Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de Novembro de 2004, aworldtowinns.co.uk

Discussões em massa e controvérsia no Fórum Social Europeu de Londres

“A melhor coisa sobre esta conferência”, disse um delegado vindo do Senegal para assistir ao Fórum Social Europeu (FSE) de Londres, “é que o capitalismo mundial traiu claramente as promessas que fez quando celebrou a ‘morte do comunismo’ e muitos milhões de pessoas não vêem qualquer futuro neste sistema.”

Este comentário diz muito sobre o espírito que move um grande número dos que assistiram ao FSE de 15 a 17 de Outubro. Tinham muitas e contraditórias ideias sobre os problemas do mundo e quiseram ouvir personalidades políticas, gente com conhecimento e uns aos outros, sobretudo para decidirem o que fazer. Alguns queriam saber o que fazer com as suas vidas.

O Fórum Social Europeu está ligado ao Fórum Social Mundial (FSM) que teve lugar pela primeira vez em Porto Alegre, Brasil, em 2001. Esta foi a terceira reunião anual do FSE, depois da de Paris no ano passado e da de Florença no ano anterior. Os organizadores anunciaram que se registaram cerca de 20 000 pessoas, menos de metade do número dos dois anos anteriores. Uma sala de conferências, instalações sindicais e salas universitárias foram anfitriãs de cerca de 500 eventos, incluindo seminários de todos os tamanhos, dezenas de reuniões de massas e todo o tipo de actividades políticas e culturais marginais. No Alexandra Palace – as instalações principais –, densas multidões oscilaram de um lado para o outro através dos corredores. Inundaram o grande salão destinado às bancas com literatura de todas as tendências políticas e que abordavam todas as preocupações imagináveis. Uma elevada percentagem de participantes veio de França, da Alemanha, de Espanha, de Itália e de outros lugares na Europa, com algumas pessoas vindas do terceiro mundo. Muitos dos participantes, especialmente do estrangeiro, eram membros de sindicatos do sector público e/ou activistas políticos. O espectro de idades também era variado, embora centrado nos jovens e nas pessoas com idade suficiente para serem veteranos dos anos 60 e 70.

Ao mesmo tempo, a conferência foi dirigida principalmente por pessoas e organizações muito ligadas à classe dominante britânica, ou pelo menos dispostas a viver com ela. Isso deu à conferência um carácter ainda mais contraditório. O evento foi patrocinado e em grande parte financiado pelo presidente da Câmara de Londres, Ken Livingstone, um membro dissidente do Partido Trabalhista britânico (no governo), pelo Congresso dos Sindicatos (TUC), pela Unison e por outros sindicatos e federações laborais historicamente ligadas àquele partido. O jornal diário The Guardian, tradicionalmente ligado aos trabalhistas, foi o seu patrocinador da comunicação social. Muitos dos que moderaram os seminários e um número significativo de conferencistas trabalhavam para ONGs.

Contudo, tal como em anteriores Fóruns Sociais, muitos oradores e um grande número de participantes apontaram o imperialismo como sendo o inimigo. Embora nem toda a gente pensasse ou falasse assim, os que expuseram e se opuseram ao imperialismo obtiveram os maiores aplausos. O ódio ao domínio norte-americano do mundo foi o sentimento mais unificador desta conferência, tal como hoje o é globalmente, embora também aqui tenha havido pouca clareza sobre o papel da Grã-Bretanha. Por vezes, a actual aliança EUA/GB foi vista como uma questão das más políticas de Blair e não dos interesses estratégicos do imperialismo britânico. A guerra no Iraque tornou-se correctamente na questão decisiva. Quanto mais os organizadores e os oradores se opunham à guerra e à participação da Grã-Bretanha, mais conseguiam unir as pessoas. Quando as suas relações com a estrutura de poder britânica e o sistema imperialista se intrometiam com a sua oposição à guerra, muitas pessoas protestavam abertamente contra isso.

Apesar da declarada adesão do FSM à não-violência, uma das intervenções mais bem recebidas ocorreu numa reunião de sábado de manhã sobre a globalização com a presença de mil pessoas, quando começou o debate entre os oradores e a audiência sobre a forma de encarar a resistência iraquiana. Alguns oradores apelaram a que não se apoiasse nem a ocupação nem a resistência, mas sim uma “terceira via”. George Galloway, expulso o ano passado do Partido Trabalhista pela sua particularmente franca oposição à guerra, obteve uma tumultuosa aprovação quando disse que a linha divisória não era a não-violência mas sim saber de que lado é que se estava – com ou contra a resistência –, se os oprimidos têm o direito a pegar em armas e se Falluja deve ser apoiada.

É irónico que Galloway, um membro do parlamento e um apoiante de soluções eleitorais, tenha sido um dos oradores mais radicais nessa sessão, ao mesmo tempo que um dos mais moderados tenha sido Aleida Guevara, filha de Che Guevara. Embora os representantes governamentais cubanos e os grupos pró-Cuba tenham estado muito em evidência no FSE, o quadro de Cuba que eles pintaram foi o de um paraíso ecológico onde toda a gente recicla e as conscientes ONGs definem as políticas. A Revolução e o Socialismo que aquele país antes dizia representar, nem sequer foram mencionados.

Outros dos maiores acontecimentos da conferência foi uma reunião intitulada “Fim à ocupação do Iraque”, na sexta-feira. Ao lado de representantes de grupos contra a guerra, um dos principais oradores foi Subhi Al-Mashadani da Federação Iraquiana de Sindicatos, uma organização que apoia a ocupação e o governo da Grã-Bretanha. À medida que a audiência se acumulava, forças anti-imperialistas e apoiantes do Movimento de Resistência Popular Mundial (MRPM) opuseram-se ruidosa e determinadamente à presença de Mashadani. (Ver o artigo anexo.)

No sábado à noite, um outro incidente sublinhou que o agendado aparecimento de Mashadani na sexta-feira não fora apenas uma coincidência mas que revelava a consistência política dos seus organizadores.

Estava previsto que o presidente da Câmara de Londres, Ken Livingstone, falasse numa reunião intitulada “Parar o fascismo e a extrema-direita na Europa”. Embora o próprio Livingstone esteja contra a guerra, muitas pessoas viram-no como um proeminente membro de um partido nela envolvido. Muitas pessoas estavam muito furiosas por terem permitido que Livingstone ditasse as condições dessa conferência, no sentido mais literal – dizia-se que ele teria a palavra final sobre a lista dos principais oradores.

Outro factor exasperante foi o papel da polícia de Londres, cuja conduta foi atribuída a Livingstone. Os polícias assediaram, entraram em escaramuças e por vezes prenderam pessoas nalgumas reuniões mais à margem, e continuaram a fazê-lo no dia seguinte, na manifestação que se seguiu à conferência. Filmaram descaradamente todas as pessoas no FSE, com a cumplicidade dos organizadores, os quais insistiram para que todos ignorassem os polícias e desvalorizaram essas preocupações como sendo “paranóia”.

Muitas pessoas queriam confrontar Livingstone com tudo isso. Pelo menos uma centena de pessoas, sobretudo anarquistas de vários países, forçaram o caminho até ao palco. O que a maior parte das pessoas desconhecia era que Livingstone tinha cancelado previamente a sua presença, justamente com medo desse tipo de incidente, segundo alguns comentários.

Entre muita confusão e gritos, uma porta-voz francesa levantou-se e falou em nome da Babels, uma cadeia de cerca de 500 tradutores voluntários do FSE. Tentando “acalmar as coisas”, como explicaria depois, concordou com as críticas a Livingstone e ao modo como a conferência fora preparada, embora discordando das tácticas anarquistas. Os organizadores reagiram cortando-lhe o microfone e os tradutores abandonaram furiosamente as suas cabinas, tendo a reunião caído no caos. Ao contrário do que aconteceu na noite de sexta-feira, os que tinham a razão do seu lado não puderam unir os presentes.

Uma das razões era que o problema foi incorrectamente colocado como sendo “Quem tem direito a falar?”. Quando os políticos da classe dominante se opõem à guerra, isso é bem-vindo, sobretudo porque dá às pessoas mais espaço para fazerem ouvir as suas próprias vozes, mas a sua oposição é limitada e condicionada pelos seus próprios interesses e pelos interesses globais do imperialismo britânico. Deixá-los falar não é o mesmo que permitir-lhes ditar as condições.

A Babels salientou que todo o modo como a conferência fora organizada a tornou desnecessariamente dependente do financiamento externo, entregando o seu controlo às forças do Partido Trabalhista. Esta abordagem, segundo eles, foi reforçada pelo Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP). Tendo participado dentro do processo, a Babels pôde verificar o controlo deles sobre as reuniões de planeamento. Essa questão não foi contestada pelos membros do trotskista SWP, neste momento a maior organização de esquerda na Grã-Bretanha. A tradutora criticou o FSE de Londres por não cumprir o compromisso do FSM de ser um “contexto plural, diversificado, não-confessional, não-governamental e não-partidário”. Estes sentimentos pareciam ser amplamente partilhados.

Mas o verdadeiro problema do SWP não é ser um partido político, mas sim a sua política. A ideia de que planear o FSE em reuniões abertas a todos e chegar a decisões por consenso poderia levar a um “contexto não-partidário” mostrou ser uma ilusão. Mas, embora muita gente neste FSE tenha correctamente rejeitado os partidos manipuladores que não representam os interesses do povo, as pessoas precisam de uma liderança revolucionária.

Apesar das insuficiências inerentes ao projecto do FSE, em geral prevaleceram as discussões vivas, os debates, as enriquecedoras trocas de ideias e de experiências e um sentimento generalizado de procura. As pessoas que falaram com os apoiantes do MRPM, ou que foram à procura de literatura maoista na banca partilhada pela revista Um Mundo a Ganhar e por outros, estavam particularmente interessadas na guerra popular no Nepal, a qual indica a verdadeira alternativa ao imperialismo. Embora o trotskismo tenha estado muito presente, parecia que muitos jovens com ideias revolucionárias colaboravam com essas organizações por falta do que considerassem ser uma alternativa. Mesmo entre as ONGs havia diferentes posições e tendências. Por exemplo, num seminário sobre relações comerciais e o terceiro mundo, membros de pequenas ONGs a trabalhar em África – “reconstruir África” foi um dos temas oficiais deste FSE – queixaram-se da hegemonia e dos efeitos muitas vezes prejudiciais das grandes ONGs e de como elas representam os interesses das grandes potências. Mesmo participantes que não viam a possibilidade da revolução contribuíram muito para a exposição do verdadeiro funcionamento do imperialismo e para o desenvolvimento de uma consciência revolucionária.