Arábia Saudita: Os islamitas cortadores de cabeças favoritos do Ocidente

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 4 de janeiro de 2016, aworldtowinns.co.uk

As execuções mais recentes na Arábia Saudita deveriam ter tornado muito claro que a “guerra ao terror” feita pelas potências ocidentais não tem nada a ver com oposição ao corte de cabeças e ao fanatismo religioso sectário. Em vez de condenar este crime, os EUA, a Grã-Bretanha e outras potências ocidentais continuaram a dar ao regime saudita, se não a sua bênção política pública, pelo menos o seu apoio na prática – em nome das necessárias alianças que eles alegam resultar dessa “guerra ao terror”.

Estes crimes fizeram parte dos esforços da pressionada família real saudita para defender o seu regime através da violência de estado e da autoridade religiosa, ambas representadas pela lâmina do carrasco. O mais proeminente dos executados era Nimr al-Nimr, um importante clérigo xiita julgado em segredo e condenado por apoiar o movimento de protesto que em 2011 se espalhou entre a população xiita no leste da Arábia Saudita e no vizinho Barém, e sobretudo entre os jovens influenciados pela Primavera Árabe. Várias pessoas, acusadas de participação em reuniões políticas nessa altura e presas quando ainda eram jovens adolescentes, irão ser executadas a seguir.

A execução de Nimr, juntamente com a de vários outros xiitas, foi uma odiosa resposta aos legítimos protestos contra a discriminação nos empregos, no ensino e noutros campos – prova, se alguma fosse necessária, de que o regime saudita, em vez de se ter afastado do fanatismo religioso com o reinado do Rei Salman e dos príncipes dele, que dura há um ano, está a fazer escalar a utilização de assassinatos com justificações religiosas contra qualquer contestação política.

Ainda mais, foi uma provocação deliberada contra as forças políticas xiitas a nível internacional, e em especial contra o regime iraniano, muito provavelmente na esperança de forçar o clero iraniano no poder – ele próprio notório por execuções em massa – a reagir de forma a complicar os esforços daqueles que, dentro do regime iraniano, procuram fazer acordos com os EUA e daqueles que, na classe dominante norte-americana, acreditam que os interesses dos EUA agora requerem esses acordos.

Também visou acabar com a contestação à legitimidade da Casa de Saud [a casa real saudita – NT], por parte da Al-Qaeda, do Daesh e de outros grupos similares, tanto dentro como fora do reino, e mesmo entre a miríade de membros da família real, assumindo o papel de líder de todos os crentes sunitas com traços de confronto religioso.

As execuções foram um ato selvagem mas não um ato disfuncional – elas serviram objetivos políticos muito claros, os mesmos objetivos que estão por trás da guerra encabeçada pelos sauditas no Iémen e dos esforços sauditas para confrontar o regime de Assad e os seus apoiantes iranianos em termos religiosos e para combater a Xariá do Daesh através da imposição da Xariá saudita. São objetivos que, nalguns aspectos, convergem com a forma de pensar entre as potências ocidentais sobre como moldar o caos no Médio Oriente para vantagem delas.

A diferença em relação ao Daesh não é que o regime saudita é mais “moderado” nem de forma nenhuma menos cruel. A relação da monarquia com os EUA é complexa e potencialmente volátil – os EUA têm jogado em ambos os lados da divisão sunitas/xiitas, incluindo trabalhar com o regime fundamentalista xiita iraniano pontualmente nalguns lugares. Mas a verdade é que os EUA e os seus aliados não teriam conseguido dominar o Médio Oriente sem a aliança deles com a Arábia Saudita, independentemente de quão problemática possa ser essa aliança neste momento para ambos os lados.

Foi por isso que o presidente norte-americano Barack Obama, o primeiro-ministro britânico David Cameron e o presidente francês François Hollande se mantiveram em silêncio perante estas execuções. Inicialmente, mandaram adjuntos falar sobre a atmosfera geral de “tensões sectárias na região”, como se a própria intervenção ocidental não fosse o maior fator de agitação do remoinho do conflito religioso no Médio Oriente. Quando as ondas de choque aumentaram, os governos deles exprimiram preocupação apenas em relação às possíveis inconveniências políticas que resultaram da morte, e não quanto à injustiça dela.

O editorial de 4 de janeiro do jornal britânico The Independent não poderia ter sido mais explícito: ao mesmo tempo que se distanciava do impudico entusiasmo do Partido Conservador em relação ao regime saudita – fazendo notar que o primeiro-ministro Cameron tinha recentemente apoiado a conseguida candidatura saudita à Presidência do Comité de Direitos Humanos da ONU – o jornal concluiu que “não é do nosso interesse ver, e muito menos provocar, a queda da Casa de Saud”. Esta também é, claro, a política seguida por Obama que há um ano proclamou “a importância da relação EUA-Arábia Saudita como força pela estabilidade e segurança no Médio Oriente e fora dele”.

Os imperialistas ocidentais sempre souberam o que é o regime saudita. Este regime sempre praticou a decapitação de alegados apóstatas (acusados de abandonar o Islão) – o jovem poeta e artista palestino Ashraf Fayadh ainda está para ser executado por esse “crime”. Muitas das 153 pessoas executadas em 2015 e do total de pelo menos 2200 pessoas durante as últimas três décadas eram trabalhadores migrantes da Ásia do Sul e outros lugares, que construíram os palácios, os centros comerciais palacianos, os museus, os estádios desportivos e outras maravilhas arquitetónicas da região do Golfo, numa opressão virtual imposta pela espada.

Os governantes sauditas devem as suas espadas, no sentido mais vasto, às potências ocidentais. Em novembro, não muito antes das execuções e muito depois de o governo saudita ter anunciado os seus planos de as levar a cabo, o Departamento de Estado de Obama aprovou um pedido saudita de compras no valor de 1,29 mil milhões de dólares norte-americanos em bombas e mísseis. O sítio internet do Departamento de Estado fornece uma assustadora listagem das compras, o tipo de munições que a Arábia Saudita e os seus aliados no Golfo têm despejado sobre o povo iemenita numa guerra que já matou pelo menos 5700 pessoas, metade das quais civis, desde que a invasão aérea e terrestre começou em março de 2015. Esta guerra de agressão contra um país que a Arábia Saudita tem tradicionalmente considerado ser um seu legítimo “quintal” não poderia ter sido levada a cabo sem o apoio logístico, o reabastecimento aéreo e as equipas de pontaria fornecidas pelos EUA – este último aspecto fazendo com que Washington seja diretamente responsável pelo bombardeamento de escolas e hospitais.

Embora os fatores sejam complexos, esta guerra, tal como as execuções, está a ser feita em nome da autoridade religiosa da família real saudita contra os xiitas e outros não crentes. (Os rebeldes houthis do Iémen, cuja bandeira religiosa zaydita faz com que a fé deles seja prima do Xiismo, são apoiados pelo Irão – o que está longe de ser o principal fator da revolta dos houthis e outros povos contra o regime apoiado pelos sauditas.) Este é um outro exemplo da forma como os sauditas estão a tentar fazer escalar a dimensão religiosa dos conflitos na região – com o apoio concreto dos EUA.

Obama foi reunir-se pessoalmente com o Rei Salman após a tomada de posse deste há um ano, e o reinado dele tem sido alvo de elogios como estando a inaugurar uma era de reformas, feitos por ocidentais como o importante comentador liberal norte-americano Thomas Friedman (The New York Times, 25 de novembro de 2015 – escrito numa altura em que estas execuções já estavam marcadas). A principal “reforma” até agora foi a realização de eleições para órgãos municipais insignificantes e permitir que as mulheres votassem para eles, embora elas não pudessem conduzir até aos locais de voto nem até nenhum outro lugar, nem tomarem nenhuma decisão sem a autorização dos seus guardiões masculinos. Durante o último ano, o regime saudita incrementou as suas execuções, nalguns casos crucificando as vítimas decapitadas e deixando os corpos delas a apodrecer em exibição pública.

Alguns membros da família real (que, graças à poligamia, são milhares) e altos funcionários do próprio regime têm apoiado a Al-Qaeda, e o regime respondeu à mais forte das críticas da Al-Qaeda, o estacionamento de tropas norte-americanas em terras sagradas muçulmanas, com a transferência dessas tropas para bases noutros lugares do Golfo. Na Síria, a Arábia Saudita tem armado e financiado uma constelação mutável de alianças fundamentalistas islamitas. Em relação ao Daesh, que partilha a ideologia salafista (fundamentalista) que legitima o regime da Casa de Saud e que, tal como ela, centra o seu sistema de relações de opressão na opressão extrema das mulheres, a mudança do nome do grupo de ISIL (Estado Islâmico do Iraque e do Grande Levante) para Estado Islâmico assinalou uma ameaça direta à reivindicação do regime saudita de que detém a autoridade sobre todos os muçulmanos sunitas do mundo.

A monarquia absolutista saudita exige obediência enquanto “protetora terrestre da Ummah” (a chamada comunidade de crentes) e não na base de um regime religioso direto como o califado do Daesh, governado por um autoproclamado descendente de Maomé. Esta distinção é simultaneamente um perigo à existência da dinastia Saud e, ao mesmo tempo, não é uma grande diferença, em especial no que diz respeito à forma como os sauditas respondem à assinatura específica do Daesh, a determinação deles em exterminarem os xiitas como apóstatas pior que infiéis, promovendo-se como os maiores exterminadores de xiitas de todos.

As potências imperialistas ocidentais sabiam muito bem em que é que se estavam a meter na relação delas com a monarquia saudita. A Grã-Bretanha ajudou a estabelecer a monarquia em 1932, depois de ter encorajado a ascensão do Wahhabismo (a forma específica do Salafismo associada às autoridades tribais árabes) na sua campanha para absorver o império otomano no seu próprio império. Num tratado de 1945 assinado por Franklin D. Roosevelt, os EUA prometeram manter a monarquia saudita no poder, um pacto renovado por George W. Bush em 2005. Embora os EUA tenham retirado o país à Grã-Bretanha, como parte da substituição da dominação britânica no Médio Oriente, o Reino Unido continua a manter ligações financeiras e militares próximas com a Arábia Saudita. A França, com o presidente socialista Hollande, está agora também a forjar novos vínculos políticos e militares com o regime.

Contudo, a associação da Arábia Saudita ao imperialismo tem transformado profundamente o país e a sua classe dominante. Tal como outros estados do Golfo, tornou-se num importante local de acumulação de capital por direito próprio dentro da economia capitalista globalizada dominada pelas potências imperialistas ocidentais. Isto tem acontecido tanto através, por um lado, da exploração no Golfo de trabalhadores provenientes do mundo muçulmano e de muito longe dele, como, por outro, do investimento de capital saudita e de outros países do Golfo em países muito maiores como o Egito, cuja economia, política e vida religiosa são condicionadas por esta relação.

Sob muitas formas, como a influência política, os subsídios a regimes como o do Paquistão, a doutrinação religiosa de milhões de árabes levada a cabo no Golfo e o patrocínio de grandes instituições religiosas e de “caridade” e de centenas de pregadores televisivos e de órgãos de comunicação social, a Arábia Saudita e outras monarquias do Golfo são os principais vetores que levam o Salafismo moderno ao mundo muçulmano sunita, mesmo quando todos esses países estão cada vez mais firmemente ligados ao mercado internacional e ao sistema capitalista global, com todas as suas inevitáveis rivalidades entre as classes dominantes que só podem acumular capital numa competição mortal umas com as outras.

É verdade, como disse Obama, que a “relação EUA-Arábia Saudita” tem sido inestimável para os EUA e o Ocidente como “força pela estabilidade e segurança no Médio Oriente e fora dele”. Mas, ao mesmo tempo, essa relação tem desempenhado um importante papel na criação das condições para a atual instabilidade na região, onde a continuada dominação dos EUA não está nada segura. Altos riscos requerem medidas desesperadas.

Um grande número de pessoas, sobretudo no Médio Oriente cujos povos são sem dúvida os principais alvos e vítimas do Daesh e de todas as formas de fundamentalismo islâmico, pensa que os EUA criaram deliberadamente o Daesh e tudo o resto. Isso literalmente não é verdade. Embora Washington, Londres e Telavive tenham encorajado o Islamismo em oposição a tendências mais radicais na região, e embora o funcionamento do sistema imperialista tenha criado as condições a partir das quais surgiram os islamitas, hoje em dia as várias formas de fundamentalismo islâmico são um problema intratável para os EUA e os outros imperialistas ocidentais. Contudo, a realidade subjacente à “guerra ao terror” não é um alinhamento claro de dois lados. Em vez disso, os rivais imperialistas e as potências regionais estão a agir para promoverem os seus próprios interesses reacionários em conluio e em colisão uns com os outros num mesmo campo de batalha complexo. Ao mesmo tempo, de uma forma geral, todos os monstros em contenda estão a alimentar o fundamentalismo religioso de todos os tipos, seja de uma forma intencional, seja como subproduto das suas manobras políticas e militares e das relações económicas e sociais retrógradas que eles representam.

O capital imperialista agora representado por pessoas como Obama e os seus parceiros “líderes ocidentais” precisam da governação de pessoas como o rei saudita Salman e os príncipes assassinos dele, que fazem apelo a ideologias e sistemas sociais antigos mas que seriam impotentes sem o imperialismo moderno. Os EUA e os seus parceiros e rivais não podem deixar de fazer do fundamentalismo religioso islâmico e outros uma característica cada vez mais importante do século XXI. A “guerra ao terror” é uma fraude – é uma competição sobre quem pode impor os seus interesses e mais terror.