Do G8 para a Terra: Afastem-se

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 20 de Julho de 2009, aworldtowinns.co.uk

A reunião de Julho do G8 que ocorreu em L'Aquila, Itália, foi, em muitos aspectos, uma cimeira da vergonha.

No que diz respeito à fome em África e noutros países oprimidos, uma das principais alegações de que o evento seria algo diferente de um conclave dos maiores saqueadores do mundo, este festival de conversa do G8 pouco mais fez que re-prometer o mesmo dinheiro em ajuda prometido na reunião do G8 em Gleneagles, há quatro anos, e não entregue (15 mil milhões de dólares), acrescido de um adoçante de última hora para manter as aparências (5 mil milhões de dólares). Essas promessas de 2005 não teriam resolvido os problemas estruturais desses países, cujas economias estão subordinadas e são esmagadas pelo mercado imperialista mundial, mas este desdenhoso “re-presentear” (a reciclagem de antigos presentes) acrescentou um insulto ao mal. Isto foi apresentado pelo Presidente norte-americano Barack Obama como uma vitória. Segundo as estatísticas da ONU, o número de pessoas malnutridas no mundo tem subido durante os dois últimos anos e ultrapassará os 1200 milhões de pessoas este ano.

Quanto ao Irão, o G8 conseguiu fazer o truque de executar dois actos criminosos num só: não condenou a sanguinária repressão dos protestos pela República Islâmica e, ao mesmo tempo, ameaçou-a de mais sanções económicas ou pior, se se recusasse a ceder perante as exigências feitas sob a liderança dos EUA. Também isto foi promovido por Obama. Na semana seguinte, todos os 168 passageiros de um desgastado avião iraniano morreram quando este caiu – um dramático exemplo de quem é afectado por essas sanções.

O aspecto mais publicitado deste G8 foi o seu comunicado oficial sobre o aquecimento global. Longe de representar alguma coisa de positivo, os futuros historiadores poderão apontá-lo como um indício da loucura criminosa do actual sistema mundial. Esta é uma questão em que muita gente esperava que Obama rompesse com as políticas da era Bush. Contudo, e sob a liderança do próprio Obama, a reunião rejeitou abertamente tomar qualquer medida significativa.

É verdade que a cimeira de L'Aquila se apresentou como se concordasse com o consenso científico de que uma subida das temperaturas médias mundiais em mais de 2° Célsius irá provavelmente levar a uma situação perigosa para as pessoas e para o planeta. O que foi proposto que se fizesse em relação a isso? Foi definido um objectivo “aspiracional” (não-vinculativo) de reduzir as emissões de dióxido de carbono para metade no ano 2050. Obama e os outros líderes do G8 fingiram que desta vez tinham mudado e que realmente reconheciam e começavam a enfrentar o problema. Há várias razões para que isto seja de facto um avanço muito menor do que parece:

• Embora durante muito tempo o ex-presidente norte-americano George W. Bush se tenha recusado obstinadamente a reconhecer que há um problema de alterações climáticas causadas pela actividade humana, no final ele fez e emitiu um apelo exactamente com esse mesmo objectivo. Por isso, o que é que há de diferente em Obama? Não será o mesmo tipo de “re-presentear”?

• Os gases de efeito de estufa produzidos desde os princípios do século XIX elevaram as temperaturas globais em cerca de 0,8 graus Celsius. Muitos cientistas crêem que a quantidade de gases que já existe na atmosfera pode duplicar esse aumento da temperatura, mesmo sem qualquer emissão adicional de dióxido de carbono. Por isso, mesmo que o objectivo do G8 seja alcançado, isso não será suficiente.

• O objectivo de 2050, daqui a 41 anos – altura em que a maioria dos actuais líderes do G8 estará morta – é muito tardio. A cimeira recusou-se a adoptar os objectivos intermédios de 2020 exigidos pelos activistas climáticos, ou seja, suficientemente cedo para ter impacto e para que sejam pedidas responsabilidades.

• O que supostamente é novo nas resoluções do G8 deste ano é que, como parte de se obter um corte global de 50% nas emissões globais, se pediu aos países ricos que cortassem as suas em 80%. Mas o apelo do G8 evitou deliberadamente especificar a referência em relação à qual esses níveis serão medidos. (O seu comunicado oficial diz “em comparação com 1990 ou anos mais recentes”.) Será cortar 80% em relação aos níveis de emissões de 1990 ou de agora? Como as emissões de dióxido de carbono dispararam nos últimos 20 anos, sobretudo nos EUA, a diferença é enorme. Uma vez mais, quando se mastiga os números, o que é que há de novo aqui?

• Embora as promessas do G8 já sejam criminosamente insuficientes, mesmo que fossem cumpridas, não há nenhuma razão para se acreditar que o irão ser. A legislação apresentada por Obama ao Congresso dos EUA visa reduzir as emissões em 5-6% durante a próxima década, em relação a 1990. Ao nível das promessas, a Europa fez quatro vezes melhor – mas a UE no seu todo ficou longe de anteriores compromissos (ao mesmo tempo que desfruta das vantagens da exportação das suas indústrias poluidoras).

• Obama insistiu em que os países do terceiro mundo, em particular a China e a Índia, são igualmente parte do problema. Com esse objectivo, organizou e presidiu a uma conferência conjunta do G8 e de cinco dos países mais industrializados do terceiro mundo. Isto é passar a responsabilidade: os EUA, com cinco por cento da população do mundo, são responsáveis por 25% das emissões de gases de efeito de estufa. O indiano comum produz dez vezes menos gases de estufa que um europeu comum e 20 vezes menos que um norte-americano comum. Que direito têm os EUA e a Europa de culparem qualquer outro país?

• Além disso, que mercado – e o enriquecimento de que capitalistas – serve a industrialização da China e de outros países asiáticos? A Alemanha entregou à China fornos de aço inteiros que costumavam enegrecer os seus céus. Aí, eles são usados para construir uma capacidade industrial que fornece as cadeias norte-americanas e europeias de revenda em todo o mundo. O Ocidente só está a exportar a sua fuligem para o terceiro mundo. O problema é o sistema económico e social global, não um conflito entre uma Europa e uns EUA verdes e uma China e uma Índia sujas.

Em nenhuma outra parte do mundo se salienta mais vivamente a natureza da abordagem capitalista à potencial catástrofe do aquecimento global que no amplamente proclamado esquema de atribuir às empresas créditos de emissão de dióxido de carbono para que, em vez de eliminarem a poluição, elas possam comprar e vender esses créditos de poluição como fonte adicional de enriquecimento. A experiência da Alemanha, onde esse mercado está particularmente desenvolvido, é um bom exemplo: algumas das maiores empresas do país fizeram uma enorme quantidade de dinheiro nesse mercado, enquanto a Alemanha – que se pinta piamente a si própria como estando no extremo avançado do verde – continua a ser um dos piores poluidores do mundo desenvolvido. Se alguns países europeus menores como a Suíça se tornaram mais limpos, é porque eles exportam mais capital financeiro que bens acabados, em comparação com a Alemanha.

Obama e o primeiro-ministro britânico Gordon Brown tentaram enfrentar a desilusão generalizada com o comunicado oficial do G8 deste ano sobre o aquecimento global, chamando-lhe um bom passo em frente para mais progressos na cimeira mundial sobre alterações climáticas em Dezembro de 2009 em Copenhaga. Dado o quão mau foi L'Aquila, não é impossível que Copenhaga faça – ou que pelo menos diga fazer – algo melhor. Mas agora que não podemos culpar Bush pela teimosa atitude de não fazer nada do G8, L'Aquila é um exemplo do que podemos esperar do sistema imperialista, independentemente de quem está no governo. De facto, é uma boa indicação dos limites impostos pelo funcionamento do sistema capitalista.

Resumidamente, o potencial das forças produtivas e do conhecimento da humanidade não se pode centrar nas necessidades dos seres humanos (incluindo salvar o planeta) devido às actuais relações económicas e sociais: o sistema capitalista, ou seja, os ditames do capital em termos económicos e a ditadura política da classe capitalista e uma divisão imperialista do mundo em países capitalistas monopolistas e em nações que eles dominam.

Um artigo do SNUMAG de 5 de Fevereiro de 2007 explicava mais profundamente os constrangimentos económicos que impedem o capitalismo de poder responder ao aquecimento global de uma forma proporcional ao perigo. O artigo concluía:

“Lidar com este tipo de catástrofe potencial irá requerer a experiência, o conhecimento, a criatividade, os esforços e por vezes o sacrifício do género humano no seu todo, de todos os seus milhares de milhões de pessoas em todo o mundo. Ninguém pode alegar que isso seja sequer concebível no actual sistema económico, social e político que mantém o globo sob as suas garras.”

“Desenvolvimento e gases de efeito de estufa não têm que ser sinónimos. Muitos cientistas e activistas ambientais têm explorado o conceito de desenvolvimento sustentável – uma economia que possa satisfazer cada vez mais as necessidades humanas sem destruir o planeta em que vivemos. Se a sociedade – e eventualmente toda a sociedade humana a nível mundial – não fosse gerida segundo os princípios do capitalismo, mas sim pelos do socialismo, porque é que não poderia um planeamento cujos objectivos mais elevados fossem a emancipação e o bem-estar da humanidade e o seu meio ambiente criar uma economia que servisse esses fins? Porque é que a humanidade tem que continuar a aguentar mais o desperdício e a destruição impostos pelo capitalismo? E o que é que impediria essa sociedade de consagrar os recursos necessários a impedir ou pelo menos a minimizar o impacto das catástrofes naturais?”