Castro e Obama: Um pungente aperto de mão

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 13 de Abril de 2015, aworldtowinns.co.uk

Castro e Obama

Que futuro para Cuba foi anunciado pelo aperto de mão entre Barack Obama e Raul Castro?

Foi um momento pungente aquele em que o chefe de um governo que já simbolizou o desafio ao desdenhado “império ianque”, como os cubanos e outros povos em revolta contra a dominação norte-americana o rotulavam, deu um aperto de mão ao “homem honrado”, como Castro agora elogiou o homem actualmente responsável por esse império.

Em 1959, Fidel, o irmão mais velho de Raul Castro, Che Guevara e outros lideraram os cubanos no derrube de um regime odiado e apoiado pelos EUA, que assassinou cerca de 20 mil pessoas nos seus últimos anos e exemplificou o desdém do império pelas vidas dos povos da América Latina e dos oprimidos de todo o mundo. Quando pouco depois Fidel foi falar à ONU em Nova Iorque, milhares de afro-americanos e outras pessoas afluíram ao hotel no Harlem onde ele escolheu ficar em vez das acomodações de luxo de outros chefes de estado. O aperto de mão de hoje foi um momento amargo para os cubanos e para as pessoas a nível global, incluindo nos EUA, onde Obama e a máquina do estado em geral gostariam que este gesto atenuasse algum do descrédito ganho pelo homem que está agora a presidir a um “genocídio lento”, como já foi chamado, dos afro-americanos, e a guerras de agressão e tentativas de reactivar a hegemonia norte-americana em grande parte do mundo.

Um elemento especialmente amargo desse momento foi o modo como Obama se focou na possibilidade de remover Cuba da lista do “terrorismo internacional” do seu governo como forma de pressionar o submisso regime de Castro para uma ainda maior submissão. Durante décadas, foram os EUA que detiveram o controlo de Cuba através de tiranos terroristas, que tentaram invadir Cuba para fazer regressar o velho regime dois anos depois de este ter sido derrubado, que montaram todo o tipo de ataques terroristas ao novo regime, incluindo, de uma forma mais notória, fazer explodir um voo Havana-Caracas cheio de civis, e que constantemente conspiraram para derrubar o regime através do assassinato dos seus líderes. A história das relações cubano-americanas é uma história de violência norte-americana não refreada pela lei ou por qualquer decência moral.

Cuba caiu nas mãos dos EUA pela primeira vez em 1898, quando os EUA invadiram a ilha com o duplo objectivo de acabar com a rivalidade espanhola pelo controlo do Caribe e de pôr fim a uma revolta cubana que ameaçava transformá-la no que os estadistas norte-americanos chamavam “uma república de negros”. A escravatura e a cana-de-açúcar tinham criado a Cuba moderna e, apesar de a escravatura ter sido abolida, a cana-de-açúcar continuou a escravizar a economia e o seu povo.

As tropas norte-americanas ocuparam Cuba durante um total de 12 anos ao longo das duas décadas seguintes. Os EUA introduziram uma emenda na constituição cubana que lhes permitia intervir livremente, o que fizeram abertamente até a classe dominante norte-americana ter formado um exército cubano a quem podia confiar os seus interesses e estruturas políticas para dirigirem o país de acordo com isso. Isto significou alguns dos mais notórios tiranos do mundo, generais servis a Washington e indescritivelmente selvagens em relação ao povo. A instalação pelos EUA de repúblicas de tortura foi um procedimento operacional padrão em muitos lugares, incluindo na vizinha Republica Dominicana e no Haiti.

A cana-de-açúcar é uma cultura que floresce sobre carne humana. Primeiro sob controlo espanhol e depois norte-americano, as plantações de açúcar engoliram grande parte da terra arável. Os EUA sugaram a riqueza de Cuba de duas formas, dominando a grande agricultura e outras actividades económicas (como a do rum, uma indústria dependente do açúcar), e vendendo alimentos e quase tudo o resto a um país que era extremamente fértil antes de as suas florestas terem sido completamente queimadas para abrir caminho a esta cultura de exportação.

Durante os meses de colheita, as pessoas trabalhavam de uma forma insuportavelmente dura em condições perigosas e abreviadoras da vida e passavam fome o resto do ano. Quando foi enterrado, descobriu-se que um trabalhador da indústria da cana-de-açúcar, morto durante uma greve, não tinha nenhuma roupa interior nem meias. Os cubanos trabalhavam em fazendas de criação de gado detidas pelos EUA, mas só um décimo dos habitantes das zonas rurais alguma vez beberam leite e menos de metade dessa percentagem alguma vez comeu carne. De facto, frequentemente era o trabalho familiar em minúsculos talhões de terra que permitia às pessoas sobreviverem entre as colheitas nos campos de cana. Os pequenos camponeses, frequentemente brancos pobres, não estavam muito melhor que os trabalhadores das plantações.

A sociedade cubana foi tão devastada quanto a sua economia. Sob os olhos atentos dos embaixadores de Washington, a máfia baseada nos EUA estabeleceu os padrões morais e a Igreja Católica deu a sua bênção. Entre os valores mais sagrados estava o direito dos homens a dominarem as mulheres e o confinamento das mulheres às categorias de mães, esposas, amantes e prostitutas.

A prostituição floresceu – nos bordéis e nas ruas, dez por cento da população de Havana “servia” os militares, marinheiros civis e turistas sexuais norte-americanos. A indústria de maior crescimento eram os casinos. Mesmo quando Cuba se tornou conhecida como um país onde “valia tudo” para os estrangeiros ávidos, os cubanos comuns não tinham nenhum direito. As aspirações das classes médias mais abastadas e dos profissionais eram esmagadas sob os pés da classe dominante corrupta, arbitrária, cruel e minúscula do país, em associação com os verdadeiros governantes, os capitalistas monopolistas norte-americanos e os seus representantes políticos em Washington.

A revolução de 1959 foi nessa altura uma inspiração para as pessoas em todo o mundo, e não um “desastre” como alguns comentadores lhe chamam, nem uma obscura disputa da “Guerra Fria” como alega Obama.

Mas essa revolução não foi liderada por um partido com um verdadeiro entendimento e compromisso em relação ao que seria necessário fazer para acabar com todas as formas de relações económicas e sociais de opressão e com a forma de pensar que estas geram, apesar do uso das expressões “Partido Comunista” e “socialismo”. Os seus líderes trocaram a dependência dos EUA pela dependência da União Soviética. (A própria URSS já tinha abandonado o socialismo nos anos 1950 e tinha-se tornado “social-imperialista”, socialista nas palavras, capitalista monopolista e imperialista na realidade.) Desde a queda da URSS, essa liderança tem vindo a debater-se, e não só economicamente. Ela não conseguiu oferecer ao povo cubano uma alternativa viável a uma situação não inspiradora e insustentável.

O carácter não revolucionário do regime cubano liderado por Fidel Castro ficou evidente na continuação da submissão da ilha ao açúcar (agora para ser vendido ou trocado com a URSS) sob formas que reproduziam as velhas relações de exploração e opressão sob velhas e novas formas. Nem a economia dependente nem a sociedade criada na base dessa economia foram alguma vez completamente libertadas. A falta de direitos políticos e do fermento da dissensão de que os críticos reaccionários do regime cubano se queixam foi entorpecedora. Contudo, o mais central dos direitos de que essas pessoas nunca falam e com o qual nunca irão concordar em lugar nenhum, e com o qual o regime de Castro nunca sonhou, é o direito das massas populares a participarem cada vez mais na gestão da sociedade através de um novo tipo de estado, transformando as relações económicas, sociais e políticas e a elas próprias, resultando num mundo livre de todas as relações de opressão entre os seres humanos. A tentativa de Raul Castro de assegurar a sobrevivência do seu regime rastejando perante os imperialistas norte-americanos, os maiores criminosos de hoje contra a humanidade e historicamente os senhores esclavagistas de Cuba, é dolorosamente horrenda, mas é consistente com a natureza do regime e da sociedade que ele e o irmão Fidel lideraram.

A dependência do país está a mudar das plantações de açúcar para as plantações de turismo, uma “indústria” que não oferece nenhuma esperança de independência económica e de satisfação do potencial humano. E a prostituição, que tem vindo a ser reintroduzida e que tem prosperado desde há várias décadas, é simultaneamente uma metáfora e um mecanismo de uma maior destruição que se avizinha quando o “mercado livre”, cujo terrível poder nunca foi abolido em Cuba e que agora vai ser alimentado pelo capital norte-americano, destruir ainda mais os corpos e os espíritos.

A luxúria com que os EUA agora olham para Cuba é aterradora. Contudo, de uma forma mais geral, o aperto de mão Obama-Castro não representa um novo e durável triunfo para o imperialismo norte-americano, mas sim uma manobra num mundo onde a hegemonia norte-americana está cada vez mais em extinção. Uma compreensão da razão por que a revolução cubana acabou onde está hoje, e porque é que isso não era nem é inevitável, seria importante para as pessoas em todo o mundo cujas aspirações revolucionárias não foram extintas.

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Para saber mais, ver “Re-Colonization in the Name of Normalization - Behind the Re-Establishment of U.S.-Cuba Diplomatic Relations” [“Recolonização em Nome da Normalização – Por Trás do Restabelecimento das Relações Diplomáticas EUA-Cuba”], de Raymond Lotta, Revolution/Revolución n.º 367, 29 de Dezembro de 2014, disponível em revcom.us. Ver também “Burn Down the Cane Fields! Notes on the Political Economy of Cuba” [“Queimar os Campos de Cana! Notas Sobre a Economia Política de Cuba”], revista A World to Win n.os 14 e 15, disponíveis em http://bannedthought.net/International/RIM/AWTW/1989-14/AWTW-14-Cuba.pdf e http://www.bannedthought.net/International/RIM/AWTW/1990-15/AWTW-1990-15-Cuba.pdf ou em http://www.librarything.com/work/14333556.

Adicionalmente, apesar das suas falhas teóricas, o clássico As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, que morreu a 13 de Abril de 2015, continua a ser uma denúncia preciosa, altamente perspicaz e poética dessa pilhagem do continente sob o colonialismo e o imperialismo. (Dinossauro Edições, Lisboa, 1998).