Afeganistão: Porque é que o massacre de civis nunca terminará enquanto a ocupação se mantiver

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 3 de Maio de 2010, aworldtowinns.co.uk

Em meados de Abril, centenas de pessoas de um bairro dos arredores ocidentais da cidade de Kandahar saíram à rua para mostrarem o seu ódio aos ocupantes e ao seu comportamento criminoso contra pessoas inocentes. O bairro de Zhari foi o local onde as forças norte-americanas dispararam sobre um autocarro cheio de passageiros na madrugada de 12 de Abril, matando cinco pessoas e ferindo pelo menos cerca de 20 mais. Os manifestantes montaram barricadas de pneus em chamas para bloquearem as estradas da zona à volta da central de autocarros para onde tinha sido levado o veículo danificado e gritaram “Morte à América!” e palavras de ordem que condenavam o governo de Hamid Karzai instalado pelos EUA.

No último par de anos, houve centenas de manifestações locais semelhantes de protesto contra o massacre de civis pelos soldados da NATO e dos EUA. Mas só algumas delas têm sido noticiadas pela comunicação social. Alguns exemplos das que foram noticiadas foram os protestos contra um ataque aéreo que matou civis em Shinden, perto de Herat, em 2009, e as de Ghani Khail em Nangarhar, em Maio de 2008, contra o massacre de três membros de uma família e a prisão de cinco outras pessoas durante uma operação das forças norte-americanas. Os manifestantes bloquearam a estrada entre Jalalabad e Torkham.

Mas não temos que recuar tão longe. A 29 de Abril deste ano, centenas de pessoas em Nangarhar protestaram uma vez mais contra um ataque da NATO, desta vez contra a casa de um membro do Parlamento. Os soldados mataram um homem assim que ele saiu de casa para ver o que estava a acontecer. Depois entraram na casa, amarraram várias mulheres e dispararam as suas armas na direcção delas.

Em nome da luta contra os “insurgentes” e de “protegerem as pessoas”, os ocupantes têm molestado e aterrorizado constantemente e assassinado pessoas inocentes, em ataques aéreos, disparos de postos de controlo, invasões de casas e muitos outros casos em que as mortes de civis são depois descritas como “acidentes”. O número de protestos locais, muitas vezes com a dimensão de centenas de participantes, indica que as pessoas estão fartas dos ocupantes e dos seus maus tratos.

Depois do massacre de Kandahar, o comando militar de Cabul, liderado pelos norte-americanos, emitiu um comunicado em que admitia que as suas tropas tinham matado “quatro” (e não cinco) pessoas e chamaram-lhe uma “trágica perda de vidas”. O comunicado parecia ser mais para justificar os assassinatos do que para assumir a responsabilidade. Descrevia o autocarro como um “veículo grande” que foi “percebido” como estando demasiado perto da coluna militar, insinuando que os soldados tinham tido razão em considerar o autocarro como uma “ameaça” e tinham agido adequadamente. Como é que eles não conseguiram reconhecer um autocarro cheio de passageiros e só perceberam o que era “quando o inspeccionaram” depois de já terem aberto fogo sobre ele? Porque é que não dispararam para o ar ou para os pneus? Porque é que 55 a 65 metros foi considerado “demasiado próximo”?

Um passageiro ferido disse: “Parece que estão a disparar intencionalmente sobre os civis. Este autocarro não se parecia com um bombista suicida e nós não tocámos nem chegámos perto da coluna. (...) Talvez a 60 metros da coluna. (...) Uma coluna norte-americana estava à nossa frente e outra seguia-nos e nós íamos sair da estrada quando de repente os norte-americanos abriram fogo.” (New York Times, 12 de Abril de 2010)

Um outro passageiro disse: “Já não nos sentimos seguros quando andamos nas principais estradas por causa das colunas da NATO.” Mas esse não é o único perigo. Algumas pessoas podem pensar em deixar de viajar mas elas nem sequer estão seguras nas suas próprias casas.

Apenas uma semana antes, foi revelado um outro escândalo através de um comunicado das autoridades militares norte-americanas. Depois de terem negado durante quase dois meses que os seus soldados estavam envolvidos nas mortes de três mulheres a 12 de Fevereiro, perto de Gardez, no sudeste do Afeganistão, tiveram que fazer uma reviravolta e finalmente admitir que as suas forças de facto as tinham matado durante uma rusga à sua casa. Os factos tinham sido divulgados na imprensa com tal pormenor que essa mentira se tornou impossível de manter.

O que é que aconteceu nessa noite? Quando os membros de uma família alargada se juntavam para celebrar o nascimento de um bebé recém-nascido, uma unidade de Operações Especiais dos EUA invadiu a casa. Os soldados mataram dois homens e três mulheres, duas das quais estavam grávidas. Segundo algumas testemunhas, a unidade de elite retirou as balas dos corpos e tentou limpar o local para destruir as provas de quem tinha atingido as vítimas. Com este acto brutal e não raro, os soldados não só transformaram uma noite de celebração num pesadelo perpétuo para os familiares sobreviventes, incluindo as crianças, como enfureceram todo o Afeganistão.

Porque é que este tipo de coisas acontece uma após outra? Matar civis tem sido uma parte essencial da missão dos ocupantes no Afeganistão desde 2001, porque eles tentam aterrorizar as pessoas para que os aceitem e não se preocupam com as vidas afegãs. Eles têm usado no Iraque e no Afeganistão os seus criminosos organizados, treinados e profissionais das Operações Especiais porque eles invadiram esses dois países para matar, brutalizar e aterrorizar as massas.

O comando militar dos EUA alegou inicialmente que, no incidente de Gardez, os seus homens tinham matado dois “insurgentes” que se tinham “empenhado” (a palavra que eles para descrever quem luta contra os invasores).

Este tipo de declaração tem sido a forma típica como as forças dos EUA e da NATO no Afeganistão negam os seus chocantes crimes. Nalguns casos, quando não conseguiram encobrir ou impedir a propagação das notícias e sob pressão ou, em muitos casos, após protestos locais, foram finalmente obrigados a admitir alguma coisa sobre os seus massacres – negando ao mesmo tempo que esses massacres sejam crimes.

Um dos dois homens mortos na rusga de Fevereiro era afinal um procurador afegão do bairro e o outro era um chefe da polícia local. Esses homens eram supostamente aliados dos EUA. Sob pressão, os EUA acabaram por admitir que membros das Forças Especiais tinham matado os homens, mas continuaram a negar que eles tinham atingido as mulheres. Pelo contrário, alegaram que as mulheres tinham sido assassinadas pelas suas próprias famílias. Isto foi totalmente rejeitado pelo pai de uma delas, de 18 anos. Os norte-americanos atingiram-na durante a rusga, disse ele, e depois, “vi-os a manipularem os corpos. (...) Vi uma faca nas mãos de um dos norte-americanos.” (NYT, 5 de Abril de 2010)

Finalmente, a 4 de Abril, os responsáveis militares norte-americanos admitiram que as Forças Especiais também tinham matado as mulheres, mas negaram que as suas forças tivessem tentado encobrir isso. Porém, com base numa investigação liderada pelos afegãos, o jornal Times de Londres relatou que os soldados “escavaram balas dos corpos das suas vítimas no rescaldo sangrento (...) e (...) lavaram as feridas com álcool” para esconderem o facto de que tinham sido atingidas a tiro e com armas fornecidas pelos EUA.

Um membro da equipa de investigação liderada pelos afegãos, o Sr. Yarmand, disse: “Chegámos à conclusão que a patrulha da NATO foi responsável pela morte dos dois homens e das três mulheres e que havia provas de falsificação no corredor dentro do edifício, feita por membros” da equipa da operação. “Havia uma grande confusão no local.” (NYT, 5 de Abril de 2010)

O assassinato de civis tem sido uma das causas da fúria popular contra as forças de ocupação. Um relatório recente do Pentágono dizia que, no que considera serem 121 zonas estrategicamente importantes do Afeganistão, acredita que em 92 delas a maioria das pessoas é pelo menos neutra em relação aos talibãs. A própria brutalidade dos ocupantes criou esta situação. Devido à falta de um forte pólo revolucionário, muitas pessoas, inconsciente e mesmo conscientemente, tendem a abraçar o que consideram ser “o mal menor” – os talibãs, embora também eles sejam inimigos do povo.

As pessoas que na altura da invasão tinham ilusões e pensavam que, embora os EUA fossem uma força ocupante, poderiam levar um pouco de democracia, a libertação das mulheres e ajuda à construção do país, vêem-se agora confrontadas com a realidade da ocupação imperialista. Elas podem ver por si próprias que a actual situação é tão má ou mesmo pior que antes. Os ocupantes prometeram muito progresso político e económico. Mas, para as massas comuns, a situação deteriorou-se.

Não só as mulheres continuam sujeitas às mesmas pressões religiosas e tradicionais, como foram acrescentados novos horrores. Por exemplo, as jovens que cometem suicídio lançando fogo a si próprias são um fenómeno novo no Afeganistão. Um outro exemplo da vida sob ocupação é a venda por famílias pobres de meninas adolescentes ou ainda mais jovens, por pequenas quantidades de dinheiro. Tem havido um grande aumento do número de mulheres afegãs forçadas à prostituição. Elas são negociadas no mercado do Paquistão e muitas acabam como escravas nos estados do Golfo.

A promessa de que as eleições iriam mudar substancialmente as coisas no Afeganistão sempre foi uma fraude, mas essa promessa parece ainda pior tendo em conta a forma como os fundamentalistas religiosos e os pró-imperialistas têm monopolizado os lugares políticos no país e nas províncias. O facto de o governo de Karzai, instalado pelos norte-americanos, só ter conseguido ser reeleito com uma fraude descarada não representa uma mudança do sistema político do país mas é simplesmente um exemplo da sua essência.

Os resultados da prometida “reconstrução económica” do país podem ser vistos agora pelas pessoas que estão a ficar mais pobres e pelos que cada vez mais não têm outra coisa para viver a não ser o cultivo de papoilas de ópio.

Se as pessoas já tiveram que viver sob a brutalidade dos talibãs antes da ocupação, estão agora a ser mortas pelos ocupantes, encurraladas no fogo cruzado entre os talibãs e as potências imperialistas invasoras, e mesmo assim não estão livres dos talibãs que controlam muitos locais e estabeleceram um governo sombra noutros lugares.

Não é que as forças dos EUA e da NATO não consigam ver como é que a sua política e a sua brutalidade estão a trabalhar contra eles e a fazer com que as pessoas se juntem aos talibãs, ou que pelo menos não se lhes oponham. Mas, devido à sua natureza – de invasores em defesa dos seus próprios interesses imperialistas – há muito pouco que eles possam fazer para inverter ou desviar esse processo.

De facto, já há vários anos que vários generais e comandantes da NATO e dos EUA têm vindo a avisar sobre o efeito negativo que as mortes de civis têm tido na popularidade dos ocupantes. Eles têm feito muitas promessas de diminuição do número de civis mortos em ataques aéreos, invasões de casas e disparos de postos de controlo.

As forças armadas norte-americanas já estavam a tentar lidar com esta contradição durante os últimos meses da administração Bush. Depois de Barack Obama ter chegado ao governo, ele apresentou aquilo a que chamou uma nova estratégia para a ocupação, sendo que uma parte essencial dela era supostamente a conquista dos “corações e mentes” dos afegãos. Mas o massacre de civis não mudou muito.

O general Stanley A. McChrystal, dirigente sénior norte-americano de Obama e comandante da NATO, tem realçado os danos políticos para a ocupação causados pelas mortes de civis e cuja diminuição tem sido repetidamente prometida. Num discurso em Londres em Outubro de 2009, depois de reconhecer que esses massacres são um importante factor favorável aos talibãs, disse que os seus objectivos no Afeganistão se centrariam em dois pontos: “Proteger as pessoas dos talibãs e impedir os talibãs de regressarem ao poder” (Página web da BBC em persa, 6 de Outubro de 2009). Porém, o que McChrystal viu como ponto central da sua estratégia no Afeganistão foi um enorme aumento do número de tropas – mais 40 mil. Foi aprovado um aumento de 30 mil pelo governo dos EUA e outros 7 mil por outros países da NATO, num total de cerca de 102 mil, aproximadamente o mesmo número que os soviéticos tinham no Afeganistão durante a sua ocupação. Além disso, segundo um estudo do Congresso dos EUA, o número de “contratados” civis na folha de pagamentos dos EUA pode saltar este ano para cerca de um terço e elevar o número total de agentes ao serviço de empresas privadas de segurança para 160 mil (Washington Post, 16 de Dezembro de 2009). A maioria deles são afegãos contratados para substituir soldados norte-americanos em funções de não combate para que os norte-americanos se possam dedicar a matar, enquanto milhares (o número exacto é secreto) são mercenários norte-americanos, entre os quais ex-Operações Especiais.

De facto, o que McChrystal estava a dizer era que os EUA e a NATO se deveriam basear mais em forças terrestres e reduzir os ataques aéreos. Não porque os ataques aéreos matam civis, mas porque militarmente acabaram por se revelar inúteis no combate aos talibãs. McChrystal pediu mais tropas para poder envolvê-las no combate terrestre contra os talibãs a uma escala muito maior. McChrystal alegou que, ao usar mais forças terrestres, o número de mortes civis seria diminuído. Em vez disso, as tropas e sobretudo as forças de Operações Especiais sob o seu comando continuaram a matar civis.

McChrystal tem-se baseado mais, e não menos, na força militar. O facto de o número de tropas de ocupação ter aumentado enormemente desde o ano passado tem sido uma fonte de incidentes cada vez mais mortais e de uma maior militarização do país. Isto é natural, devido ao seu objectivo político – não o de acabar com a ocupação, mas o de tornar a ocupação do Afeganistão num “sucesso”.

Como a ocupação não tem sido um sucesso, isto tem criado contradições entre os EUA e o regime que eles instalaram, encabeçado por Karzai. Eles acusam-se uns aos outros pelo agravamento da situação, pela perspectiva de a guerra poder ser perdida para os talibãs e pela crescente impopularidade entre as massas do regime instalado pela ocupação. Os EUA estão a tentar culpar Karzai e a corrupção do seu governo, enquanto Karzai e o seu governo estão a tentar culpar os militares norte-americanos pela forma como encaram os civis.

Mas todas as forças ocupantes, incluindo as dos EUA e de todos os outros países da NATO, estão lá para defender os seus próprios interesses e os interesses do povo são a última coisa em que eles pensam. As suas promessas de diminuição do número de vítimas civis, mesmo que fossem sérias, seriam sempre ofuscadas pelos seus interesses. Por outras palavras, os seus interesses e os do regime por eles instalado sempre estarão em aguda contradição com os interesses do povo e a brutalidade contra o povo é uma manifestação dessa contradição. Mesmo depois do massacre dos passageiros do autocarro já houve outros massacres de civis pelas forças dos EUA e de outros países da NATO. Por exemplo, a 19 de Abril, na província de Khost, as tropas da NATO mataram quatro civis afegãos desarmados:

“Uma coluna da NATO abriu fogo sobre um Toyota que transportava quatro homens que regressavam a casa cerca das 18h, num distrito rural perto da fronteira com o Paquistão. As autoridades locais afegãs disseram que os quatro homens eram civis e entre eles estava um agente da polícia e um menino de 12 anos. (...) O exército disse que os soldados tinham usado ‘dados biométricos’, como as impressões digitais, para identificarem dois dos homens mortos como ‘insurgentes conhecidos’.” (NYT, 21 de Abril de 2010). Mas, mais tarde, o comando militar da NATO em Cabul, liderado pelos EUA, desculpou-se por “esta trágica perda de vidas” e disse que os dados biométricos “ainda não tinham mostrado ser relevantes” em relação às mortes.

... E este cenário irá manter-se enquanto os ocupantes estiverem no Afeganistão.