Entregar o Iraque aos lobos

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 9 de Agosto de 2010, aworldtowinns.co.uk

Os EUA e a Grã-Bretanha “mataram o nosso país”, disse o ex-ministro dos negócios estrangeiros de Saddam Hussein, Tariq Aziz, ao jornal britânico Guardian numa entrevista publicada a 7 de Agosto. Agora, estão a “entregar o Iraque aos lobos”.

Aziz reconhece os seus parceiros lobos quando os vê. Os EUA não estão verdadeiramente a sair do Iraque, mas estão a atiçar as bestas ao povo desse país. É assim que eles planeiam manter o controlo.

Qualquer pessoa que defenda que a história só avança devia olhar para o Iraque. A nível económico, o país foi destruído por 12 anos de sanções da ONU, pelos bombardeamentos de “choque e pavor”, pela invasão e por mais de sete anos de ocupação. Este país que já foi rico devido ao petróleo, com sistemas de educação e saúde muito desenvolvidos, agora nem sequer tem uma rede eléctrica nacional, já para não falar numa economia nacional unificada ou numa classe dominante consolidada de exploradores mantidos unidos por interesses económicos e políticos comuns. Por isso, uma miscelânea de forças de senhores da guerra, tribais e religiosas combatem por pedaços do poder, cada uma delas com as suas próprias milícias e todas elas alegando a legitimidade do Islão. A maioria delas dependendo de uma forma ou de outra do apoio estrangeiro. Nestas circunstâncias, o país manter-se-á dividido durante o futuro próximo.

Os EUA, que antes apoiaram Saddam e o seu partido Baath quando isso servia os seus interesses (sobretudo na oposição à URSS e ao nacionalismo árabe), ajudaram e engordaram a maioria desses lobos. Alguns desses carnívoros têm entrado em disputa pela formação de um novo governo desde as eleições de Março passado. Os EUA apoiam Iyad Allawi, um ex-arruaceiro baathista que regressou à política iraquiana como primeiro-ministro nomeado pelos EUA. Com financiamento da Arábia Saudita, ele está a tentar reconstruir parte da antiga coligação governamental de Saddam e exprimiu simpatia pelo “meu amigo” Aziz. Pelo menos até agora, os EUA também têm apoiado o actual primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, um antigo agente da República Islâmica do Irão que serviu de principal facilitador da ocupação durante os últimos anos e que agora se tem recusado a abandonar o governo. Seria difícil decidir qual deles era o pior inimigo do povo iraquiano.

Também há os gângsteres defensores da Xariá [lei islâmica] liderados por Moqtada al-Sadr que têm tentado combinar a influência iraniana com uma aceitação relutante da ocupação norte-americana (o que também tem sido a posição do Irão). Depois, há os lobos curdos, comprados e traídos pelos ocupantes, cujo domínio baseado nos clãs tem cada vez mais oposição no Curdistão. As suas ambições têm sido frustradas pelo facto de os EUA terem entregado os seus interesses (como a propriedade dos campos petrolíferos) aos esfaimados lobos árabes iraquianos.

Finalmente, há aquilo que a que se chama a Al-Qaeda na Mesopotâmia, um sortido de fundamentalistas sunitas, ex-baathistas e outros que lutam por impor o seu próprio inferno ao povo do país, quando não estão a fazer acordos com os outros lobos e a entrar ou sair de várias coligações de lobos.

Barack Obama fez campanha para a presidência com o que muita gente assumiu ser uma promessa de acabar com a guerra no Iraque. A 3 de Agosto, ele vangloriou-se de que iria cumprir a sua promessa “a tempo e horas” ao reduzir o número de tropas norte-americanas no terreno para 50 mil no final do mês. O seu plano neste momento é que elas aí fiquem pelo menos outro ano e meio. Tal como o Presidente norte-americano George W. Bush que anunciou a “missão cumprida” em 2003, Obama alega que os EUA já não estão a desempenhar um papel de combate no Iraque. Então por que é que os seus soldados lá estão?

Obama antes fingia que não se tratava de uma força de combate mas simplesmente de “treinadores” a ajudar a estabilizar o governo eleito iraquiano e a ajudá-lo a construir o seu próprio exército. Mas já passaram seis meses sem que haja sequer uma aparência de um tal governo e toda a gente sabe que o seu pretenso exército é uma colecção de milícias rivais. Assim, agora dizem-nos que as tropas estão lá para “proteger o pessoal militar norte-americano e as suas instalações” (as tropas norte-americanas estão lá para proteger as tropas norte-americanas?) e para levar a cabo “operações de contra-insurgência”. Isto certamente parece um papel de combate.

É uma enorme força de ocupação, apoiada pelo poderio naval e aéreo perto da costa. É mais que suficiente para dar aos EUA a palavra final em tudo o que o próximo governo iraquiano faça, tanto conciliar com algumas das forças islâmicas como manter as forças anti-EUA à distância, enquanto os lobos podem fazer tudo o que querem ao povo iraquiano.

É este o Iraque que os EUA criaram e a forma como o querem manter. Eles usarão o seu poderio militar e outros poderes para se aliarem a matilhas rivais de lobos reaccionários e para as fortalecerem, uma após outra ou em várias combinações, enquanto continuam a manter o país longe do controlo do seu próprio povo.