“A Revolução Cultural Desconhecida – Vida e Mudança numa Aldeia Chinesa”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 18 de Outubro de 2010, aworldtowinns.co.uk

Dongping Han cresceu na China durante a Revolução Cultural e agora ensina nos EUA. É o autor do livro The Unknown Cultural Revolution—Life and Change in a Chinese Village [A Revolução Cultural Desconhecida – Vida e Mudança numa Aldeia Chinesa]. O que se segue é uma versão resumida da parte final de uma intervenção que ele fez em Nova Iorque em Dezembro de 2008 no simpósio “Redescobrir a Revolução Cultural Chinesa: Arte e Política, Experiência Viva, Legados de Libertação”, patrocinado pela livraria Revolution Books, pelo Projecto Set the Record Straight [Repôr a Verdade] e pelo Instituto para o Conhecimento Público – Universidade de Nova York. A versão integral surgiu na edição de 6 de Setembro de 2009 do jornal Revolution/Revolución, órgão do Partido Comunista Revolucionário dos EUA (revcom.us).

Pergunta: Regressaste à China em 1986. Quando é que tu e outros como tu começaram a ver que as coisas estavam diferentes, que a China tinha ficado muito diferente do que tinha sido durante a Revolução Cultural?

Dongping Han: Acho que as pessoas se aperceberam disso imediatamente. As terras foram privatizadas na China em 1983. Muita gente tende a pensar que os camponeses são estúpidos e ignorantes. Mas eu acho que os camponeses são pessoas muito inteligentes. Muitos deles perceberam imediatamente as implicações da agricultura privada. Foi por isso que no início lhe resistiram com muito vigor. E, na minha aldeia e noutras aldeias que eu investiguei, a esmagadora maioria das pessoas, 90 por cento, disse que o Partido Comunista já não se preocupa com os pobres. Elas sentiram isso imediatamente. O Partido Comunista, os quadros, já não se preocupam com os pobres dos campos. O investimento governamental nas zonas rurais dos campos caiu de 15 por cento do orçamento nacional dos anos 70 para apenas 3 a 4 por cento nos anos 80. O povo chinês percebeu que o governo chinês já não se preocupava com ele ao dissolver as comunas. Mas na altura eu andava na universidade e não comecei a pensar muito no assunto a não ser em 1986.

P: Podes explicar um pouco mais como é que a Revolução Cultural chegou à tua aldeia?

DH: A Revolução Cultural começou lentamente. Antes do início da Revolução Cultural, houve um apelo para que se começasse a estudar as obras de Mao. O Exército Popular de Libertação [EPL] chinês veio à aldeia ler as obras do Presidente Mao. Fizeram espectáculos na aldeia. Foram à casa das pessoas para as ensinarem a ler os três artigos clássicos de Mao: “Servir o Povo”, “Em Memória de Norman Bethune” e “O Velho Tonto Que Moveu as Montanhas”. Explicaram aos camponeses de que é que esses artigos falavam. Depois de os soldados do EPL terem partido, muitas crianças da escola, como eu, também começaram a ensinar as obras de Mao aos camponeses. Quando o governo central anunciou o início da Revolução Cultural, os estudantes do ensino preparatório e secundário saíram das suas escolas e começaram a escrever cartazes de grandes caracteres [dazibaos] nas ruas. Os estudantes do secundário arrastaram 20 dos seus professores para a praça central, denunciaram-nos publicamente e raparam metade do cabelo deles à frente de uma enorme multidão. Acho que no início a maioria das pessoas não sabia como iria ser a Revolução Cultural.

Muitos estudantes começaram a publicar jornais e folhetos. Na altura havia muitos folhetos a criticar as autoridades. A princípio, eram escritos sobretudo por estudantes. Não muito depois, os camponeses e os operários também começaram a escrevê-los. Nessa altura havia tanta informação! Mais tarde, um grupo de estudantes do preparatório e do secundário da minha região viajou até Pequim para ver o Presidente Mao. Quando regressaram em Agosto de 1966, começaram a organizar-se em diferentes grupos dos Guardas Vermelhos. Começaram a organizar reuniões de massas de crítica dos líderes do município e da comuna. Nessa altura, todas as autoridades ficaram sob alguma forma de escrutínio e ataque popular.

Quase toda a gente, diria que 90 por cento da população, fazia parte de uma organização de massas.

Nessa altura, eu andava no 3º ano [do 1º ciclo]. Cinco dos meus amigos e também eu criámos uma organização dos Guardas Vermelhos. Desenhámos os nossos símbolos de Guardas Vermelhos e começámos a publicar um jornal de uma só página. Recolhemos dinheiro suficiente para comprarmos uma impressora manual e imprimirmos o nosso jornal. Na minha escola havia 13 pequenos jornais. Recrutávamos outras pessoas, escrevíamos algo e íamos para a praça distribui-lo às pessoas. Foi assim que começou. Havia dazibaos por todo o lado. As ruas da aldeia estavam revestidas de dazibaos, a maioria deles a criticar os dirigentes da aldeia. Antes da Revolução Cultural, os dirigentes da aldeia tinham muito poder. Não trabalhavam regularmente nos campos e comiam e bebiam muito à conta da aldeia. E a Revolução Cultural pô-los no lugar. Foi assim que realmente começou.

Em todas essas actividades com os dazibaos, todos eles eram escritos pelos próprios camponeses. E eu lembro-me que alguns dos camponeses não sabiam escrever. Eles vinham até nós, vinham às crianças da escola, e nós escrevíamo-los para eles. Por isso, foi um movimento muito mobilizador. Tocou toda a gente na aldeia.

A razão por que os responsáveis são corruptos hoje e não o eram durante os anos da Revolução Cultural é que as massas realmente detinham o poder. Havia sempre uma reunião de massas todas as noites onde eram lidas aos camponeses todas as políticas e directivas governamentais. Na altura isso era requerido pelo governo. Esses documentos eram lidos aos camponeses e depois os camponeses discutiam-nos, para que toda a gente soubesse o que estava a acontecer e porquê. A razão por que nessa altura o povo chinês estava ansioso por ler e desejoso de declamar as obras de Mao foi que descobriu que o que Mao dizia representava os seus interesses mais elevados. E Mao dizia o que eles queriam ouvir. Por exemplo, o artigo de Mao “Servir o Povo” só tem página e meia. Mas, nesse pequeno artigo, Mao explicava como é que se deve comportar um responsável comunista. Um responsável comunista não deve ter nenhum auto-interesse. Deve trabalhar para o povo e servir o povo. Deve preocupar-se com os pobres e os camponeses. Deve acolher bem a crítica. Se não estiver a fazer alguma coisa bem, deve alterar isso em nome do povo. Tudo isto era algo que os camponeses nunca tinham ouvido dizer e que queriam ouvir.

P: Porque é que durante esse tempo, durante esses 10 anos da Revolução Cultural, não foi feito nenhum esforço para purgar o Partido Comunista dos seguidores de direita da via capitalista?

DH: A Revolução Cultural não foi feita para purgar pessoas, foi feita para educar as pessoas. Muitos dos seguidores da via capitalista tinham lutado pela revolução e feito importantes contribuições para a revolução chinesa. Era uma ideia tradicionalmente aceite que quem tinha lutado pela revolução deveria desfrutar de privilégios quando a revolução fosse vitoriosa. Não bastava purgar essas pessoas. O problema eram as velhas ideias tradicionais. Por isso, a Revolução Cultural foi feita para eliminar as ideias tradicionais e educar as pessoas através da mobilização dos camponeses e dos operários. Se não tivesse havido o golpe de estado de 1976, duvido que o aparelho governamental tivesse mudado por si só. Aconteceu porque houve um golpe de estado. Mas também não acho que purgar as pessoas seja uma solução. Lembro-me que durante a Revolução Cultural havia alguns altos responsáveis do meu município que encorajavam os seus próprios filhos a trabalharem com os camponeses e a pedirem as tarefas e os trabalhos mais difíceis para construírem o seu carácter. Era como se esses altos responsáveis tivessem mudado com a mudança do clima social durante os anos da Revolução Cultural. Mas quando o clima social mudou, eles voltaram atrás.

A maioria das pessoas não teve consciência que houve um golpe de estado em 1976. A mulher de Mao e três outros importantes líderes foram presos. E houve uma purga muito vasta em toda a China. Centenas de milhares de pessoas que tinham apoiado a Revolução Cultural foram imediatamente presas. Algumas pessoas alegam que Mao deveria ter matado Deng Xiaoping e algumas outras pessoas para impedir a prisão do Bando dos Quatro. Talvez o devesse ter feito, mas não o fez.

P: Podes dar um enquadramento que compare o que era a vida diária comum para ti e a tua família durante a Revolução Cultural, comparada, por um lado, com o comunismo antes da Revolução Cultural e depois comparada com a vida da tua família agora na China capitalista?

DH: A Revolução Cultural foi iniciada porque o Grande Salto em Frente tinha falhado. Falhou em parte porque, por um lado, houve um desastre natural único em 100 anos. Falhou, por outro lado, porque os responsáveis comunistas nas aldeias ainda não eram realmente socialistas. Ordenaram aos camponeses que fizessem demasiado e eles próprios não queriam trabalhar arduamente. Não houve comida suficiente durante o Grande Salto em Frente por causa dos desastres naturais por um lado e da má gestão por outro. Por isso, acho que a razão por que a Revolução Cultural foi desencadeada por Mao foi que nessa altura ele percebeu que os responsáveis chineses precisavam de ser educados e que o povo chinês precisava de ser educado através de um movimento socialista. Foi por isso que ele mobilizou os camponeses chineses para criticarem os responsáveis nas aldeias. Claro que eu, que era muito novo, não me lembro de muito quanto ao Grande Salto em Frente. Mas da Revolução Cultural lembro-me muito bem. Eu trabalhava nos campos com os camponeses e, nessa altura, nas zonas rurais, cada aldeia tinha uma brigada de produção e cada brigada estava dividida em várias equipas de produção. Na minha aldeia havia oito equipas de produção. Cada equipa de produção abrangia cerca de 40 famílias. Todos os anos elegíamos cinco líderes da equipa de produção. Tínhamos um dirigente da equipa de produção, uma líder mulher, um contabilista, um caixa e um responsável pela loja. Antes da Revolução Cultural, essas pessoas eram nomeadas pelos líderes da aldeia e os líderes da aldeia eram nomeados pelos líderes da comuna. Não eram democraticamente eleitos. Durante os anos da Revolução Cultural, esses líderes das equipas de produção eram eleitos pelos camponeses.

Trabalhávamos os campos colectivamente. Toda a gente vinha e trabalhava colectivamente. E, ao fim do dia, o caixa registava quantas pessoas tinham trabalhado nesse dia. E, ao fim do ano, quando chegavam as colheitas, o contabilista da aldeia, juntamente com o contabilista da equipa de produção, desenvolviam um plano de distribuição. Setenta por cento dos cereais eram distribuídos segundo o número de pessoas que havia em cada família. Trinta por cento eram distribuídos segundo o que cada um tinha trabalhado na quinta colectiva. Por isso, se alguém não tivesse trabalhado nos campos, mesmo assim tinha direito a sua parte dos 70 por cento dos cereais da quinta colectiva. Era assim a distribuição ao nível das equipas de produção. Também havia uma distribuição ao nível da brigada de produção. A aldeia detinha muitas empresas. Depois de se reservar dinheiro para um fundo de bem-estar, dinheiro para a compra de novo equipamento e por aí adiante, a aldeia distribuía os seus rendimentos segundo o quanto cada um tinha trabalhado na quinta colectiva. A quinta colectiva também produzia legumes, frutas e amendoins e também criávamos porcos. Estes eram regularmente distribuídos pelos camponeses segundo o mesmo plano de distribuição dos cereais. Também comprávamos colectivamente peixe, vinho e cigarros com o dinheiro ganho pelas empresas da aldeia e isso era distribuído por cada família em ocasiões importantes como o ano novo chinês e outros feriados. Nós obtínhamos quase todos os nossos bens da quinta colectiva.

Após os anos da Revolução Cultural, fui para a universidade e as minhas duas irmãs que antes trabalhavam para a aldeia, encontraram trabalho numa fábrica estatal no início dos anos 80. Depois, a fábrica foi vendida e essas minhas duas irmãs estão desempregadas desde 1996. A minha irmã mais nova ainda trabalha na aldeia, agora como caixa da aldeia. A minha aldeia está bem em comparação com outras aldeias. A vida mudou drasticamente nos campos. Acho que para a maioria das pessoas da classe trabalhadora a vida mudou para pior. Embora elas possam receber mais dinheiro, perderam benefícios como os cuidados médicos gratuitos e a educação gratuita do passado socialista. Agora têm que pagar a sua educação. Têm que pagar os seus cuidados médicos. A maioria dos camponeses não tem dinheiro para os cuidados médicos. Se tiverem uma pequena doença, resignam-se a aguentar. Se tiverem uma doença grave, resignam-se a esperar pela morte. Muitos deles dizem que não querem deixar uma grande dívida aos seus filhos indo ao hospital. Os cuidados médicos são agora muito caros e estão fora do alcance da maioria dos camponeses e das pessoas da classe operária das zonas urbanas.

P: Podes falar um pouco sobre o que era a vida cultural na tua aldeia e como isso mudou?

DH: Antes da Revolução Cultural, as artes chinesas do espectáculo estavam associadas sobretudo a rapazes talentosos e senhoras bonitas, reis, generais e por aí adiante. Eram assim as peças de teatro tradicionais chinesas. Durante a Revolução Cultural surgiu um novo tipo de arte. Nessa época, todas as aldeias tinham um grupo de artistas camponeses que tocavam instrumentos, cantavam canções revolucionárias, dançavam danças revolucionárias e representavam peças revolucionárias. Na aldeia, quase todas as noites havia alguma forma de espectáculo. Esses espectáculos tornaram-se ferramentas educativas. As ideias revolucionárias propagaram-se devido a esses espectáculos revolucionários. E eram muito poderosos. Mas claro que hoje já não se vê isso nas zonas rurais. Mas se alguém for à China hoje, ainda pode ver as pessoas mais velhas a cantarem as canções revolucionárias nos parques e nos espaços públicos para se entreterem.

P: Nos filmes que vemos sobre a China e a Revolução Cultural, há uma representação de pessoas a serem levadas e julgadas por tribunais populares e feitas desfilar pela cidade, como castigo. A minha pergunta é: de onde é que vem esta imagem, ouviste falar de coisas como estas na China, quão generalizado era isso?

DH: Essa imagem vem dos anos da Revolução Cultural. Durante algumas semanas no início da Revolução Cultural, muitos responsáveis chineses foram criticados em palco. Isso era muito comum. Eu vi isso muitas vezes. Diria que a maioria dos dirigentes passou por algo assim no início da Revolução Cultural. Ao mesmo tempo, diria eu, muitas dessas pessoas mereciam alguma forma de castigo. Tinham cometido erros no seu trabalho e, devido aos seus erros, o povo sofreu. O povo estava à procura de formas de manifestar a sua fúria. Nas aldeias, a luta contra os líderes da aldeia foi mais suave e pacífica.

Essas sessões de luta pública para lidar com os dirigentes que tinham praticado crimes e cometido erros eram diferentes formas de lidar com essas pessoas. Depois de se batalhar com elas durante um dia ou dois, elas eram deixadas ir em liberdade. Tinham recebido uma lição do povo. Nos EUA, as pessoas são mandadas para a prisão. Eu continuo a achar que essa educação pública durante a Revolução Cultural era muito efectiva, não só para educar os dirigentes das aldeias, mas também para todas as outras pessoas. Após a sessão, eles ficavam livres. Por isso acho que não era uma má prática. Acho que era uma prática muito boa.

P: E quanto à situação da China agora, em particular a crise económica e como é que achas que se está a resolver, sobretudo nas zonas rurais, mas mais em geral?

DH: O governo chinês enfrenta hoje um enorme desafio e os próprios responsáveis governamentais chineses têm admitido isso em muitas ocasiões. Algumas pessoas estimam que por dia haja 100 incidentes envolvendo mais de 100 pessoas a desafiar as autoridades e 300 incidentes envolvendo menos de 100 pessoas a desafiar as autoridades. Li um documento sobre um incidente na província de Guangdong [Cantão – NT] em que três agentes da polícia pararam um carro sem matrícula e depois de mais verificações descobriram que o motorista não tinha carta de condução. Mas as três pessoas que estavam dentro do carro saíram e começaram a gritar que a polícia estava a incomodar as pessoas e apareceram cerca de 2000 pessoas. Viraram o carro da polícia ao contrário e incendiaram-no. O governo está a avisar a polícia para ter cuidado porque a tensão entre o povo e as autoridades é muito grande.

E há muitas pessoas nos campos que estão muito furiosas com as autoridades municipais. Um camponês contou-me um incidente num município rural. O secretário do partido estava um dia a fazer uma sesta. Mas cerca de 100 camponeses, que estavam furiosos com a decisão das autoridades municipais de mudarem o mercado para um local diferente, foram ao seu quarto e arrastaram-no realmente pelos braços e pernas até ao mercado e atiraram-no ao ar durante meia hora. Não lhe bateram. Limitaram-se a brincar com ele durante meia hora. No final, as autoridades tiveram que o afastar do cargo porque ele se tinha tornado num embaraço para as autoridades. Isto aconteceu o ano passado. Um outro responsável governamental foi espancado por camponeses. Os camponeses queriam que ele levasse um doente ao hospital. Ele recusou-se. Disse que nem toda a gente podia andar no carro dele. Os camponeses quase o mataram, mas as autoridades não castigaram as pessoas que fizeram isso. Por isso, acho que as autoridades percebem quão tensa é a sua relação com as massas.

Nos velhos dias, os responsáveis chineses iam às aldeias e trabalhavam com os camponeses. Hoje não o fazem. Entram na aldeia em grandes carros só para receberem dinheiro dos camponeses e imporem a política do filho único... Acho que o governo está a atravessar uma crise de legitimidade. O governo chinês conseguiu sobreviver aos desafios do Grande Salto em Frente criados por desastres naturais sem precedentes e pela má gestão dos seus responsáveis devido à legitimidade socialista. Acho que não conseguirá sobreviver a nenhum desafio semelhante ao do Grande Salto em Frente.

P: Podes falar-nos do que aconteceu durante o golpe de estado de 1976 e também de como todo esse período estava a ser compreendido onde tu estavas?

DH: Continuo a lembrar-me de onde eu estava a 9 de Setembro de 1976. Às 4 horas desse dia, eu estava a caminhar fora da aldeia com o meu amigo quando o altifalante anunciou que havia um aviso muito importante. Percebemos imediatamente que algo estava errado. E eles disseram que o Presidente Mao tinha falecido. Não sei como é que cheguei a casa nesse dia. Lembro-me que toda a gente à minha volta estava a chorar. Acabei por chegar a casa. O meu pai chorou durante todo o caminho da fábrica dele para casa. Quando o meu avô morreu, ele não tinha chorado. Ele reuniu a família e disse: hoje o nosso céu dos pobres caiu e não sabemos como é que será a vida amanhã. Nessa altura, eu pensei no meu coração: como é que isso é possível? Tínhamos construído o estado socialista. Como é que o céu dos pobres podia cair só porque morreu o Presidente Mao?

Veio a confirmar-se que o meu pai tinha razão. Quando o Bando dos Quatro foi preso, o governo chinês disse que as pessoas tinham ficado muito contentes. Isso não é verdade. Na minha cidade natal, muitos jovens respeitavam realmente Jiang Qing [Chiang Ching, mulher de Mao – NT] devido a um incidente que tinha ocorrido numa comuna vizinha. No ano novo chinês de 1975, o líder da aldeia representou num altifalante um drama tradicional que tinha sido criticado durante a Revolução Cultural. Um jovem da aldeia criticou o líder da aldeia por este o ter representado no altifalante. Mas os dirigentes da aldeia acusaram-no de estar a criar problemas na aldeia. Chamaram a polícia e a polícia levou-o. Quando estava na prisão, escreveu uma carta a Jiang Qing e, em menos de cinco dias, Jiang Qing respondeu à sua carta. Jiang Qing ordenou que essa pessoa fosse libertada. E o líder da aldeia foi demitido do cargo. Os jovens da minha região adoravam Jiang Qing. Quando o Bando dos Quatro foi preso algumas semanas após a morte de Mao, soubemos que as coisas iam ser diferentes.

P: Disseste que os 10 anos da Revolução Cultural foram os mais excitantes da tua vida. Podes dar alguns exemplos desse espírito que sentiste?

DH: Como eu me sentia nessa altura era que tinha uma forte sensação de segurança. Não estava só neste mundo. Os meus vizinhos, os meus líderes da equipa de produção, os líderes da aldeia davam atenção a todas as pessoas que precisassem de ajuda.

Em 1998, um dos meus amigos que trabalhava comigo suicidou-se. Quando recebi a notícia da minha aldeia, chorei. A razão por que chorei foi que senti que se a quinta colectiva não tivesse sido dissolvida ele não teria morrido; ele não se teria suicidado. E essa pessoa tinha aproximadamente a minha idade. Quando ele era mais novo, não se conseguia levantar da cama cedo. Por isso, o líder da minha equipa de produção disse-me que o fosse acordar todas as manhãs. Quando o fui acordar pela primeira vez, ele respondeu-me e levantou-se. Disse que ao segundo dia acordaria sozinho, mas não acordou. Por isso, tive que o arrastar para fora da cama. Ao terceiro dia, a avó dele ficou muito chateada por eu o estar a acordar todos os dias. Disse-me que o neto precisava de dormir mais. Mas o líder da equipa de produção disse-me: “Não ligues à avó dele. Acorda-o. Ele precisa de ajuda.” Por isso, com a minha ajuda, ele veio trabalhar connosco. Trabalhava todos os dias. Era um trabalhador muito bom. E também muito talentoso. Tocava muito bem um instrumento chinês, o erhu, e também pintava bem. Mas depois de a quinta colectiva ter sido dissolvida, nunca mais ninguém o foi acordar. Ele podia dormir tanto quanto queria. Por isso, a mulher dele acabou por o deixar. E, em 1996/1997, ele ficou mentalmente perturbado. A última vez que o vi foi em 1997 quando lá voltei. Vi-o a andar nu pela rua. Ele viu-me e fugiu para casa. Segui-o até à casa dele. Perguntei-lhe porque é que andava nu pelas ruas. Disse-me que a vida estava má para ele. Já não queria viver mais. Disse-lhe que ele tinha de mudar a sua forma de pensar, que precisava de enfrentar os desafios. Perguntei-lhe porque é que não voltava a pintar se não conseguia fazer mais nada. Disse-lhe que ia ficar na aldeia durante mais 10 dias e que gostaria de comprar um quadro dele. Prometeu-me que o faria. Mas, no dia seguinte, veio ver-me. Disse-me que não o podia pintar nessa altura e que mo pintaria no ano seguinte. Disse-lhe que o que me interessava era ele e não a pintura dele. Queria vê-lo a levantar-se e a assumir o controlo da vida dele. Mas, três meses depois de eu ter deixado a aldeia, ele suicidou-se. Enforcou-se. Quando soube dessa notícia através da minha irmã mais nova, chorei muito. Sentia que se a quinta colectiva não tivesse sido dissolvida, ele não teria precisado de se suicidar. A comunidade já não existia. Os nossos amigos e os nossos vizinhos tornaram-se nossos rivais e estranhos para nós. A rede de segurança tinha-nos sido retirada. Vocês, os norte-americanos estão habituados a esse tipo de competição. Mas para os camponeses chineses que antes viviam sob o sistema socialista, a mudança foi demasiado dramática para muita gente.

P: A Revolução Cultural enviou ondas de choque para todo o mundo. Na tua aldeia, quanto é que vocês sabiam da situação internacional, da influência que isso estava a ter a nível internacional?

DH: Nessa altura, quando eu estava na aldeia, eu sentia que fazíamos realmente parte da revolução internacional. Nós éramos jovens e fazíamos parte de um quadro maior. Lembro-me que em 1971 houve uma enorme seca na nossa zona. As autoridades municipais convocaram uma enorme reunião na praça. Na reunião, os dirigentes municipais e os representantes dos camponeses e dos operários disseram que nós estávamos a combater essa seca não só para nós próprios. Estávamos a combater em defesa da luta do povo vietnamita contra o imperialismo norte-americano. Estávamos a combater essa seca em apoio aos povos oprimidos de África e do resto do mundo. Após a reunião, toda a gente na nossa escola escreveu uma promessa de se juntar ao combate à seca. A escola ficou fechada durante duas semanas. Nós voltámos à aldeia para combater a seca com os camponeses durante duas semanas. Toda a gente trabalhou muito arduamente. Eu sentia que estava a fazer algo de significativo para ajudar a revolução. Nessa altura eu não compreendi realmente o que isso significava. Era uma linguagem padrão. Eu acreditava no que nos era dito pelo governo de que tínhamos amigos no mundo inteiro. Depois do fim da Revolução Cultural, a elite chinesa disse-nos que se tratava de propaganda governamental. Mas não era simplesmente propaganda. Descobri isso quando fui estudar para Singapura. Em 1976, quando Mao morreu, a China não tinha relações diplomáticas com Singapura. Por isso, o banco filial do Banco da China decidiu realizar um serviço em memória de Mao durante três dias. Cidadãos comuns de Singapura e marinheiros de todo o mundo vieram mostrar o seu respeito por Mao, dia e noite. A fila era tão longa que o pessoal do Banco da China teve que prolongar o serviço memorial de três para dez dias. Percebi então que a nossa luta na China estava ligada à luta dos povos oprimidos do mundo inteiro.

P: Quero voltar atrás à tua experiência na Revolução Cultural. Tu conseguiste ir à escola, cresceste e tornaste-te num jovem instruído numa zona rural, mas ao mesmo tempo havia essa campanha política que já durava há 10 anos. Como é que isso se cruzou contigo, quanto é que continuavas a seguir isso?

DH: Todo o meu sistema de valores foi muito dramaticamente alterado. Antes da Revolução Cultural, o meu pai nunca me autorizou a retorquir-lhe; era assim nas famílias chinesas. Ele nunca me autorizou a retorquir-lhe. Sempre que havia convidados em casa, eu não estava autorizado a dizer nenhuma palavra. Mas durante os anos da Revolução Cultural isso mudou. Eu disse: “O Presidente Mao disse que eu te posso retorquir!” Mas muita gente nos EUA pensa que a campanha revolucionária foi uma interrupção da vida. Não! A revolução não desfez a vida da maioria das pessoas, em particular nas aldeias. Durante o dia, a maioria dos trabalhos continuava e, à noite, as pessoas saíam às ruas e havia muitos debates; debates em diferentes grupos nas ruas. No início da Revolução Cultural, o meu primo e eu fomos a lojas para propagarmos as ideias de Mao. Nessa altura, as lojas estatais tinham prolongado o seu horário de funcionamento até às 10h da noite. Por isso, nós íamos às lojas ler os ensinamentos de Mao, representar peças de teatro e outras coisas assim. Nós adorávamos isso.

Talvez possa dar um exemplo que ilustra as mudanças. Antes dos anos da Revolução Cultural, as pessoas da minha zona nunca tinham dado sangue a ninguém. Se alguém precisasse de uma transfusão de sangue, ia-se buscar à família: à esposa, ao pai ou aos irmãos. As pessoas pensavam que se alguém desse sangue a outra pessoa perderia a vitalidade da sua própria vida. Mas, um dia, um dos meus colegas ficou doente e precisou de uma transfusão de sangue. A maioria dos operários da fábrica estava a trabalhar nas colheitas nos campos. Era uma altura de muito trabalho na aldeia. Vinte jovens que estavam a trabalhar na aldeia foram ao hospital. As enfermeiras identificaram o nosso tipo de sangue. Eu era a única pessoa certa para dar sangue. Eu sabia que nesse momento qualquer uma dessas 20 pessoas daria o seu sangue para salvar o meu colega. O secretário do partido na aldeia perguntou me o que é que eu ia fazer. Disse-lhe que precisávamos de salvar o doente. Retiraram-me mais de 700 cm3 e depois disso eu não conseguia andar e tiveram que me levar a casa num carrinho de mão. E na manhã seguinte, quando eu acordei, a minha mãe e as minhas duas tias estavam a chorar. Na verdade elas tinham chorado toda a noite. Elas pensavam que eu não me poderia casar, que ninguém casaria comigo. Mas a vida tinha mudado, e não apenas eu. Toda a gente que tinha ido ao hospital nesse dia teria alegremente dado sangue à essa pessoa nesse dia.

Sempre que havia uma tempestade, mesmo à meia-noite, as pessoas levantavam-se para irem proteger os campos colectivos. Se nevasse, levantávamo-nos para limparmos as ruas. Não tínhamos escavadoras. Toda a gente saía de casa para limpar as ruas. Uma outra mudança importante na vida rural foi que quase não houve crimes durante os anos da Revolução Cultural. Durante 10 anos, não tivemos nenhum crime na aldeia. Na minha comuna de 50 mil pessoas, não ouvi falar em nenhum crime grave durante 10 anos. Mas agora o crime tornou-se comum na China.

P: Podes comparar a tua vida diária durante a Revolução Cultural com o que terá sido a vida diária dos teus avós antes de 1949?

DH: A razão por que o meu pai foi um tão grande apoiante do Partido Comunista foi que antes ele tinha de trabalhar 18 horas por dia. Tinha de recolher as sujidades nocturnas dos capitalistas e fazer as tarefas domésticas, para além das longas horas de trabalho na oficina. Quando os comunistas chegaram ao poder, a jornada de trabalho passou a ser de oito horas, pelo que a vida do meu pai mudou para melhor com o socialismo. O meu pai acreditava no budismo. Depois dos comunistas terem chegado ao poder, ele deixou de acreditar nisso. No ano novo chinês, a minha mãe pedia sempre que venerássemos os deuses da família. O meu pai dizia-me sempre que não o fizéssemos. Tinham-lhe dito que ele sofria porque tinha feito algo de errado numa vida anterior. Ele mudou em relação à sua vida anterior, mas a vida dele mudou repentinamente para melhor com o Partido Comunista no poder.

Tanto o meu pai como a minha mãe mendigaram antes de 1949 e passaram fome durante todo esse tempo. As minhas duas avós morreram com cerca de 30 anos em 1944, sem quaisquer cuidados médicos. Mas tanto quanto me consigo lembrar, eu nunca passei fome. Sempre tive o suficiente para comer. O meu pai nunca me comprou nenhum brinquedo quando eu era criança. Eu comparo frequentemente a minha infância com a do meu filho nos EUA. Nessa altura, tínhamos muitas crianças na vizinhança com quem jogar e fazíamos brinquedos para nós próprios. Jogávamos muitos jogos. Trabalhávamos na quinta colectiva durante a primavera, o verão e o outono. No inverno, quando não havia nada para fazer nos campos, jogávamos jogos populares nas ruas. E eu pergunto sempre ao meu filho qual é a melhor infância. Claro que é muito difícil para ele imaginar. Mas eu acredito firmemente que a minha infância foi muito mais saudável, muito mais criativa que a do meu filho que não tem senão brinquedos e jogos vídeo. Nós tínhamos uma comunidade e aprendíamos a interagir uns com os outros; aprendíamos a construir capacidades de liderança e coisas assim. E o meu filho não tem essas possibilidades. Quando vim inicialmente para os EUA, tive uma aula sobre a Revolução Cultural. E o professor disse-me que a educação durante a Revolução Cultural tinha sido um desastre e a maioria dos estudantes na aula concordou com ele. No final, eu disse à turma que eu era um produto da educação da Revolução Cultural. Desafiei toda a turma a competirem comigo para ver quem tinha uma melhor educação. Ninguém esteve disposto a aceitar o desafio.

[NT – Mantiveram-se alguns dos nomes chineses, nomeadamente Chiang Ching, na forma tradicionalmente usada em Portugal, por ser mais facilmente reconhecível. Os restantes nomes, incluindo o do entrevistado, estão na forma Pinyin usada no texto original.]