Estudantes britânicos: A batalha da Praça do Parlamento

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 13 de Dezembro de 2010, aworldtowinns.co.uk

A 9 de Dezembro, a Praça do Parlamento em Londres tornou-se no cenário de uma intensa luta. De um lado estiveram estudantes universitários e do ensino secundário que lutavam pelo seu direito à educação e à educação das gerações futuras. Do outro, estiveram cerca de 650 Membros do Parlamento escondidos atrás de uma brutal força policial enquanto se preparavam para impor uma triplicação das propinas até 9000 libras [quase 11 000 €] por ano.

Dezenas de milhares de estudantes de Londres abandonaram as aulas nessa manhã para se juntarem a uma manifestação de massas pelo centro de Londres até à Praça do Parlamento. Eles concentraram-se na Malet Street, frente à Associação de Estudantes da Universidade de Londres (ULU). À medida que caminhavam, os transeuntes exprimiam um apoio caloroso. As intenções provocatórias da polícia foram claras desde o início. Quando a manifestação atravessava a Praça de Trafalgar, Whitehall, a principal via para a Praça do Parlamento, foi bloqueada por uma barreira policial para que os estudantes não pudessem passar frente à residência do primeiro-ministro em Downing Street. Os manifestantes foram obrigados a passar por St James Park, onde foram novamente bloqueados.

Mas a polícia não conseguiu resistir à enorme massa de manifestantes e foi forçada a recuar milímetro a milímetro. Por fim, os manifestantes conseguiram entrar na Praça do Parlamento. Quando alguns grupos de estudantes começaram a enfrentar a polícia, esta não vacilou em responder tão brutalmente quanto pôde. Enquanto a polícia espancava alguns estudantes com os seus bastões, outros jovens davam as mãos e dançavam destemidamente na praça. O ânimo dos manifestantes era elevado e alegre.

Por volta das 3h da tarde, a polícia já tinha sido humilhada. Uma carrinha da polícia e todos os agentes e os seus escudos anti-motim à frente da carrinha estavam cobertos de pinturas.

Apesar das promessas da polícia de não impedir a manifestação, começaram a fechar todas as ruas que davam acesso à Praça do Parlamento para impedirem que mais pessoas lá entrassem. Também cercaram e “enchaleiraram” [encurralaram de forma a que só houvesse uma pequena saída como numa chaleira] quem já estava na praça. Quando disseram aos pais ansiosos e a outras pessoas que assistiam à cobertura televisiva ao vivo que os jovens eram livres de partir, isso era mentira. Pelas 5h da tarde, nenhum dos manifestantes tinha sido autorizado a sair e o anel que os cercava estava a ficar cada vez mais apertado. Os estudantes estavam frustrados e enfurecidos com esse “enchaleiramento” que foi usado pela primeira vez nas manifestações de 2009 contra o G20 e se tornou numa táctica favorita da polícia britânica.

Às 5h40 foi anunciado o resultado da votação no Parlamento. Muitos estudantes sentiram que o Parlamento tinha ignorado vergonhosamente a vontade popular e a luta com a polícia intensificou-se. Quando a polícia começou a levantar ainda mais os seus bastões e a espancá-los ainda mais, os manifestantes furiosos retaliaram e atacaram o Tesouro e o Tribunal Real de Justiça. Tentaram arriar a Union Jack (a bandeira britânica). A estátua do grande homem do império Winston Churchill e o Memorial da Guerra também foram visados.

A batalha entre os manifestantes e a polícia tornou-se ainda mais feroz e os dois lados atiraram barreiras de controlo de multidões uns contra os outros. A polícia continuou a espancar indiscriminadamente os estudantes e atacá-los a cavalo.

Para dar um cheiro do que é ser “enchaleirado”, reproduzimos o seguinte texto: “Gabriel Lukes, de 14 anos, saiu sozinho da escola de Dunraven no sul de Londres para se juntar à manifestação. Foi ‘enchaleirado’ na Praça do Parlamento antes de ter sido empurrado para a Ponte de Westminster pouco depois das 9h da noite. Esteve de pé sozinho durante duas horas até ser autorizado a sair às 11h da noite. O seu pai Peter estava à espera dele. ‘Estava frio, sobrelotado, cada pessoa só tinha cerca de meio metro’, disse ele. ‘Foi simplesmente terrível’”. (Guardian, 10 de Dezembro de 2010)

Muitas das pessoas feridas pela polícia viram-lhes recusados cuidados médicos e não foram autorizadas a sair da prisão temporária.

As pessoas tentaram romper o cerco e algumas conseguiram-no. Alguns dos manifestantes atacaram um carro que levava o Príncipe Carlos e a esposa.

Segundo testemunhas oculares, quando um dos agentes que perseguia as pessoas a cavalo caiu ao chão e foi pisado pelo seu próprio cavalo, a polícia ficou ainda mais agressiva a espancar e insultar as pessoas.

Um estudante de filosofia de 20 anos, Aflie Meadow, ficou inconsciente depois de um polícia o ter atingido na cabeça com uma moca quando ele estava a tentar sair da Praça do Parlamento. Foi operado durante três horas devido a uma hemorragia cerebral. O pavimento que foi designado zona de vítimas estava coberto de manifestantes feridos. A maioria tinha menos de 18 anos. Algumas notícias da comunicação social relatavam que cerca de 40 manifestantes foram levados para o hospital, mas esses números parecem ser muito baixos. Houve de certeza um grande número de feridos que saíram pelo seu pé. Foi confirmado que a polícia tentou impedir o pessoal do hospital de tratar os civis feridos, incluindo Meadow, que teve que ser levado de hospital em hospital. Espera-se que ele venha a recuperar.

As gravações vídeo colocadas na internet desde essa noite mostram a polícia a arrastar pela rua um jovem inválido depois de o terem feito cair da sua cadeira de rodas. Um outro vídeo mostra pelo menos uma mulher-polícia a remover a sua placa de identificação. Isto é considerado uma infracção grave dos regulamentos policiais, desde o ano passado, quando polícias sem placas mataram um transeunte que confundiram com um participante na manifestação contra o G20.

O “enchaleiramento” continuou até à noite como forma de castigo. Então, já passava das 9h da noite, a polícia empurrou os vários milhares de manifestantes para a Ponte de Westminster. Foram aí mantidos encurralados até às 11h30 da noite, altura em que os autorizaram a sair um a um, depois de serem obrigados a mostrar as suas caras para poderem ser filmados.

Muitos jovens foram espancados e/ou presos. A Scotland Yard confirmou 26 prisões só nessa noite. Desde então, foram presas outras nove pessoas e a polícia está a fazer circular fotografias de mais de uma dúzia de jovens procurados.

Milhares de pessoas também se manifestaram na cidade de Leeds, o distrito eleitoral do vice-primeiro-ministro e dirigente do partido liberal-democrata Nick Clegg, que integra a coligação governamental liderada pelo Partido Conservador. Houve relatos de manifestações estudantis de protesto e outras acções em muitas outras cidades nesse dia.

A chegada a um ponto de efervescência

A oposição à proposta de aumento das propinas tinha estado a crescer há um mês até chegar a um ponto de efervescência.

Na primeira manifestação a 10 de Novembro, mais de 50 mil estudantes caminharam pelo centro de Londres até à Torre Millbank, sede do Partido Conservador. Os estudantes furiosos atacaram o edifício, romperam a barreira policial e forçaram a entrada. Ocuparam o edifício, o telhado e o pátio. Ao fim do dia, 35 estudantes estavam presos e 14 estavam hospitalizados.

A 24 e 30 de Novembro, a Campanha Nacional Contra as Propinas e os Cortes (NCAFC) organizou mais manifestações e dias de acção em toda a Grã-Bretanha. A maior das manifestações decorreu no centro de Londres mas, segundo a BBC, dezenas de milhares de estudantes universitários e de escolas secundárias também participaram em marchas, ocupações e outras acções em Manchester, Birmingham, Cambridge, Nottingham, Oxford, Sheffield, Leeds, Brighton e outras cidades.

Depois do fiasco da Torre Millbank, a polícia impediu a manifestação de 30 de Novembro em Londres de chegar ao seu destino, embora ela tenha sido autorizada. Para evitar um confronto frontal que parecia ser o que as autoridades pretendiam, os manifestantes dividiram-se em pequenos grupos. Acabaram por convergir para a Praça de Trafalgar, onde a polícia os reteve. Ao fim do dia ficaram presos mais de 150 estudantes.

Algumas universidades e faculdades de Londres e de toda a Inglaterra ainda estão ocupadas. Muitos estudantes crêem que o voto parlamentar a favor do aumento das propinas não acabou com o assunto e querem continuar esta luta.

Porquê o aumento das propinas?

O novo governo de coligação entre os Tories (Conservadores) e os liberal-democratas elaborou um plano para poupar anualmente mais de 9 mil milhões de libras com enormes cortes na despesa pública. Os orçamentos para as universidades e a educação em geral foram cortados. A isto seguiu-se um plano para elevar o limite das propinas universitárias para 9 mil libras por ano. O governo parecia confiante em poder implementar esse plano sem grande oposição, mas os protestos dos estudantes puseram fim a esse sonho.

Embora a 9 de Dezembro o partido trabalhista tenha votado contra o plano, ele foi de facto o primeiro a introduzir grandes aumentos das propinas quando estava no poder e foi ele que encomendou o estudo que levou ao actual aumento das propinas. Mas o novo governo de coligação liderado pelos conservadores acelerou essa tendência a uma velocidade que chocou toda a gente. Durante a campanha eleitoral do seu partido, o líder dos liberal-democratas Clegg tinha posto o seu nome na promessa de não aumentar as propinas. Posteriormente, depois de se ter tornado vice-primeiro-ministro, voltou atrás e disse que a promessa tinha sido um “erro” e que os aumentos propostos eram “uma solução justa e progressista para um problema muito difícil”.

Esta arrogante desonestidade enfureceu muitas pessoas que tendem a crer que os liberal-democratas se venderam só para poderem partilhar o poder com os conservadores. Isto não é totalmente verdade. De facto, embora todos os três partidos tenham prometido rejeitar mesmo aumentos das propinas menores que os que acabaram por ser aprovados, nenhum deles declarou agora qualquer oposição de princípio. Mesmo a discordância do Partido Trabalhista na oposição é apenas em relação à velocidade com que os aumentos serão implementados, que eles sentem poderem vir a criar muito descontentamento social, e não com a abordagem global.

O acordo entre os partidos da classe dominante está relacionado com a crise financeira que afecta todos os países imperialistas, incluindo a Grã-Bretanha. Desde que começou a crise, já foram atribuídos milhares de milhões de libras para salvar os grandes bancos e empresas e para os ajudar a tornarem-se mais eficientes e bem-sucedidos na sua concorrência com as instituições financeiras de países imperialistas rivais. O custo desses esforços será suportado pelo povo. Para muitas pessoas, isto quer dizer acabar com a promessa do tipo de vida a que elas pensavam ter direito e estar-lhes garantida.

Os orçamentos para a educação na Grã-Bretanha foram reduzidos em milhares de milhões de libras durante os últimos anos. Isto já causou danos no sistema educativo e reduziu dramaticamente o seu nível de qualidade. A Grã-Bretanha já desceu do terceiro para o décimo lugar a nível mundial. Os anteriores aumentos das propinas e os cortes nos financiamentos fizeram com que seja muito mais difícil que as pessoas dos sectores mais baixos da sociedade obtenham uma educação superior. A disponibilidade da educação para todos, que antes era proclamada como um direito, há já algum tempo que desapareceu enquanto objectivo oficial.

O governo defendeu o aumento das propinas dizendo que os estudantes poderiam obter empréstimos. Mesmo se e quando isso acontece, eles têm que começar a reembolsar os empréstimos no final dos seus estudos ou quando começarem a trabalhar. Isto significa que os estudantes podem vir a começar as suas vidas pós-universitárias com uma dívida de 30 a 40 mil libras que deve ser integralmente paga em 25 anos. Comprar a educação é a lógica do capitalismo. A educação irá ser privatizada e qualquer investimento irá ser condicionado à sua rentabilidade imediata.

A ideia por trás deste plano, ou pelo menos a desculpa para ele, é que ao comprarem a sua educação – como comprariam um fato – os estudantes podem antecipar a sua capacidade de gerar rendimentos. Mas mesmo que isso “resulte” para algumas pessoas, só irá aumentar as desigualdades sociais. Esta abordagem é mais um passo na redução das pessoas a cruéis e competidoras personificações do dinheiro. Rouba os indivíduos do seu potencial humano e empobrece intelectual e culturalmente a sociedade. Não é de admirar que tantos jovens rejeitem esta perspectiva do futuro.

Quem são os arruaceiros?

As acções radicais de protesto mostram a fúria e a frustração de estudantes, professores e pais. Eles estão a lutar não só por eles próprios mas também pela educação das futuras gerações que está agora sob ataque de arruaceiros que estão a tentar vandalizar todo o sistema educativo. Contudo, o governo e alguma comunicação social têm levado a cabo uma campanha para descrever os estudantes como arruaceiros. Desencadearam uma caça às bruxas para criminalizar esses jovens que são na realidade a esperança do futuro.

Estes protestos enormes e determinados mostraram que a classe dominante britânica e os seus cães de guarda podem vir a ter tempos muito difíceis ao continuarem com as sua planeadas “medidas de austeridade”. Muitas pessoas compararam estas acções aos protestos contra os impostos que há duas décadas partiram a espinha ao governo de Margaret Thatcher. Embora seja impossível prever para onde irá seguir o movimento estudantil, pode certamente dizer-se que o imperialismo britânico está numa situação muito mais enfraquecida e volátil e mais profundamente em crise que há 20 anos.