Assassinado líder comunista do Bangladesh

Camarada Mizanur Rahman Tutul

A polícia do Bangladesh assassinou o camarada Mizanur Rahman Tutul, dirigente do Partido Comunista de Purba Banglar (Marxista-Leninista) Bandeira Vermelha [PCPB(ML)BV].

Segundo a versão policial, a morte ocorreu num “fogo cruzado” entre a polícia e um grupo de comunistas, na madrugada de 27 de Julho, em Naogaon. A descrição da polícia indicava que cerca de 80 agentes vindos de Atrai, Raninagar e Sadar teriam cercado o campo de Kaligram Eidgah, por volta das 4 horas da madrugada, depois de terem recebido a denuncia de uma reunião secreta de 50 a 60 membros armados do partido. O superintendente adjunto da polícia de Naogaon, Aminul Islam, e o oficial que comandou a operação alegaram que os camaradas, ao se aperceberam da sua presença, abriram fogo sobre a polícia, que respondeu disparando mais de 100 tiros. Estranhamente, e apesar do cerco policial, todos os camaradas conseguiram escapar, deixando para trás apenas um camarada baleado, que seria mais tarde identificado como sendo o camarada Tutul e que foi levado para o Complexo de Saúde de Raninagar, onde os médicos o declararam morto. A polícia teria ainda aprendido 2 armas de fabrico local, 17 balas, 7 cartuchos, um cartucho de espingarda, 2 facas, 2 machetes e várias armas afiadas.

No entanto, outros dados apontam para uma realidade completamente diferente. Segundo um jornal nacional do Bangladesh (Jugantor), numa notícia divulgada no dia 26 de Julho, elementos do Batalhão de Acção Rápida (BAR) tinham prendido Tutul, embora o BAR não tenha confirmado essa prisão. Na noite desse mesmo dia, e apenas algumas horas antes de Tutul ter sido encontrado morto, a sua mãe, Novera Khatun, de 80 anos de idade, também tinha dito aos jornalistas presentes no Clube de Imprensa de Jhenidah que membros do BAR tinham prendido Tutul na capital na véspera à noite.

Novera Khatun,
mãe do camarada Tutul


Nessa conferência de imprensa, Novera Khatun apelou ao governo que poupasse a vida do seu filho, dizendo que caso ele tivesse cometido algum crime, então que fosse julgado num tribunal, em vez de ser assassinado num suposto “fogo cruzado”. Algumas horas antes, nessa mesma tarde, a mãe de Tutul tinha ido ao escritório do comissário adjunto de Jhenidah para entregar o seu apelo ao governo, mas, como o escritório já estava fechado, dirigiu-se imediatamente ao clube de imprensa para fazer o seu apelo através da imprensa.

O assassinato – prática comum da polícia do Bangladesh

O assassinato de centenas de comunistas e revolucionários e o seu encobrimento como sendo incidentes de “fogo cruzado” tem sido uma prática comum e impune da polícia e de outros bandos armados do Bangladesh, ao serviço da classe dominante (ver SNUMAG de 24 de Janeiro de 2005).

No mesmo dia, num incidente distinto ocorrido em Natore, um outro membro do partido foi assassinado de forma semelhante. Ansar Ali foi detido a 24 de Julho, na zona de Bamihal, acusado da morte de um polícia em Bamihal e do roubo de armas. Segundo um correspondente em Natore, Ansar Ali teria morrido mais tarde num tiroteio entre a polícia e outros camaradas seus na aldeia de Kankian em Singraupazila, ao início do dia de 27 de Julho. Segundo a polícia, teria sido levado a esse local à procura de outros camaradas seus, mas teriam sido recebidos a tiro por estes. Durante o tiroteio, Ansar teria tentado fugir, tendo sido atingido e morrido no local.

A reacção de um grupo de direitos humanos

A organização de direitos humanos Odhikar, do Bangladesh, exigiu entretanto uma investigação judicial independente sobre a morte do camarada Tutul. Exprimindo preocupação pela morte de Tutul, a Odhikar declarou: “Aparentemente, a vítima não estava envolvida em qualquer forma violenta de propagação das suas crenças políticas... Se esta tendência continua, todos os que têm pontos de vista ‘diferentes’ podem estar agora em risco de serem alvo [de assassinato]”.

Imagem divulgada na imprensa do Bangladesh do corpo assassinado do camarada Tutul

O grupo de direitos humanos disse que, desde 11 de Janeiro de 2007, já morreram 197 pessoas nos chamados “fogos cruzados”, “tiroteios”, “trocas de tiros” ou “encontros” com o BAR, com a polícia e com outros agentes da lei, ao abrigo do estado de emergência.

Diz o comunicado à imprensa da Odhikar: “As mortes extrajudiciais são a pior forma de violação dos direitos humanos... A vida de uma pessoa não pode ser tirada sem que haja o devido processo legal que é a base de uma sociedade civilizada. A continuação das mortes extrajudiciais está a corroer a base da política do Bangladesh”, .

O camarada Tutul e o movimento comunista no Bangladesh

O camarada Tutul nasceu em 1959, tendo completado a escola secundária em Kotchandpur em 1977 e o curso de medicina (MBBS) na Faculdade de Medicina de Rajshahi (RMC) em 1985. Exerceu depois medicina em Sabaihat de Manda (Naogaon) e na cidade de Rajshahi durante um ano, em simultâneo com o seu trabalho no Hospital da RMC. Tutul dedicou toda a sua vida a fornecer cuidados médicos aos desprivilegiados.

Foi membro da Chhatra Moitree (organização estudantil do Partido dos Trabalhadores), tendo-se envolvido nas actividades do PCPB durante os anos em que esteve na RMC, depois de ter conhecido o líder do PCPB Mofakkhar Chowdhury, que também viria a ser assassinado num “fogo cruzado” em Dezembro de 2004 (ver SNUMAG de 24 de Janeiro de 2005). Entrou para a clandestinidade em 1986, tendo-se tornado militante do PCPB a tempo inteiro.

Em 1997, Tutul e outro camarada, Quamrul Islam Mastar, abandonaram o PBCP para formarem uma organização conhecida como PCPB Lal Pataka [Bandeira Vermelha]. A outra organização passou a ser conhecida como PCPB Janojuddho e foi liderada por Mofakkhar até à morte deste. Quamrul Islam Mastar, o outro co-fundador da Lal Pataka, também foi assassinado num “fogo cruzado” em Agosto de 2006. Abdur Rashid Malitha Tapan, que entretanto liderava o PCPB Janojuddho, também foi recentemente assassinado num outro “fogo cruzado”.

A morte do camarada Tutul representa um duro golpe no movimento comunista clandestino no Bangladesh.

(Ver também o SNUMAG de 4 de Agosto de 2008.)

3 Agosto 2008