Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 27 de Outubro de 2003, aworldtowinns.co.uk

Assassinos: O exército dos EUA – do Vietname ao Iraque

Assassinatos é o que as forças armadas dos EUA fazem. Fizeram-no no Vietname e estão a fazê-lo no Iraque.

Poucos artigos recentes na imprensa mundial têm sido mais chocantes que uma recente série de artigos do jornal diário dos EUA Toledo Blade (ver toledoblade.com). Descrevem em detalhe uma mortal campanha de sete meses da Força Tigre (Tiger Force), uma unidade de elite de 45 soldados dos EUA, todos voluntários, à medida que se deslocavam pelas Montanhas Centrais do Vietname. O jornal concluiu que “pelo menos 81 civis e prisioneiros foram fatalmente atingidos por disparos ou apunhalados entre Maio e Novembro de 1967, de acordo com arquivos classificados do Exército. Mas, com base em mais de 100 entrevistas feitas pelo Blade a ex-soldados da Força Tigre e a civis, calcula-se que o pelotão tenha matado centenas de aldeões desarmados...”

Entre os incidentes agora recordados pelos soldados (uns arrependidos, outros não) e pelos sobreviventes vietnamitas contam-se:

Um menino de 12 anos apanhado e levado pelas tropas dos EUA, que nunca mais foi visto. Um jovem de 15 anos morto porque um soldado queria as suas sapatilhas. Um velho atingido por um tiro na cabeça porque um soldado quis testar a sua nova arma. Uma agressão a um grupo de velhos camponeses que trabalhavam os seus campos em Dao Hue, resultando em quatro mortos e outros feridos. “Sabíamos de antemão que os camponeses não estavam armados”, contou um GI ao Blade, “mas mesmo assim disparámos”.

Dois homens parcialmente cegos encontrados a vaguear num vale foram presos e executados. Soldados que lançaram granadas para dentro de um bunker, depois de terem visto mulheres e crianças a rastejar para ele, para se abrigarem deles. Os soldados ignoraram toda a noite os pedidos e os gemidos dos feridos até estarem todos mortos.

Prisioneiros torturados e executados, as suas orelhas cortadas como recordação, os seus dentes arrancados da sua boca por causa dos dentes de ouro. Um soldado rasgou a garganta de um prisioneiro com uma faca de caça, escalpou-o e pendurou o escalpe na ponta da sua espingarda. Um prisioneiro obrigado a escavar um bunker, foi depois espancado com a sua pá e morto a tiro. Um monge budista que protestou contra esses actos foi espancado até à morte.

Quando o Exército interrogou os soldados da Força Tigre há algumas décadas atrás, 27 deles disseram: “O corte de orelhas era uma prática aceite.” Membros do pelotão usavam colares de orelhas em atacadores de sapato à volta do seu pescoço. “Houve um período em que quase toda a gente tinha um colar de orelhas”, recordou recentemente um médico.

O médico contou que 120 aldeões foram mortos num só mês. “Entrávamos nas aldeias e simplesmente matávamos toda a gente. Não precisávamos de nenhuma desculpa. Se estivessem lá, eram mortos.”

O pelotão fazia parte do 327º batalhão, por isso estabeleceu um objectivo de 327 “mortos”. Informou que tinha definido essa quota. Receberam medalhas por essas acções, tornando-se numa das unidades mais condecoradas das forças armadas dos EUA durante a guerra do Vietname. Os soldados mais cruéis foram os que obtiveram mais medalhas.

A certa altura, o Blade chama a estes homens “os soldados velhacos”, como se eles estivessem a agir por conta própria e contrariando ordens, mas, a crédito da reportagem, documenta uma realidade que é exactamente a oposta: eles estavam a fazer exactamente o que era suposto fazerem. Aos soldados da unidade que protestaram foi-lhes dito que se calassem. Os oficiais asseguravam que toda a gente tinha sangue nas suas mãos, de modo a que ninguém pudesse contar a outros, e o médico disse que não havia nenhuma maneira de alguém poder deixar vivo a unidade, a não ser que tivesse sido ferido em batalha. Esses oficiais, por sua vez, estavam em frequente contacto rádio com os seus superiores no quartel-general que pediam cada vez mais assassinatos.

A responsabilidade vai por aí acima, até ao topo. O Exército fez uma investigação quatro anos depois e decidiu não acusar ninguém. Em 1975, o caso chegou ao Pentágono e à Casa Branca, que decidiram ignorá-lo e selar os arquivos. Depois da série do Blade ter sido publicada, o exército dos EUA continuou a dizer que não faria nada, embora um julgamento a esta distância fosse legalmente possível e haja precedentes.

De facto, o principal efeito da investigação do Exército nos anos 70 parece ter sido silenciar os envolvidos.

Nessa altura, o governo dos EUA procurava esvaziar de camponeses vastas áreas do interior do Vietname, para que os vietnamitas que lutavam contra a ocupação norte-americana não tivessem ninguém em quem confiar e nenhum arroz para comer. Antes de a Força Tigre entrar na região, aviões militares dos EUA despejaram desfolhante para exterminar toda a vida vegetal e privar os guerrilheiros de uma cobertura natural. Os norte-americanos despejaram pelo ar folhetos que ordenavam aos camponeses que se mudassem para o que o Pentágono chamava centros de recolocação ou “aldeias estratégicas” [NT: semelhantes às “aldeias” controladas que a administração colonial portuguesa utilizou em África para combater os movimentos de libertação], onde seriam mantidos sob guarda para terem a certeza que não ajudariam os combatentes anti-invasão.

A missão da Força Tigre era aterrorizar os camponeses a passar para os acampamentos controlados pelos EUA. A violência aleatória e até a exibição pública de carne humana mutilada tinha um propósito político estratégico: aterrorizar as pessoas, afastá-las dos combatentes revolucionários e conseguir que obedecessem às ordens dos EUA.

Façamos um avanço rápido até os dias de hoje, passando pelas invasões norte-americanas de Granada, do Panamá, do Sudão, da primeira Guerra do Golfo e do Afeganistão, até ao Iraque de hoje.

No que foi quase um eco da série do Blade da mesma semana, a Human Rights Watch publicou um relatório em que expõe o assassinato de civis pelo exército dos EUA no Iraque. Baseado em investigações no local e entrevistas a familiares das vítimas, a testemunhas e a funcionários, essa organização de direitos humanos compilou uma lista de 94 civis mortos por soldados norte-americanos em Bagdad de 1 de Maio a 30 de Setembro de 2003 em “circunstâncias questionáveis”, de acordo com “relatos credíveis”. A ONG diz que os seus investigadores “confirmaram” esses relatos em 20 casos.

Esses homens, mulheres e crianças desarmados foram atingidos a tiro ou assassinados de alguma outra maneira, sobretudo em três tipos de incidentes: invasões militares de casas; soldados norte-americanos que dispararam selvaticamente em mercados, em ruas apinhadas de gente e por aí adiante; e pessoas mortas nos seus carros em bloqueios de estrada.

Há 19 “casos de estudo”. Por exemplo: sem aviso, soldados dos EUA montaram um posto de controlo numa rua escura. Um carro, com três adolescentes com música alta e que aparentemente não repararam no posto de controlo, não parou. O motorista foi morto. Os soldados também abriram fogo contra o carro atrás, embora este ainda não tivesse chegado ao bloqueio da estrada. A mãe e duas das crianças sobreviveram, tendo morrido o pai e duas outras crianças.

Há muitos, muitos depoimentos de testemunhas oculares de incidentes semelhantes. Com alguns ajustes, eles poderiam ser descrições da actuação da polícia nos guetos e bairros pobres das cidades norte-americanas. O relatório da Human Rights Watch salienta que, no Iraque, “toda a gente de pele escura em roupas civis” é considerada inimigo.

O relatório não reclama ser uma visão completa das atrocidades norte-americanas no Iraque. Documenta apenas alguns incidentes na capital.

O massacre de Falluja, a oeste de Bagdad, onde tropas dos EUA mataram quase 20 civis, não é incluído no relatório porque aconteceu entre 28 e 30 de Abril, antes de Bush declarar que a guerra no Iraque tinha terminado. Falluja fora cenário de uma emboscada bem-sucedida contra um carregamento dos EUA na semana anterior. Os adolescentes dançaram e gritaram de alegria à luz dos veículos em chamas e os condutores fizeram soar as suas buzinas em celebração.

Os guerrilheiros anti-invasão atacaram as tropas norte-americanas seis vezes em seis dias. A 24 de Outubro, as forças da resistência incendiaram uma patrulha e feriram três soldados. Como têm feito desde o princípio, o exército dos EUA retaliou. “Imediatamente após um ataque que danificou um veículo Humvee, as tropas dispararam aleatoriamente enquanto dois helicópteros sobrevoavam”, recordou uma testemunha. O jornal Guardian escreveu: “Após o ataque, as tropas detiveram vários civis iraquianos, incluindo um que foi arrancado do seu veículo e pontapeado repetidamente nos rins, assim que caiu ao chão.”

Talvez aquele homem tenha tido sorte. A 20 de Outubro, 30 soldados dos EUA estavam à procura de bombas num cruzamento de Falluja quando uma armadilha explodiu e matou um deles. Os norte-americanos começaram a disparar cegamente fogo de artilharia ao seu redor e mataram o motorista de um camião. Depois, de acordo com o que a família contou ao correspondente da Associated Press, os soldados entraram intempestivamente numa casa, algemaram o pai, levaram-no para o exterior e depois dispararam, matando-o.

Uma vez mais, estes não são só actos espontâneos de brutalidade. Os que precisam de provas de que o exército e o governo dos EUA desejam que tais coisas aconteçam deveriam pensar nisto: estes crimes são o que toda a gente sabe, não são assassinatos escondidos nem mortes em massa que não deixam nenhuma testemunha. Mesmo assim, em apenas cinco casos as autoridades norte-americanas levaram soldados a julgamento. Em quatro deles, o exército decidiu que os seus soldados estavam a fazer o que era correcto. Em apenas um caso foi decidido um (muito secundário) castigo, não por morte, mas por um piloto de helicóptero ter removido uma bandeira xiita em Bagdad e cometido o que os ocupantes entenderam ser um erro político. Isso foi uma violação de ordens.

O Vietname e o Iraque têm em comum terem sido alvo de invasões totalmente injustas por parte dos EUA. Todos os combates com soldados norte-americanos foram e são por uma má causa. Mais, a natureza dessas guerras significou e continua a significar que matar civis a sangue frio é a assinatura das forças armadas dos EUA.

Se as matanças no Vietname parecem, a esta distância pelo menos, terem sido a uma maior escala, isso é porque a guerra foi a uma maior escala. Apesar do meio milhão de tropas, cujos oficiais tentaram tanto quanto possível igualar à Força Tigre, os EUA falharam completamente em separar o “peixe da água”, os lutadores revolucionários do povo. Quanto mais os EUA se encontravam à beira da derrota às mãos do povo vietnamita, mais desesperados e cruéis se tornavam.

Embora muita gente em todo o mundo possa pensar o contrário, os norte-americanos não nascem com genes de assassinos. O método da classe dominante dos EUA, como de todas as classes reaccionárias, é enviar os jovens em missão de opressão e então, quando os povos resistem a essa opressão, usar as mortes dos soldados, pelas quais esses reaccionários são responsáveis, como um modo de apavorar e incitar os seus soldados a cometer atrocidades.

Um factor que forçou os EUA a terminar a guerra do Vietname foi a rebelião das suas próprias tropas, que resistiram de inúmeras maneiras, desde evitarem batalhas a matar os seus oficiais e a juntarem-se ao movimento de massas contra a guerra. Alguns despertaram para a natureza do sistema imperialista no decurso daquela guerra e puseram-se do lado do povo vietnamita e dos povos do mundo.

Muitos desses ex-soldados marcharam nas manifestações contra a ocupação do Iraque em Washington e noutras cidades dos EUA a 25 de Outubro, juntamente com familiares de soldados actualmente no Iraque. Dos cerca de 1300 soldados desta guerra que até agora voltaram a casa de licença, 27 recusaram voltar para o Iraque.