Barack Obama e Winston Churchill

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 25 de abril de 2016, aworldtowinns.co.uk

Durante uma escala em Londres, o presidente norte-americano Barack Obama encorajou os votantes no próximo referendo a aprovarem a continuação da Grã-Bretanha na União Europeia e a evitarem o que é amplamente conhecido como Brexit (Britain Exit, a saída da Grã-Bretanha). O presidente da câmara de Londres, Boris Johnson, favorável ao Brexit, gerou uma grande controvérsia com um artigo em que alegava que Obama teria retirado do gabinete dele uma estátua de Winston Churchill como crítica ao primeiro-ministro britânico do tempo da II Guerra Mundial, considerado uma das pessoas mais importantes da história britânica. Johnson chamou a isso um “símbolo da ancestral antipatia do Presidente meio-queniano pelo império britânico”. (thesun.co.uk, 22 de abril de 2016)

O secretário de imprensa de Obama respondeu que é habitual restituir bens doados a anteriores presidentes, e que outro busto de Churchill desfruta de um lugar proeminente na Casa Branca. Obama disse que mantém esse busto de Churchill num sítio onde o pode ver diariamente. “Está lá voluntariamente. [...] Eu amo Winston Churchill. Eu amo o sujeito.”

Que há para amar em Winston Churchill? As mãos dele foram desavergonhadamente encharcadas no sangue de literalmente milhões de pessoas em África e na Ásia, e ele defendeu essas mortes argumentando que os nativos de pele escura do mundo tinham beneficiado do domínio do homem branco superior. Apesar disso, as pessoas estão sujeitas a uma lavagem cerebral tão grande que as sondagens na Grã-Bretanha elogiam Winston Churchill como grande estadista, talvez o maior de sempre.

Quando era jovem, ele partiu para África para participar em “muitas pequenas guerras joviais contra povos bárbaros”. Quando ele descobriu que as populações locais resistiam às tropas e aos colonos britânicos que ocupavam as suas terras, ele estigmatizou a resistência delas como sendo “uma forte propensão aborígene para matar” e exigiu que elas fossem esmagadas. Ele defendeu os campos de concentração britânicos na África do Sul, onde morreram 28 mil bóeres (imigrantes holandeses), e os campos segregados para onde foram levados 150 mil africanos negros e onde 14 mil deles morreram. Como Secretário Colonial nos anos 1920, ele lançou rufiões negros e morenos (as Forças Especiais da altura) para esmagar a insurreição irlandesa contra o domínio britânico. Quando os curdos se revoltaram contra a dominação britânica nos anos 1940, ele declarou-se “fortemente a favor de usar gases venenosos contra as tribos selvagens”.

Churchill acreditava que as férteis terras altas do Quénia deveriam pertencer aos colonos brancos e que as populações indígenas deveriam ser afastadas. Quando o povo kikuyu lutou contra isso, no que foi conhecido como a revolta Mau Mau, cerca de 150 mil pessoas foram forçadas a ir para campos de detenção. No livro Imperial Reckoning: The Untold Story of Britain's Gulag [Relatório Imperial: A História Não Contada do Gulag Britânico], baseado em cinco anos de investigação, a Professora Caroline Elkins, uma historiadora galardoada com o prémio Pulitzer, descreve os choques elétricos, as chicotadas, os horrendos assassinatos e mutilações, incluindo pessoas queimadas vivas, usados contra os africanos suspeitos de apoiar a insurreição.

Churchill ofereceu a “Terra Prometida” aos judeus e ignorou os palestinos que já viviam no país como sendo “hordas bárbaras que pouco mais comiam que esterco de camelo”. Ele criou a Jordânia e o Iraque, usando fronteiras arbitrárias para dividir e dominar grupos étnicos, bombardeando aldeias inteiras até à submissão e criando o palco para a atual crise. Os bombardeamentos terroristas de civis em 1920 foi uma ante-estreia das táticas usadas pelos norte-americanos e britânicos durante a invasão e ocupação do Iraque contemporâneo.

Em número crescente, as políticas imperiais de Churchill foram demonstradas de uma forma mais brutal na Índia colonial. Na fome de 1943, pelo menos 3 milhões de pessoas sofreram a fome e a morte no Bengala. Tendo plena consciência do que estava a fazer, Churchill recusou-se a enviar provisões alimentares para a região, dizendo que isso era culpa dos próprios indianos por “se reproduzirem como coelhos”.

O livro de Madhusree Mukerjee Churchill's Secret War [A Guerra Secreta de Churchill] descreve vividamente o efeito da fome, a partir de entrevistas com sobreviventes. “Muitos suicídios, mortes de clemência e casos de abandono de crianças ocorreram entre as famílias que já não conseguiam aguentar ver as faces famintas e de olhos abertos dos seus filhos. A prostituição em massa, praticada por mães, esposas ou filhas das aldeias com qualquer pessoa que tivesse cereais, salvou muitas vezes famílias inteiras. Os bordéis para soldados [britânicos e australianos] eram servidos por jovens famintas das zonas rurais. Muitas foram enganadas com promessas de um trabalho verdadeiro e depois forçadas à servidão, muito tal como hoje as mulheres são forçadas à prostituição em todo o mundo.” (Ver o SNUMAG de 11 de abril de 2011.)

Depois da II Guerra Mundial, o império britânico deu lugar à dominação dos EUA, e o imperialismo britânico floresceu como parceiro júnior nesta nova “relação especial” com os EUA. Os dias em que as potências ocidentais desfrutavam de um domínio direto e aberto sobre as colónias podem ter terminado quanto ao essencial, mas o imperialismo enquanto sistema económico e político em que um punhado de países domina e sangra o mundo continua em vigor. Por exemplo: as ocupações militares e as guerras geradas pela necessidade de proteger os interesses dos EUA, da Grã-Bretanha e de outros países ocidentais no Médio Oriente, e as “fábricas de suor” no Bangladesh e na China sem as quais não haveria nenhum centro comercial no Ocidente, não são menos devastadoras que os horrores enfrentados por povos colonizados diretamente que antes constituíram a maioria da população do mundo.

O próprio avô kikuyu de Obama foi encarcerado sob o reinado de Churchill. Mas Churchill é o modelo de Obama, tal como o é para a maioria dos líderes e candidatos a líderes das potências imperialistas. Quando Obama diz “Eu amo o sujeito”, ele está a falar como comandante supremo e diretor-geral do império norte-americano e, tal como Churchill, ele está preparado para fazer tudo o que puder para defender esse império.