A WikiLeaks e as guerras pelo império

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 13 de Dezembro de 2010, aworldtowinns.co.uk

Raramente a essência das potências ocidentais foi mais evidente que no caso da perseguição ao líder da WikiLeaks Julian Assange.

É extraordinário ver como a maioria das potências ocidentais e os principais líderes políticos desses países se uniram nessa perseguição. O ataque está a ser liderado pelos EUA, o principal guardião da actual ordem mundial, mas mesmo algumas potências que se têm eriçado contra a predominância norte-americana juntaram-se-lhes.

Nos EUA, uma volúpia de vingança contra Assange juntou a maior parte do espectro político, da extrema-direita aos liberais, unindo os Partidos Republicano e Democrata, que normalmente são rivais encarniçados. O tom foi dado por Hillary Clinton, Secretária de Estado do Presidente Barack Obama, que chamou à publicação pela WikiLeaks de mensagens diplomáticas dos EUA “um ataque à comunidade internacional, as alianças e parcerias, às convenções e negociações que salvaguardam a segurança global e fazem avançar a prosperidade económica”.

O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, P. J. Crowley, fê-lo ainda mais abertamente: “Do nosso ponto de vista, ele causou danos significativos aos interesses dos Estados Unidos e aos interesses de outros países”.

Neste contexto, os apelos de forças fascistas como o canal televisivo Fox News e a ex-candidata à Vice-Presidência dos EUA Sarah Palin de que Assange seja assassinado têm sido legitimados como simples expressões mais descaradas dessa ira quanto aos potenciais danos para o império. Isto é extremamente revelador da atmosfera política dominante nos EUA, onde o Departamento de Justiça de Obama assumiu oficialmente a posição de que o governo pode assassinar pessoas no estrangeiro quando julgar que os interesses norte-americanos estão em jogo.

É de lembrar que quando um diplomata norte-americano desafiou as alegações de que o Iraque estava a comprar matérias-primas para construir armas atómicas, uma mentira que o antecessor de Obama, George W. Bush, usou para justificar a invasão do Iraque, um alto adjunto de Bush fez divulgar como vingança que a esposa desse diplomata era uma agente da CIA. Os interesses, e não o segredo diplomático nem sequer a protecção das vidas dos agentes norte-americanos, são a razão de ser do ataque à WikiLeaks.

Assim que Assange foi declarado inimigo desses interesses, o governo Obama tudo fez para descobrir uma lei para chegar a ele, seja por traição, espionagem ou alguma outra acusação ostensivamente não política. Esta afirmação de que os EUA podem processar um cidadão não norte-americano por actos cometidos fora da jurisdição dos EUA é simplesmente uma extensão do conceito de que os interesses do império estão acima de qualquer consideração legal.

Embora Clinton por vezes se deleite a criticar potências rivais como a China por não respeitarem a liberdade na Internet, o seu Departamento de Estado emitiu uma carta que foi tomada como uma ameaça de processar qualquer empresa que forneça serviços à WikiLeaks. Subsequentemente, a Amazon desligou o servidor da organização que se situava nos EUA e empresas financeiras e de cartões bancários cortaram todos os canais que permitiam que os seus apoiantes enviassem dinheiro à WikiLeaks. Tem sido realçado que a Visa e a MasterCard deixam que se contribua para organizações apoiadas pelo Ku Klux Klan ou grupos que defendem a violência contra os homossexuais e as clínicas de aborto, mas não para a WikiLeaks. O domínio (endereço na internet) da WikiLeaks foi cancelado, tornando-o inacessível.

A WikiLeaks virou-se para a Suíça, mas também aí o governo tentou fechá-la, embora tenha conseguido encontrar um servidor suíço para hospedar o seu sítio internet num novo endereço internet (wikileaks.ch) e uma empresa de processamento de cartões bancários. A França proibiu-a de usar servidores franceses.

Assange foi forçado a esconder-se. As ameaças do governo australiano significavam que não podia regressar à sua pátria, ao mesmo tempo que outros países recusavam o seu pedido de autorização de residência. Quando apareceu em Londres, o governo britânico prendeu-o. Assange foi enviado para uma prisão londrina do Século XIX, preso na mesma cela onde esteve detido o escritor Oscar Wilde. Os procuradores do governo britânico pediram que ele seja mantido na prisão à espera da extradição para a Suécia. Ele irá recorrer dessa decisão.

Os EUA já estavam a tentar apanhar Assange muito antes da divulgação das mensagens diplomáticas em Dezembro. Durante os primeiros anos a seguir a fundação da sua organização em 2006, quando se dedicou a publicar documentos secretos sobre a China, o ex-bloco soviético e alguns países do terceiro mundo, foi louvado pelo Ocidente. A WikiLeaks chegou a receber um prémio da revista conservadora The Economist. Mas isso mudou quando começou a virar os seus olhares radiográficos para ocidente.

A WikiLeaks publicou em Março de 2008 um documento governamental secreto que discutia a forma de destruir a organização, sobretudo desacreditando a sua autoridade moral aos olhos do público. Esses esforços aumentaram após Abril de 2010, quando a WikiLeaks divulgou um vídeo filmado a partir de um helicóptero militar norte-americano em Bagdad que registava o massacre deliberado que matou dois jornalistas e mais de uma dúzia de outros civis e feriu duas crianças. De início, os soldados norte-americanos tentaram tratar as crianças mas depois receberam ordens para as abandonarem (Ver o SNUMAG de 2 de Agosto de 2010 e o vídeo em collateralmurder.com).

Pouco depois, foi preso um técnico de 22 anos do exército norte-americano estacionado no Iraque, Bradley Manning. Ele tem sido mantido desde então em isolamento numa prisão militar dos EUA. Crê-se que Manning seja a fonte dessa e talvez das subsequentes fugas da WikiLeaks. O jornal The New York Times, um dos órgãos de comunicação social a que a WikiLeaks entregou esses documentos, forneceu a sua respeitabilidade a uma campanha de calúnias para retratar Manning como um solitário psicologicamente perturbado cujas motivações seriam tudo menos políticas e Assange como um paranóico bizarro com motivos obscuros.

O jornal Washington Post noticiou a 1 de Agosto de 2010 que as autoridades norte-americanas se tinham empenhado numa campanha acelerada para localizar Assange e infiltrar o seu grupo.

No final desse mês, quando duas mulheres suecas foram à polícia de Estocolmo fazer queixa da conduta de Assange com elas durante uma visita, um magistrado de serviço decidiu que ele devia ser acusado de violação. O procurador principal decidiu imediatamente o encerramento do processo, mas um mês depois um outro procurador reabriu-o. Assange não foi informado das acusações contra si, embora todo o tipo de detalhes sobre os alegados actos sexuais tenham sido divulgados pela comunicação social sem nenhuma preocupação com a privacidade das duas mulheres envolvidas nem com os direitos do acusado.

O pedido inicial da Suécia de um mandado de prisão da Interpol foi recusado por ser demasiado vago quanto às acusações, mas assim que se soube que a WikiLeaks estava a planear fazer uma divulgação massiva de mensagens diplomáticas secretas dos EUA, a Interpol publicou um “alerta vermelho”, tornando-o num dos homens mais procurados do planeta. Foi emitido um mandado de prisão em nome colectivo dos estados europeus.

Esse mandado e a decisão judicial inicial de negação da sua libertação sob fiança são altamente incomuns porque até agora o processo contra ele permanece em fase de alegações e não foi feita nenhuma acusação formal e definitiva. As autoridades suecas explicaram que por agora só querem extraditar Assange para o interrogarem. Os seus advogados têm salientado que ele esteve à disposição da polícia durante seis semanas antes de sair da Suécia com autorização do procurador e que eles propuseram que ele fosse autorizado a ser interrogado na Grã-Bretanha. Assange entregou-se à polícia britânica à espera que o resultado fosse esse. Eles também salientaram que embora os EUA pudessem tentar pedir a extradição dele a Inglaterra, poderia ser mais fácil fazê-lo à Suécia. “A Suécia não é o fim do jogo”, avisaram eles.

Qualquer pessoa que alegue que esta perseguição é motivada por uma preocupação com as mulheres deveria ler a reacção dos mais altos responsáveis norte-americanos. O Secretário da Defesa de Obama (e anteriormente de Bush), Robert Gates, aplaudiu a prisão de Assange pela Grã-Bretanha como “boas notícias”. O Chefe de Estado-Maior Conjunto, Almirante Mike Mullen, disse que o verdadeiro crime de Assange era ter “sangue nas suas mãos” (isto vindo do homem responsável por duas guerras de agressão). Holder, o Procurador-Geral de Obama, prometeu descobrir mais acusações contra ele e o ex-Procurador-Geral de Bush, Michael Mukasey, comentou: “Quando alguém é acusado de um crime muito sério é comum detê-lo com base num crime menor [...] enquanto são acumuladas provas de um segundo crime”.

Ou bastaria considerar quão criminalmente hipócrita é o governo sueco estar a exprimir qualquer preocupação com a opressão das mulheres quando é parceiro, juntamente com os EUA e a Grã-Bretanha, na violação do Afeganistão.

De facto, o Afeganistão ajuda a revelar o que realmente é a perseguição de Assange, de vários ângulos diferentes.

Um deles é que isto ajuda a mostrar de que é que os EUA e os seus aliados têm medo. A carta oficial do Departamento de Estado dos EUA a avisar as pessoas a não cooperarem com a WikiLeaks classifica-a como uma ameaça às “actuais operações militares”. O que preocupa os governantes deste mundo não são só as pessoas como Assange, mas também as pessoas como o soldado Manning e outras que possam seguir o seu exemplo. Por outras palavras, a legitimidade encoberta por mentiras sobre as guerras que eles estão a fazer no Afeganistão, no Paquistão, no Iémen e no Iraque, onde a WikiLeaks trouxe à luz do dia alguns dos seus crimes.

Um outro ângulo é o que o Ocidente está realmente tentar conseguir com essas guerras. Invadiu e ocupou o Afeganistão para instalar um regime islâmico baseado em senhores da guerra que é incontestavelmente um dos governos do mundo mais abertamente antimulheres. Agora que Karzai está a mostrar não estar à altura das expectativas deles de um Afeganistão estável dominado pelo imperialismo, as soluções que eles estão a considerar incluem trazer alguns desses mesmos elementos talibãs cujo derrube foi supostamente o seu maior feito (Ver o SNUMAG de 29 de Novembro de 2010).

Para os EUA e a NATO (incluindo aquilo a que Assange chama o seu “parceiro encoberto”, a Suécia), o que interessa não é que tipo de sociedade devem manter no Afeganistão mas simplesmente afastar um tipo de fundamentalismo islâmico que ameace romper a actual ordem global, uma configuração em que potências específicas se sentam sobre um sistema mundial em que um punhado de países engorda com a exploração global e o domínio sobre a vasta maioria dos povos do mundo. É esta a “prosperidade económica” que Clinton sente estar ameaçada pela divulgação da verdade e pela perspectiva de mais infidelidades dentro do império.

A perseguição a Assange também ajuda a revelar a ditadura capitalista monopolista que de facto caracteriza todas as potências imperialistas. Esta caça ao homem com raros precedentes foi motivada por uma determinação em preservar esse sistema. A sua defesa deve ser uma oportunidade para revelar não só a hipocrisia e as mentiras que estão a ser propagadas, mas também os interesses em jogo.

Foram noticiadas até agora manifestações em defesa da WikiLeaks e de Assange em Madrid e várias outras cidades espanholas, na Holanda, Colômbia, Argentina, México e Peru. Espera-se que os seus apoiantes se juntem frente ao tribunal de Londres onde será ouvido o seu pedido de libertação durante os procedimentos de extradição a 14 de Dezembro. Muitas figuras proeminentes disseram estar disponíveis para apoiar o pedido de Assange e ofereceram-se para pagarem a fiança dele com o seu próprio dinheiro.