Afeganistão: O que trouxe a ocupação, a não ser a morte?

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 7 de Setembro de 2009, aworldtowinns.co.uk

Os comandantes alemães estacionados numa base na província de Kunduz, no norte do Afeganistão, estavam a ver imagens ao vivo tiradas por uma aeronave norte-americana. Projectadas na parede, as imagens mostravam dois camiões-cisterna com combustível e atolados no leito de um rio. À volta dos camiões, eles podiam ver cerca de 120 pontos em movimento, cada um deles indicando uma pessoa detectada na escuridão por um aparelho de detecção de calor. Antes, tinham visionado imagens semelhantes gravadas durante um sobrevoo de um bombardeiro norte-americano B-1B, que por acaso estava perto e que tinha sido enviado para filmar o local. Desta vez, estavam a ver imagens ao vivo de um avião norte-americano de combate que eles tinham mobilizado. Os comandantes alemães ordenaram que os camiões fossem bombardeados. Dois minutos depois, cada camião tinha sido atingido por uma bomba de 250 quilos e duas bolas de fogo idênticas iluminavam a noite. Os pontos negros iam desaparecendo à medida que as pessoas iam morrendo. Só permaneceram alguns pontos que indicavam os sobreviventes.

O coronel alemão responsável alegou que as imagens eram demasiado difusas para se ver se as vítimas tinham armas ou não, mas que um informador lhes tinha assegurado pelo telefone que todas as pessoas no local eram combatentes talibãs. A organização Monitor dos Direitos Afegãos, que entrevistou 15 aldeões, disse que cerca de 60 a 70 dos mortos eram crianças e outros civis que tinham acorrido aos camiões-cisterna atolados para encherem recipientes de combustível. Um jornalista do Serviço Noticioso Afegão Pajhwok, que entrevistou os sobreviventes a 5 de Setembro, escreveu que todos os combatentes tinham abandonado o local antes do ataque. Mas o debate mediático sobre a percentagem de combatentes e civis mortos é irrelevante e imoral. Os ocupantes prepararam-se deliberadamente para cometer um massacre. Nem sequer se tratava de uma situação de combate.

Este incidente fez com que os ocupantes ficassem muito, muito mal vistos, não só no Afeganistão como também entre o público ocidental a quem estavam a pedir que aceitasse um novo aumento do número de tropas ocupantes, exactamente numa altura em que no Ocidente se começa a evaporar o apoio à guerra. Mas a própria controvérsia é criminosa e também mostra quão criminosa é esta guerra.

O comandante norte-americano das mais de 100 mil tropas ocupantes norte-americanas e europeias estudou as lições de outras ocupações e guerras reaccionárias. O general Stanley McChrystal anunciou recentemente novas regras de compromisso que disse irem reduzir o número de mortes civis. Mas mesmo que ele gostasse de conquistar “os corações e as mentes” dos afegãos de forma a isolar os talibãs, isso não é possível devido a dois factores.

Um deles é o objectivo reaccionário da guerra: reafirmar a supremacia norte-americana na região e derrotar o fundamentalismo islâmico anti-EUA, e não libertar as pessoas mas sim escravizá-las para o capital imperialista ocidental. Com esse fim, a ocupação preserva as principais características do sistema económico e social opressivo do país, e a subjugação e o atraso ideológico. O outro factor é a forma como os exércitos imperialistas combatem e como de facto têm que combater.

As autoridades norte-americanas atribuíram as culpas aos seus aliados, como se tivessem sido os alemães a despejar as bombas, como se os EUA não tivessem já bombardeado um incontável número de aldeias e festas de casamento no Afeganistão e como se, acima de tudo, os EUA não tivessem insistido na presença de tropas alemãs. Mas a sua crítica mais forte visou os comandantes alemães por não terem mandado tropas para o local para “impedirem os talibãs de divulgarem a sua própria versão dos acontecimentos” (BBC, 7 de Setembro). Por outras palavras, eles deviam ter feito mais para encobrirem as mortes civis.

As autoridades militares alemãs contrapuseram que o ataque tinha sido necessário porque os camiões-cisterna sequestrados poderiam ter sido usados para atacar uma base alemã vizinha. Quanto à falta de uma actuação imediata posterior, nem sequer o General McChrystal, apesar de todo o seu poder de fogo auxiliar, ousou ir ao próprio local. Mas havia um importante factor político para o exército alemão estar tão preocupado em proteger os seus soldados. Vários comentadores salientaram que uma única vítima alemã adicional poderia pôr em risco o governo da Chanceler Angela Merkel, que está em campanha eleitoral até ao final de Setembro. Embora os principais partidos alemães apoiem a guerra, incluindo os Verdes que supostamente são contra a guerra, a maioria dos alemães não a apoia. Quando morrem soldados, isto levanta a questão do que é que eles lá estão a fazer.

O governo tem declarado repetidamente que isto não é de forma nenhuma uma guerra mas sim um “esforço de estabilização”. O Bundeswehr é retratado como se fosse uma ONG que faz missões humanitárias e não como o exército [alemão]. “No Afeganistão, é como se fosse uma guerra, mas para nós não é uma guerra”, explicou um deputado social-democrata alemão. “É uma distinção importante”. Na sequência deste incidente, outros membros do Parlamento reagiram indignadamente, como se o Ministro da Defesa lhes tivesse estado a esconder o facto de ser uma guerra (Washington Post, 8 de Setembro).

Em resposta às críticas norte-americanas, as autoridades militares alemãs alegaram que os EUA estavam a pôr em risco vidas alemãs ao admitirem publicamente que poderia ter havido mortos civis, o que as autoridades alemãs negaram enquanto puderam. De novo, havia aqui um facto implícito – o de que se os EUA querem que a Alemanha participe numa guerra no Afeganistão, então têm que ajudar as autoridades alemãs a esconder do povo alemão o que se está a passar. E provavelmente há um verdadeiro ressentimento entre os círculos dominantes alemães. Eles tinham mandado tropas para Kunduz com base em que não era uma zona de combates, especificamente porque tinham medo da opinião pública. Agora, o norte do país está a ser activamente contestado. Ao estender a guerra ao Paquistão, os EUA ficaram com as suas rotas de abastecimento a sul ficassem sob pressão e estão agora a recorrer à deslocação das enormes quantidades de materiais de que depende a sua guerra através da Ásia Central. Foi essa a principal razão para os camiões-cisterna com combustíveis estarem na estrada Kanduz-Tajiquistão.

A verdade é que “a morte vinda do céu” é o método preferido de combate de todos os ocupantes, porque isso lhes permite usar o seu maior potencial – o poder aéreo e outras tecnologias que eles produziram graças às riquezas acumuladas com a exploração dos povos de todo o mundo. Eles também o preferem porque querem limitar o número de vítimas do seu lado, não porque dêem valor a qualquer vida humana, mas devido à forma como fazem com que as pessoas no seu país alinhem nisso. No caso da Alemanha, é fingindo que isto não é nada uma guerra. No caso dos EUA e da Grã-Bretanha, os primeiros e segundos maiores fornecedores de carne para canhão, é alegando que se trata de uma guerra para salvar vidas norte-americanas e britânicas (“a guerra ao terrorismo”) e que as vidas ocidentais valem tudo enquanto as dos povos oprimidos nada valem.

Como se não fosse preciso mais nada para expor a natureza desta guerra, três dias depois do bombardeamento, os soldados norte-americanos deram um outro exemplo da razão por que os ocupantes têm dificuldade em conquistar os corações e as mentes das suas vítimas. Soldados da 10ª Divisão de Montanha dos EUA na província de Wardak, a sudoeste de Cabul, invadiram noite dentro um hospital administrado por uma organização suíça de caridade. Rebentaram com as portas a pontapé, amarraram quatro funcionários do hospital e dois familiares de doentes e forçaram as pessoas a sair das suas camas à medida que devastaram as instalações durante duas horas, supostamente à procura de “insurrectos”. (Como é que os iam identificar? Estariam apenas a pensar em apanhar e torturar todas as pessoas com feridas aparentes de balas ou qualquer jovem que encontrassem?)

As tropas avisaram o pessoal médico para não tratar “insurrectos” e para pedir autorização aos agentes norte-americanos antes de admitir doentes. O pessoal do hospital disse que se recusava a aceitar isso, porque isso violava a sua ética, as leis da guerra e os acordos com as forças de ocupação lideradas pelos EUA sob os quais eles estavam a operar – e transformaria o hospital, bem como o seu pessoal, num alvo para os talibãs.

Isto aconteceu na sequencia de um ataque de helicópteros norte-americanos em Agosto a um hospital na província oriental de Paktika.

Um relatório da ONU emitido em Julho dizia que as mortes de civis tinham aumentado em 24% este ano, para 1013 mortos na primeira metade de 2009. Mesmo que muitas dessas mortes resultem de atentados indiscriminados dos talibãs, como é que isso justifica o facto de que os EUA, a Alemanha e outros países estarem a cometer atrocidades a uma escala muito maior – ou que estejam a matar quem quer que seja no Afeganistão?

O pano de fundo deste massacre foram as amplamente ridicularizadas eleições presidenciais e as desonestas tentativas dos EUA para se distanciarem delas. Se os EUA descobriram de repente que o governo de Hamid Karzai, que eles próprios instalaram no poder, é um aliado dos próprios senhores da guerra e traficantes de droga que os EUA abraçaram para invadirem o Afeganistão e que umas eleições realizadas sob ocupação não conseguem ser muito convincentes – isso não será porque todo o seu alinhamento reaccionário simplesmente não está a resultar como era suposto?