Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 16 de Maio de 2011, aworldtowinns.co.uk

A revolta na Síria: As suas raízes e as suas perspectivas

O seguinte texto foi elaborado a partir de entrevistas que o SNUMAG fez a Hassan Khaled Chatila, um sírio nascido em Damasco em 1944 que é doutorado em filosofia política pela Universidade de Paris, a cidade onde vive há muitos anos como refugiado, e membro do Partido Sírio de Acção Comunista, fundado em 1975. Condensámos e editámos ligeiramente o texto, tentando ao mesmo tempo representar fielmente os seus pontos de vista, que são apenas os dele.

O movimento que teve início a 15 de Março na Síria é espontâneo. É uma reacção reflexiva a todo o sofrimento sentido pelas massas populares, física e espiritualmente e na sua vida diária. Estas condições criaram uma consciência espontânea que não pode ir mais além sem a intervenção de um partido político que represente a classe operária e leve às massas uma perspectiva materialista da situação, traduzida num programa político.

Eu acuso toda a esquerda síria de, consciente ou inconscientemente, se ter tornado parte integrante da estrutura de poder. A posição deles é procurar um fim para a crise através do diálogo com o regime, a qual também é a posição do próprio regime. Eles têm vivido na penumbra durante oito anos, paralisados e isolados das massas populares. Agora publicam panfletos a exprimir solidariedade com o movimento, mas continuam a defender um diálogo político com o regime para obterem uma reforma gradual e pacífica.

O movimento, ao qual eu chamaria um movimento popular para uma revolução síria, tem tentado derrubar Bashar al-Assad desde que teve início na cidade meridional de Daraa [quando dois adolescentes foram presos por terem pintado nas paredes um slogan que desde então tem sido o principal slogan de todas as manifestações: “O povo quer derrubar o regime!”].

Este movimento é como as revoltas na Tunísia e no Egipto no facto de ser espontâneo, com a diferença de que na Tunísia, por exemplo, uma elite política organizada e os sindicatos participaram nele desde o início, e que nos dois países organizações de direitos humanos e outros grupos da sociedade civil com ligações internacionais estiveram envolvidos. Na Síria, os sindicatos fazem parte do aparelho de estado (a esquerda e outras organizações estão proibidas de actuar no seu interior) e a repressão tem sido muito mais feroz. Qualquer sírio que contacte através da internet uma organização no estrangeiro arrisca-se a ser julgado num tribunal especial por “comunicar com o inimigo” e a vários anos de prisão. As correntes políticas do tipo do movimento “Não aguentamos mais!”, que influenciou os intelectuais e mesmo os operários egípcios, nem sequer existem na Síria. Os intelectuais com a mínima inclinação revolucionária passaram pelo menos 15 anos na prisão.

A revolta não é generalizada no país e na sociedade. É mais uma série de insurreições de bairro que uma revolução centralizada. Até agora, os principais actores têm sido jovens com estudos e jovens desempregados que procuram ter acesso à modernidade.

Os operários industriais participam individualmente, mas muitas das pessoas nas ruas são o que eu chamaria de proletariado lumpen, pessoas desempregadas ou sem trabalho regular que têm de viver o melhor que podem. Trabalham alguns dias aqui e ali, principalmente em serviços para a burguesia, como criados, contínuos, porteiros, etc. Não têm segurança social nem outros benefícios. A outra componente deste movimento vem dos estratos mais baixos da classe média, licenciados universitários desempregados, sobretudo jovens. Cerca de 20 por cento dos jovens licenciados estão desempregados. Não se podem casar porque têm de viver com os seus pais, por causa tanto do desemprego como da severa penúria de casas.

Há uma mistura de rapazes e raparigas juntos nas ruas; a participação de mulheres é bem recebida. Pode ver-se no Facebook quão criativos são, inventando novos métodos revolucionários de publicação, comunicação e organização. A média de idades dos manifestantes é cerca de 30 anos, enquanto entre os membros dos partidos políticos e das organizações da sociedade civil ela é provavelmente próxima dos 50.

Estes jovens não fazem reivindicações sociais; pensam que a democracia política e a liberdade podem resolver todos os problemas que enfrentam nas suas vidas diárias. O seu principal objectivo específico, para além de derrubarem Assad, é mudar a constituição. Querem acima de tudo anular o Artigo 8º que declara que “o Partido Baath Socialista Árabe” constitui a liderança do estado, juntamente com uma indefinida “frente nacionalista e progressista”. Esta frente refere-se aos dois partidos comunistas históricos e aos partidos nasserista (pan-árabe) e nacionalistas federados com o Partido Baath, embora eles já não tenham muita influência.

Este movimento não tem conseguido pôr seriamente em causa a existência do regime. Como irei explicar, há um verdadeiro perigo de que possa vir a ser abortado por um golpe militar que possa vir a afastar Assad mas não a mudar a estrutura de poder, ou por uma guerra civil baseada em divisões religiosas e étnicas. Para mobilizar milhões de sírios, a revolta teria que avançar com reivindicações não só de democracia política mas também reivindicações sociais que poderiam obter o apoio popular de uma forma muito mais ampla.

Uma percentagem de pessoas algures entre 25 por cento, segundo números da ONU, e 50 por cento, segundo a economista da oposição Aref Dalila, vive abaixo da linha de pobreza. Embora a economia síria seja muito mais forte que, por exemplo, a da Tunísia, as classes médias tornaram-se uma minoria. A acumulação de capital nas mãos de novos sectores da burguesia devido à privatização de empresas estatais e à liberalização do mercado durante os regimes de Bashar e do pai dele, Hafez, fracturaram as classes médias. Parte da classe média tem conseguido acumular capital, enquanto outros, que viviam razoavelmente bem, vêem agora que as suas vidas são semelhantes às das classes assalariadas que constituem a maioria da população. Um funcionário público ou um oficial do exército precisa de ter dois ou três empregos para conseguir satisfazer as necessidades da sua família, a qual provavelmente inclui alguns desempregados. Por exemplo, podem estar a ensinar de dia e a conduzir um táxi à noite.

O preço da carne e da fruta tem subido muito rapidamente. Actualmente, os preços na Síria são iguais aos de França. As pessoas que vivem do seu próprio trabalho já não provam carne há anos. Mesmo as favas, que são o prato nacional, ficaram demasiado caras para os trabalhadores assalariados. As pessoas comem muito grão-de-bico e sobretudo pão, rabanetes, azeitonas, cebola e alguns outros legumes, arroz e bulgar (para o tabbouleh), que é a comida de base das classes assalariadas e dos lumpen.

Ao contrário do Egipto e da Tunísia, na Síria há poucas pessoas que ganham a vida com o turismo. Os agentes de segurança seguem os turistas estrangeiros, tornando o turismo pouco atractivo, apesar dos muitos locais históricos antigos do país.

A Síria poderia ser auto-suficiente na agricultura, mas não o é. Tal como no Egipto, o melhor trigo e algodão são exportados e o estado importa trigo escuro e algodão de baixa qualidade.

Os camponeses são a favor da revolta porque a burguesia rural e os grandes proprietários rurais são aliados económicos do regime, embora não sejam necessariamente aliados políticos. A reforma agrária redistribuiu as terras feudais pelos pequenos camponeses, mas estes não conseguem obter a ajuda de que necessitam, como crédito, tractores e organizações de compra. Estão constantemente ameaçados pela seca e pela sua dependência dos ex-senhores feudais para a obtenção de crédito. Muitas vezes trabalham para os ex-senhores feudais como trabalhadores assalariados ou como meeiros ou rendeiros. Uma prova da simpatia dos camponeses para com a revolução é que as pessoas das pequenas cidades e dos subúrbios das maiores cidades encheram as ruas muito antes dos centros das grandes cidades.

Em Damasco e Allepo, as duas maiores cidades do país onde se concentram os operários industriais, as manifestações têm-se limitado a algumas faculdades universitárias, como as dos estudantes de medicina e de ciências que organizaram um protesto na capital. As câmaras de comércio e indústria dessas duas cidades têm representado um papel muito negativo.

As maiores manifestações tiveram lugar em cidades como Daraa e em vilas como Nawa e Zalkhab. Daraa tem sido um importante ponto central. É um bastião do movimento porque é um bastião da pobreza. Os seus habitantes são essencialmente pequenos camponeses ou pedreiros. Durante a intervenção síria no Líbano, houve muitos pedreiros que foram trabalhar na construção civil para a burguesia libanesa e para os ricos do petróleo do Golfo. Desde que a Síria foi forçada a retirar-se que os trabalhadores sírios, e sobretudo os pedreiros de Daraa, tiveram que regressar a casa. Na Síria não há trabalho para eles porque há muito pouca construção civil – o regime restringe o mercado imobiliário para manter os preços baixos. Assim, esses pedreiros desempregados são uma importante razão para Daraa ter representado esse papel.

Daraa é a capital da região de Hauran, onde muitas aldeias estão em revolta. É uma importante região produtora de trigo, mas a terra é vulcânica e por isso os camponeses tendem a ser muito pobres. Há sírios que gozam com os seus habitantes, dizendo que são bons trabalhadores mas estúpidos, capazes de trabalhar a troco de nada. Devido à pobreza, o nível de formação é muito baixo. As pessoas têm de começar a trabalhar muito jovens. E em geral não estão muito representadas no governo.

Muitos dos camponeses dessa região são originários da região curda do nordeste do país. Quando foi construída a grande barragem do rio Eufrates nos anos 70, o governo deslocou-os e deu as melhores terras locais aos camponeses árabes. O regime tentou construir uma “cintura árabe” à volta da barragem para reduzir a possibilidade de aí surgir um movimento nacionalista curdo. Muitos dos pequenos camponeses de Hauran sofreram duplamente, uma vez quando foram roubados e reprimidos pelos chamados nacionalistas árabes e depois quando foram explorados como camponeses e pedreiros.

Foi por isso que essa cidade esteve entre as primeiras a revoltar-se. Há o factor comum de a pobreza na região ter tornado as pessoas muito corajosas e habituadas a uma vida dura. A Síria tem enormes disparidades regionais. Os ricos vivem e gastam como os ricos em França. Mas, os protestos também se têm centrado em Homs, próximo da fronteira libanesa, e em Baniyas, uma cidade litoral no norte do país. As duas cidades têm estado cercadas pelo exército. Estas duas cidades são importantes porque estão ligadas às regiões da maioria sunita e às regiões costeiras, essencialmente alawitas. (Cerca de 80 por cento dos sírios são muçulmanos sunitas; os restantes são muçulmanos alawitas e cristãos.)

Em geral, a estrutura do poder baseia-se nos clãs alawitas e na etnia alawita, embora não exclusivamente. Os alawitas são dominantes no governo, no exército e no aparelho de segurança. Bashar Assad está a tentar transformar a situação numa guerra civil entre sunitas, alawitas e cristãos e a esquerda diz que tem de apoiar o regime por causa desse perigo. Ambos sublinham a ameaça de uma intervenção estrangeira numa tal situação. Mas o movimento nas ruas apela muito clara e conscientemente à unidade síria, incluindo nas regiões curdas do nordeste do país.

O slogan de Bashar é “Deus, Síria e Bashar, é tudo o que precisamos!” A revolta dá-lhe a volta dizendo: “Deus, Síria e liberdade, é tudo o que precisamos!” e “Unido, unido, unido, o povo sírio está unido!” O regime usa a religião para se legitimar, apresentando Bashar como um deus. Tal como no Egipto, alguns sírios usam essa referência a deus para dizer que Bashar não é a autoridade suprema. Entre os árabes, as referências a Alá não são necessariamente religiosas, embora possam ser. Os jovens em revolta estão muito conscientes disso. Eles acrescentaram a palavra “liberdade” para se distinguirem dos fundamentalistas. Logo no início, numa manifestação numa importante mesquita, os fundamentalistas gritavam “Allahu Akbar”, enquanto os jovens gritavam: “Liberdade, liberdade, liberdade!” Os jovens também acrescentaram um quarto slogan: “O povo sírio não aceita a humilhação!”, referindo-se tanto ao regime como ao domínio imperialista do mundo árabe.

O pano de fundo histórico da revolta na Síria e noutros lugares do mundo árabe é a humilhação sofrida por esses povos devido a agressões imperialistas como a primeira guerra do Golfo que expulsou o exército de Saddam do Kuwait [nessa guerra, Assad pai foi aliado de George Bush pai], a ocupação do Iraque e os massacres israelitas em Gaza. Tudo isto demonstrou que a estrutura do poder sírio, tal como a dos outros regimes árabes, não tem uma verdadeira estratégia de libertação nacional, apesar da sua retórica nacionalista.

Claro que a explosão na Síria foi muito influenciada pela Tunísia e pelo Egipto, mas o movimento no Irão após as eleições de 2009 foi muito importante. Acho que foi a insurreição iraniana que prenunciou os movimentos árabes.

O nascimento e desenvolvimento da moderna sociedade síria

Quando aplicamos uma análise materialista, podemos ver que há duas burguesias na Síria, a burguesia burocrata (os apparatchiks) e a burguesia mercantil tradicional. A burguesia burocrata surgiu com a tomada do poder por Hafez al-Assad em 1970. As pessoas costumavam usar a expressão “Srs. Dez Por Cento” para se referirem aos grandes chefes das forças armadas e dos serviços secretos que recebiam uma comissão de 10 por cento por todos os contratos entre o estado e os investidores estrangeiros ou para darem a um projecto a tradicional autorização da burguesia. Com o passar do tempo, os “Srs. Dez Por Cento” tornaram-se todos membros do aparelho dominante, com a resultante acumulação de capital financeiro nas mãos dos apparatchiks. Quando o filho de Assad, Bashar, chegou ao poder em 2000, os apparatchiks começaram a investir o capital que tinham acumulado nos mercados internacional e sírio.

As reformas económicas do regime de Bashar começaram por libertar o mercado e encorajar o crescimento do sector privado. Isso, na realidade, tornou ainda mais rica a burguesia burocrata que havia emergido das classes médias. Também gerou uma divisão nas classes médias. Uma parte ficou muito rica enquanto a outra perdeu os seus anteriores privilégios. O Partido Baath [Renascimento] não eliminou a burguesia tradicional quando chegou ao poder. O modo de produção dominante era e continuou a ser capitalista e dependente do imperialismo. A burguesia burocrata tentou falsamente descrever o que criou como um “modo social de produção” – por outras palavras, não capitalista mas também não socialista no sentido marxista.

Quando os baathistas chegaram ao poder no golpe de estado de 1963, nacionalizaram as grandes e médias indústrias e puseram a liderança dessas empresas nas mãos dos seus próprios apparatchiks. O Partido Baath só tinha 500 membros à data do golpe. Posteriormente, abriu as portas a todo o tipo de oportunistas. Após a ruptura entre o Egipto de Nasser e o Partido Baath sírio em 1961 [quando a Síria se decidiu contra a fusão com o Egipto proposta por Nasser], muitos sírios juntaram-se às correntes nasseristas. Quando os baathistas chegaram ao poder graças aos militares, pouco a pouco esmagaram todos os outros partidos e estabeleceram um sistema de partido único. Não havia uma constituição, apenas o poder da força. Entre 1963 e 1970, data em que Assad chegou ao poder noutro golpe militar, o sector privado rapidamente se juntou à burguesia burocrata. Os apparatchiks precisavam dos capitalistas de mercado para gerirem a economia. Foi um período muito próspero para o imobiliário e a importação/exportação.

O golpe de estado de Assad em 1970 estabeleceu o primeiro estado sírio consolidado [após décadas de instabilidade política por causa de centros de poder rivais – antes da independência de França, a Síria não existia na sua forma actual]. A burguesia mercantil tornou-se uma aliada orgânica da burguesia compradora-burocrata (digo compradora porque eram pessoas que representavam as multinacionais). Assim, ambas as burguesias prosperaram com Hafez Assad. Ele quis construir um estado constitucional com uma forte presença militar no palco internacional. O sonho dele era unificar sob a sua liderança o Bilab al-cham [Síria, Líbano, Palestina e Jordânia, o por vezes incorrectamente chamado Levante]. Em 1968, pouco antes do seu golpe de estado, ele tentou alegar que o Partido Baath era marxista e hipocritamente prometeu apoiar os palestinianos.

Mas, na realidade, Assad, que era general e Ministro da Defesa quando Israel ocupou os montes Golan da Síria em 1967, suspendeu toda a ajuda aos palestinianos. Chegou mesmo a deixar que ocorresse o massacre de palestinianos no norte da Jordânia – o exército sírio limitou-se a manter-se afastado e a assistir durante o Setembro Negro [em 1970, quando o Rei Hussein da Jordânia tentou afogar em sangue o movimento palestiniano nesse país]. Um mês depois, fez o seu golpe de estado e encarcerou todos os dirigentes de esquerda ou mais ou menos auto-descritos como “marxistas” do Partido Baath.

A constituição deu ao presidente da república o poder supremo. Ele podia declarar o estado de emergência, impor o recolher obrigatório, convocar tribunais especiais e estabelecer um “Tribunal de Segurança Suprema do Estado”. Podia dissolver a assembleia popular sempre que quisesse e governar por decreto durante esse período. Todos os artigos da constituição que garantiam as liberdades individuais e sociais – por exemplo, a de formação de organizações cívicas e a de manifestação – foram anulados pelos poderes especiais do General Assad. Este estado de excepção existe sem interrupção desde 1970, embora a esquerda tenha tido liberdade de crítica e discussão, sobretudo durante certos períodos.

A burguesia mercantil desfrutou de um período de grande prosperidade em termos de acumulação de capital, graças à sua aliança com a burguesia burocrata. Em 1975, o exército sírio entrou no Líbano. Os EUA e Israel concordaram com essa intervenção para que o exército sírio pudesse pôr fim aos movimentos nacionalistas libaneses e palestinianos. Isso alargou o mercado sírio de capital e de trabalho. Ao mesmo tempo, os países dos petrodólares do Golfo – quanto ao essencial contentes com a intervenção síria no Líbano – deram uma grande ajuda a Assad. Ele usou muita dessa ajuda para consolidar um estado social e colocar centenas de milhares de funcionários em tarefas inúteis e para reforçar o aparelho de segurança, o qual também tinha centenas de milhares de funcionários.

Não é possível fazer nada fora do sistema generalizado de corrupção. Por exemplo, para alguém obter uma certidão de nascimento tem de pagar um suborno de 15 dólares. Se alguém é preso, tem de pagar 150 dólares para ser libertado, ou pelo menos dez se não tiver feito nada. Um comerciante tem de ter um general como seu protector e ninguém consegue obter uma licença de importação para competir com ele, senão arrisca-se a ir parar à prisão por “corrupção”.

O sistema judicial também foi completamente corrompido e o povo perdeu todo o respeito por ele. O poder legislativo tornou-se uma “assembleia para aplaudir o regime”, como diz o povo. O poder executivo foi transformado numa gestão da corrupção.

A velha ideologia “socialista árabe” baathista deu lugar a uma ideologia de violência aberta. O regime governa não em nome da lei mas pela força bruta.

A globalização da economia síria começou com Bashar no início dos anos 2000, uma década depois da queda do Muro de Berlim e do colapso do chamado campo socialista [de que a Síria era aliada]. A Síria não foi poupada nem económica nem politicamente pelas mudanças que o mundo estava a sofrer. Bashar ficou mais próximo da UE e tentou criar com ela uma zona de comércio livre, como as da Tunísia e de Marrocos. E tentou aproximar-se dos EUA, inicialmente com pouco sucesso.

Mas ele herdou do pai o conceito de que internacionalmente a força da Síria depende das suas alianças. Desde a queda do Xá que essas alianças eram com o Irão e o Hezbollah, e mais tarde com o Hamas. Tanto Assad pai como o filho eram maquiavélicos no facto de todas as suas alianças serem temporárias e nunca estratégicas, dependem das condições regionais e internacionais. Bashar Assad, que iniciou negociações secretas com Israel e que também negociou semi-abertamente com eles através da Turquia, estava disposto a vender o Irão, o Hezbollah e o Hamas em troca de uma garantia das potências internacionais lideradas pelos EUA de que o seu regime se manteria no poder.

Numa entrevista recente, Rami Maklouf [descrito pelo The New York Times de 11 de Maio como o homem de negócios mais poderoso da Síria, primo e aliado próximo de Assad] avisou que a segurança israelita depende da segurança síria – por outras palavras, da segurança de Bashar e da sua própria segurança face ao ódio das massas (há pessoas que chamam “Makloufistão” à Síria). Desde a ocupação por Israel na guerra de 1967 dos montes Golan, os quais continuaram ocupados após a guerra de 1973, a Síria nunca se envolveu num único confronto armado com Israel, nem sequer disparou uma única bala contra Israel. Quando Israel bombardeou as instalações nucleares sírias, o regime não ripostou. Israel tem alguma confiança em Bashar e na clique dele.

O presidente francês Nicolas Sarkozy também tentou puxar Bashar para mais próximo. Ofereceu-se para que a ENA [a escola mais de elite de França, onde são treinados os principais líderes do estado] modernizasse a administração do estado sírio.

Há dois anos, Bashar liberalizou o sector bancário e permitiu que os bancos estrangeiros investissem na Síria e que as empresas estrangeiras investissem por intermédio dos bancos. Dentro da estrutura de poder há um forte sentimento que são necessárias reformas políticas que forneçam melhores condições à acumulação de capital e uma estrutura legal para que o capitalismo prospere. Mesmo entre os apparatchiks há uma tendência para buscar uma liberalização da situação económica e social com um estado de direito e uma nova constituição. A constituição de 1973 é amplamente reconhecida como já não tendo qualquer utilidade.

Os EUA e a União Europeia tentaram encorajar Bashar a fazer reformas económicas em linha com a globalização neoliberal e a fazer aberturas graduais em termos de lei e direitos democráticos. E, durante a última década, também tem sido isso que os partidos políticos têm exigido.

Note-se que embora os EUA e os seus aliados tenham inicialmente tentado acusar a Síria no tribunal internacional que investiga o assassinato em 2005 do primeiro-ministro libanês Rafic Hariri, agora é só o Hezbollah que está a ser acusado. E embora os EUA tenham imposto sanções a pessoas próximas de Assad, o próprio presidente não foi visado.

É assim que a formação social e económica da Síria está ligada à globalização imperialista. As duas não podem ser separadas.

Para onde vai a revolta?

A situação na Síria está longe de ser uma desobediência civil generalizada, sobretudo devido à ausência quase total de slogans com reivindicações sociais e económicas, em particular sobre a luta contra a fome, a pobreza e o desemprego. Esses slogans só podem chegar à linha da frente ao lado dos apelos à democracia numa vasta frente única democrática em que a esquerda represente um importante papel. Mas na Síria não há nem essa frente nem uma esquerda.

A Sexta-Feira de Desafio a 6 de Maio foi até agora o ponto mais alto do movimento: houve cerca de 10 mil manifestantes em todo o país. Esses protestos foram generalizados, descentralizados e espontâneos. E ferozmente reprimidos pelas forças de segurança. Houve cerca de 800 mortos nos dois meses desde o início da revolta, e cerca de 8000 pessoas desaparecidas ou detidas. A classe política, incluindo a esquerda, chama “insurreição” a este movimento. Não usam a palavra revolução. Esses partidos são reformistas mas a sua forma de pensar não é tão diferente do que o próprio regime quer – uma reforma gradual e negociada. Até agora não houve nenhum acordo entre o regime e a oposição porque o regime diz que não pode haver nenhuma negociação antes de a revolta parar, enquanto a oposição pede a libertação dos presos políticos e negociações imediatas. Mas as massas populares não querem ouvir falar em diálogo e por aí adiante. Elas estão nas ruas porque o que querem é uma mudança que não venha do interior da estrutura de poder, mas que vá contra ela.

Há vários cenários possíveis. Um deles é que o movimento revolucionário de massas possa dar lugar a uma nova esquerda que consiga centralizar e expandir o movimento. Outro é que o Islão político possa tomar o controlo do movimento e desviá-lo para uma guerra civil religiosa. Cerca de cinco semanas depois da revolta surgiram pequenos grupos de pessoas que começaram a gritar: “Os alawitas para as suas sepulturas, os cristãos para Beirute”. A ausência de uma ruptura da esquerda com o regime fornece condições favoráveis aos fundamentalistas. Também é possível que o movimento possa ser efectivamente reprimido e o regime de Bashar consolidado, ou que um golpe militar substituía a actual liderança política por uma liderança não comprometida com uma aliança com o Irão e o Hezbollah. Mesmo que a insurreição popular se transforme numa revolução, ainda enfrenta o perigo de um golpe de estado patrocinado pelos EUA ou uma intervenção.

O fundamentalismo islâmico

Antes da chegada ao poder dos baathistas em 1963, o Islão político era muito marginal. Tinha apenas um punhado de representantes no parlamento. Nas eleições parciais de 1956, entre um baathista e um conhecido líder da Irmandade Muçulmana, os baathistas ganharam de forma esmagadora. Os sírios escarneceram dos Irmãos Muçulmanos e do clero.

A Irmandade Muçulmana representou sempre um papel contra a democracia e a revolução de libertação nacional. Por exemplo, em 1980, ergueu-se em armas para estabelecer um regime muçulmano, num momento em que os trabalhadores, os intelectuais e outras pessoas estavam a começar a organizar-se independentemente do regime e em que pela primeira vez estava a emergir uma sociedade civil na Síria. O regime usou essa revolta como desculpa para reprimir toda a gente. Em Hama, a praça-forte da Irmandade Muçulmana, sublevaram-se 5000 homens armados. O regime cercou e destruiu a cidade, matando 25 mil pessoas em dois dias. Nem uma mosca conseguiria escapar. Foi como Daraa actualmente. Muçulmanos sunitas, cristãos e comunistas, e mesmo alguns baathistas, foram mortos sem distinção. O exército disparava sobre tudo o que se mexia.

Actualmente, a Irmandade Muçulmana está dividida em duas principais correntes. Uma delas mudou de nome e tem algumas ligações ao regime e tenta fazer negociações. A outra manteve o nome e os objectivos originais. Depois do massacre de Hama, Assad tornou a pertença à Irmandade punível com a morte. Ela existe sobretudo no estrangeiro e tem pouca força política entre as massas. Os sírios em geral, tanto de esquerda como de direita, incluindo os sunitas, não têm nenhuma confiança nela.

Mas mesmo assim, dado o total e repetido fracasso dos partidos de esquerda (o nacionalista, o socialista e os democratas) e a queda do “socialismo real” [o bloco soviético, com o qual a Síria esteve de certa forma alinhada] e a agressão ao Iraque, ao Afeganistão e aos palestinianos, a sociedade síria procura uma ideologia. A que está mais à mão é o Islão no sentido mais lato do termo, que inclui liberais progressistas e fanáticos. Neste contexto, um pequeno grupo conseguiu novamente, com a ajuda saudita, colocar o Islão como solução política. As pessoas são oprimidas em nome do laicismo e da modernidade por um regime que apenas representa uma exploração selvagem da maioria das pessoas. O uso do hijab [o véu das mulheres] generalizou-se durante o reinado de Bashar, como forma de as pessoas se distinguirem de um regime dito laico e modernizando, juntamente com as orações, o cumprimento dos feriados religiosos e a peregrinação a Meca.

Os factos das ruas mostram a ausência de um movimento religioso enquanto tal. Mesmo os mais devotos não procuram um regime religioso, desejam a democracia e a liberdade. Mesmo a Irmandade Muçulmana tem pedido um estado civil. Mas há pequenos grupos salafitas [que defendem o regresso ao Islão tal como eles acreditam ter sido praticado nos seus primeiros tempos]. Eles não representarão nenhum perigo caso a sociedade política participe abertamente na revolução e exija a queda do regime. Mas, caso contrário, há o risco de encorajarem o sectarismo religioso e de virarem a revolta contra os muçulmanos alawitas e os cristãos.

Um complexo nó geopolítico

A Síria representa um nó geopolítico mais complexo que outros países. Isolar o Irão é um objectivo central dos regimes dos petrodólares encabeçados pela Arábia Saudita. Durante os últimos 30 anos, os sauditas deram muitos milhares de milhões de dólares para encorajarem a expansão de um fundamentalismo semelhante ao seu Islão wahabita. Com esse objectivo, a Arábia Saudita tenta virar os sunitas contra os xiitas no Iraque e no Líbano e gostaria de levar a Síria a uma mudança de regime.

Uma última complicação: “Effendi” Erdogan [referindo-se ao primeiro-ministro turco com uma designação usada pelos otomanos que dominaram a região antes dos franceses] está a ser encorajado pelos norte-americanos e pelos israelitas a representar um papel que pode vir a ser um incómodo diplomático para Israel e pode fazer com que pareça estar a distanciar-se de Israel. Uma aproximação entre a Síria e a Turquia (e os EUA) poderia reduzir a necessidade de a Síria depender do Irão como uma espécie de base contra Israel. Neste complexo nó geopolítico, todos os envolvidos – os EUA, os sauditas, a Turquia e Israel – têm todos interesse numa mudança de regime na Síria que isole o Irão, os liberte do Hezbollah e faça da Turquia a principal força na região.

Mas o vento pode tomar qualquer direcção. Uma das direcções possíveis é que o desenvolvimento dos acontecimentos venha a favorecer os interesses geopolíticos dos imperialistas. Outra é que os acontecimentos possam fazer fracassar os planos deles – caso o processo revolucionário continue e a sociedade política participe na revolta síria, e caso os processos no Egipto e na Tunísia persistam e não sejam abortados pelo exército.

A questão mais importante é a seguinte: seja o que for que aconteça – uma guerra civil, uma intervenção estrangeira, um golpe de estado, Bashar conseguir fazer reformas – será que o processo revolucionário de 15 Março irá continuar e gerar uma nova esquerda e uma nova liderança? Independentemente do que o actual movimento consiga, pode vir a ser usurpado pelo exército e pela burguesia. No dia de hoje, sexta-feira, 13 de Maio, esse processo prossegue nas ruas do Egipto, da Tunísia e da Síria, e as actuais manifestações também estão a realçar o apoio à Palestina. Portanto, o que é importante não é desencadear uma revolução mas sim continua-la, tal como os bolcheviques rapidamente aprenderam.