A insurreição do povo iraniano atinge um novo nível

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 18 de Janeiro de 2010, aworldtowinns.co.uk

A 26 de Dezembro, milhões de iranianos saíram uma vez mais às ruas em todo o país, na continuação da sua luta contra o tirânico e reaccionário regime islâmico. Ignoraram os conselhos dos líderes do “movimento verde” (a oposição islâmica), de alguns intelectuais liberais e da comunicação social pró-imperialista para ficarem quietos face à brutal violência. Os manifestantes defenderam-se quando foram atacados pelas forças reaccionárias e chegaram mesmo a atacá-las. Por exemplo, quando carros e carrinhas da polícia atropelaram manifestantes, em pelo menos três momentos desse dia, as pessoas deitaram fogo aos veículos e atacaram as forças repressivas.

Essa data marca o Ashura, um feriado religioso xiita que comemora o dia em que o terceiro imã, Hussein, neto de Maomé, foi morto num confronto com outra facção de crentes islâmicos. Durante séculos, esse dia tornou-se emblemático da identidade xiita e foi o seu mais importante dia de luto. Depois da revolução iraniana, o regime islâmico usou o Ashura todos os anos para fortalecer a ideologia islâmica xiita e para reforçar a influência das ideias religiosas retrogradas sobre as massas. Agora, os manifestantes têm aproveitado os feriados religiosos e outras ocasiões para saírem às ruas.

Durante a revolução iraniana de 1978, as pessoas também saíram à rua no Ashura para protestar contra o regime do Xá. Mas esse dia ficou marcado como dia de conciliação. O Aiatola Khomeini e outros dirigentes islâmicos pediram aos manifestantes que entregassem flores aos soldados do exército. Esses dirigentes pediram às pessoas que gritassem o slogan: “O exército é nosso irmão”. Os comandantes militares, por seu lado, ordenaram aos seus soldados que se mantivessem afastados e deixassem prosseguir as manifestações. Isso foi uma clara indicação de que estavam a decorrer negociações secretas nos bastidores entre os dirigentes islâmicos e as potências imperialistas. Pode-se dizer que, em 1978, o Ashura foi um ponto de viragem no suave rastejar do regime islâmico para o poder.

Porém, este ano o Ashura foi muito diferente. Muita gente já não tinha disposição para se juntar a um protesto unilateral não violento. As pessoas e os jovens deram um cheiro da sua ira às brutais forças repressivas e também mostraram a sua clara frustração com o movimento verde e os seus dirigentes.

O prefácio ao Ashura foi a manifestação do Dia Nacional do Estudante, a 6 de Dezembro. Os protestos radicais dos estudantes fizeram tremer todo o sistema.

Os governantes e os dirigentes verdes tinham assumido que, como se tratava de um feriado islâmico, o Ashura não sairia do seu controlo. Mas todas as suas previsões e expectativas mostraram estar erradas. As severas ameaças e a extrema brutalidade do regime usadas para dissuadir os manifestantes mostraram ser contraprodutivas. Apesar disso, os manifestantes saíram à rua. A clique dominante pôde ver por si mesma a seriedade da oposição popular. E decidiu tornar-se ainda mais dura com as massas populares, talvez porque não via nenhuma outra saída desta espiral.

Porém, os dirigentes verdes e outras forças burguesas ficaram chocados com a violência popular. Entraram em pânico e reagiram precipitadamente. Na sua maioria, quase não condenaram a violência do regime contra o povo – o assassinato de pelo menos oito pessoas e os ferimentos de muitos mais, só em Teerão, e os milhares de presos, segundo fontes do regime. A sua principal preocupação era que as pessoas estavam a retaliar, a visar símbolos do regime e a gritar palavras de ordem contra o sistema. “Abaixo Khamenei” tornou-se numa das principais palavras de ordem dos manifestantes.

Alguns dias depois, vários sectores do movimento verde que tinham ficado horrorizados e estavam alarmados com a luta do povo fizeram declarações, na sua maioria à procura de “uma saída para a crise” que deixe intacto o regime islâmico. O dirigente verde Mir-Hussein Moussavi, no seu comunicado n.º 17, pela primeira vez reconheceu indirectamente o governo de Ahmadinejad. Então, alguns dias depois, cinco “intelectuais islâmicos” conhecidos como “reformistas” emitiram um comunicado que propunha de novo uma forma de resolver a “crise”. Alguns dias depois disso, o outro candidato presidencial falhado e um dos principais líderes verdes, Mehdi Karoubi, repetiu a mesma coisa. Depois, o ex-presidente “reformista” Mohammad Khatami reagiu aos protestos desse dia atacando os que gritavam palavras de ordem contra o sistema.

Essas reacções ao protesto popular do Ashura mostram a inquietação e o medo da verdadeira luta popular e a sua frustração com o povo que não tinha seguido as regras de conduta da oposição que eles tinham tentado estabelecer. Eles apressaram-se a salvar o sistema de onde vieram e que estão aí para o proteger.

O texto que se segue é um comunicado de análise dos protestos do Ashura publicado pelo Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) a 31 de Dezembro de 2009 (www.sarbedaran.org, Postfach 900211, 51112 koln, Alemanha, Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.).

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As lições da grande festa popular:
Ao povo iraniano, às mulheres e aos jovens manifestantes!

Uma vez mais, a 26 de Dezembro vocês ergueram-se aos milhões por todo o país. Com a vossa luta corajosa, vocês desafiaram um regime desprezível.

A sublevação é a festa das massas e vocês converteram vitoriosamente um dia que foi instituído para enganar as pessoas e fortalecer a superstição no seu próprio oposto. Pela primeira vez na história do Irão, em vez das velhas e estupidificantes tradições e métodos religiosos e sem a presença dos clérigos traiçoeiros e sanguessugas, vocês transformaram o Ashura numa festa das massas oprimidas contra um sistema religioso reaccionário. Esta é a primeira lição e êxito da vossa batalha.

Não há dúvida nenhuma que o sangue derramado pelo povo irrigará a árvore da revolução. Deixemos que a tristeza e o pesar pela perda de camaradas nas batalhas de rua sejam transformados num grande impulso contra todo o sistema dominante.

Vocês mostraram que é possível romper as barreiras e os obstáculos um a um. Vocês passaram à ofensiva. E este é o segundo êxito e lição da vossa luta. Vocês visaram correctamente o coração do sistema. A vossa mensagem foi clara e explícita. Ao gritarem as palavras de ordem “Abaixo Khamenei!”, vocês visaram a totalidade do sistema criminoso e apelaram ao seu derrube. Mostraram que a questão principal não é o direito a votar nas eleições presidenciais nem remover Ahmadinejad e substitui-lo por Moussavi. A vossa insurreição inspirou os povos oprimidos de todo o mundo e deixou-os orgulhosos.

A vossa luta mostrou que tentar abordagens pacíficas na luta com um inimigo jurado é uma fantasia. Durante meses, toda a comunicação social, quer a nacional quer a internacional, que representam pequenas e grandes potências, desde a Voz da América às vozes pertencentes aos antigos líderes que foram afastados da estrutura do poder, como o movimento verde e as forças nacionalisto-religiosas, defenderam a não-violência face a uma sangrenta repressão. Mas a verdade é que a liberdade só pode ser obtida à luz de um sacrifício destemido, na sequência de uma corajosa ofensiva contra o palácio de opressão e injustiça e na clarividência de uma abordagem inflexível face à República Islâmica. A história da luta de classes é uma história de batalhas sangrentas entre os reaccionários dominantes e os trabalhadores oprimidos. A vossa luta clarificou uma vez mais essa verdade fundamental.

A vossa luta juntou-se à contenda e aos confrontos dentro do campo inimigo. Nos últimos meses, muita gente pensou que era possível alargar brechas dentro das forças da República Islâmica apoiando uma facção contra outra, mas a principal razão para essas divisões entre os dirigentes deste sistema é que os principais pilares do sistema estão a ruir e as diferentes facções dentro do sistema estão à procura de uma solução para o salvarem. O sistema já não é capaz de vos controlar nem ao crescente descontentamento de toda a sociedade. A vossa luta mostrou ser a única forma de destruir o corpo unido e conjugado do campo inimigo. E esta é a quarta lição e êxito da vossa luta.

Os dirigentes da clique dominante quiseram tomar o controlo da vossa ira removendo alguns peões (funcionários) secundários como o juiz assassino Saeed Mortazavi [o notório juiz que se diz ser responsável por manter os manifestantes detidos na prisão de Kahrizak. Ele também é acusado de envolvimento na morte da jornalista iraniano-canadiana Zahra Kazemi]. Mas agora é demasiado tarde e a República Islâmica tem que desaparecer. É hora de o poder dominante sacrificar os pedaços maiores e uma tal acção irá colocar uma forte tensão nas relações entre os seus vários campos. Alguns dos clérigos já começaram a murmurar sobre conciliação. Mas, ao mesmo tempo, a facção dominante desencadeou uma campanha para prender os conselheiros e apoiantes de Moussavi, para matar os que lhe são próximos e para impedir Khatami de discursar [Mohammad Khatami, ex-presidente reformista do Irão. Todos os anos, ele discursa no Ashura em Jamaran, onde vivia Khomeini. Este ano, a clique dominante não o autorizou. Muitos dos seus discursos também têm sido interrompidos e terminados por ataques de forças à paisana.]

Nos últimos meses, a sublevação revolucionária tem passado por voltas e reviravoltas. A nossa luta evoluiu para novas fases e estão a desenvolver-se sérias e agudas batalhas que precisam de uma preparação mais consciente.

Por um lado, a fase e os objectivos da luta são mais claros: não só a natureza temporária do governo de Ahmadinejad e companhia se tornou mais óbvia, como a própria existência da República Islâmica foi posta em causa.

Por outro lado, a luta tornou-se mais complicada: os diferentes sectores das forças políticas burguesas estão a lutar para enfrentarem seriamente o aprofundamento da luta e as reivindicações claras e fundamentais que ela defende. Os religioso-nacionalistas estão aterrorizados. Eles pedem perdão por as pessoas gritarem palavras de ordem contra o assassino Khamenei e querem regressar desesperadamente às fases iniciais da luta, i.e., afastar Ahmadinejad ou, como eles dizem, o “governo do golpe”. Eles estão a pedir ao traiçoeiro Rafsanjani [uma figura central do regime que foi o primeiro presidente do Irão após a guerra Irão-Iraque e um opositor de Ahmadinejad] que se envolva mais seriamente. Na história do Irão, as facções da oposição burguesa e os intelectuais liberais burgueses descontentes sempre ficaram aterrorizados com a agitação radical das massas e, com um desprezo covarde, têm passado a defender os pilares podres do regime da classe reaccionária.

Quando o regime de uma clique reaccionária chega ao fim, todos os protectores do velho sistema a nível nacional e internacional tentam salvar o essencial da estrutura do sistema, i.e., afastar a máquina estatal de repressão para longe do alcance da luta popular e enfeitá-la com novas roupagens.

Não basta prepararmo-nos a nós próprios para resistirmos à repressão do regime. Ainda mais importante, é que não se deve deixar que os alvos e objectivos da nossa luta sejam traficados, nem que se deixe que um dos regimes mais reaccionários da região seja uma vez mais emendado, ou que se permita que outro regime com a mesma natureza possa chegar ao poder e que domine mais efectivamente os explorados e oprimidos.

A questão mais importante que a revolução e a luta revolucionária enfrentam é a tomada do poder político – como destruir o velho poder de estado e substitui-lo por um novo poder baseado na satisfação das necessidades fundamentais da maioria das pessoas. O objectivo mínimo é libertarmo-nos das lojas religiosas, separarmos o estado e a religião, assegurarmos a liberdade de opinião, de pontos de vista e de expressão e comunicação, a abolição da discriminação formal e informal contra as mulheres e outros cidadãos [com base no género, na religião ou na nacionalidade] e a defesa dos direitos dos operários e trabalhadores nas zonas urbanas e rurais. Só se as pessoas se tornarem mais conscientes da natureza e características desse novo poder de estado é que se pode assegurar a continuação da luta até ao fim e à vitória final. As ruas não devem ser apenas o local da batalha contra o opressor; também devem tornar-se no local de discussões cruciais. É assim que será possível organizarmo-nos para profundas transformações sociais e esboçarmos uma nova via para o futuro.

Quanto mais o regime resiste à vontade e às reivindicações do povo, mais originará novas frentes de luta e, por sua vez, mais aumentarão as responsabilidades dos revolucionários e comunistas. Porque, mais que em qualquer outro momento, o povo precisa de uma consciência e organização revolucionária e comunista. Sem uma consciência e uma organização e sem um claro horizonte não é possível obter-se qualquer vitória estável.

Viva a memória dos mártires da recente sublevação revolucionária! Viva a coragem do povo! Morte à República Islâmica! Viva a Revolução!