Cairo: Destruindo mais um tijolo do muro

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 12 de Setembro de 2011, aworldtowinns.co.uk

A 9 de Setembro, milhares de jovens atacaram a embaixada israelita no Cairo. Ao ritmo de tambores e de cantos entusiásticos, usaram um poste de iluminação para fazerem um buraco no muro de cimento e metal à volta do edifício. Várias dezenas de jovens conseguiram entrar no complexo, de onde retiraram a bandeira israelita e substituíram-na por bandeiras do Egipto e da Palestina, e começaram a atirar documentos diplomáticos hebreus à multidão lá fora.

O regime tinha colocado as estruturas de protecção depois de um outro protesto anti-israelita algumas semanas antes, devido à morte de seis guardas fronteiriços egípcios por soldados israelitas. Desta vez, os jovens fizeram o que o governo egípcio não tinha feito da vez anterior, apesar das suas promessas – expulsando de facto o embaixador israelita, que fugiu juntamente com mais de 80 outros membros do pessoal diplomático, evacuados por jactos militares israelitas que atravessaram ruidosamente os céus do Cairo.

Ao princípio dessa tarde, dezenas de milhares de manifestantes tinham-se concentrado na Praça Tahrir a seguir às orações de sexta-feira, na primeira grande acção desse tipo num mês, e foi rotulada de protesto para “Corrigir o caminho da revolução”. Os organizadores representavam uma vasta coligação de grupos que se auto-intitulam laicos e revolucionários. Essa concentração teve a oposição da maioria dos grandes partidos políticos, os quais têm alegado que agora o objectivo deveria ser a obtenção de um consenso nacional em vez do envolvimento em protestos disruptivos. Na sequência desta reviravolta de muitas forças durante os últimos meses, a continuação da ocupação da Praça Tahrir foi enfraquecendo e foi violentamente dispersa pelas forças de segurança no início de Agosto. As manifestações semanais na Praça Tahrir foram suspensas durante o Ramadão. Os militares e os seus aliados pareciam ter retirado a iniciativa aos jovens indignados que haviam definido as condições da revolta de Janeiro que derrubou Mubarak.

Mas esta aparente estabilidade foi desafiada a meio de Agosto quando os soldados israelitas dispararam sobre guardas fronteiriços egípcios em circunstâncias que nenhum dos governos achou estar em condições de clarificar completamente. Tinha havido um ataque na cidade israelita de Eilat, no Mar Vermelho, de que resultou a morte de seis civis e dois soldados israelitas. Israel respondeu bombardeando Gaza, que se situa longe do lado mediterrâneo da península, e matou no lado egípcio da fronteira. Talvez tenha confundido os guardas com os atacantes, uma alegação que as autoridades israelitas fizeram inicialmente e que depois abandonaram. Talvez fosse uma manifestação de força ou um aviso ao governo egípcio de que este teria de pagar qualquer fracasso na protecção da segurança israelita. A inesperada recusa de Telavive em se desculpar parece ter sido uma violenta lembrança aos militares egípcios de que era melhor não esquecerem porque é que os EUA os tinham financiado e nutrido assim tão perdulariamente durante três décadas – para defenderem os interesses norte-americanos, o que inclui a protecção de Israel.

Isso criou uma situação muito difícil ao Conselho Supremo das Forças Armadas, a quem Mubarak entregou o poder quando se demitiu a 11 de Fevereiro. A questão de enfrentar Israel tem representado muitas vezes um papel crítico na política egípcia.

A agitação nacionalista que teve início no final dos anos 40 apontou como responsável o Rei Farouk, um fantoche dos britânicos, quando as forças armadas israelitas derrotaram facilmente os militares egípcios na guerra de 1948. O Movimento de Oficiais Livres que derrubou o rei e levou Gamal Nasser ao poder em 1952 teve as suas raízes nessa altura. Certamente que o prestígio obtido quando o Egipto (com o apoio dos EUA nos bastidores) rechaçou o ataque combinado de Israel, da Grã-Bretanha e da França em 1956 a seguir à nacionalização do Canal do Suez por Nasser foi um factor imensamente importante que permitiu aos militares egípcios alegarem que representavam toda a nação. Por sua vez, a vergonhosa derrota do Egipto na guerra de 1967 marcou o declínio da capacidade de Nasser para mobilizar o povo egípcio.

O relativo sucesso do Egipto ao recuperar os seus territórios ocupados por Israel na guerra de 1973 deu ao sucessor de Nasser, Anwar Sadat, a reputação nacionalista que ele usou para participar nas negociações com Israel e das quais resultou a assinatura de um tratado de paz – e essa guerra também mostrou que os EUA estavam a reafirmar integralmente o seu domínio quando Washington avisou que não vacilaria em usar toda a sua força, incluindo armas nucleares, para impedir uma derrota final de Israel. Sadat que tinha lançado as forças fundamentalistas islâmicas contra os comunistas e outras correntes, foi ele próprio morto por islamitas por ter capitulado perante Israel.

Apesar de o seu sucessor como chefe do regime militar, Hosni Mubarak, ter ido ainda mais longe na colaboração com Israel contra o povo palestiniano (por exemplo, ajudando Israel a bloquear Gaza), também ele se apresentou como herói militar das guerras contra Israel – e que é hoje o principal argumento usado pelos seus apoiantes para que ele não seja punido. De facto, o regime militar e o papel central do exército egípcio na vida económica e política e o domínio autocrático e a repressão violenta por parte desses generais, tudo isto foi justificado como sendo necessário para resistir a Israel. A alegação de Mubarak, de que o tratado de paz foi necessário para que os egípcios pudessem defender os seus próprios interesses, teve algum eco mas, sobretudo agora, muitos egípcios vêem uma ligação entre a subserviência dele aos EUA e ao seu posto avançado israelita e tudo o que o povo egípcio sofreu sob o regime dele.

O novo regime militar liderado pelo Marechal de Campo (chefe do exército) de Mubarak, Hussein Tantawi (também apresentado como herói das guerras contra Israel), está inteiramente consciente de que sectores críticos do povo prefeririam morrer a aceitar um Egipto como o que se tornou com Mubarak. A forma como lidaram com a morte dos guardas fronteiriços é um bom exemplo de como eles esperavam vir a lidar com a contradição entre um sector crítico das aspirações do povo à mudança e o facto de a junta representar a continuidade do antigo regime e sobretudo das classes dominantes.

Inicialmente, os porta-vozes do regime anunciaram que iriam expulsar o embaixador israelita se os sionistas não pedissem desculpa, mas depois ficaram em silêncio quando Israel disse as suas mentiras. Provavelmente, isso aconteceu porque Israel vê qualquer concessão ao orgulho nacional egípcio como perigosa, não porque tema o regime egípcio mas porque tem medo que essas concessões, mesmo que desesperadamente necessárias para a legitimidade do regime, possam incentivar os egípcios comuns a pressionar ainda mais os militares.

Quando a 18 de Agosto, durante a manifestação no Cairo contra Israel, um jovem conseguiu entrar no complexo diplomático, destruiu a bandeira israelita e substituiu-a pelas egípcia e palestiniana, o “Homem da Bandeira”, como milhões de pessoas o chamaram com admiração, tornou se um herói nacional. O regime tentou co-optar o acto dele, oferecendo-lhe um apartamento e um emprego mas, ao mesmo tempo, construiu um muro de protecção à volta da embaixada e avisou que não seriam permitidas mais desordens.

Uma das principais reivindicações da manifestação de 9 de Setembro era que os militares acabassem com o estado de emergência em vigor há três décadas e que lhes permite proibir manifestações e prender pessoas sem acusação ou julgá-las em tribunais militares. Desde a queda de Mubarak que o novo regime tem prendido e encarcerado pessoas a uma escala não vista desde os anos de Mubarak – quase 12000 acções judiciais desde Fevereiro. Além disso, embora a sua extensão não seja clara, houve claramente slogans a denunciar Tantawi como fantoche norte-americano por o regime dele ter sido forçado a aceitar a humilhação israelita. Também há relatos de ter sido ouvido o slogan “O povo quer uma nova revolução”.

Contudo, parece que os militares não estavam desejosos de enfrentar os manifestantes numa altura em que estes eram tão numerosos, um padrão que tem sido repetidamente visto durante os últimos meses. Depois da concentração na Praça Tahrir, uma parte da multidão dirigiu-se ao bairro de Giza, a poucos quilómetros. Os apoiantes de uma equipa de futebol cujos membros têm sido vitimas da polícia representaram um papel vocal. Entre os grupos presentes na marcha que se separou não estava, segundo um porta-voz, o muito visível Movimento de Jovens “pró-democracia” 6 de Abril, que se lhe opôs. Entre as outras organizações que depois viriam a denunciar o ataque à embaixada estavam o Partido Pan-Árabe Karama e o Partido Liberdade e Justiça formado pela Irmandade Muçulmana com objectivos eleitorais. Um conhecido pregador salafista disse que era correcto derrubar o muro mas errado atacar a embaixada.

Vários comentadores ocidentais, sobretudo na comunicação social israelita, desavergonhadamente nostálgicos do homem mais odiado do Egipto, alegaram que nessa noite o regime parecia estar a evitar um confronto. Mubarak, disseram eles, não teria vacilado em fazer com que os seus tanques abrissem fogo de imediato. Pode ser que haja alguma verdade nisto, mas porquê? Não porque os generais de hoje estejam mais preocupados com o bem-estar do povo ou mais nacionalistas. Matar manifestantes para proteger os interesses israelitas é exactamente o que o regime não quer fazer numa altura em que luta pela legitimidade. E muitos egípcios são eles próprios diferentes agora do que eram sob Mubarak – eles agora acreditam que é possível uma verdadeira mudança e estão dispostos a arriscar as suas vidas por isso. Não é claro o que poderia ter parado os milhares de rapazes (e algumas mulheres) que avançaram pelo Bairro de Giza.

Como disse uma activista no seu Twitter; “Hoje derrubámos um muro israelita de separação!” Ao compararem esse muro ao que os sionistas ergueram para encarcerar os palestinianos da Cisjordânia, muitas pessoas parecem estar a exprimir a forma como vêem a ligação entre o domínio norte-americano do Médio Oriente, a centralidade de Israel nesse domínio e a forma como sentem que elas próprias e todo o Egipto têm sido mantidos encarcerados por essa situação. A multidão estava eufórica quando os primeiros manifestantes arrombaram o complexo. Depois vieram os acontecimentos que sublinharam a verdade do que os manifestantes estavam exactamente a denunciar.

Houve artigos na imprensa israelita a dizer que altos responsáveis egípcios evitaram atender os telefonemas dos seus congéneres sionistas. O Primeiro-Ministro israelita Benjamim Netanyahu, que estava a seguir a situação em tempo real, ligou ao Presidente norte-americano Barack Obama. Ao descrever a conversa, Netanyahu disse: “Pedi a ajuda dele. Tratava-se de um momento decisivo e fatal. Ele disse: ‘Farei tudo o que puder’. E assim fez. Ele usou todos os consideráveis meios e influência dos Estados Unidos para nos ajudar. Devemos-lhe uma dívida especial de gratidão.”

Como salientou um outro blogger egípcio, é uma ironia suprema que Obama, que nunca disse uma palavra quando Israel afrontou o direito internacional ao atacar o navio turco de ajuda que rumava a Gaza e matou nove passageiros e que permaneceu calado quando Israel bombardeou e atacou ilegalmente Gaza em 2008-09, sentiu ser necessário advertir o Egipto de que as suas obrigações face aos tratados internacionais requerem que proteja a embaixada israelita. Segundo o jornal israelita Haaretz, os altos responsáveis norte-americanos que entraram em contacto com os seus colegas egípcios advertiram das “consequências” de o ataque à embaixada não ser parado.

Durante a noite, o regime egípcio mobilizou tanques, carros blindados e soldados para reforçar a polícia. O ataque à embaixada transformou-se numa batalha entre os jovens e a polícia. Houve pelo menos três manifestantes mortos e mais de mil feridos na luta entre os jovens que atiravam pedras e incendiavam veículos e as forças de segurança que usaram gás lacrimogéneo, atacaram e tentaram atropelá-los. Os manifestantes ameaçaram a vizinha embaixada da Arábia Saudita e gritaram “Arábia Saudita e Mubarak são uma mão!” Também pintaram as paredes da uma sede das forças de segurança.

Entretanto, também decorriam manifestações em Luxor e noutras cidades do Alto Egipto.

De manhã, os comandos egípcios conseguiram libertar o pouco pessoal da embaixada israelita que tinha sido deixado para trás num quarto blindado. A polícia prendeu dezenas de pessoas ao longo da noite e muitas mais durante o dia seguinte – cerca de 130 até agora. Invadiu os escritórios da Al-Jazeera e encerrou o seu serviço noticioso egípcio que muitas vezes mostra imagens dos protestos. Carros blindados e de transporte de tropas encheram a praça à volta da embaixada. Acima de tudo, em vez de acabarem com o estado de emergência como os manifestantes exigiam e como os generais haviam prometido, a junta anunciou que iria reavivar os poderes da lei que proíbe as manifestações e julgar civis em tribunais militares a uma escala ainda maior. Os que foram presos por terem protestado contra a lei marcial serão julgados ao abrigo da lei marcial.

Apesar disto, no dia seguinte um blogger escreveu: “Esta é a primeira vez que não estou deprimido desde o referendo” (de Fevereiro, quando o regime e a Irmandade Muçulmana se associaram para conseguir uma elevada percentagem de participação popular num exercício eleitoral cujo mensagem subliminar foi que a política de rua tinha chegado ao fim e que o futuro do país seria decidido pelas eleições agendadas para Novembro). Ainda está para se ver por quanto tempo a iniciativa que os jovens recuperaram irá permanecer nas mãos deles. Certamente que o contra-ataque do regime é muito grave. Mas os militares foram obrigados a fazer exactamente o que têm tentado evitar fazer: revelar um pouco da sua capitulação crucial, desejando-o ou não, aos interesses norte-americanos e israelitas, mesmo contra os seus próprios interesses de curto prazo e a sua determinação em porem um fim violento ao próprio processo de revolta popular que alegam representar. Estes não são factores favoráveis ao regime.