Civilização ocidental: “Morte aos migrantes!”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 11 de abril de 2016, aworldtowinns.co.uk

A 10 de abril, depois de os 28 países da União Europeia [UE] terem votado encerrar as suas fronteiras e enviar os refugiados de volta para a Turquia, a polícia macedónia atacou uma multidão de cerca de quinhentos migrantes que se tinham agrupado do lado grego da fronteira com duas filas de arame farpado, exigindo que os deixassem passar. A polícia disparou salva atrás de salva de cartuchos de gás antimotim, granadas, balas de borracha e jatos de um líquido a alta pressão a partir de canhões de água.

Segundo os Médicos Sem Fronteiras (MSF), o seu pessoal médico tratou cerca de 260 vítimas. Cerca de 200 pessoas foram tratadas a dificuldades respiratórias. Algumas ficaram inconscientes quando os vapores invadiram as tendas onde mais de 11 mil pessoas têm vivido na lama e à chuva desde que as fronteiras foram fechadas a 20 de março. Mais de 30 foram feridas por balas de borracha, incluindo três crianças com menos de dez anos de idade, e outras 30 tinham outros tipos de feridas abertas. Os MSF relataram que havia mães grávidas e crianças entre os feridos, atingidas por balas de borracha. Embora a tentativa de atravessar a fronteira e forçar a Europa a lhes conceder asilo tenha sido liderada por jovens, a maioria das pessoas no acampamento são mulheres e crianças, e as crianças estão a ficar cada vez mais doentes.

Estes corajosos migrantes que se recusam a render devem ser apoiados. Um homem sírio no local do ataque na cidade fronteiriça greco-macedónia de Idomeni disse ao jornal The New York Times: “Este é o último dia. Esta é a nossa última esperança. Ou nós atravessamos e morremos ou iremos morrer na Grécia.” A alternativa a morrer na Grécia ou na Macedónia neste momento é aceitarem ser levados para a Turquia onde há poucas esperanças de obter licenças de trabalho ou qualquer outra coisa que não seja serem armazenados num gigantesco esquema de tráfico de pessoas segundo o qual a UE paga à Turquia por cada pessoa para lá enviada.

Embora proteger os sírios seja supostamente a razão para os bombardeamentos liderados pelos EUA e para uma arrepiante invasão da Síria, neste momento, os guardas fronteiriços turcos estão a disparar sobre sírios, incluindo crianças, que tentam entrar na Turquia. Segundo a Amnistia Internacional, é um “segredo exposto na região” que a Turquia também está a fazer regressar violentamente refugiados à Síria, porque as potências europeias concordaram em pagar-lhe apenas para alojar um certo número de refugiados e mais nenhum. A Amnistia declarou: “No desespero deles para lacrarem as fronteiras, os líderes da UE têm ignorado deliberadamente o mais simples dos factos. A Turquia não é um lugar seguro para os refugiados sírios e está a tornar-se diariamente cada vez menos seguro.”

Muitos outros que estão a ser enviados como carga humana da Grécia para a Turquia são afegãos, iraquianos e paquistaneses, a quem tem sido dito que a UE se recusa a considerá-los refugiados. O infortúnio deles é virem de países sob domínio dos EUA – eles estão a fugir de situações e governos criados pelos EUA e pelos seus aliados europeus, em especial a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha. Para a UE, isto apenas mostra que eles são ingratos e que não podem permitir que escapem às bênçãos que o Ocidente lhes concedeu: sociedades aprisionadas no atraso e regidas por governos islamitas reacionários que combatem islamitas reacionários antiocidentais rivais.

A divisão feita pela UE dos refugiados em “migrantes económicos” e potenciais “refugiados políticos” (que significa pessoas de países que o Ocidente atualmente não controla) não visa ajudar nenhum grupo de pessoas mas dividir estas massas em fuga e enganar a opinião pública.

Um confronto relatado entre refugiados afegãos e sírios na ilha grega de Chios tem de ser considerado um momento de sucesso para a política de conseguir que escravos lutem contra escravos, que vem pelo menos do tempo dos romanos. Mas depois deste incidente, cerca de 800 pessoas demoliram as cercas de arame que cercam o centro de detenção e marcharam para o porto turístico, para acamparem à vista total do mundo. Aí eles continuam a estar em perigo de ataque da polícia e do partido neonazi grego Aurora Dourada. Uma situação semelhante existe agora no Pireu, onde 4500 refugiados se estão a recusar a abandonar a zona à frente do terminal de ferries.

No dia seguinte ao ataque de Idomeni, muito depois de ele ter sido mostrado na comunicação social internacional e de ter sido amplamente denunciado por ONGs e outros grupos na Grécia e também no estrangeiro, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras chamou-lhe “uma grande vergonha para a sociedade europeia e para um país que quer fazer parte dela” (nomeadamente a Macedónia, cuja entrada na UE tem sido bloqueada pela Grécia devido a uma rivalidade histórica). Isto foi uma vergonhosa evasão de responsabilidade por parte dele.

Este ataque surgiu logo após o parlamento grego ter votado uma lei que torna legal deportar refugiados, apesar da ilegalidade absoluta ao abrigo da lei grega, europeia e internacional. Quer eles o admitam ou não, a polícia macedónia estava a disparar em nome do governo grego e da União Europeia – tão pronta a punir a Grécia por não pagar aos bancos e tão pronta a recompensar a Grécia por bloquear, humilhar, causar danos e deportar migrantes.

Este ataque foi apenas um numa série que tem vindo a decorrer há um mês. Não foi uma mancha na “civilização ocidental”, mas sim parte do funcionamento de um sistema global de exploração que dividiu o mundo em países imperialistas e países que eles dominam económica, política e militarmente, mesmo que os imperialistas e outros reacionários também se combatam uns aos outros. Face às consequências produzidas pelo seu próprio sistema, não se pode esperar que eles reajam de uma forma diferente a não ser pela força quando a “estabilidade” desse sistema injusto é ameaçada.

O valor, a dignidade e os direitos das pessoas, a inviolabilidade da vida humana e todas as outras belas palavras que as potências ocidentais fingem defender estão a ser massivamente esmagadas aos olhos de toda a gente que queira ver.

“Morte aos migrantes!”, isto não é apenas o grito dos bandos fascistas que tentam atacar os refugiados na Grécia e em muitas outras cidades europeias, também é a política deliberada, ainda que não declarada, da União Europeia e da NATO.