Aquecimento global: A Terra clama pela Revolução

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 5 de Fevereiro de 2007, aworldtowinns.co.uk

Um outro mundo é possível, mas se a actual ordem mundial – a forma económica, política, social e ideológica como o mundo de hoje está organizado – for deixada continuar muito mais tempo, o nosso planeta enfrentará um tipo de destruição como não acontecia desde antes da civilização humana ter surgido. Esta é a conclusão que deve ser retirada do mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla inglesa), uma organização afiliada da ONU.

O título do documento do IPCC datado de 7 de Fevereiro, o primeiro dos três previstos dentro dos próximos meses, descreve isso claramente: “Alterações Climáticas 2007: Os Seus Fundamentos nas Ciências Físicas”. Foi escrito por 130 meteorologistas, climatologistas e outros especialistas, com a contribuição de mais de 800 cientistas. Pelo menos 2500 especialistas reviram a primeira versão antes de ser finalizado. Não pode nem deve pôr fim a toda a controvérsia à volta da questão do aquecimento global. Mas deixa respostas muito claras e definitivas às duas principais perguntas em discussão: será a tendência de aquecimento global – observada desde a revolução industrial e sobretudo durante o último meio século – essencialmente um ciclo natural de aquecimento e arrefecimento da Terra, tal que nada se pode fazer em relação a isso, ou é devida sobretudo a actividades humanas como a queima de combustíveis fósseis, a exploração mineira e a agricultura? E essa tendência representa uma ameaça muito séria?

A resposta a ambas as perguntas é um retumbante sim. É razoável dizer que a comunidade científica mundial chegou a um consenso sobre esses pontos. A única questão verdadeiramente controversa entre a maioria dos cientistas é se o IPCC menosprezou ou não o perigo.

O fim do debate sobre um ponto: o desastre espreita

Há três notáveis alterações entre o novo relatório do IPCC e o anterior de 2001. Elas tornam o mais recente relatório tão mais certo como mais alarmante.

Em primeiro lugar, em 2001, o IPCC tinha concluído que era “provável” que a actividade humana estivesse por trás do aquecimento da Terra. Por “provável”, o IPCC queria dizer que a probabilidade dessa análise estar correcta era de mais de dois terços. No relatório de 2007, os cientistas do IPCC concordaram em que as novas conclusões baseadas num vasto leque de estudos eram “muito provavelmente” verdade, com um grau de certeza de pelo menos 90 por cento.

Em segundo lugar, o relatório de 2001 previa que a temperatura média mundial subiria provavelmente entre 0,15 ºC e 0,35 ºC durante os cinco anos seguintes. Acontece que ela subiu 0,33 ºC. A subida do nível global do mar, medida na Terra e pelos satélites, foi mais rápida do que o IPCC esperava em 2001. Estes factos tendem a confirmar ou a exceder as piores previsões do IPCC.

Em terceiro lugar, as previsões de 2007 do IPCC para o resto do século XXI são mais assustadoras que antes: o aumento provável da temperatura situa-se entre 1,8 ºC e 4 ºC, sendo a “melhor estimativa” de 3 ºC e os possíveis limites previstos entre 1,1 ºC e 6,4 ºC.

Estes poucos graus de temperatura poderiam significar o seguinte: se a Terra ficar 2,4 ºC mais quente, os recifes de corais quase desaparecerão dos mares, um terço de todas as espécies de vida poderão ficar extintas, muitas das planícies interiores do mundo agora dedicadas à agricultura poderão tornar-se desertos e as ilhas mais baixas e os deltas ficarão debaixo de água.

Com um aumento de 3,4 ºC, os desertos ocupariam muito da América do Sul, de África e de outros lugares. Com um aumento de 4,4 ºC, a subida dos mares expulsaria de suas casas mais de 100 milhões de pessoas, em particular no Bangladesh, no Delta do Nilo e em Xangai. A agricultura tornar-se-ia impossível na Austrália. Metade de todas as espécies ficaria extinta, mais que em qualquer período desde o fim dos dinossauros. Uma Terra 5,4 ºC mais quente veria a Ásia do Sul tornar-se inabitável devido a uma combinação de seca de rios e monções litorais. A sociedade humana em geral enfrentaria o caos. Com um aumento de 6,4 ºC, a maior parte da vida na Terra seria exterminada. (Mark Lynas, The Independent, 4 de Fevereiro de 2007).

Porque o IPCC é um organismo intergovernamental com representantes de 133 países, entre os quais os EUA que tentaram influenciar a redacção do relatório, ele é bastante conservador nas suas previsões. Alguns estudos prevêem um aumento da temperatura de 11 ºC até ao fim do século, em contraste com a previsão de 3 ºC do IPCC. Além disso, o IPCC deixou de fora factores que poderão vir a acelerar a devastação do aquecimento global. Para dar um exemplo, ao preverem a subida do nível do mar, os modelos matemáticos do IPCC não têm em conta a quantidade de água lançada nos oceanos pelo derretimento da calota glaciar, devido à incerteza sobre como ele deveria ter sido tido em conta. No modelo do IPCC é provável que os mares subam entre 28 a 43 cm até ao fim do século. Mas o rápido derretimento do gelo do Árctico já está bem estabelecido. Embora algum desse efeito pudesse ser compensado por aquilo que o IPCC prevê venha a ser o espessamento da calota glaciar no outro lado do mundo, a Antárctica, alguns cientistas (entre os quais os autores de um recente artigo na revista Science) crêem que o derretimento do gelo elevará o nível do mar em vários metros durante esse período de tempo.

Os governos apontam o dedo uns aos outros

Ainda mais chocante que este último relatório tem sido a atitude tomada face a ele pelos governos do mundo.

Os EUA são de certa forma a chave do problema. Em primeiro lugar, o governo Bush é o centro mundial de oposição ao reconhecimento desta realidade. A delegação dos EUA no IPCC fez pressão para que o relatório evitasse concluir que a actividade humana é a principal causa do actual aquecimento global. Mesmo depois de o relatório ter sido publicado, os porta-vozes do governo norte-americano minimizaram a sua importância, sobretudo em relação a qualquer responsabilidade dos EUA. Por exemplo, os representantes de Bush apontam constantemente para o facto de que os EUA poderão ser o pior poluidor, mas que “só” estão por trás de 25 por cento da poluição mundial! Tendo em conta que os EUA representam menos de cinco por cento da população da Terra, isso só deveria ser considerado uma admissão de culpa. (Um indiano comum produz um décimo dos gases de estufa produzidos por um europeu comum e um vigésimo do que produz um norte-americano comum.)

O regime Bush também tem alegado que assinar os acordos internacionais contra as emissões de gases de estufa iria “custar empregos americanos”. Também isto é uma admissão de culpa sobre a natureza destrutiva do capitalismo. Esses dois argumentos tomados em conjunto resultam numa terceira admissão, a de que o princípio moral que guia a sociedade norte-americana – e de facto todo o sistema capitalista que domina o mundo – é o do “eu primeiro”. Já que estamos na questão da ideologia, devemos lembrar que a negação oficial pelo governo dos EUA das conclusões a que chegaram os cientistas da Terra (e a perseguição a alguns cientistas por não alinharem com a posição totalmente não-científica do governo) integra um muito mais vasto ataque, não só a algumas das mal recebidas conclusões científicas, mas mesmo à própria perspectiva científica.

Além disso, é desonesto que os EUA insistam que a China e a Índia têm de concordar em limitar a sua produção de gases de estufa antes de os EUA o fazerem. É verdade que a China é o segundo pior poluidor – mas também é verdade que as vastas indústrias da China estão sobretudo empenhadas em enriquecer empresas estrangeiras e em produzir bens para os ocidentais e para outros estrangeiros. Essa mudança na indústria é a razão por que os norte-americanos e os europeus podem mesmo sonhar em se tornarem ligeiramente “verdes” sem sacrificarem o seu nível de vida. Os capitalistas norte-americanos e europeus são tão responsáveis por muitos dos gases de estufa produzidos na China como pelos produzidos nos seus países de origem.

A oposição dos EUA ao relatório do IPCC não é apenas uma questão de arrastar passivamente os pés. Reagindo aos resultados do IPCC, o American Enterprise Institute (AEI), um importante think-tank neoconservador intimamente ligado à administração Bush, enviou cartas aos cientistas da Grã-Bretanha, dos EUA e de outros países, oferecendo-lhes 10 000 dólares a cada um, mais despesas e a possibilidade de pagamentos adicionais, em troca de artigos que salientem as fraquezas do documento. O maior contribuinte para o AEI é a multinacional petrolífera Exxon Mobil. Mas isto é mais que um caso de egoísmo das multinacionais. Outra importante fonte dos seus rendimentos é a Microsoft. Há poderosas forças da classe dominante dos EUA no seu todo que se opõem a que se reconheça e se enfrente o aquecimento global.

No seu discurso do Estado da União, em Janeiro, na véspera da divulgação do relatório e muito depois de serem conhecidas as suas conclusões, o presidente norte-americano George Bush reconheceu pela primeira vez – 15 anos depois da primeira Cimeira da ONU sobre a Terra – “o desafio das alterações climáticas”. Mas os passos concretos que Bush propôs representam a continuação desse estado de negação. Ele falou na duplicação das reservas estratégicas de petróleo dos EUA, num “corte” no consumo de combustível dos automóveis, o que quer dizer, de facto e na melhor das hipóteses, a manutenção dos níveis actuais e a promoção dos biocombustíveis (vegetais queimados em vez do petróleo) de uma forma que significa ainda mais subsídios para a agro-indústria dos EUA e mais devastação ambiental.

Dizer que os EUA são de muitas formas a raiz do problema não significa, porém, que a Europa também não é altamente culpada. A atitude do governo Bush de deliberadamente nada saber permite que, em comparação, os chefes dos governos europeus pareçam melhores sem de facto fazerem muito. Quase todos os países do mundo, com as notáveis excepções dos EUA e da Austrália, ratificaram o Protocolo de Quioto. Porém, esse parco acordo de 1997 que limita o crescimento dos gases de estufa é de facto uma desculpa para continuarem a fazer o mesmo de sempre. Além disso, de alguma forma o protocolo parece reflectir as rivalidades inter-imperialistas. Por exemplo, ele alegadamente impõe um maior peso sobre os EUA que sobre a União Europeia, sobretudo a Alemanha, a terceira maior fonte de gases de estufa do mundo. Por exemplo, a Alemanha está dispensada de contabilizar a poluição causada pela sua extensa indústria mineira do carvão. Globalmente, até agora os países europeus não têm cumprido os seus compromissos de Quioto. As novas propostas avançadas por Tony Blair, Jacques Chirac e Angela Merkel, inspiradas pelo IPCC, vão muito menos longe do que seria necessário, mesmo que venham a fazer o que dizem que farão. Para todas as potências imperialistas, como os próprios EUA, a questão que mais os preocupa é garantirem os recursos energéticos e outros para si próprios e negarem-nos aos seus rivais, não a redução da mortal dependência global do petróleo e da gasolina.

Olhemos para o modo como ia o mundo na semana imediatamente anterior ao relatório do IPCC ter sido tornado público. Enquanto esses políticos faziam as suas piedosas declarações, a pressão dos seus governos e os mecanismos e a lógica do sistema capitalista levaram a uma abertura sem precedentes de vastas zonas da floresta tropical da Amazónia no Brasil e no Peru à pilhagem do mercado internacional. (As florestas tropicais são muito importantes porque absorvem o dióxido de carbono produzido pela queima de derivados do petróleo.) Ao mesmo tempo, foram revelados os planos para a construção de novas e enormes fundições de alumínio na Islândia, até agora uma das zonas menos poluídas do planeta. Isso é permitido pelo Protocolo de Quioto porque a Islândia ainda não emitiu a sua legítima “quota” de gases de estufa! E, de um modo mais geral, a importância do petróleo e da gasolina nas economias e nas políticas dos países imperialistas – o que inclui rivalidades potencialmente violentas, como estamos agora a ver a respeito do gás natural da Rússia – tem aumentado diariamente.

Porque é que o capitalismo global põe a Terra em perigo

As mais poderosas leis que hoje em dia regem a sociedade humana são as necessidades do capitalismo global. Quando nos dizem que salvar a Terra iria “custar empregos” nos EUA, na Islândia, na Índia ou em qualquer outro lugar, o que isso realmente significa é que tanto a capacidade de as pessoas encontrarem um emprego para poderem comer como o destino do planeta em que elas vivem dependem de um sistema em que o lucro tudo determina. Os recursos naturais do mundo e as riquezas acumuladas produzidas pelo labor do género humano não podem ser postas a uso a menos que sejam transformados em capital, cujo objectivo é gerar lucro e acumular ainda mais capital. Qualquer necessidade humana e mesmo os desejos dos capitalistas têm de se submeter a isso. Por causa da rivalidade entre os vários capitalistas, a lei fundamental é expandir ou morrer. A mesma força que leva os capitalistas a extraírem cada vez mais lucro de quem trabalha para eles e a atraírem cada vez mais habitantes do mundo para a sua influência também lhes exige que intensifiquem e ampliem a sua impiedosa exploração da Terra – ou fá-lo-ão os seus rivais e eles serão esmagados.

Uma série de artigos do Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar (de 21 e 28 de Novembro de 2005) analisou as causas do aquecimento global, os factores económicos, sociais e políticos que têm impedido que se enfrente e se resolva o problema e de que forma a humanidade poderia agir.

“A contradição entre os custos envolvidos na resolução dos problemas e a necessidade de lucro imediato não permitem ao capitalismo implementar integralmente soluções de longo prazo. Nenhuma empresa, e em última análise, nenhum país capitalista, quer consagrar vastos recursos a algo cujo custo reduziria a sua rentabilidade global – e enfrentar um problema que acaba de assomar no horizonte. É verdade que os países, e sobretudo os países imperialistas governados por um punhado de capitalistas monopolistas, gastam enormes quantidades de dinheiro em actos improdutivos como o armamento e a guerra, mas isso é-lhes imposto pela competição entre eles e pela esperança de ganharem (ou pela ameaça de perderem) vantagem competitiva em relação a outros grupos de capitalistas. A forma como países como os EUA vêem isto é como um enorme investimento para lidar com o aquecimento global que apenas enfraqueceria as suas economias face à competição – os outros países imperialistas. Isto, por sua vez, é a razão por que os outros países imperialistas não querem agir a não ser que os EUA o façam, e por que estão dispostos a aceitar a inacção dos EUA como desculpa para a sua própria inacção.”

“Além disso, o capital está baseado em estados-nação e o mundo está dividido em feudos imperialistas e em países do terceiro mundo que eles pilham. Se esta situação for aceite como necessariamente eterna, isso é um obstáculo fundamental a sequer se poder pensar devidamente sobre como resolver um problema global.”

“Lidar com este tipo de catástrofe potencial irá requerer a experiência, o conhecimento, a criatividade, os esforços e por vezes o sacrifício do género humano no seu todo, de todos os seus milhares de milhões de pessoas em todo o mundo. Ninguém pode alegar que isso seja sequer concebível no actual sistema económico, social e político que mantém o globo sob as suas garras.”

“Desenvolvimento e gases de estufa não têm de ser sinónimos. Muitos cientistas e activistas ambientais têm explorado o conceito de desenvolvimento sustentável – uma economia que possa satisfazer cada vez mais as necessidades humanas sem destruir o planeta em que vivemos. Se a sociedade – e eventualmente toda a sociedade humana a nível mundial – não fosse gerida segundo os princípios do capitalismo mas sim pelos do socialismo, porque é que não poderia um planeamento cujos objectivos mais elevados fossem a emancipação e o bem-estar da humanidade e do seu meio ambiente criar uma economia que servisse esses fins? Porque é que a humanidade tem que continuara a aguentar mais o desperdício e a destruição impostos pelo capitalismo? E o que é que impediria essa sociedade de consagrar os recursos necessários para impedir ou pelo menos a minimizar o impacto das catástrofes naturais?”

“Há cento e cinquenta anos, Karl Marx escreveu em O Capital: ‘Do ponto de vista das mais elevadas formas económicas da sociedade [o socialismo e o comunismo], a propriedade privada do globo por alguns indivíduos parecerá tão absurda como a propriedade privada de um ser humano por outro. Nem sequer toda uma sociedade, uma nação, ou mesmo todas as actuais sociedades tomadas simultaneamente no seu todo, não são donos do globo. São apenas os seus possuidores... têm de o entregar às gerações seguintes em melhores condições.’ ”

As iniciativas individuais de poupança de energia como andar de bicicleta e usar lâmpadas incandescentes de baixa potência são necessárias, mas se não estiverem no contexto de algo muito maior; independentemente de quão difundidas se tornem, serão insuficientes para resolver o problema. Ao promovê-las, há o perigo de desviar a atenção das pessoas dos verdadeiros criminosos e da verdadeira magnitude das mudanças necessárias para se enfrentar esta situação. O status quo e os seus estados têm de ser derrubados, país a país e finalmente no mundo inteiro.

Como declara sobriamente o relatório do IPCC, mesmo que fossem imediatamente implementadas medidas drásticas de controlo das emissões de gases de estufa, a temperatura da Terra provavelmente continuaria a subir um pouco mais durante muitas centenas de anos porque alguns dos processos que foram postos em movimento são irreversíveis. O capitalismo tem causado danos permanentes ao planeta e a sociedade humana também aguentará durante muito tempo as suas cicatrizes.

As capacidades produtivas do género humano foram viradas contra o planeta e a própria humanidade. A situação é muito grave, mas não é desesperada. Para dizer isto de outra forma, a destruição da Terra é uma das possibilidades. A outra possibilidade é a transformação deste planeta num mundo de um tipo diferente – se e só se pudermos ter mudanças tão radicais quanto os desafios que enfrentamos. Uma vez mais, a própria Terra clama pela revolução.