“De Ferguson a Londres: Sem Justiça, Não Há Paz!”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 27 de Novembro de 2014, aworldtowinns.co.uk

Artigo especial

Cerca de duas mil pessoas tomaram as ruas do centro de Londres na quarta-feira à noite, enfurecidas com o que aconteceu em Ferguson. O protesto começou perto da embaixada dos EUA, a maior na Grã-Bretanha. Um profundo sentimento de solidariedade para com os lutadores de Ferguson marcou a multidão. Familiares de jovens negros assassinados pelos “melhores de Londres” falaram emocionadamente de como sentiam a dor da família de Michael Brown – a dor que uma mãe ou irmã sabem ao verem encurtada a vida de um filho ou irmão antes de a vida dele sequer ter realmente começado. Também falaram sobre como sentiam a raiva que a família de Michael Brown deve ter sentido quando as autoridades norte-americanas fecharam as portas da justiça mesmo na cara deles com aquela decisão do Grande Júri – tal como o sistema de injustiça britânico lhes tinha feito repetidamente. Como disse a irmã de um jovem negro assassinado pela polícia: “As pessoas em todo o mundo compreendem a raiva e a frustração que as pessoas sentem quando os seus entes queridos são assassinados pela polícia nas ruas”. Um outro orador salientou que os EUA nasceram da escravidão e do genocídio – e que os navios de escravos que cruzaram o Atlântico eram geralmente ingleses.

Às centenas de jovens negros juntaram-se estudantes de universidades de elite de Londres, activistas do movimento Ocupar, anarquistas e um punhado de jovens do Médio Oriente e do Norte de África que tinham visto o mesmo tipo de aparato repressivo que está a agir no Missouri quando ele tinha reprimido sangrentamente as suas próprias rebeliões na “Primavera Árabe”. As pessoas recolheram avidamente cópias do apelo de Carl Dix a fazer com que a AmeriKKKa seja paralisada – ansiosas por ouvirem o que os comunistas revolucionários dos EUA tinham a dizer. A polícia manteve-se afastada – aparentemente apanhada desprevenida com a dimensão da multidão ou com a sua combatividade quando saiu da embaixada e avançou rapidamente para tomar as ruas de Londres. Mas se as autoridades tinham a ideia de que os manifestantes estavam apenas a exprimir a sua simpatia por pessoas “do outro lado da lagoa” e que isso não tinha nada a ver com eles, foram rapidamente desenganadas. Os manifestantes bloquearam as artérias de trânsito da capital durante horas. Na Oxford Street de Londres e em Piccadilly Circus, milhares de pessoas que faziam compras de Natal e turistas ouviram os gritos dos jovens: “Sem Justiça, Não há Paz, Que se Foda a Polícia!”, “As vidas dos negros são importantes!”, “De Ferguson a Londres, queremos justiça!” e “Darrell Wilson cumpre a tua pena, Ser negro não é crime!” – era uma geração para quem Ferguson era quase tão familiar quanto Manchester ou Birmingham – e também estava perto dos seus corações.

Mais pessoas iam-se juntando à medida que os jovens marchavam sob uma chuva persistente em direcção aos centros de poder do país, passando pelo n.º 10 da Downing Street e pela infame Scotland Yard, quartel-general da Polícia Metropolitana. Sucessivamente, iam chegando ao local carrinhas cheias de polícias de choque – exactamente quando os jovens saiam rapidamente numa direcção completamente diferente. Quando a manifestação passou pelo Big Ben e pelo Parlamento, muitas pessoas começaram a gritar “Queimem-no!”, reflectindo o profundo desencanto das pessoas com os mecanismos da democracia parlamentar. Os manifestantes chegaram depois à Praça do Parlamento, um local histórico de dissensão que as autoridades têm tentado fechar. Nas últimas semanas, a polícia tinha erguido barreiras de 3 metros ao redor de todo o perímetro da Praça, principalmente para manter afastados os manifestantes do movimento Ocupar. No fim-de-semana passado, 200 polícias tinham enfrentado 100 ou mais activistas que tentavam ocupar a Praça. Mas, nesta noite, os manifestantes conseguiram invadir a Praça como uma onda e, quando a abandonaram, nem um único palmo da barreira policial continuava de pé.

Quase ninguém estava à espera de uma tão grande participação – a noite tinha começado apenas com um par de centenas de pessoas, mas a palavra espalhou-se pelas redes sociais e o número cresceu rapidamente e continuou a aumentar ao longo da noite. Uma jovem negra da Suécia elegantemente vestida que estava de visita a Inglaterra disse estar a protestar pela primeira vez na vida dela: “Eu não posso acreditar que estou aqui, eu não faço coisas destas. Mas há duas horas atrás, no quarto do meu hotel, eu vi que isto estava a acontecer e algo dentro de mim disse-me que eu não me podia manter afastada.”

A revolta em Ferguson e os protestos em todos os EUA evocaram memórias da revolta que em 2011 fez estremecer a Grã-Bretanha durante três dias, depois de um homem negro desarmado, Mark Duggan, ter sido abatido a sangue frio pela polícia no norte de Londres. As autoridades e a comunicação social trabalharam arduamente para descrever essa revolta como um “motim sem sentido”; a polícia vingou-se da luta massiva contra eles e prendeu cerca de 4000 pessoas, estando ainda a ocorrer prisões nos dias de hoje com base nos vídeos das câmaras CCTV. Um orador deu o seu apoio ao suposto motim de uma forma desafiadora e proclamou que ele tinha sido na realidade uma revolta massiva contra o assassinato policial e a injustiça.

Muitos dos jovens estavam extasiados com a solidariedade e o sentido de comunidade que caracterizou o protesto, por verem lado a lado uma tão grande mistura de negros e brancos a manifestarem-se juntos contra os defensores do sistema. Eles tinham sido unidos por uma causa poderosa e pelo espírito vulcânico dos desafiadores lutadores de Ferguson que tinha iluminado os corações e as mentes num país remoto, a um oceano de distância.