Dos EUA para Israel após o massacre do navio para Gaza: Continuem a matança

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 4 de Outubro de 2010, aworldtowinns.co.uk

“As circunstâncias da morte de pelo menos seis dos passageiros são consistentes com uma execução extrajudicial, arbitrária e sumária”, concluiu uma missão patrocinada pela ONU de recolha de factos sobre o ataque israelita a uma flotilha de ajuda humanitária a Gaza em Maio passado.

Ao contrário das alegações israelitas de que os nove passageiros do navio turco Mavi Marmara tinham sido mortos por soldados israelitas que agiram em autodefesa, o relatório da Missão, baseado em evidências forenses e outras provas materiais e em 112 entrevistas a passageiros do navio, é um relato detalhado de disparos descontrolados e assassinatos a sangue frio.

Alguns dos passageiros que estavam na coberta superior do Mavi Marmara impediram a tentativa dos comandos israelitas de usarem as escadas de mão para subirem a bordo do navio, atirando-lhes “cadeiras, paus, uma caixa de pratos e outros objectos que estavam à mão”. Quando um helicóptero lançou uma corda para os soldados descerem, os passageiros agarraram-na e amarraram-na a uma parte da coberta para que não pudesse ser usada. O helicóptero começou a disparar para a coberta superior.

Quando, depois disso, os soldados desceram dos helicópteros por uma segunda corda, “vários passageiros lutaram com os soldados usando os punhos, paus, barras metálicas e facas”. Usaram fisgas para atirarem objectos aos helicópteros, mas “a Missão não encontrou nenhum indício que sugerisse que algum dos passageiros tivesse usado armas de fogo ou que tivessem levado qualquer arma de fogo para bordo do navio”.

Assim que se viram a bordo, os soldados israelitas varreram a coberta superior com balas reais, balas de plástico (estas mataram pelo menos um homem) e projécteis de tinta, atingindo quase toda a gente que aí estava, e depois salpicaram a coberta de baixo, atingindo pessoas que estavam a tentar fugir ou proteger-se. Alguns dos feridos foram depois mortos com balas na cabeça. Furkan Doğan, de dezanove anos, que estava na coberta superior a filmar a acção, foi atingido quatro vezes por trás e depois, quando já estava estendido no chão, aparentemente foi virado e atingido no rosto à queima-roupa.

Ficaram feridas pelo menos 50 pessoas. Houve tantos disparos de balas reais que “parece ter sido uma questão de pura sorte que não tenham resultado em mais fatalidades”.

Não houve nenhuma morte em nenhum dos outros navios da flotilha, cujos passageiros, diz o relatório, apenas oferecerem uma resistência não violenta ou mesmo nenhuma. Mas mesmo aí os soldados israelitas estavam enfurecidos e foram brutais. Muitos dos mais de 700 passageiros e tripulantes dos seis navios foram espancados ou receberam electrochoques (com tasers). Os soldados israelitas fizeram o que o relatório descreve como “tortura” a prisioneiros algemados no trajecto de regresso a terra, durante o processamento dos prisioneiros e no aeroporto quando eles estavam a ser deportados.

Os jornalistas foram visados devido à sua profissão. Alguns passageiros disseram que os comandos tinham livros de fotografias de pessoas específicas de quem andavam à procura, presumivelmente, diz o relatório, com base em relatórios dos serviços secretos feitos antes de os navios partirem.

A interceptação israelita da flotilha em alto-mar foi ilegal, afirma o relatório depois de ter revisto os factos e as leis e códigos pertinentes. Mesmo não tendo isso em consideração, o uso letal de força foi ilegal, uma vez que mesmo quem realiza actividades legítimas de imposição da lei ou militares tem a responsabilidade de evitar danos desnecessários e a morte de civis em todas as circunstâncias e actos como a tortura e a execução sumária de prisioneiros são sempre proibidos.

“Há provas claras para sustentar acções judiciais contra os seguintes crimes, nos termos do artigo 147 da IV Convenção de Genebra: morte voluntária, tortura e tratamento desumano, causar voluntariamente grande sofrimento ou danos sérios ao corpo ou à saúde”, conclui o relatório. Entre as pessoas susceptíveis de acusação judicial ao abrigo do direito internacional estão tanto os indivíduos que possam ter cometido esses crimes como os seus superiores a todos os níveis que, segundo o direito internacional, são responsáveis pelas acções das suas tropas.

De facto, diz o relatório, o governo israelita está activamente a encobrir esses crimes. Confiscou as gravações de CCTV, todas as máquinas fotográficas e de vídeo, telefones, cartões de memória e quase todos os dispositivos electrónicos ou outros levados pelos passageiros, de forma a manter o controlo exclusivo das provas. Disse à Missão da ONU que não a reconheceria ou que não iria cooperar com ela.

A Missão afirma que os relatos israelitas do que aconteceu não estão de acordo com as provas citadas no relatório e que esses relatos são mutuamente incompatíveis e, em muitos casos, improváveis. Como só as gravações de som e imagem que Israel teima em manter em segredo poderiam substanciar as suas alegações, a sua recusa em entregar esses materiais significa que os seus argumentos não podem ser aceites.

Além disso, afirma o relatório, uma vez mais depois de terem sido revistos os factos e as leis pertinentes, o bloqueio israelita a Gaza é ele próprio ilegal, porque o seu objectivo declarado é punir o povo de Gaza por ter votado na organização Hamas. Essa punição colectiva de toda uma população é explicitamente proibida pela IV Convenção de Genebra, as chamadas leis da guerra. Israel criou deliberadamente uma “grave situação humanitária” em Gaza através “da destruição da economia civil e de impedir a reconstrução dos estragos anteriores”. Segundo a lei humanitária internacional, a imposição da fome a toda uma população civil também é ilegal e “o significado comum de ‘fome’” segundo essa lei “é simplesmente causar uma escassez de alimentos”.

Israel continua a manter esta situação hoje em dia por uma questão de política de estado, salienta o relatório datado de 22 de Setembro, apesar dos ajustamentos secundários do bloqueio.

Mas há aqui um crime ainda maior: a reacção dos EUA e das outras potências imperialistas a este relatório. Dos 47 membros do Conselho de Direitos Humanos da ONU, apenas um votou contra a aprovação do relatório: os EUA. Todos os membros europeus abstiveram-se.

Porquê? Nenhum desses países alegou que alguma coisa no relatório era inexacta, falsa ou legalmente infundada. A embaixadora norte-americana no Conselho de Direitos Humanos limitou-se a criticar a sua “linguagem, tom e conclusões desequilibradas”.

Se o termo “desequilibrado” foi usado para querer dizer que o relatório não ouviu suficientemente o lado israelita da questão, então como é que a Missão da ONU pode ser considerada culpada da recusa de Israel em cooperar ou permitir entrevistar qualquer dos seus cidadãos? Por outro lado, se “desequilibrado” quer dizer que o relatório chega a conclusões finais, isso não é errado mas sim uma coisa boa. Esta Missão “foi até onde as provas nos levaram”, disse o seu membro Desmond de Silva, um jurista britânico e ex-procurador principal do Tribunal Especial para a Serra Leoa, criado pela ONU.

O Presidente da Missão, Karl T. Hudson-Phillips, um juiz aposentado do Tribunal Penal Internacional e ex-Procurador-Geral de Trindade e Tobago, salientou que os “infelizes” comentários da porta-voz dos EUA “surgiram sem qualquer evidência ou argumento em seu apoio. Não houve nenhuma crítica factual, tanto quanto pudemos apurar de todos os relatos”.

A embaixadora norte-americana Eileen Donahoe usou de facto um argumento, embora não relacionado com factos ou leis. Disse que o relatório poderia ser “usado para actos que poderiam destruir as conversações directas israelo-palestinianas agora em curso ou para actos que poderiam torná-las mais difíceis”. (Todas as citações são do jornal The New York Times, 28 de Setembro de 2010).

Aqui está: os EUA temem a verdade porque pode destruir os esforços do governo Obama para usar a diplomacia e a pressão política para forçar os palestinianos a submeterem-se, em harmonia com a deliberadamente descarada e sádica brutalidade de Israel para atingir os mesmos objectivos.