam Hussein a atacar a recém-criada República Islâmica xiita do Irão e depois também armado o Irão (quer através de Israel, quer directamente). Essa guerra dizimou toda uma geração de jovens de ambos os lados, com um total de um milhão de vítimas, para reforçar os interesses norte-americanos através da debilitação de ambos os países, cujos regimes Washington considerava problemáticos. (Ver Oil, Power and Empire [Petróleo, Poder e Império], de Larry Everest, Common Courage Press, EUA, 2004)

Este processo continuou em 1991 com a primeira Guerra do Golfo e a dúzia de anos de sanções ao Iraque que serviram como arma de destruição em massa contra as vidas dos iraquianos. As estimativas do número de pessoas que morreram em resultado da desnutrição ou doenças devido às sanções variam entre meio milhão e um milhão.

Saddam respondeu encorajando uma crescente religiosidade sunita e uma identificação religiosa, numa altura em que as pressões da globalização nas sociedades e nos exploradores locais estavam a dar um ímpeto à ascensão do fundamentalismo religioso em muitos países. Os slogans nacionalistas e laicos que tinham sido a assinatura do partido Ba'ath no governo do Iraque (e da Síria) esbateram-se, e o próprio Saddam teve um fim ignominioso, primeiro deposto e capturado pelos EUA e depois apressadamente enforcado.

O presidente Barack Obama e outros importantes porta-vozes da classe dominante norte-americana estão agora a queixar-se amargamente do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki, mas em primeiro lugar foram eles que puseram Maliki no poder com o objectivo de derrotar as forças sunitas que agora estão muito mais fortes que nunca.

Maliki e as pessoas em torno dele (o partido islamita xiita Dawa) trabalharam desde o início com os invasores norte-americanos. Os EUA contaram com o apoio deles enquanto levaram a cabo uma guerra de uma década que, tendo ocorrido em cima das sanções, transformou o Iraque de um dos países mais abastados e com melhor educação do mundo árabe, onde a religiosidade tinha um papel relativamente pequeno na vida oficial, num inferno. Embora o Dawa estivesse ligado ao regime iraniano e se dissesse que tinha estado envolvido num ataque islamita às tropas norte-americanas no Líbano, Washington decidiu que precisava de ignorar isso.

Os EUA iniciaram uma ofensiva frenética no país e mataram um grande número de iraquianos, por vezes sem fazerem distinção. Lembremo-nos do vídeo secreto das forças armadas norte-americanas que o fundador da Wikileaks Julien Assange e o soldado norte-americano agora conhecido como Chelsea Manning tornaram público. Mostra um helicóptero militar norte-americano a disparar sobre pessoas que apenas estavam a andar rua abaixo, e voltaram atrás deliberadamente para destruir uma carrinha com crianças lá dentro. Ou dos mercenários da Blackwater que abriram fogo numa rotunda de Bagdad cheia de carros e peões apenas porque a visão de muitos iraquianos os deixava nervosos.

Além disso, os EUA andaram num frenesim e estilhaçaram a sociedade iraquiana, numa tentativa de impor a sua própria ordem, e depois tentaram reorganizá-la numa base ainda mais reaccionária que no tempo de Saddam.

Os ocupantes realizaram as eleições de 2005, apresentadas pelos EUA como uma grande vitória e prova de que é uma força do bem, com o objectivo de estabelecerem um regime iraquiano que quisesse e fosse capaz de defender os objectivos norte-americanos. O embaixador norte-americano dessa altura, Zalmay Khalilzad, escolheu Maliki para ser o novo primeiro-ministro e organizou tudo para que isso acontecesse. (Agora Khalilzad está a apelar a que os EUA regressem a Ahmad Chalabi, o político xiita que garantiu à Casa Branca de Bush que os invasores norte-americanos seriam acolhidos de braços abertos e que lhes forneceu as provas falsas das armas biológicas e outras armas inexistentes de Saddam.)

Mas Maliki sobreviveu aos neoconservadores de Bush e também desfrutou do apoio de Obama. Nas eleições de 2010 que resultaram num empate entre políticos sunitas e xiitas, os EUA voltaram a organizar-se para que Maliki se mantivesse no governo.

Obama anunciou um plano para acabar em 2009 com as operações de combate norte-americanas no Iraque, tal como esteve quase a retirar outras 30 mil tropas para o Afeganistão. O projecto de manter 10 mil tropas e muitos mercenários norte-americanos no Iraque caiu porque Washington queria um tratado que lhes desse imunidade perante a lei iraquiana, o que, depois do incidente com a Blackwater, Maliki achou muito perigoso concretizar, mas também porque, como anunciaram importantes figuras do governo Obama, eles sentiam que a situação se tinha estabilizado e podiam confiar no regime de Maliki. Note-se que ao mesmo tempo que Obama agora manda de volta tropas para o Iraque, os conselheiros dele dizem que não precisam de esperar pela imunidade legal – presumivelmente porque as armas são um trunfo perante a lei.

Essa situação “estabilizada” quando as tropas de combate norte-americanas saíram era uma situação em que um sector da elite xiita, centrada no estado e no exército, e os líderes tribais tiravam o tapete à antiga elite sunita que tinha uma base semelhante e reduziam o seu poder, riqueza e posição. As pessoas comuns das zonas sunitas não têm sofrido só o desemprego e novos níveis de pobreza, também têm sido hostilizados, humilhados e abusados pelas autoridades xiitas. A polícia secreta e o exército cometem habitualmente atrocidades. (Face à ofensiva do ISIS, quando a polícia governamental fugiu de Baquba, a pouca distância a norte de Bagdad, a última coisa que fez foi executar os 44 prisioneiros sunitas da prisão local.)

Durante o último ano e sobretudo no início deste ano, à medida que o descontentamento e a rebelião se propagavam, lugares como Falluja, a oeste de Bagdad, uma das cidades que mais sofreu às mãos do exército norte-americano durante a guerra contra a ocupação, ficou novamente sob cerco e bombardeamento do governo de Maliki.

Se os EUA se opuseram, isso não foi divulgado. Quando Obama deu as boas-vindas a Maliki na Casa Branca em Dezembro de 2011, disse que Maliki “representa o governo mais inclusivo do Iraque até agora”. Quando o partido de Maliki “ganhou” as eleições parlamentares de Abril de 2014, a meio de um boicote sunita, os EUA não ficaram contentes, mas aceitaram a legitimidade dele desejando alguém que servisse melhor os seus interesses. Não foi senão a 10 de Junho, quando o exército de Maliki colapsou, que os EUA decidiram aproveitar o facto de o parlamento ainda ter de nomear um governo e um novo (ou velho) primeiro-ministro para tentarem mostrar uma nova cara para eles próprios. De novo, note-se que os EUA dizem agora que podem enviar tropas antes da formação de um novo governo constitucional que os convide.

De repente, os EUA estão a chorar lágrimas de crocodilo sobre o sectarismo xiita de Maliki e a falta de “inclusividade”, mas a verdade é que durante a guerra civil de 2006-7 no centro do Iraque, os EUA desarmaram primeiro as milícias sunitas e permitiram que as forças sectárias xiitas limpassem etnicamente as zonas mistas de Bagdad, ainda que ao mesmo tempo também tentassem aliar-se aos líderes tribais sunitas contra os fundamentalistas sunitas do que mais tarde viria a ser chamado ISIS [Estado Islâmico do Iraque e al-Sham, também chamado ISIL, Estado Islâmico do Iraque e Levante].

O embrionário ISIS retirou-se em grande parte para a Síria onde floresceu numa guerra civil que as potências ocidentais certamente pelo menos encorajaram. Durante o último ano, consolidou-se no leste da Síria e expandiu-se de volta ao Iraque. Agora que a fronteira entre os dois países foi efectivamente apagada e uma guerra civil reaccionária ameaça reemergir numa vasta e horrenda escala no Iraque, tal como já aconteceu na Síria, o problema, tal como os EUA o vêem, não é nenhum sectarismo religioso, nem as vidas sírias e iraquianas, mas simplesmente como encontrar um regime iraquiano dócil aos seus interesses e ainda competir pelo controlo da Síria.

Um aspecto da situação que precisa de ser melhor compreendido é a dinâmica entre o ISIS e as outras forças anti-Maliki. Segundo o Instituto Real de Serviços Unificados, o Grupo Internacional de Crise e outras fontes, grupos organizados liderados por antigos agentes dos serviços secretos e do exército de Saddam, entre os quais altos quadros do Ba'ath, têm proeminência entre a liderança militar desta ofensiva e na administração das cidades recentemente ocupadas. A insurreição tem sido mais forte em fortalezas ba'athistas como Tikrit, Falluja e outras cidades e vilas. Importantes clérigos sunitas (não necessariamente hostis a Saddam no passado) também têm desempenhado um papel importante, bem como líderes tribais sunitas, dizendo-se que os membros das tribos sãos os combatentes mais numerosos. Os EUA podem estar à espera de reconstruir as suas ligações a essas forças tribais, esperando que elas não partilhem o objectivo político do ISIS de um estado sunita Xariá/jihadista internacional.

Embora a religião não seja o único factor nesta situação, seria errado menosprezar a sua importância como fenómeno crescente em si mesmo, como ideologia e programa político. O conflito internacional entre os EUA e seus aliados e o islamismo político (e particularmente o jihadi) por sua vez influência as situações locais. (Note-se que no discurso de Obama após a queda de Mossul, ele mencionou o perigo islamita para os interesses norte-americanos no Iémen.) Na ausência de uma alternativa revolucionária, e com a destruição do antigo tecido social e os horrores da vida no Iraque que os EUA criaram, bem como a força de tradição, não é difícil perceber por que muitas pessoas se viram para o fundamentalismo religioso.

Uma outra questão importante é o papel do regime iraniano no Iraque. Os EUA e a República Islâmica do Irão apoiaram ambos o regime de Maliki e competiram entre si por influência dentro dele. O apoio do Irão a Maliki foi uma vantagem para os EUA, mas também uma séria e crescente fonte de preocupação. Vozes dentro tanto do regime norte-americano como do iraniano têm esperança na cooperação em interesses comuns, mas há importantes obstáculos a que isso seja possível.

O factor iraniano é outros dos múltiplos vínculos entre a situação iraquiana e as rivalidades regionais em geral e mesmo mundiais, desde a ânsia da Arábia Saudita em minar a influência iraniana por quaisquer meios necessários, à actual disputa entre os EUA e a Europa e o Irão e a Rússia em torno da Síria, a questão de Israel, e as relações EUA-Rússia em geral. Todas estas coisas estão intricadamente entrelaçadas.

Finalmente, embora não nos possamos focar aqui na questão do Curdistão, a classe dominante curda, até agora mais uma beneficiária afortunada que uma força motriz neste conflito, gostaria de ser um importante interveniente na redefinição do mapa regional. Onde pode chegar a realpolitik (“o inimigo do meu inimigo é meu amigo”) ficou visível quando, apesar da histórica oposição de Washington à autodeterminação curda, ela se aliou aos EUA, o que permitiu a criação da Região Autónoma Curda no Iraque. Agora, tem uma relação próxima com Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro de um país que há muito definiu a sua identidade e existência nacional através da opressão dos curdos e tem a sua própria agenda regional reaccionária. A Turquia, um grande investidor no Curdistão iraquiano, fornece a principal saída para o petróleo que o mantém próspero.

O próprio nome do grupo islamita sunita que lidera a ofensiva contra Maliki – Estado Islâmico do Iraque e al-Sham (por vezes chamado Da'ish em árabe) – indica o que está em jogo. O objectivo de unir o Iraque e a Síria, e talvez o Líbano, a Palestina, a Jordânia, o Chipre e a Turquia meridional (a região conhecida como Grande Síria ou al-Sham, o nome de um antigo califado que aí existiu) como uma única entidade governada pela Xariá, o que significaria abolir completamente a configuração de estados que as grandes potências, em particular a Grã-Bretanha e a França, estabeleceram quando dividiram o Médio Oriente entre si durante a I Guerra Mundial. Falando em traços gerais, tem sido a configuração da dominação imperialista desta parte do Médio Oriente desde então.

É isto que os EUA, e quaisquer aliados que possa atrair, estão a tentar preservar: uma ordem de opressão. As novas forças, também opressoras e reaccionárias, que ameaçam esta ordem emergiram no terreno preparado pela dominação dos imperialistas e pelos mecanismos do seu sistema económico mundial.

Os EUA, que há não muito tempo pensavam que podiam fazer quase tudo, não parecem saber o que fazer – porque não têm uma solução real nem sequer opções óbvias. Apesar disto, sentem-se compelidos a agir. Obama já enviou seis navios de guerra para o Golfo Pérsico. Os fuzileiros navais [Marines] enviados para reforçar a embaixada norte-americana (e o aeroporto) poderão ser usados para montar uma enorme ponte aérea de pessoal norte-americano – de partida ou de chegada. Os “conselheiros” norte-americanos (será que alguém pode acreditar que após uma década de “conselheiros” norte-americanos o que o exército iraquiano precisa é de mais treino?) podem ser usados para coordenar ataques de drones, na Síria e também no Iraque, o que poderia provocar uma maior reacção islamita. Um resultado positivo para os EUA está longe de estar garantido.

Os islamitas, apesar da sua actual atractividade na região, nem sequer reivindicam querer libertar nenhuma nação do sistema imperialista. Embora vários factores tendam a levá-los ao conflito com os EUA e outras potências imperialistas, eles não têm uma solução para os problemas dos povos causados pelo sistema imperialista mundial. Eles não têm nenhuma substituição aceitável para a actual ordem imperialista.

Temos testemunhado como uma profunda crise social, uma aguda crise de legitimidade e alguns milhares de homens armados podem derrotar 200 mil soldados, capturar uma enorme quantidade de armas e equipamento fornecidos pelos EUA para os usarem contra um regime apoiado pelos norte-americanos, e pôr a única superpotência do mundo num dilema. As mesmas contradições colossais que causam tanto sofrimento e miséria às massas populares também estão a criar novas possibilidades para os povos se levantarem e mudarem esta situação através da revolução.