Ataques aéreos norte-americanos na Síria: Hipocrisia e assassinato

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 7 de abril de 2017, aworldtowinns.co.uk

O ataque com mísseis de cruzeiro ordenado pelo Presidente norte-americano Trump a uma base aérea síria só pode aumentar os horrores que são infligidos ao povo sírio por múltiplos inimigos rivais. Faz parte de um incrementar da intervenção liderada pelos EUA na Síria e no Iraque que já matou cerca de 3000 civis, segundo a Airwars.org. Além disso, ameaça guerras mais vastas na região e no mundo inteiro.

Embora Trump tenha alegado ter sido motivado pela visão de fotos de crianças a sufocar e a morrer, supostamente devido a armas químicas usadas pelo regime sírio de Bashar al-Assad, o ataque norte-americano surge na sequência de outros ataques aéreos norte-americanos que mataram muitas centenas de adultos e crianças no Iraque e na Síria, não com armas químicas mas com mísseis Hellfire de alta explosividade e com bombas gigantescas. Em março, a coligação encabeçada pelos EUA bombardeou uma mesquita, uma escola e uma padaria na Síria e de seguida arrasou edifícios de apartamentos em Mossul ocidental, no Iraque, matando cerca de 230 pessoas só nesse ataque. É muito claro que Washington quer derrotar o Daesh (ISIS) não para fazer nada de bom para os povos do Iraque e da Síria, que têm sido as principais vítimas do fundamentalismo islâmico, mas para impor a sua própria dominação e vencer outros rivais. O mesmo se aplica ao ataque norte-americano à base aérea de Shayrat, na Síria. Não teve nada a ver com proteger as pessoas na Síria e teve tudo a ver com os interesses estratégicos dos EUA na região e no globo.

Se se quiser saber qual o tipo de regime a que os EUA dariam as boas-vindas na Síria, veja-se o Egito. Nada ilustra melhor o que a dominação norte-americana significa nesta região que o encontro de Trump com o homem forte do Egito, Abdel Fattah el-Sisi, alguns dias antes deste ataque. Trump disse a Sisi que este estava a fazer um “trabalho fantástico numa situação muito difícil” e declarou publicamente: “Você tem um grande amigo e aliado nos Estados Unidos e em mim”. O regime de Sisi começou com um golpe militar em 2013. O seu ato de abertura foi o massacre de mais de 800 apoiantes da Irmandade Muçulmana que se manifestavam contra o derrube do seu governo eleito. Depois de atacarem um acampamento de protesto, as tropas deslocaram-se a um hospital, exterminando sistematicamente os doentes e o pessoal médico. Desde então, as prisões do Egito têm sido enchidas com cerca de 60 mil presos políticos, incluindo não só islamitas mas também membros das organizações de jovens laicos que em 2011 lideraram a insurreição da Praça Tahir e de dissidentes de todos os tipos. Sisi preside agora a um país onde os jovens são chamados “a geração da prisão”. A principal diferença entre Sisi e Assad é que Sisi está no bolso dos EUA e Assad não.

É difícil imaginar uma coisa mais hipócrita que a alegação de Trump de que teria sofrido uma “mudança de coração” em relação ao regime de Assad devido ao sofrimento das crianças sírias. Os “corações” de Trump e das potências imperialistas que ele encabeça batem com o sangue de centenas de milhões das suas vítimas. Das bombas nucleares que assassinaram centenas de milhares de pessoas em Hiroxima e Nagasáqui no final da II Guerra Mundial ao bombardeamento arrasador do Vietname, do Laos e do Camboja, ao extenso aspergir do venenoso Agente Laranja durante a guerra norte-americana para dominar o Sudeste Asiático, ao uso de bombas de urânio empobrecido na invasão e ocupação do Iraque e à utilização de armas de destruição em massa contra civis, tudo isto tem sido uma marca da guerra norte-americana.

Os EUA não levantaram nenhuma objeção quando o regime de Saddam Hussein no Iraque – quando então consideravam Saddam um aliado – usou gás venenoso para causar cerca de 100 mil vítimas durante a guerra Irão-Iraque. Os EUA capacitaram ambos os lados e, juntamente com a Alemanha, a Grã-Bretanha e a França, forneceram conscientemente as substâncias químicas. Os EUA chegaram a bloquear a atuação da ONU contra Saddam depois de as forças dele terem gaseado a cidade curda iraquiana de Hallabja, matando entre 5000 e 8000 pessoas, entre as quais uma proporção muito elevada de mulheres, crianças e velhos.

Além disso, tal como muitas pessoas têm salientado, um homem e um regime que ordenaram que não seja aceite nem um único refugiado criado pela guerra que os EUA têm alimentado na Síria, mantendo afastadas até mesmo as crianças que tinham agendados procedimentos médicos que lhes poderiam salvar a vida, não pode alegar estar a agir em nome das crianças sírias e de outras vítimas. O mesmo se pode dizer da primeira-ministra britânica Theresa May que alegou estar “horrorizada” com o “barbarismo do regime sírio”, quando ela própria esteve muito tempo na vanguarda das políticas da União Europeia que equivalem a deixar deliberadamente que os sírios e outros refugiados se afoguem quando fogem atravessando o Mediterrâneo. May acabou com o programa governamental britânico de aceitação de crianças refugiadas vindas do Médio Oriente, o qual foi originalmente criado para alojar 3500 crianças – em si mesmo um número ignóbil – depois de ter aceitado apenas 350, com base em que não havia “mais espaço”.

Esta manifestação do poder assassino dos EUA teve a intenção de sinalizar que não pretende deixar os árabes, iranianos, curdos ou quaisquer outros a não ser os EUA a governar a região. Também foi uma ameaça à Coreia do Norte e a outros países. Neste momento é difícil prever a próxima ação de Trump, ou como as consequências desta se irão desenvolver, internacionalmente e no interior dos EUA. Mas alguns daqueles que já têm a certeza de que isto foi uma ação norte-americana de “uma só vez” andavam – até hoje – a defender que Trump é só vento. Ele tem dito repetidamente em relação às armas nucleares: “Eu não quero afastar nenhuma possibilidade”. A gravidade desta situação não deve ser menosprezada.