Crianças não acompanhadas em Calais – a ponta visível de um mundo frio como um iceberg

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 24 de outubro de 2016, aworldtowinns.co.uk

Cerca de oito a dez mil refugiados têm vivido num acampamento improvisado em Calais que atualmente está a ser demolido por agentes franceses. Tudo o que eles obtiveram até agora do governo francês foram gás lacrimogéneo e as escavadoras utilizadas para demolir as tendas e barracas onde eles sobreviveram no meio do frio e da lama graças à ajuda de outros refugiados e de voluntários e organizações humanitárias. A ONG Help Refugees [Ajudar os Refugiados] disse a 24 de outubro que tinha uma lista de 1028 crianças “desacompanhadas” no acampamento, 49 delas com menos de 13 anos de idade, sendo uma delas um menino de 8 anos. São crianças que perderam as famílias no país de origem ou que ficaram separadas delas ao longo da travessia de metade do mundo nas condições mais difíceis e perigosas imagináveis.

Muitas dessas crianças – cerca de 40 por cento segundo a ONG Terre d'Asile [Terra de Asilo] – vieram para Calais, no Canal da Mancha, porque têm família na Grã-Bretanha e portanto têm legalmente direito a asilo aí. Durante os primeiros dez meses deste ano, sob pressão pública, a Grã-Bretanha admitiu receber um total global de 79 refugiados. E isto só aconteceu na sequência de um enorme clamor de muitos britânicos. Uma decisão parlamentar para admitir todos os refugiados com menos de 13 anos, patrocinada por um membro proeminente da Câmara dos Lordes, que tinha ele próprio recebido asilo na Grã-Bretanha quando tinha 6 anos e fugia à perseguição nazi aos judeus, foi em grande parte ignorada até à última semana, altura em que as autoridades britânicas deixaram finalmente entrar mais 200. Foi necessário um forte protesto da Associação Dentária Britânica para anular os planos para radiografar os dentes das crianças requerentes de asilo para provar a idade delas. Muitos outros refugiados em Calais têm direito legal a entrar na Grã-Bretanha porque têm um cônjuge ou outro familiar próximo a viver lá, mas nem o governo britânico nem o francês estão preocupados com a implementação das leis e acordos da União Europeia.

De facto, é esta a política governamental oficial da Grã-Bretanha. Quando era Ministra do Interior, a atual primeira-ministra Theresa May ficou conhecida pelas posições dela, fanaticamente anti-estrangeiros. Ela assumiu a liderança entre os seus congéneres europeus no corte do financiamento às operações de busca e salvamento encabeçadas pelos italianos no Mediterrâneo, chamando ao ato de salvar vidas um “fator de atração” para “as ameaças que enfrentamos”.

Quando a polícia francesa atacou e destruiu cerca de metade do acampamento de Calais no início deste ano, 129 crianças simplesmente foram dadas como desaparecidas. Uma porta-voz da Ajudar os Refugiados disse temer que isso voltasse a acontecer, dado que nenhum governo irá assumir a responsabilidade por essas crianças. Uma das razões por que muitas pessoas não querem deixar o acampamento é que elas construíram vínculos, redes de ajuda mútua e outros recursos que lhes permitiam sobreviver. Não têm nenhuma razão para acreditar que as autoridades francesas e de outros países, que não têm exibido outra coisa que não uma alternância entre negligência e brutalidade, venham a concretizar uma solução aceitável para o dilema delas. Essas crianças chegaram a Calais depois de terem atravessado muitos outros países cujos governos não foram mais acolhedores que a França.

O que irá acontecer a estes refugiados quando o acampamento deles for arrasado? O plano é que eles sejam acurralados em autocarros, divididos em pequenos grupos e enviados para centenas de “centros de acolhimento” distribuídos por todo o país. Cinco destes centros já foram alvos de atentados bombistas. Neste momento, há cerca de 500 membros da comunicação social em Calais – os membros das ONG dizem temer que, quando as luzes das câmaras se apagarem, os refugiados que se recusaram a entrar “voluntariamente” nos autocarros serão atacados pelas forças de segurança ou por pequenos bandos de fascistas que por vezes milhares de polícias misteriosamente não conseguem neutralizar.

O maior grupo nacional no acampamento é de pessoas do Afeganistão, que atravessaram literalmente montanhas e desertos para fugirem ao caos em que os EUA e a NATO tornaram o país delas. Ao abrigo de um recente acordo com as potências ocidentais, o governo afegão deve aceitar o retorno forcado dos seus refugiados na Europa, que podem chegar a centenas de milhares. Os etíopes (cujo governo é um aliado próximo dos EUA), os eritreus e outros africanos não são geralmente considerados com direito ao estatuto de refugiado. Tentar sobreviver como “imigrantes ilegais” é a escolha mais racional para muitas pessoas, em vez de requerem asilo, em que lhes são recolhidas as impressões digitais e depois talvez expulsos. Algumas pessoas vieram para Calais à procura da segurança do grande número de pessoas aí existente, depois de terem sido forçadas a ir para acampamentos mais pequenos em Paris e noutros lugares.

Os refugiados em Calais não são apenas uma infeliz anomalia, uma exceção que confirma a regra de que o mundo está bem. A desesperada presença deles revela a verdade sobre um mundo inaceitável dominado por um punhado de países que tem prosperado à custa da vasta maioria das pessoas do planeta, através da pilhagem e da guerra, e do normal funcionamento de um sistema global de exploração. O facto de haver, segundo a ONU, 63,5 milhões de refugiados e pessoas deslocadas no mundo de hoje é uma prova irrefutável – apenas uma entre muitas – de que o sistema capitalista-imperialista não trabalha a favor da humanidade e do planeta.

Enquanto os governos da Grã-Bretanha, de França e de outros países europeus se disputam entre si sobre quem deve ajudar quais imigrantes, cada um deles recebendo tão poucos quanto possível e tão lentamente quanto possível, algumas pessoas não só se recusam a aceitar esta desumanidade como estão a assumir a responsabilidade por fazer algo em relação a isto. Uma mulher de meia-idade e da classe média na cidade francesa de Nice, próximo de Itália, ouviu na rádio do carro dela que a polícia francesa estava a bloquear a estação de comboios da cidade para manter afastados os refugiados que tinham atravessado a pé a fronteira. Ela abandonou a sua rotina diária, foi até à estação, convidou refugiados a entrarem no carro dela e levou-os para estações onde a polícia não estava à espera deles. Alguém a denunciou e ela foi presa e recebeu uma enorme multa. Durante a noite, centenas de pessoas enviaram-lhe dinheiro suficiente para pagar a multa. Um artigo no jornal The New York Times refere-se a “uma via-férrea clandestina francesa que está a deslocar migrantes africanos”. Embora muitos “cidadãos colaboracionistas avisam a polícia francesa”, “uma rede silenciosa de cidadãos passadores está a opor-se aos esforços da polícia, numa resistência quase clandestina, indignada com o que eles veem como sendo uma resposta desumana do governo francês à crise” (4 de outubro de 2016). A “crise migratória” que os governos hoje consideram um problema policial poderá tornar-se parte de uma crise política, com grandes questões em jogo sobre que tipo de sociedade as pessoas querem, ou aceitarão.

Que querem dizer os imperialistas, enquanto lutam entre si para gerirem este mundo, com as palavras “crise migratória”? Para eles, o que cria uma “crise” é o facto de algumas pessoas terem entrado na Europa, na Grã-Bretanha, nos EUA, na Austrália e noutras fortalezas imperialistas. Para promover o racismo, eles chamam “selva” ao acampamento de Calais, quando é o sistema capitalista deles que transformou o nosso planeta no lugar onde vale tudo que ele é hoje. A verdadeira crise não é Calais mas o mundo. O próprio funcionamento do sistema está a gerar vastas convulsões que nenhum muro pode deter, e isso clama pelo derrube deste sistema, país atrás de país.